O público foge e o Metal Nacional ainda busca explicações!

 

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O público foge e o Metal Nacional ainda busca explicações!
Escrito por Marcelo Moreira para o Combate Rock

Está crescendo o número de fãs e apreciadores de rock que culpam as bandas brasileiras de heavy metal pela falta de público em seus shows no Brasil. Mesmo com o surgimento de muitos grupos bons nos últimos cinco anos, a plateia diminui cada vez mais, reforçando a preferência por shows internacionais, que neste 2013 chegou ao ápice de quase um a cada três dias em São Paulo. Qual é a culpa que estas bandas têm? O que estão fazendo de errado?

A julgar pelos resultados interessantes de bandas como Lothloryen e Shadowside, nada – pelo contrário. O Lothloryen está neste momento em sua mais importante turnê europeia, ainda tocando em casas de portes pequeno e médio, mas sempre com lotação esgotada.

Já o Shadowside é a bola da vez, sendo a banda brasileira mais bem-sucedida no exterior neste momento, ao lado do Krisiun. O quarteto de Santos acaba de voltar de uma turnê de sucesso pela Europa ao lado de Helloween e Gamma Ray, com shows lotados em casas grandes. Voltou recentemente ao Brasil e, para comemorar, agendou uma apresentação em São Paulo, a primeira completa, como atração principal da banda na capital, para comemorar o bom momento. Entretanto, mais de um mês de divulgação não foi suficiente para colocar mais do que 300 pessoas no Via Marquês.

Muita gente toma por base o sucesso da volta do Viper no ano passado, que fez uma turnê por quatro meses com shows quase todos lotados. Andre Matos, por sua vez, lotou o mesmo Via Marquês no começo de maio. Então o que acontece?

Ocorre que o metal nacional foi abandonado por seu público, e isso é um fato. Andre Matos colocou mil pessoas em seu último show, quando dez anos antes atraía 5 mil quando estava no Shaman ou no Angra. Edu Falaschi está recomeçando quase do zero com seu Almah.

O ex-vocalista do Angra e sua atual banda conseguem lotar casas como o Manifesto, mas ainda precisam remar muito para engatar uma turnê bem-sucedida no Brasil com grande carga de ingressos vendidos. O Almah é de São Paulo, onde se concentra o maior público do metal, mas se fizer um show por semana não conseguiria um terço da lotação que teria o primeiro show.
Outras bandas, notadamente as de metal extremo, precisam se unir em minifestivais esporádicos para reunir 800 pessoas em locais como Hangar110 – e precisam comemorar muito quando reúnem essa quantidade de público. Cadê o público?

A grande quantidade de shows internacionais do primeiro semestre ajudou a espalhar ainda mais a plateia. Teve atração para todos os gostos: Anthrax, Yes, Testament, UFO, Down, Twisted Sister, Vinnie Moore, Steve Grimmet e muitos mais. O preço médio destes shows foi de R$ 150. O Shadowside cobrou R$ 40 em sua “estreia” em São Paulo.

Apesar da diferença, muita gente afirma que não sobra dinheiro para as bandas brasileiras. O raciocínio é bem simples: teoricamente,  posso ver Shadowside, Andre Matos, Almah, Dr. Sin e outras a hora que eu quiser, pois estão sempre tocando por aqui. O Anthrax vem ao Brasil uma vez a cada dez anos, assim como o Testament. O Twisted Sister é capaz de nunca mais vir. Portanto, essa é a prioridade.

Faz sentido, mas não explica tudo. Jornalistas, produtores de shows e mesmo músicos cravam outra estaca no meta nacional: o público fugiu porque a qualidade caiu, tanto das apresentações como dos álbuns. Nenhuma banda brasileira, na visão de muita gente, gravou algo que prestasse no século XXI, incluindo Angra, Sepultura, Almah, Andre Matos e muitos outros.

O argumento não se sustenta. O Sepultura lançou o seu melhor álbum com Derrick Green nos vocais em 2011. “Kairos” é ótimo. O Angra lançou na década passada o igualmente ótimo “Temple of Shadows”, enquanto o Shaman rebateu com o bom “Ritual”. E os exemplos continuam: “Unpuzzle”, do Maestrick, é muito bom, assim como “365″, do Mindflow e “Inner Monster Out”, do Shadowside”. “Discipline of Hate”, do Korzus, é possivelmente um dos cinco melhores álbuns de rock extremo dos últimos 20 anos no Brasil. “Animal”, do Dr. Sin, talvez seja o álbum mais bem-sucedido da banda depois do álbum de estreia.

