Foi apenas um Sonho: Usando o "Sonho Lúcido" para curar ansiedade e certos problemas psicológicos

sonho lucido

Sonho Lúcido

Usando o "Sonho Lúcido" para curar ansiedade e certos problemas psicológicos
Uma matéria publicada na revista New Scientist na sua edição de fevereiro 2017

Tradução livre: Antonio Celso Barbieri

Foi apenas um Sonho...

Michelle Carr, uma pesquisadora do sono descobriu que explorando a nossa capacidade para termos “sonhos lúcidos” poderá ajudar-nos a apagar traumas de nossa vida real.

Eu estava lutando para afastar-me de uma monstruosa figura escura quando comecei ter a sensação estranha de já ter estado aqui antes, fugindo desse homem. Percebi que eu estava em um pesadelo, um pesadelo que tinha tido várias vezes recentemente. Só que desta vez, parei no meio caminho e me virei para enfrentar meu atacante.

"Quem é Você?" Gritei.
"O que você quer?" Perguntei.

Eu estava tendo um “sonho lúcido”, um estado de consciência entre acordar e dormir, em que as pessoas estão em um mundo de sonho, mas permanecem cientes e capazes de controlar suas ações. Normalmente uso os sonhos como diversão, digamos - voando ou explorando - mas às vezes me torno lúcida dentro de sonhos ruins ou pesadelos. No início, eu simplesmente me acordava quando isso acontecia, mas com o tempo percebi que poderia mudar os sonhos por dentro dele. Há vários anos, inicialmente por acidente, aprendi a controlar meu sonho lúcido.

Quando eu ia para a cama, no começo do sono ou quando acordava, eu costumava ficar presa em um estado assustador meio acordadoa onde eu estava alerta, mas incapaz de mover ou falar - algo chamado paralisia do sono. Para sair disto, achava mais fácil adormecer do que me forçar a acordar. Descobri que, desde que eu mantivesse alguma consciência ao sair deste estado, frequentemente ele resultava em um sonho lúcido.Acontece que o que eu estava fazendo não era tão diferente das técnicas usadas para induzir sonhos lúcidos deliberadamente (leia no final deste artigo "Sonho lúcido para iniciantes").

Os psicólogos por muito tempo tem mostrado interesse ​​em usar sonhos para reescrever pesadelos ou ajudar as pessoas a superar medos persistentes. Mas a capacidade de usar estes sonhos lúcidos tem sido muito limitada porque os sonhos lúcidos são difíceis de desencadear e, como com todos os sonhos, as memórias deles evaporam muito rapidamente ao acordarmos.

No entanto, conforme formas mais consistentes para induzir esses sonhos estão sendo descobertas, isso pode estar prestes a mudar. Será até possível se comunicar com o sonhador e gravar o que está acontecendo dentro dos sonhos.

Estes avanços levantam a tentadora perspectiva de desbloquearmos este estado de espírito único para criar terapias para pessoas com pesadelos, ansiedade e outras condições. Podemos em breve ser capaz de tratar as pessoas dentro de seus sonhos.

As pessoas têm experimentado e escrito sobre os sonhos lúcidos por milhares de anos e, agora, com o advento da imagem cerebral (mapeando o cérebro via computador), temos sido capazes de aprender muito mais sobre o que se passa durante os sonhos lúcidos. Comparando os exames cerebrais de pessoas que estavam acordados, dormindo ou em sonhos lúcidos revelou-se o que muitos suspeitaram há muito tempo: o sonho lúcido é um estado entre o sono REM (Movimento Rápido dos Olhos) - a fase em que a maioria dos nossos sonhos ocorrem - e acordar.

Ao contrário dos sonhos regulares, os sonhos lúcidos ativam o cérebro em áreas associadas com a memória de trabalho e as regiões responsáveis por desempenhar papeis em funções cognitivas superiores, como planejamento e controle comportamental.

Por muitas razões, os sonhos têm sido por muito tempo um foco da terapia psicológica. Pesadelos recorrentes podem ser sintomas de ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático e outras condições.

Discutir sonhos durante a terapia pode fornecer uma maneira isolada para que as pessoas possam explorar eventos traumáticos e assim tentar reescrevê-los ajudando a superar fobias ou sofrimento. Para isso, os pacientes são incentivados a usar uma estratégia conhecida “como ensaio de imagens”, em que ensaiam e, em seguida, tentam jogar cenários desafiadores dentro de seus sonhos, ou mudar o curso de pesadelos.

