O Roqueiro e a Velha Senhora: Uma história escrita por Antonio Celso Barbieri livremente baseada no conto Sotoba Komachi escrito por Yukio Mishima!

O roqueiro e velha senhora

O Roqueiro e a Velha Senhora

Antonio Celso Barbieri
(segunda revisão)

Prefácio

Esta história foi livremente adaptada do conto chamado Sotoba Komachi escrito pelo renomado escritor japonês Yukio Mishima e faz parte do seu livro Cinco Peças Nō Modernas (Five Modern Nō Plays). Este conto, por sua vez, é uma adaptação do conto de mesmo nome escrito por Kan'ami Kiyotsugu (1333–1384) um ator, autor e músico também japonês que trabalhou com o teatro Nō do período Muromachi.

Mishima é considerado um dos mais importantes escritores japoneses do Século XX. Ele foi indicado três vezes para o Prêmio Nobel de Literatura. Em 1968, todos os especialistas achavam que ele seria o ganhador, mas, no final, o prêmio acabou ficando para o seu compatriota Yasunari Kawabata. Seu trabalho “avant-garde” mostra uma estética que mistura o moderno com o tradicional ultrapassando fronteiras culturais, sempre procurando abordar temas envolvendo sexo, morte e mudanças políticas.

Ele é também lembrando por sua tentativa de golpe político fracassado que ficou conhecido como The Mishima Incident onde, no final, ele cometeu um suicídio ritualizado conhecido como “seppuku”.

Em 1988, em honra ao seu trabalho, foi criado o The Mishima Prize que busca premiar novos talentos literários.  

Curiosamente, para minha surpresa, depois que escrevi este conto, enquanto pesquisava sobre a vida e obra de Mishima, descobri que, quando vivendo em Berlim, o falecido músico David Bowie, um grande fã de Yukio Mishima, pintou um retrato expressionista deste grande escritor japonês, cuja tela, manteve pendurada, bem à vista, em sua residência.

Antonio Celso Barbieri

Yukio Mishima painted by David BowieO jovem David Bowie, em Berlim, dormindo debaixo de sua pintura de Mishima.

O Roqueiro e a Velha Senhora


Esta história se passa numa cidade pequena do interior do estado de São Paulo. Trata-se de uma cidade razoavelmente tranquila que, no passado, já foi bem conservadora, mas, agora muito à contragosto começa a assumir os costumes das grandes cidades.

Como em muitas cidades, no seu coração, ela abriga a sua igreja principal que se abre para uma praça toda arborizada com seu chafariz localizado bem no meio. Este chafariz, já teve dias melhores. Ninguém mais se lembra quando é que foi a última vez que o mesmo jorrou água. Agora, ele não passa de um monumento desprovido de significado, mais uma relíquia numa cidade lutando para não ser engolida pelo progresso. Entre as árvores, alguns postes de iluminação antigos, com suas luzes pálidas e amareladas criam, para aqueles casais em busca de um pouco de privacidade, um clima de intimidade.

É noite, o sino da igreja já anunciou as 10 badaladas à algum tempo.

A noite está quente, gostosa e em torno daquele chafariz seco, de frente, equidistante uns dos outros, estão cinco bancos. Todos dando as costas para um belo jardim, todo florido. Os acentos estão todos ocupados. Cada banco abriga um casal que, aos sussurros e beijinhos, alheios a tudo, estão envolvidos no seu cortejo particular.

De repente, lentamente, este clima ardoroso, cheio de paixão, é perturbado pela chegada de uma senhora aparentemente muito idosa. A mulher vai avançado pelo centro da praça. Sua aparência é centenária. Esquelética e com uma aparência nojenta e encardida, nada mais do que uma mendiga vestida em farrapos sujos, mais parecendo uma morta viva, um zumbi, ela toda arcada, vai arrastando-se e coletando todas as bitucas de cigarro que encontra pelo caminho.

Ela aproxima-se do banco mais bem localizado, aquele perto da área mais florida e ignorando o casal ali sentado, senta-se, toda espalhada e sem a menor consideração. Ela cheira a urina e o casal, tomado de surpresa, levanta-se indignado. A velha simplesmente os ignora. Eles, sem opção, de braços dados, ostentando expressões de descontentamento e fim de festa, retiram-se imediatamente.

A mulher então toma posse completa do banco, vira-se de lado e abre na outra metade do banco uma folha de jornal. O jornal está cheio de bitucas. Ela começa conta-las:

Senhora: Um e um são dois, dois e dois são quatro...