Portanto, falta de qualidade não é. Ao vivo, Krisiun faz shows cada vez melhores, assim como o Sepultura, que ganhou novo alento com a chegada do baterista Eloy Casagrande. Idem em relação ao Korzus, que anda tocando pouco ultimamente. O Dr. Sin continua atraindo sua fiel legião de fãs e tem feito apresentações irretocáveis. Falar em falta de qualidade, neste caso, soa como desrespeito e esbarra na desonestidade intelectual.

Edu Falaschi fica indignado quando ouve que a culpa pela falta de público é das bandas. “Como assim? As bandas gastam o que não tem para fazer bons CDs, camisetas, sites profissionais, tocam na maioria das vezes de graça, 90% dos shows são em lugares ruins, com som ruim, etc, e aí a culpa é das bandas? É desolador.”

O cantor toca em uma questão importante: o amadorismo na produção de shows e na condução dos negócios ligados à música. A produção de palco e de turnês não acompanhou a evolução verificada nos estúdios. Ainda há gente muito mal preparada e ambiciosa – quando não mal intencionada – atuando em um mercado que aparentemente promete ganhos fácil e sem muito esforço.

O fracassado Metal Open Air, no Maranhão, em 2012, é um exemplo de falta de preparo e de um passo muito maior do que se poderia dar. Não só arranhou a imagem dos produtores brasileiros e da produção em geral no Brasil como pode ter ajudado a aumentar a desolação do fã brasileiro, contribuindo para a fuga do público ainda mais.
São recorrentes as reclamações de músicos a respeito das condições péssimas que encontram em todo o Brasil, inclusive em São Paulo, como bem ressaltou Falaschi. O tratamento dispensado ao público – filas intermináveis para shows pequenos, seguranças despreparados e truculentos, dificuldades na hora de comprar ingresso, preços acima do que o evento vale, locais inadequados e com péssima estrutura de som, etc – não podem ser desprezados.

Tem gente que prefere gastar R$ 200 em um show no HSBC ou no Credicard Hall contando com condições gerais no mínimo razoáveis para ver um espetáculo – que na grande maioria das vezes as duas casas oferecem. Não dá para recriminar quem pensa assim e quem evita o aperto e falta de segurança de lugares menores, como alguns bares, casas noturnas e bares/casas de show por aí.

Também não pode ser desprezado o complexo de vira-lata do Brasileiro. Parte do público ainda desconfia da qualidade das bandas brasileiras. Qualquer bandinha mediana holandesa ou sueca conta com seu público fiel no Brasil, e tem a preferência em relação aos grupos nacionais.

Ok, tudo bem, de vez em quando nomes consagrados pagam mico e tocam para ninguém no Brasil. O Morbid Angel, ícone norte-americano do metal extremo, mal conseguiu colocar 200 pessoas em sua recente passagem por São Paulo. Já o Live’n'Louder, festival com seis bandas e encabeçado pelo Twisted Sister, mal conseguiu levar 2 mil pessoas ao gigante Espaço das Américas.

Há quem diga que os dosi exemplos são indício de que o mercado está saturado de shows internacionais. Mas essa não é a regra. Até mesmo artistas veteranos há muito no ocaso das carreiras atraem mais gente, mesmo vindo sozinhos e tocando com músicos brasileiros, caso do inglês Steve Grimmet.

Alguns músicos reclamam de que falta união entre as bandas, algo que existia nos anos 80, no começo de tudo, “onde todo mundo se ajudava e torcia pelo outro”, ajudando a fomentar uma cena. Rixas entre os principais nomes do metal nacional dos anos 90 – notadamente Angra e Sepultura, e até mesmo, em alguns momentos, envolvendo o Korzus, explicariam em parte o espírito dominante no que poderia ser chamado de cenário nacional.

Não para saber até que ponto isso é verdade. Sempre houve rixa, inveja, rivalidade e competição em qualquer cena musical, de todos os estilos. Responsabilizar supostas desavenças ou mesmo a corrida pelo sucesso entre os grupos não me parece suficiente para explicar a ausência de público nos shows nacionais – até porque gente como o Shadowside nada tem a ver com isso.

Os motivos alegados são variados, mas nenhum parece suficientemente contundente para explicar o que está ocorrendo. Mesmo assim, a cada dia bandas brasileiras quem cantam em inglês e português lançam seus trabalhos em CD ou para download (pago ou gratuito).