As primeiras sugestões de que o sonho lúcido poderia melhorar ou mesmo expandir o uso terapêutico dos sonhos surgiu na década passada, quando os psicólogos descobriram que as pessoas capazes de terem sonhos lúcidos poderiam ser mais resistentes ao trauma e mais capazes de evitar pesadelos. Então, em 2015, Brigitte Holzinger e colegas do Instituto para a Consciência e Pesquisa de Sonhos em Viena, Áustria, mostraram que o sonho lúcido torna a terapia para pesadelos mais eficaz.

Quando Holzinger pediu que as pessoas experimentassem uma variação da “terapia de ensaio de imagens” para tentar ter sonhos lúcidos, aqueles que foram bem sucedidos pararam de temer o sono e começaram a desfrutar suas vidas sonhadoras. Uma pessoa até descobriu como, dentro de um pesadelo, voltar a um ponto antes de uma ameaça ter começado e continuar o sonho em outra direção. As pessoas também descobriram que os sonhos lúcidos trouxeram uma sensação de poder e controle que se traduziu na vida acordada, uma mudança bem-vinda do desamparo frequentemente experimentado em pesadelos. Este é o resultado ideal para este tipo de terapia: permitir que as pessoas confrontem a fonte de seu trauma ou ansiedade dirigindo ou mudando o curso de seus sonhos.

Mas, a utilidade de estratégias como essas é limitada pelo quão bem as pessoas podem aprender a sonhar lúcidamente. Mesmo com os melhores métodos existentes, os resultados são irregulares. Bom, recentemente, os pesquisadores encontraram uma maneira de induzir tais sonhos.Em 2014, Ursula Voss e seus colegas da Universidade Goethe de Frankfurt, na Alemanha, descobriram que, uma técnica conhecida como “estimulação cranial com corrente alternada” poderia estimular a lucidez nos sonhos. Este processo envolve a aplicação de uma baixa corrente elétrica, durante o sono REM, no córtex frontal do cérebro. Este método funciona dois terços das vezes. "Estimular a área frontal é como colocar a atividade de "vigília” no “sono", diz Cloe Blanchette-Carriere no Dream and Nightmare Laboratory em Montreal, Canadá.

Blanchette-Carriere está interessada em terapias que desencadeam sonhos lúcidos em vez de confiar em pessoas que se ensinram a induzi-las. "Queremos aplicar isso aos doentes de pesadelo ou pacientes com PTSD, para torná-los capazes de modificar ou controlar seus sonhos", diz ela. Ela já tem resultados promissores de um estudo preliminar.

O próximo obstáculo no uso dos sonhos lúcidos como tratamento é comunicar-se com alguém quando está dormindo, para fornecer apoio externo quando enfrentam uma fonte de trauma, por exemplo. Muitos de nós já experimentamos a incorporação de um ruído do mundo acordado em um sonho - o som de uma buzina lá fora, ou música tocando em um rádio nas proximidades, por exemplo. Mas podemos enviar mensagens deliberadamente aos sonhos das pessoas?

Para descobrir, Kristoffer Appel, pesquisadora de sonhos da Universidade de Osnabruck na Alemanha, recrutou sonhadores lúcidos experientes e monitorou suas ondas cerebrais e seus movimentos oculares enquanto dormiam.

Quando em sonhos lúcidos as pessoas são capazes de mover seus olhos deliberadamente, assim Appel instruiu seus voluntários para deixá-lo saber quando eles estavam lúcidos olhando para a esquerda-direita, esquerda-direita. Uma vez conseguido o contato com a pessoa que está tendo o sonho lúcido, tentou emitir sinais em seus sonhos usando sono e luzes piscantes.

Tem gente aí?

De 10 voluntários, sete relataram que incorporam os sons ou as luzes em seus sonhos. O som pode tornar-se, por exemplo, um ruído de um navio, carro ou um telefone celular. Algumas pessoas registraram as luzes piscando como o sonho inteiro girando e piscando; Para outros, era o relâmpago em uma tempestade, ou então uma lâmpada que ligava e desligava. Aqueles que notaram os ruídos ou luzes perceberam que eram mensagens do mundo em vigília.

Mas Appel queria ir mais longe: queria enviar mensagens mais complexas, e queria que os sonhadores respondessem. Então ele pediu a esses mesmos voluntários para aprender o código Morse básico para números. A idéia era usar uma série de tons de áudio para enviar os sonhadores problemas aritméticos simples, como 3 + 5 ou 7 - 2.

Os sonhadores não sabiam os números com antecedência, e foram instruídos a responder usando sinais de código Morse. Por exemplo, um "3" no código Morse é três traços curtos e dois longos, então o sujeito olharia três vezes para a esquerda e duas vezes para a direita.