(Ela levanta uma bituca e, buscando a luz, percebendo que esta é bem maior que as outras, de forma impertinente, interrompe o casal do banco ao lado e pede fogo. Acende a bituca e a fuma até chegar no filtro. Depois apaga-o, joga-o no jornal junto com as outras bitucas e volta a sua contagem.)

Senhora: Um e um são dois, dois e dois são quatro...

Roqueiro: (um rapaz aproxima-se lentamente por trás da senhora e fica observando o que ela está fazendo. Ele usa uma velha jaqueta jeans, sem manga, aberta e por baixo uma velha camiseta de rock preta. Usa uma calça jeans esfolada, com a barra arrastando pelo chão, toda encardida e já se desfazendo. Esta usando um coturno que parece já ter sido torturado tempo demais. Cabelos longos e maltratados deixam transparecer uma barba por fazer. Sua aparência geral é de descuido e desgaste físico. Ele parece mais velho do que realmente é)

Senhora: (sem tirar os olhos das bitucas) Quer um cigarro? Lhe darei um se quiser! (ela busca uma bituca mais comprida e entrega para ele)

Roqueiro: Obrigado! (ele tira do bolso um isqueiro, acende a bituca e fuma)

Senhora: Mais alguma coisa? Você tem alguma coisa para me dizer?

Roqueiro: Não, nada em especial.

Senhora: Eu sei quem você é. Você é um roqueiro. Estou vendo a sua camiseta do Motorhead. Você deve cantar numa banda. Você é um compositor. Este é o seu negócio, não é mesmo?

Roqueiro: Acertou na mosca! Mas, provavelmente a senhora não tem a menor ideia de quem foi o grande Lemmy. Sim, componho umas músicas de vez em quando. (e, com ironia, falando meio mole) Não tenha dúvidas de que sou um “musgo”, mas, isto não significa que o que faço é “um negócio”.

Senhora: Há! Já vi tudo! Não é um negócio só porque você nunca ganhou nada, nunca viu um tostão! (Ela olha para o rosto do rapaz pela primeira vez) Você ainda é bem jovem, não é? Mas, infelizmente, você não viverá muito para contar a história! A marca da morte está estampada na sua face.

Roqueiro: (sem mostrar surpresa) O que você foi na sua vida passada? Vidente? Andou lendo muito Tarô? Aprendeu ler a fisionomia das pessoas?

Senhora: Talvez! Já vi tantas faces humanas que fiquei doente de tanto vê-las... (puxando um pouco o jornal para criar espaço e batendo no acento do banco) Sente-se, parece que você não está bem das pernas.

Roqueiro: (apaga o cigarro terminado, senta-se, coloca o filtro junto com os outros no jornal, tosse, limpa a garganta...e fala como se fosse para si mesmo) Eu estou bêbado, é só isto!

Senhora: Você é um estúpido! Pelo menos enquanto você está vivo, você deveria ficar com seus pés firmemente plantados no chão...(fica em silêncio)

Roqueiro: (depois de um tempo ele rompe o silêncio) Gostaria que soubesse que existe uma coisa que me chateia muito. Porque é que a senhora, toda noite, vem aqui, no mesmo horário expulsar quem quer que esteja sentado neste banco?

Senhora: Você está reclamando deste banco? Não posso imaginar que você seja um mendigo. O que você quer? Você pede dinheiro para o povo que se senta aqui?

Roqueiro: Não! É que como o banco não poder reclamar por si mesmo, eu reclamo por ele!

Senhora: (dando as costas) Eu não estou expulsando ninguém! Quando sento aqui eles me abandonam, é só isto. De qualquer forma este banco foi feito para quatro pessoas.

Roqueiro: Más à noite, ele é destinado para o uso dos amantes, dos namorados! Todas as noites quando atravesso a praça e vejo casais ocupando todos os bancos, sinto-me bem! Maravilhosamente esperançoso! Acredite, só para não lhes perturbar, atravesso em pontas dos pés. Mesmo quando estou cansado ou, como acontece de vez em quando, quando sinto necessidade de dar uma paradinha para meditar sobre os meus problemas, em respeito aos casais eu não paro.... E a senhora? A quanto tempo vem vindo aqui perturbar o povo?

Senhora: Há! Agora eu entendo. Este é o seu “lugarzinho”. Sua área reservada onde você bem fazer o seu negócio!

Roqueiro: Meu o que?

Senhora: É aqui que você colhe o material para colocar nas suas letras, nas suas composições e poemas.

Roqueiro: Não seja absurda! Esta praça, estes bancos, esta iluminação decadente, estes casais. Você acredita que eu usaria um material tão vulgar?