Carro Bomba, Golpe de Estado, Uganga, Age of Artemis, Souspell, NervoChaos, Distraught, Project46 e muitos outros continuam investindo em sues trabalhos autorais, gastando dinheiro com estúdio, produção, horas e horas em composição, arte para capa e divulgação, acreditando no valor artístico do que produzem. Vale a pena?

Se observarmos a presença de público dos últimos shows, não vale. Enquanto todo mundo busca uma explicação convincente para entender a fuga de público, é necessário que haja mentes se preocupando em criar maneiras de recuperar a plateia e estimular a proliferação de shows. É necessário, no momento, convencer o fã de que apresentações de bandas nacionais valem a pena, e de verdade.

Que venham mais iniciativas como a dos integrantes do site Wikimetal, iniciativa que se torna uma das mais representativas na valorização dos grupos brasileiros e que deu um grande suporte para a volta do Viper, para a turnê mais recente de Andre Matos e para os shows de Shadowside e SupreMa.

O Wikimetal acredita na possibilidade de resgatar um público há muito afastado dos shows, mesmo com a imensa quantidade de shows internacionais, com as suposta e falaciosa falta de qualidade e das eventuais rixas e rivalidades. A filosofia deste grupo é um exemplo a ser seguido.

Escrito por Marcelo Moreira para o Combate Rock
Publicado online no Estadão/Blogs (10/06/2013)

Barbieri comenta: Esta matéria discute, ou melhor diria, "joga no ar" várias questões para as quais, venho à muitos anos buscando uma solução. Acho que a sociedade brasileira e os nossos roqueiros em particular estão totalmente presos à um capitalismo selvagem, cuja única ideologia é a do dinheiro.  Neste "barco" chamado Brasil, dominado por uma mídia sem escrúpulos, sem a real ideia do que é cultura e que vive à anos, apenas importando o supra-sumo do "white trash" internacional, que consiste em apenas o que há de pior e mais mundano na televisão norte americana e inglesa, naturalmente  fica difícl para os roqueiros brasileiros  que estão dentro deste barco analizar a situação. À meu ver é evidente que é necesseario uma mudança de paradigma, uma revolução interior que permita ao pessoal do rock distanciar-se deste quadro materialista, para perceberem que omitir, desacreditar e criticar o Rock Brasileiro não é ético e nem mesmo oferece nenhuma solução ao problema. Se a mídia, o público, os produtores, os clubes, as casas noturnas ajirem com responsabilidade, certamente o Rock Brasileiro provará que já está mais do que pronto para ocupar o espaço de respeito que merece. Há, só para terminar: CHEGA DE BANDAS COVERS!