Para Appel e os voluntários, sentiram-se como se houvesse muito coisa em jogo. Muitas pessoas capazes de terem sonhos lúcidos passam meses, se não anos, aprendendo por si mesmos como atingi-los e controla-los e embora fossem confiantes de que seria possível comunicarem-se de dentro de seus sonhos, os voluntários temiam que eles poderiam fracassem no experimento por acordar muito cedo ou não conseguir encontrar os sinais. Mas funcionou, pelo menos para três deles: eles não só receberam os sinais, mas deram as respostas corretas. Um participante descreveu como ele olhou em torno de seu sonho para algo que poderia transmitir sinais de fora. Ele estava em um terminal de ônibus, e viu uma máquina de ingressos. Logo, começou a soar. "Eu fiquei muito emocionado... Consegui decodificar a primeira mensagem, confirmar os números, resolver o problema de matemática e responder ao mundo acordado: 4 + 4 = 8. Segui mais longe, caminhando pela rua, dizendo a outros pedestres que eu estava resolvendo tarefas dentro de um sonho lúcido. "

No entanto, confiar nos movimentos dos olhos (REM) limita a quantidade de informação que pode ser transmitida. Assim, Remington Mallett, pesquisador da Universidade de Missouri-St Louis, decidiu tentar usar uma interface cérebro-computador, um dispositivo que - como o nome sugere - permite que o cérebro converse diretamente com um dispositivo externo, como um computador. Mallett acreditava que os sonhadores lúcidos deveriam ser capazes de usá-lo, uma vez que há uma sobreposição na maneira como o cérebro trata atividades durante sonhos lúcidos e acordar. Quando sonhadores lúcidos imaginam apertar um punho, por exemplo, a atividade no córtex motor do cérebro e mesmo contrações musculares no pulso dessa mão pode ser detectada.

Para ver se o controle de uma interface de computador de cérebro de dentro de um sonho era possível, Mallett recrutou dois sonhadores lúcidos autodidata para experimentar um simples fone de ouvido, o Emotiv Epoc. Ele mapeia a atividade do cérebro, e então usa este sinais para conseguir resultados diretos no computador.

Então, se você imaginar que está movendo um cursor em uma tela de computador e ela se move. "Você basicamente move objetos virtuais com sua mente", diz Mallett, tudo como se fosse um "truque mental de um Jedi no filme Guerra nas Estrelas”.

Primeiro, Mallett treinou os voluntários - acordados, mas, deitados com os olhos fechados - para mover um bloco em uma tela de computador usando apenas suas mentes. Uma vez que atingiram 75 por cento de precisão, eles estavam prontos para tentar a tarefa durante o sono. Quando eles entraram nos sonhos lúcidos, eles deixaram Mallett saber com rápidos movimentos oculares diretos para a esquerda e então começaram a tarefa. Mallett viu o sinal de ambos os voluntários, e então o bloco avançou firmemente para a frente na tela.

Um voluntário disse que durante a tarefa de vigília, ele estava imaginando um personagem de lutador de rua movendo o bloco para a frente. Durante o sonho ele fez a mesma coisa. Assim, em sua mente adormecida estava ele como o sonhador, e na mente do sonhador estava a imagem mental de um pequeno ninja movendo o bloco. "É um tarefa bastante simples”, diz Mallett. "Você está imaginando sobre algo imaginário, estamos realizando uma tarefa cognitiva mental e observando-aobjetivamente". É um primeiro passo para ser capaz de transmitir o conteúdo dos sonhos para o mundo exterior, em tempo real.

Esta abordagem também pode ajudar as pessoas a aprender a controlar mãos, braços e pernas mecânicas. É como mover blocos numa tela de computador, uma interface cérebro-computador pode pegar a atividade motora do córtex. Então, quando você imaginar mover seu braço, enviará os sinais para a sua prótese. Estes dispositivos serão mesmo usados ​​para restaurar a capacidade de andar, através do controle pelo cérebro, em pessoas que tiveram uma lesão na medula espinhal.

Pessoas com paralisia de membros inferiores que precisam aprender a controlar um exoesqueleto enfrentam uma barreira adicional, pois o cérebro pode esquecer como enviar sinais motores para suas pernas. Em agosto, o projeto “Caminhar Novamente” - uma colaboração internacional liderada por Miguel Nicolelis da Duke University em Durham, na Carolina do Norte, ajudou pessoas com paralisia parcial a recuperarem algum controle muscular em seus membros inferiores.

