sound city cover
A Capa do DVD.

Sound City: Um documentário obrigatório produzido por David Grohl
Escrito por Antonio Celso Barbieri

A semana passada passou aqui na TV inglesa o filme Sound City dirigido por David Grohl em 2013. David foi o baterista da lendária banda Nirvana e é o atual guitarrista e vocalista do não menos lendária Foo Fighters.

Este filme conta a ascenção e queda do famoso estúdio chamado Sound City localizado em Van Nuys na California, famoso tanto pela sua horrível aparência e descuido como também por ter sido responsável pelo lançamento de uma lista sem fim de álbuns clássicos que acabaram vendendo milhões e milhões de cópias.

Sound City foi um estúdio completamente analógico que gravava em fitas de rolo usando uma mesa Neve feita por encomenda, um dos poucos e rarissimos modelos ainda em existência.

Foi neste estúdio que em apenas 16 dias a banda Nirvana gravou seu primeiro álbum que vendeu milhões de cópias e catapultou-a ao estrelato. Bom, resumindo, com a falência eminente do estúdio Sound City, David Grohl comprou a mesa Neve e levou-a para sua casa onde instalou-a no seu estúdio particular. Depois David Grohl convidou alguns dos artistas mais importantes que gravaram no Sound City para gravarem novamente nesta mesa que tanto significado tem para todos eles. Este documentário é uma grande homenagem ao criador do Sound City assim como à todos os técnicos e funcionários que por lá passaram.

Este vídeo é uma jóia preciosa, uma aula de gravação e de técnicas de estúdio que, deveria fazer parte da coleção de todo músico sério interessado nos processos por trás dos grandes álbuns de sucesso.

Muito embora eu tenha certeza de que David Grohl não tinha intenção de criar no seu documentário aquele antigo e enfadonho debate sobre o som análogo versus o digital, não pude deixar de sentir a presenca desta polêmica, onde somos forçados a reconhecer o lado humano e o impacto que estas novas tecnologias causaram tanto no processo criativo como de gravação. Fica bem evidente que esta revolução digital causou grandes mudanças na indústria fonográfica internacional e também nos próprios músicos.

Se por um lado os avanços da tecnologia digital puseram um poder inimaginável nas mãos daqueles músicos sem muitos recursos financeiros, por outro lado, os sistemas de gravação por computador por melhores que sejam mudaram radicalmente, facilitarndo imensamente na gravação de um álbum. Obviamente muita gente, por motivos variados, acabaram questionando se, na verdade, o verdadeiro espírito da música não estaria sendo jogado pela janela. 

Eu mesmo, uso quase que diariamente meu computador Mac Pro rodando o sequencer Cubase que por sua vez contém uma grande variedade de plugins contendo incontáveis efeitos e instrumentos virtuais. Na verdade a oferta é tão grande que, às vezes, até interfere com o meu processo criativo. Entretanto, como sempre, acho que os avanços tecnologicos não são culpados pelo emburrecimento cultural da sociedade como um todo. Simplesmente vejo a tecnologia como fornecedora de potentes ferramentas responsáveis por colocar em minhas mãos o poder para dar vazão o meu insaciável espírito criativo. Ferramentas que em última análise ajudam-me a discutir a realidade social em que vivo. Se o que faço é arte digna e de qualidade já é outra questão totalmente diferente que caberá aos críticos responderem.

david grohl and Butch Vig in sound city
David Grohl e Butch Vig durante a gravação do documentáro Sound City.

Este documentário tocou-me emocionalmente porque, na minha busca pela perfeição, para aprender gravar e mixar com mais qualidade e assim poder expressar-me melhor,  sempre tive na minha cabeça aquela qualidade de som que eu gostaria de obter nas minhas próprias gravações mas, que infelizmente nunca consegui alcançar e que, nem mesmo consigo verbaliza-la ou explica-la. Como conseguir gravar algo ao mesmo tempo orgânico, cru e poderoso que nos remeta à essência do som mas também que seja perfeito, limpo e "redondo"?

As palavras de David Grohl me pareceram sinceras e me deram a confiança de saber que estou no caminho certo. Quer dizer, falta muito mas, só de saber que existem outras pessoas com o mesmo espírito e objetivo, trilhando um caminho similar já me conforta muito.

Por exemplo, este vídeo mostrou-me o som de bateria que eu sempre busquei em vão. Recordo-me que certa vez levei uma banda para gravar no norte da Inglaterra e sabendo que esta banda fazia um som bem na linha da banda Rage Against the Machine, levei comigo o primeiro álbum desta banda e pedi, no momento da mixagem, que o técnico colocasse o CD para tocar passando por dois canais da mesa de som. Quer dizer o som do Rage Against the Machine saia pelas caixas de monitorização juntamente com o som da bateria da banda que estava, naquele dia gravando. Daí falei para o técnico: "Está escutando o som da caixa do Rage? Então, eu quero a caixa da minha banda soando igual! depois iremos para o bumbo e assim por diante!". No final, fiquei muito satisfeito com a mixagem. Citei este exemplo porque, para minha surpresa, descobri vendo este vídeo, que aquele álbum do Rage Against the Machine que gostei tanto foi gravado no Sound City e eu não sabia!

Neste documentário feito por David Grohl existe uma parte fantástica toda dedicada à gravação do som da bateria e, com o som deste vídeo bombando aqui nas minhas caixas acústicas eu fiquei literalmente de queixo caído com o resultado fantástico conseguido por esta mesa fabulosa que obviamente usava os melhores microfones que o dinheiro poderia comprar. Por enquanto, não há Pro Tools que me faça trocar um som análogo desta qualidade por qualquer outra coisa.

Portanto, arrumem já este DVD para usá-lo como referência de qualidade! Seus ouvidos agradecerão! Terminando esta matéria, gostaria de lembra-los que, não estou discutindo aqui "estilo"! Estou apenas discutindo "técnicas e qualidadede" gravaçãol!

Antonio Celso Barbieri

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