Senhora: Com o passar do tempo ele não será mais vulgar. Aliás, não existe nada que um dia não tenha sido vulgar. Com o tempo ele mudará novamente.

Roqueiro: Nossa! Cada coisa extraordinária que sai da sua boca! Se este é o caso, agora é que preciso fazer um discurso apaixonado em defesa deste banco.

Senhora: Meu filho como você é cansativo. A única coisa que você é capaz de dizer é que minha presença neste banco é desagradável aos seus olhos, não é mesmo?

Roqueiro: Não! A verdade é que a sua presença aqui é uma profanação!

Senhora: Gente jovem vive de papo furado e gosta mesmo é apenas de uma boa discussão.

Roqueiro: Preste atenção! Sou isto mesmo que você está vendo. Um artista de meia pataca que nem consegue uma mulher que se interesse por ele. Mas, existe algo que eu respeito muito. O mundo quando refletido nos olhos dos casais jovens que aqui se amam. Juro, é cem vezes mais bonito do que o que eles mesmos estão vendo. Há, isto eu respeito. Olhe em volta, eles estão tão concentrados que nem sabem que estamos falando deles. Eles subiram tão alto como nas estrelas. Nós podemos até ver, bem perto de suas bochechas, uma pitadinha da luz da estrela que está brilhando em seus olhos apaixonados.... E este banco, é como se fosse uma “Stairway to Heaven”, uma escada para o paraíso. A mais alta torre do mundo, um maravilhoso ponto de observação. Quando um homem senta aqui com a sua amada ele pode ver as luzes de todas as cidades através do globo. (empolgado ele fica em pé em cima do banco) Mas, se sozinho, ficar aqui em pé, não consiguirei ver nada... Há! Na verdade, estou vendo vários bancos lá para frente, vendo alguém fazendo sinal com uma lanterna, deve ser um policial. Lá longe, estou vendo uma fogueira com alguns mendigos em volta. Estou vendo as luzes traseiras de dois veículos. Um passou na frente do outro, os dois estão indo em direção da saída da cidade. O que é isto? Um carro cheio de flores, serão artistas clássicos voltando de um concerto ou um enterro... (o rapaz senta-se no banco novamente e fica meditativo, em silêncio)

Senhora: Tudo lixo! Porque será que tem gente que respeita estas coisas! É justamente esta sua natureza boba que faz com que você componha estas baboseiras sentimentais que ninguém nunca comprará!

Roqueiro: (falando como se não tivesse escutado nada) ...e é exatamente por isto que eu não invado este banco. Enquanto a senhora e eu estamos ocupando este lugar ele não passa de umas ripas de madeira invelhecidas, parafusadas de forma apropriada numa base de ferro carcomido, mas se um casal sentar aqui ele se transformará numa memória. Ele ficará mais macio do que um sofá e se aquecerá com as faíscas emitidas por gente viva... quando a senhora se senta aqui ele fica tão frio quanto uma sepultura, como se fosse um banco construído com pedras e lajes retiradas de um túmulo.

Senhora: Você é jovem, inexperiente e ainda não tem os olhos para ver. Estes bancos onde você diz que eles sentam, estes balconistas, garçons, funcionários de escritório e suas vagabundas. Você acha que eles estão vivos? Não seja tolo! Eles estão apenas lamentando em suas covas. Veja como, iluminadas pelas luzes que passam através das folhas das arvores, as suas peles são pálidas. Tanto os homens como as mulheres estão com seus olhos fechados. Você não acha que eles parecem cadáveres? Estão morrendo enquanto se beijam e se acariciam. (ela dá uma olhada em volta sentindo o aroma) Existe, sem dúvida o perfume das flores. Durante a noite, o perfume das flores desta praça exalam uma fragrância envolvente e é como se estes casais já estivessem dentro dos seus caixões. Como muitos homens, estes amantes estão todos enterrados no perfume das flores. Na verdade, você e eu somos os únicos vivos aqui.

Roqueiro: (sorrindo) Que palhaçada! Senhora pensa que está mais viva do que eles?

Senhora: Claro que sim! Eu tenho 99 anos e veja como estou saudável!

Roqueiro: 99 anos?

Senhora: (virando o rosto em direção da luz) Dê uma boa olhada!

Roqueiro: Nossa! Que rugas horríveis!

(neste exato momento o jovem sentado com uma garota no banco à direta, o mesmo que foi importunado quando a senhora pediu fogo, resmunga algo inteligível que termina com a exclamação “Meu Deus!” pronunciada quase gritado, expressando impaciência e mau humor)

Senhora: Qual é o seu problema? O que é que te incomoda tanto para faze-lo assim tão rude?