Para fazer isso, eles primeiro aprenderam a usar a atividade cerebral para controlar um avatar em realidade virtual, fazendo-o caminhar em torno de um campo. Isso ajudou o cérebro a reaprender como enviar sinais motores, o que significava que quando as pessoas passaram a usar um exoesqueleto real, eles conseguiram controlar a velocidade mais rapidamente. Com o sonho lúcido, as pessoas poderiam exercitar seus músculos mentais em seu mundo de sonho todas as noites, ajudando-os eventualmente a passar a controlar um exoesqueleto real.

Bem como as muitas aplicações terapêuticas, olhando para os nossos sonhos lúcidos também poderiemos nos permitir aproveitar a nossa criatividade. Muitas pessoas encontram inspiração em seus sonos. A melodia “Yesterday” veio para Paul McCartney enquanto ele estava sonhando, e Dmitri Mendeleev sonhou com a estrutura da tabela periódica de elementos. Mas como sabemos, quando a inspiração ataca dessa maneira, é uma corrida para anotá-la quando você acordar.

Novas invenções, como o fone de ouvido no estudo de Mallett, poderiam eventualmente ser usados ​​para nos ajudar a gravar idéias de dentro de sonhos lúcidos. E Appel está desenvolvendo uma máscara de sono que poderia gravar o código Morse dos movimentos oculares para que as pessoas transferissem mensagens. Ele também está experimentando algo com o qual muitos de nós estamos familiarizados: mensagens de texto. "Estamos tentando que os sonhadores busquem mentalmente, com os olhos, as teclas do computador e acompanhem os seus movimentos."

Conforme as técnicas para induzir e comunicar a partir de dentro dos sonhos lúcidos melhorarem, as possibilidades crescerão. Para os profissionais de saúde mental e aqueles que estudam distúrbios do sono, o potencial para terapias psicológicas é mais inspirador. Imagine, depois de uma dor prolongada, chegar a dizer o último adeus que você não tinha sido capaz de fazer. Imagine superar um medo persistente ao receber mensagens de apoio do mundo acordado, ou parar um pesadelo recorrente escolhendo um final diferente. Como diz Blanchette-Carriere: "Se as pessoas forem capazes de controlar o sonho, terão poder para modificar seu comportamento na vida real".

Sonho lúcido para iniciantes

O método mais simples para aumentar sua chance de sonhar lúcido é realizar "verificações da realidade" durante o dia. Já explico: tantas vezes quanto possível, pare para observar seu ambiente, seu corpo e pergunte-se:

"Isso é um sonho?"
“Estarei sonhando?”

Assim que esta atitude tornar-se um hábito, ela será incorporada aos seus sonhos e certamente uma noite você se perguntará: "Isso é um sonho?" e perceberá que, de fato, esta sonhando.

Uma maneira mais direta é através da técnica “Acorde-Devolta-Para-Cama”, que é exatamente o que parece. Idealmente, você deve colocar um despertador para acorda-lo cerca de 2 horas antes de você normalmente acordar, o que irá colocá-lo em uma fase do clico do sono quando o sono REM (Movimento Rápido dos Olhos) é mais longo e mais intenso. Quando o alarme dispara, sente-se e fique acordado por cerca de 20 minutos. Durante este tempo procure pensar ou escrever sobre o sonho mais recente que você se lembra, buscando lembrar qualquer coisa que poderia lhe dar uma ideia para o fato de que você estava sonhando. Quando você voltar a dormir, você deverá em breve entrar em um sonho, e sua mente recentemente acordadoa, intencionalmente estará susceptível de seguir consciente.

Finalmente, você pode complementar a técnicas acima com um pouco tecnologia.

Embora existam muitos aplicativos e máscaras de sono criadas supostamente para induzir sonhos lúcidos via áudio e sinais visuais, a maioria deles simplesmente executam temporizadores e enviam sinais aleatoriamente enquanto você dorme, por isso não são eficazes.

Os mais promissores são dois novos dispositivos, o Aurora Dreamband e o iBand+. Ambos são headbands pequenos que usam EEG real, entre outros biosensores, para detectar quando você está em sono REM e para disparar sinais de LED neste momento para "acordar" você dentro de seu sonho. O que é mais interessante é que ambos são aparelhados com um aplicativo que rastreia seus padrões de sono e um alarme projetado para acordá-lo no melhor ponto do ciclo de sono.

Michelle Carr é pesquisadora do sono e dos sonhos no Laboratório do Sono da Universidade de Swansea no Reino Unido. Tradução livre: Antonio Celso Barbieri.

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