
TRAPPED IN THE FUTURE (2022) - BARBIERI LANÇA SEU SEGUNDO ÁLBUM DESTE ANO!
TRAPPED IN THE FUTURE (2022)
(PRESO NO FUTURO)
A.C.BARBIERI

Clique acima, no player, para ouvir este álbum
Álbum composto, gravado e produzido em Londres em 2022, no Raw Vibe Studios, por Antonio Celso Barbieri. Não deixem também de escutar todos os seus 16 álbuns já gravados! É só visitarem o site www.2bstar.com e, como aqui, clicarem nos pequenos fones de ouvidos que aparecem na página!
TRAPPED IN THE FUTURE
Um Manifesto Sobre Tempo, Memória e Sobrevivência
Este álbum não nasceu de um conceito fechado. Nasceu de uma tensão:
Entre passado e futuro.
Entre exílio e permanência.
Entre tradição e experimentação.
Entre piano clássico e TRAP.
Entre Verdi e Polyphia.
Entre Blake e a distorção digital.
“Trapped in the Future” não fala de ficção científica. Fala da sensação paradoxal de viver adiantado demais para alguns contextos e atrasado demais para outros. É o sentimento do imigrante que atravessa geografias, mas continua carregando memórias. É o artista que sobreviveu à fita cassete, ao sampler, ao MIDI, ao CD, ao MP3, ao streaming — e ainda está aqui. Neste trabalho, a tecnologia não é ferramenta fria. Ela é extensão do corpo. Depois de duas décadas usando o mesmo software, o gesto digital tornou-se orgânico. O mouse virou músculo. O Cubase virou instrumento invisível. A guitarra retornou como memória física.
O TRAP aparece aqui não como moda, mas como linguagem rítmica do presente — absorvida e reinterpretada por alguém que vem do progressivo, do minimalismo, da trilha sonora e da colagem sonora.
Este álbum é, na verdade, um diálogo entre eras:
O Réquiem aponta para a morte simbólica de uma civilização.
O Corvo observa o terror contemporâneo.
O Relógio ri do envelhecimento.
Blake segura o infinito na palma da mão.
A Sincronicidade pergunta se existe algo além da causalidade.
O Arlequim brinca com futuros culturais híbridos.
As Dunas evocam geografias internas.
As Gaivotas lembram que a natureza invade o concreto.
O Corpo e a Mente disputam espaço na modernidade.
E no centro disso tudo está a faixa-título:
Preso no Futuro.
Não é pessimismo. É percepção. Vivemos num tempo que promete evolução contínua, mas entrega repetição estrutural. Mudam as ferramentas. Permanecem as tensões humanas. O álbum não tenta resolver nada. Ele observa. Registra. Transforma inquietação em som. E talvez o mais importante:
Este trabalho não foi feito para provar algo. Foi feito para continuar. Porque criar, para mim, nunca foi carreira. Foi mecanismo de sobrevivência psíquica. Se há uma unidade neste álbum, ela não está no estilo. Está na coerência interna de quem o criou.
Barbieri comenta
Nem preciso dizer que estou muito feliz com este trabalho. Depois de mais de 20 anos compondo com o mesmo software (Cubase Pro), muito do meu processo já adquiriu uma automação quase orgânica. É como falar a língua materna ou, depois de anos, voltar a dirigir um carro: o corpo sabe o caminho.
Aliás, falando em direção, neste álbum voltei à minha guitarra Fender após um longo período afastado. Descobri que meus “caminhos” pelo braço da guitarra — e minha técnica, ainda que modesta — estavam lá, guardados na memória muscular.
A descoberta da banda Polyphia, com sua abordagem rítmica inspirada no TRAP, me incentivou a experimentar minhas escalas pentatônicas “quebradas”, tentando criar algo com espírito rock, mas vestido com uma nova estética. Acredito que o resultado funcionou.
Ao mesmo tempo, meu lado clássico, progressivo e experimental — quase sempre com uma pegada de trilha sonora — continuou evoluindo e, naturalmente, assimilando elementos do TRAP e da música eletrônica contemporânea.
Abaixo, o álbum comentado faixa a faixa:
01. Requiem for a Dead Civilization
Em meados de setembro visitei meu sebo favorito e encontrei um livro de partituras contendo um Réquiem de Giuseppe Verdi.
Um Réquiem, ou Missa para os Mortos, é tradicionalmente celebrado pelo repouso das almas. Ao chegar em casa, procurei no YouTube apresentações da obra e, enquanto assistia, identifiquei um pequeno leitmotiv — aquele recurso tão explorado por Richard Wagner, onde um tema recorrente representa uma ideia ou situação.
Fui ao piano imediatamente. Sem preocupação com fidelidade às notas originais, criei um arpejo que acabou se transformando nesta música.
O título pode ser entendido como “Missa para uma Civilização Morta” — a nossa, que, a meu ver, morre um pouco a cada dia.