Rapaz: (com cinismo, olhando para a sua companheira) Vamos embora ou pegaremos uma gripe.

Senhora: Você é muito sem graça! Tá com o saco cheio é?

Rapaz: Não! É que acabei de lembrar algo engraçado.

Senhora: O que?

Rapaz: Eu tenho em casa uma galinha tão velha que nem o galo quer mais saber dela!

Senhora: Qual é o significado disto?

O rapaz: (com ironia) Nenhum!

Senhora: Sabe o que significa? (mostrando o dedo) Não quero mais saber de você!

Rapaz: (ignorando) Caramba! Perdemos o último ônibus! Agora teremos que correr!

Senhora: (ela levanta-se e o observa) Nossa que mal gosto você tem para se vestir!

Rapaz: (O rapaz continua ignorando e sai com sua namorada andando rápido)

Senhora: Pelo menos, até que enfim, eles voltaram a vida!

Roqueiro: Já posso até ver o céu pipocando com fogos de artifício! Como é que a senhora pode dizer que eles voltaram a vida?

Senhora: Conheço muito bem como é o rosto de uma pessoa que voltou a vida. Eu já vi isto demais. A pessoa apresenta uma expressão de quem está com o saco cheio e é justamente isto que gosto de ver... A muito tempo atrás, quando era bem jovem, só tinha a sensação de que estava viva quando a minha mente, depois de uns goles, estava girando. Só me sentia viva quando me perdia e me esquecia totalmente. Desde então, acabei descobrindo qual foi o meu engano. Quando o mundo parece maravilhoso para vivermos nele. Quando uma florzinha insignificante parece tão grande como uma catedral e as pombas passam voando, cantando com vozes humanas. Quando todos passam felizes, desejando “bom dia” uns para os outros e, coisas que você buscou por 10 anos aparecem, inesperadamente, atrás do sofá, e toda garota parece uma diva. Quando as rosas desabrocham numa roseira morta... Então, quando era jovem, estas coisas idióticas aconteciam comigo à cada 10 anos. Agora quando penso nisto, percebo que estava morrendo enquanto isto acontecia. Quanto pior a bebida mais rápido ficamos bêbados. No meio da minha embriaguez, no meio da minha sentimentalidade, das minhas lágrimas eu estava morrendo... Desde então eu fiz um juramento de nunca mais beber, este é o segredo da minha longevidade.

Roqueiro: (provocando) Então diga-me, velha senhora, qual é a sua razão para viver?

Senhora: Velha? Quem é velha? Minha razão para viver? Não seja ridículo! O simples fato de existir já não é uma razão por si mesma? Fique sabendo! Não sou um burro correndo atrás de uma cenoura pendurada por uma vara na minha frente! Aliás, um burro é assim porque é de sua natureza!

Roqueiro: Corre burro, corre, nunca olhando nem para a esquerda nem para direita...

Senhora: ...de cabeça baixa, nunca tirando os olhos da sua própria sombra...

Roqueiro: ...quando o Sol se põem a sombra se torna maior...

Senhora: ...a sombra é que é enganada e perde-se na escuridão de tudo.

(enquanto conversavam, um a um, todos os casais se retiram. Os dois ficam sozinhos.)

Roqueiro: Permita-me fazer-lhe uma pergunta? Quem é você?

Senhora: Antes eu fui uma mulher chamada Aura.

Roqueiro: Quem?

Senhora: Todos os homens que disseram que eu era bonita morreram. Hoje eu tenho certeza que todo homem que disser que sou bonita morrerá.

Roqueiro: (rindo) Que sorte! Estou seguro porque só encontrei-a quando já tinha 99 anos!

Senhora: Sim, você tem sorte! Mas, eu suponho que um tolo como você pensa que toda mulher bonita ficará feia quando envelhecer. Há! Você está cometendo um grande engano. Uma mulher realmente bonita sempre será bonita. Se sou feia hoje é porque no passado fui uma “feia bonita”. Depois de ter sido elogiada pela minha beleza por todo mundo tantas vezes, acho a maior chateação, nos últimos 78 anos, pensar que não sou bela. Eu ainda me vejo muito bonita, absurdamente bela.

Roqueiro: (falando para si mesmo) Como deve ser difícil carregar este peso de ter sido muito bela. (Olhando para a Senhora) Posso entender como se sente. Um homem que foi para a guerra ficará relembrando esta experiência por toda a sua vida. Claro, você deve ter sido muito bonita.

Senhora: (batendo o pé) Ter sido? Eu ainda sou muito bonita!