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Comentários

Anderson Freitas posted a comment in Monterey Pop Festival (1967): Contado por quem esteve lá!
Saudações! Eu sempre acesso esse site para ler essa história. Fique muito triste agora. O senhor Stan Delk faleceu em 2016.<br />https://www.findagrave.com/memorial/171638689<br /><br />Descanse em Paz!<br /><br />Barbieri Comenta: Ele foi muito gentil comigo, disponibilizou o seu texto e acreditou nas minhas boas intenções! Quanto a matéria ficou pronta ele ficou muito satisfeito! R. I. P.
Neuza Maria posted a comment in Tony Osanah: Um argentino bem brasileiro
Muito interessante essa matéria sobre o Tony Osanah. Sou amiga pessoal dele há mais de 30 anos e hoje relembrei muitas coisas sobre ele, que já havia me esquecido. Grande talento! Ele está em visita no Brasil, esteve em Peruíbe até o dia 24 de janeiro e deverá retornar para a Alemanha no dia 07 de fevereiro. Pena que não programou nenhuma apresentação por aqui.
Daniel Faria posted a comment in JAJI: Homenagem postuma!
Tive o grande prazer de trabalhar com Jaji na decada de 1990. As festas no apartamento dele eram legendárias. Só fiquei sabendo da morte dele em 2017 e fiquei bem triste. Ele faz falta e será sempre honrado pelo público Metal de São Paulo.
Olá Barbieri! Que legal esse artigo, é sempre maravilhoso poder "beber" de fonte sábia. Neste sábado, 13/01/2018, teremos a chance de conferir o ensaio aberto da Volkana no Espaço Som, em São Paulo. A boa notícia é que, a exemplo do Vodu, que voltou à ativa em 2015, as meninas também decidiram se reunir, esperamos ansiosos que depois desse ensaio aberto role outros shows por ai. Um grande abraço!
Já sofremos muito também tentando fazer festivais. Mas resolvemos nos dedicar ao rock nacional de outras formas. Lançamos nosso primeiro disco https://base.mus.br que é para mostrar nosso amor pelo rock brasileiro.
André Luiz Daemon posted a comment in Luiz Lennon (Beatles Cavern Club)
Olá, boa noite! Alguém poderia me dizer o nome da música de abertura do programa Cavern Club que foi ao ar após o falecimento do saudoso e inesquecível Big Boy.<br />Logo após o seu falecimento, outro locutor entrou em seu lugar, e a abertura do programa era com o ex-Beatle Ringo Starr cantando.<br />Se alguém souber, por favor, me mande por e-mail, procuro essa música há muitos anos e signiifca muito para mim.<br />Valeu, abraços aos Beatlemaníacos que nem eu!!
José Carlos posted a comment in Tony Osanah: Um argentino bem brasileiro
Confirma pra mim, eu ouvi falar que o vocal da música Graffitti do Paris Group e de Tony Osanah, e que na realidade a banda nunca existiu. Foi um jingle produzido exclusivamente para a propaganda da calça Lewis e devido ao sucesso na televisão foi forjada uma banda para gravar um compacto e faturar uma grana em cima. É verdade?<br /><br />Oi José Carlos, sinto muito mas não tenho como confirmar esta história, entretanto, sei que nos anos 60 e 70 várias bandas brasilerias gravaram faixas em inglês usando nomes fictícios. Quer dizer, não será surpresa se for verdade!
Em se tratando de ROCK, é sem dúvida A Melhor Banda de ROCK até hoje.Acho o som deles o máximo. Conheci a pouco tempo (2010) e ouço desde então... Muito feras
jeronimo posted a comment in Delpht - Far Beyond (CDR Demo - 1997)
você podia disponibilizar essa demo para download pois ela não se encontra a venda
Parabéns Barbieri!!! ficou perfeito, muito original e harmônico, com o peso certo. Muito gostoso ouvir seu som.
CK posted a comment in Carioca & Devas
Ei! Obrigado por este artigo, ótima história e histórias.<br /><br />Hey! Thank you for this article, great history and stories. <br /><br />Thanks again!<br /><br />CK
Eu tinha 14 para15 anos em 1966 quando estava com outros amigos mais velhos e todos cabeludos na Av.Sao Luiz quando começaram a jogar pedras e saímos correndo pela. 7 de abril descemos a 24 de maio queriam nos matar uma multidão eu entrei no Mappin até chegar a polícia para nós tirar de lá.
De acordo com um set list desse show que achei na minha coleção, as músicas tocadas foram Maria Angélica, Perfume, British, Variações, Dissipações, Súplicas, Boca e Vade Retro.
Muito legal ver isso. Estive em muitos shows aqui relatados. O festival com o Dorsal, Vulcano em Santos, teve uma cena memorável quando o vocalista do Crânio Metálico, da Bahia, entendeu que as pessoas gritavam "côco metálico" para a banda e nao o nome coorreto. Ele se indignou com a falta de respeito e chamou as pessoas as briga. Muitos se solidarizaram com o vocalista da banda e o aplaudiram, repugnando o preconceito. Me lembro ainda que nesse show jogaram confete na apresentação do Vulcano e depois a serragem. Era tempo de ascenção do Death Metal e que muitos ridicularizavam o Black Metal... Cena triste também... Mas foi uma noite ótima. Vulcano mandou bem e Dorsal fez um show primoroso.
Charles Campos posted a comment in Soul of Honor
https://www.youtube.com/watch?v=Sn2ckIF0Gbk
Charles Campos posted a comment in Soul of Honor
Boas recordações de minha adolescência!!!<br />Assisti a uma apresentação do <br />Bodas de Sangue no Espaço Retrô (Senão estiver enganado)<br /><br />Foi uma baita apresentação!!!
CASSIO VIEIRA posted a comment in Carioca & Devas
Pessoal, alguém saberia me dizer se neste 'Ensaio (1977)' é o Tom (acho que o sobrenome dele é De Maia ou algo assim) que está tocando bateria? Ele morava no meu bairro, e o pai dele era dono da escola em que eu estudava, Colégio 7 de Setembro.
"Suspeitei desde o principio..." (Chapolin Colorado)<br /><br />Muito legal o texto, vivo fazendo coisas no automatico e com o maior temor de ter um colapso mental, e tenho tambem aprendido coisas novas sempre, autodidata por natureza. Agora estou mais tranquilo e posso tranquilizar outras pessoas a minha volta, a solucao e a causa do problema sao simples, (talvez eu tenha que me render aos passinhos de dança do ventre de vez em quando...).<br />Parabens pelo texto
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