Rock & Política: Capítulo I - Luiz Gushiken, Tita e os Bailes na PUC

Rock & Política: Capítulo I - Luiz Gushiken, Tita e os Bailes na PUC
escrito por Antonio Celso Barbieri


Barbieri Bancário

Por 13 anos eu fui funcionário do Banco Noroeste do Estado de São Paulo. Sempre trabalhei no Departamento de Cadastro. Comecei em 1969 com apenas 17 anos como Auxiliar de Escriturário e fui subindo. Mais tarde, passei para Escriturário, dei uma parada de um ano para cumprir o Serviço Militar obrigatório e quando voltei, a Divisão de Cadastro estava passando por uma revolução com a introdução dos serviços de análise de balanços. O economista encarregado da mudança achou, erroneamente, que eu tinha talento para os números e fui promovido para chefe do recém criado Setor de Análise de Balanços. Minhas grandes limitações sempre foram matemática e teoria musical. Sou totalmente avesso às tarefas repetitivas. Se trabalhasse numa fábrica, na linha de montagem, nada seria produzido...

Sempre fui um tipo "homem da renascença" sabendo de tudo um pouco mas, nada em profundidade. No princípio da era da especialização eu era um "peixe fora d'água".

Sempre adorei resolver problemas, liderar, organizar e coordenar as coisas. Talvez tenham sidos estas as qualidades que o economista viu em mim. No final, nunca precisei fazer muitos cálculos e acabei somente supervisionando os serviços dos analistas. Nos cursos de "avaliação e desempenho", aprendi bem cedo que, não tinha que saber em profundidade matemática ou análise de balanços. O que eu tinha que ter eram subordinados profissionais e competentes.

Apesar de minhas dificuldades, quero deixar claro que sempre fui e sou muito interessado em matemática e teoria musical. Sinto que estes dois campos do conhecimento estão intimamente relacionados. Sempre vi a criação musical como a arte da manipulação de complexas relações matemáticas. Se, existe alguma entidade superior, responsável pela criação do Universo, certamente ela se comunicará somente através da matemática. Tenho a maior admiração e um pingo de inveja daqueles seres humanos que só com o uso do cérebro conseguem desvendar os segredos do Universo.

Mas, voltando ao Banco, com o crescimento dentro da instituição bancária da área de produtos incluindo o Banco de Investimentos, o Departamento de Cadastro que possuía 2 Divisões ficou mais forte. Aliás, a hierarquia dentro do banco era: Setor, Divisão, Departamento, Unidade e finalmente Diretoria. Então, Wagner que era o chefe de um Setor e também o funcionário que tinha tudo para ser o chefe da Divisão, foi transferido para uma outra área dentro da mesma Unidade. Como eu era o próximo na linha de sucessão, sabendo que a palavra chave no Banco era “redução de custos”, sugeri fundir as 2 Divisões em uma só. Fiz um plano mostrando que o banco ia economizar sem comprometer a qualidade do serviço e fui promovido a chefe da Divisão de Cadastro.

O homem duplo

Não consigo entender como consegui enganar tanta gente por tanto tempo. Todos que chefiavam os cargos de Divisão para cima eram formados em Economia e Administração de Empresas pela Faculdade Getúlio Vargas. Todo mundo gastava um dinheirão em ternos sofisticados. Percebi logo que daquele ponto em diante, só subia de cargo quem jogava no time de futebol de salão da Unidade ou frequentava as casas noturnas e joguinhos de roleta com os bacanas da "panela".  Na hora do almoço este povo mais parecia um bando de baratas, todos andando na rua escondidos orgulhosos atrás dos seus óculos Ray-ban.