Roqueiro: Sim! Sim! Eu entendo! Porque não me conta algo dos velhos tempos. 80 anos atrás ou será 90? (conta nos dedos). Conte-me o que aconteceu 80 anos atrás?

Senhora: 80 anos atrás... eu tinha só 19 anos. O Capitão Rodriguez era o comandante aqui do quartel, vivia atrás de mim, me contejando.

Roqueiro: Posso fazer de conta que sou o seu capitão? Qual era mesmo nome dele?

Senhora: Mas que pretencioso! Ele foi 100 vezes mais homem do que você! Eu prometi que lhe daria aquilo que ele tanto queria, se ele se encontra-se comigo 100 vezes. Esta era a centésima noite. Naquela época, aqui ao lado desta praça existia um clube, o mais famoso da cidade. Seus bailes reuniam a nata da sociedade local e até das cidades próximas. Como tinha muita gente e o salão muito quente, preferi sair para respirar um ar fresco. Vim descansar aqui mesmo neste banco.

(Vindo de um lado da praça o som de uma valsa tocando, lentamente começa crescer e preencher o ambiente. Ao mesmo tempo, da mesma direção de onde vem o som, um prédio pomposo, parecendo um teatro com uma arquitetura antiga, surge do nada, todo iluminado. Percebe-se que o lugar está cheio de gente.

Senhora: (olhando de longe) Veja, as pessoas mais chatas desta época, vieram todas para o baile!

Roqueiro: Aquelas belas mulheres e homens elegantes?

Senhora: Sim! Vamos lá dançar uma valsa e nos misturarmos com eles?

Roqueiro: Dançar uma valsa com você?

Senhora: Importante! Não esqueça-se, você é o Capitão Rodriguez! (eles entram juntos no clube e aproximam-se de três casais vestidos com trajes antigos. Eles estão dançando. Neste momento, a música termina e os três casais aproximam-se da velha senhora)

Mulher 1: Aura você está muito linda esta noite!

Mulher 2: Que inveja! (passando a mão nos trapos que ela veste) Onde você comprou sua roupas?

Senhora: Mandei minhas medidas para Paris! O vestido veio de lá!

Mulheres 1 e 2: (exclamam ao mesmo tempo) Verdade?

Mulher 3: É a única forma! Os vestidos feitos aqui no Brasil são muito pobres e mal feitos!

Homem 1: Infelizmente, não temos opção! Temos que usar roupas importadas!

Homem 2: Sim, é verdade! Vocês repararam no paletó do prefeito? Foi feito sob medida em Londres, a capital da moda para cavalheiros!

(as mulheres, animadas na conversa, sorridentes, cercam a velha senhora e o roqueiro enquanto os três homens sentam-se nas cadeiras próximas.)

Homem 3: Aura é realmente muito bonita!

Homem 1: Iluminada pela luz da lua até um velha bruxa parecerá bonita!

Homem 2: Você não pode falar uma coisa assim de Aura! Ela é bonita até ao meio-dia e quando ha vemos iluminada pela luz da lua ela parece um anjo vindo do Paraíso.

Homem 1: Ela não é do tipo de mulher de entregar-se para qualquer homem facilmente. Eu suponho que é por isso que existam tantas histórias interessantes sobre ela. (...e usando palavras francesas que ele vai traduzindo enquanto fala) Ela é uma “pucelle”, uma virgem, é o que vocês nunca poderiam chamar de “une histoire scandaleuse”, vocês sabem, um tipo de escândalo.

Homem 3: (olhando para o roqueiro) O Capitão Rodriguez, está perdidamente apaixonado, perdeu a cabeça por ela. Veja como ele está pálido, parece que não se alimenta à vários dias.

Homem 1: Dizem que ele até esqueceu de suas obrigações militares e passa os dias escrevendo poemas para ela. Vocês repararam que até os outros militares o estão evitando.

Homem 2: (levanta-se, aproxima-se das mulheres que conversam animadas com a velha senhora e confidência com uma delas) Você reparou que voz doce ela tem, é clara como o som do chamariz da praça.

Mulher 1: (respondendo) Ouvi-la falar é uma lição em eloquência.

(o intervalo termina e os músicos começam tocar o Danúbio Azul. Rapidamente casais se formam e o centro do salão é totalmente ocupado por casais dançando. A velha senhora e o roqueiro permanecem nos seus lugares)

Senhora: (olhando o povo dançando) ...eles estão dançando... ...as sombras dos bailarinos são projetadas nas janelas que escurecem e se iluminam novamente de acordo com a passagem deles girando. São as sombras da dança. É algo maravilhosamente tranquilo de ver. Como as sombras e danças causadas pelo fogo.