02. Brutal Summer
O nome quase foi Brutal Year. Aquecimento global, guerra na Ucrânia, Bolsonaro, morte da Rainha, inflação, crise de combustível, aumento da pobreza…
Foi um período brutal demais para caber apenas no verão.
03. The Raven
Uma alusão direta a Edgar Allan Poe. Poe é mestre do mistério e do macabro. Confesso que a realidade brasileira, ultimamente, parece saída de um conto de terror. Daí o nome.
04. Trapped in the Future
Minha ida para Londres, no início de 1987, foi ao mesmo tempo um ato de sobrevivência e um autoexílio cultural. Fugi de um país que não me oferecia condições reais de crescimento artístico.
Hoje, minha memória do Brasil soa como um passado remoto. No entanto, quando volto, percebo — consternado — que muitas estruturas continuam as mesmas. Algumas até regrediram.
Daí o sentimento de estar “Preso no Futuro”.
05. Holding Infinity in a Grain of Sand
Sou fã incondicional de William Blake. Em Auguries of Innocence, ele escreve:
“To see a World in a Grain of Sand
And a Heaven in a Wild Flower,
Hold Infinity in the palm of your hand
And Eternity in an hour.”
O título desta faixa é um jogo de palavras inspirado nesse verso — uma homenagem a um ser humano que viveu muito à frente de seu tempo.
06. Walking Into a Familiar Territory
Quem toca instrumento sabe: os dedos percorrem caminhos repetidos por horas. Às vezes por limitação técnica, outras porque existe prazer muscular e orgânico nesses movimentos.
Esta música nasceu assim. Não há nada radicalmente novo aqui — mas há algo deliciosamente familiar em caminhar por territórios conhecidos.
07. The Black Cat
A associação do gato preto ao azar é uma grande fake news histórica. Parece que nossos cérebros vêm programados para acreditar em superstições.
Pergunto-me se um dia conseguiremos dar o salto evolutivo que nos permita enxergar uma realidade mais lúcida.
Há momentos em que me sinto sozinho nessas reflexões — e nem sempre a música consegue expressar toda a complexidade das respostas que busco.
08. The Clock
O tempo continua seu truque silencioso. Quando percebi, já estava com 70 anos.
09. Tutto Bianco
Tutto Bianco (Tudo Branco) é também o título do meu novo livro, já no décimo primeiro capítulo — escrito em inglês.
Descobri cedo que, no Brasil, “santo da casa não faz milagres”. Talvez em Londres o milagre aconteça.
10. The Synchronicity
Desde que escrevi O Livro Negro do Rock, minha mente começou a se aproximar do oculto. Com o tempo, percebi que a física quântica parece tangenciar verdades que antes eram consideradas místicas.
A sincronicidade é uma delas — conceito explorado por Carl Jung.
Pergunto-me: o que este álbum trará? Novos encontros? Conhecimento? Reconhecimento?
Seja o que for, não mudará minha essência.
11. The Harlekin
Em Tutto Bianco, a história se passa num futuro onde a cultura italiana domina o mundo. O idioma italiano se mistura ao inglês, e roupas inspiradas na Florença e Veneza renascentistas voltam à moda.
Nesse cenário, trajes multicoloridos ao estilo Arlequim tornam-se comuns.
12. The Dunes
Sons que remetem à Índia, ao Oriente Médio, à China ou ao Japão surgem espontaneamente na minha música. Quando isso acontece, o primeiro nome que me vem à mente torna-se o título.
Nunca componho com conceito pré-definido. O processo é lúdico. Deixo a criança crescer livremente. Tento apenas viabilizar forças que eu mesmo não compreendo totalmente.
13. The Seagulls
Da minha janela, em Londres, ouço frequentemente o som das gaivotas. Elas estão invadindo as cidades. Se as pombas não prestarem atenção, perderão território — e os corvos, acreditem, são ainda mais inteligentes.
No final desta faixa, um som me lembrou gaivotas. Resolvi incluir gravações reais delas.
14. The Mind and The Body
Meu amigo Tadeu Kobna, residente na Suécia, passou anos na Índia estudando com gurus. Vegetariano, meditador e excelente músico, sempre trocamos conselhos artísticos.
Ele me enviou um vídeo onde um guru repete um mantra sobre corpo e mente. Quase como provocação amistosa, usei a voz do guru nesta faixa. 🙂
15. Trapped in the Future (TRAP Mix)
Durante a gravação da faixa-título, fiz vários remixes. Este foi um dos primeiros. Mais lento, com guitarra mais limpa.
Ao revisitar as gravações, senti que esta versão também merecia existir. Gosto é algo imprevisível — talvez alguém prefira esta.
16. Hard’n’Dirt
Esta faixa é suja. Quase ficou fora do álbum.
O nome já diz tudo.
Espero que gostem!
Ficarei feliz em receber um comentário gentil vindo de vocês! :-)
Antonio Celso Barbieri