(um casal dançando bem próximo escuta a fala da velha senhora e comenta)

Homem: Você não acha a voz dela sensual? É uma voz que penetra direto no meu coração!

Mulher: (respondendo) Sim, me sinto estranha, por que mesmo sendo mulher sinto a mesma coisa.

Senhora: Vamos para fora, buscar um lugar mais tranquilo... À esta hora da noite, em frente, na praça, o clima deve estar muito refrescante e a fragrância das flores e das árvores maravilhosa.

(enquanto os dois se afastam um casal ainda dançado comenta)

Homem: (meio hipnotizado, fala para si mesmo) Ao lado de Aura uma mulher é simplesmente uma mulher.

Mulher: (mudando de assunto) Que horrível ela parece que copiou a minha bolsa!

(A senhora e o roqueiro aproximam-se novamente do mesmo banco onde se encotraram. O Lugar está todo vazio)

Roqueiro: (com o som da valsa diminuindo ao fundo) Que estranho...

Senhora: O que que é estranho?

Roqueiro: Não sei, de alguma forma...

Senhora: Nem tente dizer! Eu sei o que você vai dizer antes mesmo que abra a sua boca!

Roqueiro: (com ardor) Você é tão...

Senhora: Bonita? Isto é o que quer dizer, não é? Não diga! Você não pode! Se você disser, não viverá muito tempo! Considere-se avisado!

O Roqueiro: Mas...

Senhora: ...se você valoriza a sua vida, fique calado!

Roqueiro: Mas, isto é muito estranho, parece um milagre! Veja a até o chafariz está jorrando água! Nunca...

Senhora: (interrompe rindo) Milagres! Milagres nos dias de hoje! Você ainda acredita nestas vulgaridades!

Roqueiro: Mas as suas rugas...

Senhora: Que rugas meu filho?

Roqueiro: É isto que quero dizer, não vejo nenhuma!

Senhora: Claro! Você acha que o Capitão Rodriguez aceitaria cortejar uma múmia por cem noites? Mas, chega de fantasias! Vamos dançar aqui mesmo, no meio das flores.

(O som da valsa parece crescer só para eles)

Senhora: (enquanto dançam) Você está cansado?

Roqueiro: Não.

Senhora: Você parece que não está bem.

O Roqueiro: É o meu jeito de ser, eu sempre pareço assim.

Senhora: Que tipo de resposta é esta?

Roqueiro: Você sabe hoje é a centésima noite!

Senhora: E eu ainda não...

Roqueiro: Sim!

Senhora: Porque você parece tão amargo?

(o roqueiro para de dançar)

Senhora: Qual é o problema?

Roqueiro: Não é nada! Estou me sentindo um pouco tonto.

Senhora: Quer voltar para o salão?

Roqueiro: Não, é melhor aqui, lá dentro é muito barulhento.

(Eles ficam de mãos dadas observando as flores)

Senhora: A música parou novamente, é outro intervalo. Como tudo ficou tão silencioso...

Roqueiro: Sim, agora é só silêncio.

Senhora: No que você está pensando agora?

Roqueiro: Nada. Quer dizer, na verdade, eu estava pensando algo muito estranho. Eu tive este sentimento de que se nos separarmos, em cem anos, ou talvez menos nos encontraremos novamente.

Senhora: Onde nos encontraremos? Num túmulo, quem sabe? No Paraíso ou no Inferno? Sim talvez num deste lugares!

Roqueiro: Ha! Um pensamento, como um flash, passou pela minha mente... Só um momento por favor? (Ele fecha os olhos, dá uma pequena pausa e os abre novamente) Agora já sei, nos encontraremos exatamente aqui novamente!

Senhora: Uma praça, um jardim, umas lâmpadas encardidas, uns amantes...

Roqueiro: Tudo será igual mas, não sei como nós mudaremos até lá.

Senhora: Não acredito que ficarei velha!

Roqueiro: Talvez seja eu que não ficarei velho!

Senhora: Daqui uns 80 anos o mundo terá progredido muito.

Roqueiro: Na verdade só os seres humanos é que mudam. Uma rosa ainda será uma rosa.

Senhora: Eu me pergunto se ainda existirão jardins e praças tão tranquilas como estas.

Roqueiro: Infelizmente acho que até os jardins serão engolidos pelo lado ruim do progresso.

Senhora: O que será dos pássaros?

Roqueiro: Bom, pelo menos, haverá todo luar que você desejar!

Senhora: ...e se você conseguir encontrar uma árvore e subir nela verá todas as luzes da cidade. Serão tantas que, será como se tivesse visto as luzes deste planeta inteiro.

Roqueiro: Diga-me, quando nos encontrarmos daqui cem anos o que diremos um para o outro?

Senhora: Eu suponho que pediremos desculpas por não termos mantido contato. (os dois sentam-se no mesmo banco que sentaram quando se conheceram)

Roqueiro: Responda-me, você não falhará na sua promessa?

A Senhora: Minha promessa?

O Roqueiro: Sua promessa de entregar-se depois das cem noites!

A Senhora: Você ainda duvida depois de tudo que disse?

Roqueiro: Sim! Até que enfim esta noite terei meu desejo satisfeito. Na verdade, trata-se de um sentimento estranho e solitário. É como se eu tivesse, até que enfim, em minhas mãos algo que desejei por quase toda uma eternidade.

Senhora: Para um homem este deve ser um dos sentimentos mais assustadores de todos.

Roqueiro: Meu sonho realizado... e quem sabe um dia eu me canse até de você. Imagine, se eu me cansar de uma pessoa como você, minha vida depois da morte seria horrível... e como será assustador os dias eternos até chegar o dia da minha morte... Nada fará sentido.

Senhora: Então você deveria para com isto agora mesmo!

Roqueiro: Eu não consigo!

Senhora: Será uma grande tolice forçar-se a terminar algo que você não quer.

Roqueiro: Mais é justamente o oposto! Eu estou feliz! É como se eu pudesse subir aos céus mas, ao mesmo tempo, estou um pouco depressivo. Difícil de explicar...

Senhora: ...é porque você está vindo com muita sede ao poço...

Roqueiro: ...e você não ficará triste se eu a abandonar?

Senhora: Não, eu não me importarei nenhum pouco! Outro homem tomará seu lugar e começará novamente cortejar-me por cem noites. Eu nunca ficarei só.

Roqueiro: Se isto que diz é verdadeiro quero morrer agora. Uma ocasião com esta raramente acontece na vida de uma pessoa e hoje é a minha noite!

Senhora: Por favor, pare de cansar-me com esta infantilidade!

Roqueiro: Esta noite é minha e, se é para morrer de prazer que seja isto...

Senhora: O homem não vive simplesmente para morrer.

Roqueiro: Ninguém sabe, talvez o homem morra para poder viver.

Senhora: Que palavras pobres, terrivelmente ordinárias.

Roqueiro: Por favor, me ajude! O que tenho que fazer?

Senhora: Siga em frente! Você só pode seguir em frente!

Roqueiro: Por favor, escute! Em algumas horas, em alguns minutos, momentos que nunca poderiam existir surgirão neste mundo. O Sol começará brilhar no meio da noite. Uma grande caravela com todas as suas velas desfraldadas, estufadas, empurradas pelo vento, navegará pelo meio das ruas. Costumava sonhar este sonho quando era garoto, por que será? Uma enorme caravela entrando pelo jardim e as árvores tremulando como ondas do mar, com suas copas cheias de pássaros mergulhando para pescar... e eu neste sonho feliz, sentindo que meu coração poderia parar de bater a qualquer momento de tanta alegria.

Senhora: Incrível! Você deve estar totalmente bêbado!

Roqueiro: Você não acredita? Hoje à noite, daqui a pouco, uma coisa impossível vai....

Senhora: ...as coisas impossíveis são... impossíveis!

Roqueiro: (ele olha atentamente para a face da velha senhora, como se esta visão lhe despertasse antigas memórias) ...e mesmo assim, é estranho, a sua face...

Senhora: (tornando o rosto para outra direção e falando para si mesma) Se ele falar estas palavras, sua vida se acabará! (e, tentando desviar a atenção do roqueiro) O que é estranho? Minha face? Veja, como ela é feia, cheia de rugas! Abra os seus olhos bem abertos!

Roqueiro: Rugas? Onde estão as rugas?

Senhora: (Levantando bem auto a sua saia e mostrando suas partes íntimas) Veja a decadência! Sinta o cheiro ruim! Está fedendo e cheio de piolhos! Veja esta mão! Veja como ela está tremendo! É uma mão feita apenas de rugas! As unhas sujas são repulsivamente longas! Veja!!!

Roqueiro: Que fragrância maravilhosa e estas unhas róseas e bem cuidadas.

Senhora: (abrindo sua blusa, na verdade, várias camadas de trapos que servem para cobrir um, o buraco deixado pelo outro, ela expõe os seus seios) Veja este saco caído, mole e encardido! Não existe nada do que poderíamos chamar de seios! (em desespero, ela pega a mão do rapaz e coloca-a sobre seus seios murchos) Sinta! Sinta! Não existem seios aqui!

Roqueiro: (em estase) Há! Que corpo!

Senhora: Eu tenho 99 anos! Acorde! Olhe bem!

Roqueiro: (ele olha atentamente e parece chocado) Há! Até que enfim consegui me lembrar!

Senhora: (toda feliz) Que bom! Você se lembrou!

Roqueiro: Sim! Você era uma senhora de 99 anos. Você tinha o corpo coberto de rugas horríveis, um muco cobria o canto dos seus olhos e suas roupas fediam.

Senhora: (batendo os pés) Era? Tinha? Fedia? Você não percebe que estamos falando do PRESENTE?

Roqueiro: Estranho... você tem os olhos de uma mulher de aproximadamente 20 anos e usa estas roupas finas e perfumadas. Você é muito especial. Você ficou jovem novamente!

Senhora: Não diga isto! Já não lhe disse o que acontecerá se disser que sou bonita?

Roqueiro: Se acho que um algo é bonito, tenho que dizer é bonito mesmo que morra fazendo isto.

Senhora: Que loucura! Pare com isto, eu te imploro! Que momento é este que você vem insistindo tanto?

Roqueiro: Já vou lhe contar!

Senhora: Não! Por favor, não!

(Os sinos da igreja começam bater as badaladas da meia-noite)

Roqueiro: Chegou a hora! O momento que eu estive esperando por noventa e nove anos. Noventa e nove anos!

Senhora: Os seus olhos estão ficando iluminados! Pare! Pare com isto! Por favor!

Roqueiro: Querida Aura, (ele pega na sua mão, ela fica toda trêmula) você é linda! Você é a mulher mais bonita deste mundo! A sua beleza nunca se apagara nem em um milhão de anos!

Senhora: Você se arrependerá profundamente por ter dito estas palavras!

Roqueiro: Eu? Nunca!

Senhora: Você é um idiota! Eu já posso ver a marca da morte aparecendo entre as suas duas sobrancelhas!

Roqueiro: Eu não quero morrer!

Senhora: Eu bem que tentei lhe avisar! Juro que me esforcei!

Roqueiro: Minhas mãos e meus pés estão ficando frios... Eu me encontrarei com você novamente! Tenho certeza, daqui cem anos, neste mesmo lugar.

Senhora: Mais cem anos para esperar! Que castigo!

(O roqueiro lentamente vai perdendo as forças, agarrando-se à senhora, cai de joelhos para depois cair ao chão. Logo, para de respirar. Está morto. A senhora senta-se no banco, aquele mesmo do princípio desta história. Fica por um tempo com a cabeça baixa olhando para o chão depois olha para o lado e vê o jornal aberto e cheio de bitucas. Como se não tivesse mais nenhuma opção na vida começa conta-los novamente)

Senhora: Um e um são dois, dois e dois são quatro...

(Um policial fazendo a sua ronda, aproxima-se e vê o corpo do roqueiro caído no chão)

Policial: Morto de bêbado novamente! Você só me dá trabalho! Vamos lá! Fique em pé! Aposto que sua esposa está esperando por você. Volte para casa rápido e vá já para a cama... Caramba! Será que ele está morto? Puxa, está mesmo! Minha senhora você viu ele cair aqui? Onde você estava?

Senhora: (levantando um pouquinho a cabeça) Acho que já faz tempo...

Policial: ...seu corpo ainda está quente...

Senhora: Isto prova que ele acabou de parar de respirar.

Policial: Esta informação eu já sabia sem precisar lhe perguntar!

Senhora: Acho que foi mais ou menos uma hora e meia atrás! Ele chegou bêbado e começou me cortejar.

Policial: Corteja-la? Não me faça rir!

Senhora: (indignada) Não vejo nada engraçado nisto! Seria a coisa mais natural do mundo!

Policial: Eu suponho que você tenha se defendido apropriadamente?

Senhora: Não, ele foi apenas um chato e eu não dei atenção alguma! Ele ficou na minha frente, em pé, parado falado consigo mesmo e, de repente, parou e caiu. Eu pensei que ele estivesse dormindo.

Policial: (gritando para umas pessoas à distância) Ei vocês ai? Não é permitido acender fogueiras aqui perto da praça! Venham aqui! Eu tenho um serviço para vocês fazerem. (Dois mendigos se aproximam) Ajudem-me levar este corpo até a perua. (os três homens afastam-se levando o corpo do roqueiro)

Senhora: (cuidadosamente organizando as bitucas) Um... e... um... são... dois... dois... e... dois... são... quatro... Um e um são dois, dois e dois são quatro...

FIM

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