Eu, por minha vez, era a ovelha negra, barbudo, cabeludo, com a orelha furada à muitos anos (o brinco ficava no bolsinho do paletó e era colocado na orelha imediatamente quando saia do trabalho). Só tinha um par de gravatas com os nós já feitos à um tempão. Meu “uniforme” consistia em dois paletós velhos e três  calças surradas. Aliás, adorava minha gravata fininha modelo “rock’n’roll’ anos 50.  Também não desgrudava da minha bolsa velha modelo saco de couro cru que costuma carregar cruzada nas costas. No trabalho, o amigo Benê me chamava de Barbí o Daniel Boone... Para completar o quadro, eu estudava à noite na Faculdade de Comunicação Social Anhembi/Morumbi fazendo Comunicação e Marketing. Quer dizer, no Banco todo mundo era da área de Economia e eu era da área de Humanas.

Quando saia do trabalho, geralmente ia atrás dos sebos de discos na busca das raridades. Era o meu vício! Naquela época a coisa não estava toda concentrada nas Grandes Galerias (Hoje mais conhecida como Galeria do Rock).  Os sebos eram mais primitivos e espalhados pelo centro da cidade. Geralmente, um sebo era apenas uma sala com pilhas de discos pelo chão. Os donos também não eram tão especializados e muitas vezes sai emocionado com a preciosa “bolacha preta” debaixo do braço.

O Sindicato dos Bancários

Politicamente, vivíamos momentos muito difíceis com os militares controlando tudo com mão de ferro. Vivíamos os últimos anos da ditadura militar e a sociedade estava medindo forças, devagarzinho forçando a "abertura". O Sindicato dos Bancários tinha que fazer a negociação salarial com muito cuidado, pois a ameaça de “intervenção” estava sempre no ar.

Eu sei que os bancos bateram o pé e negaram o aumento pedido pelo Sindicato. Dentro do Sindicato, na diretoria, existiam dois líderes comandando as coisas; O Luiz Gushiken e a Tita. Eles eram os mais radicais. Era o tempo da Libelú e do Jornal “O Trabalho” seguidores dos pensamentos do Leon Trotsky.  Era o começo do PT. Eu fui nas assembléias e acompanhei de longe o trabalho dos dois líderes. A Tita era jovem,  atraente e guerreira. Eu platonicamente ficava só de olho.

A greve foi decretada e a polícia saiu para rua, pancadaria para todo lado, gás lacrimogêneo e eu, de madrugada na porta de um banco, para não deixar os funcionários da noite entrar para o trabalho de compensação de cheques, fazendo cordão humano com muita gente e aproveitando a oportunidade para segurar na mão da Tita. Do outro lado da rua a tropa de choque louquinha para baixar o sarrafo. Vocês podem imaginar, meu coração batia forte de emoção por vários motivos.  Foram noites emocionantes. Depois da pancadaria noturna e do jogo de esconde-esconde com a polícia nas ruas do centro, no outro dia de manhã, eu ia ao trabalho porque alguém tinha que segurar as pontas dos meus funcionários. Como eu controlava todo um andar num outro prédio, isolado do Departamento. Durante o dia, muitos dos meus funcionários marcavam o ponto e saiam para a rua para enfrentar a polícia. Quando perguntado, eu dizia para o chefão que na minha Divisão não tinha faltado ninguém.

Os militares mandaram avisar o Sindicato que se não afastassem o Gushiken e a Tita, eles iriam intervir. O melhor então, foi os dois afastarem-se temporariamente para não prejudicar o Sindicato. O problema é que, como diretores afastados  eles não poderiam mais usar os serviços gratuitos da gráfica do Sindicato.

O Salão Beta da PUC

Gushiken e a Tita precisavam de dinheiro para continuar a luta sem usar o Sindicato. Decidimos fazer uns bailes para arrecadar dinheiro. Eu tinha o equipamento de som, a iluminação e a música. O local conseguido foi o Salão Beta da PUC que fica exatamente embaixo do Teatro TUCA. O Salão Beta ficava dentro do campus da faculdade que por sua vez já estava tendo um monte de problemas com os militares que estava infiltrados e observando tudo.

O primeiro baile foi muito bom. O lugar estava lotado com umas mil pessoas e eu tive liberdade total para fazer a seleção musical.  Fiz uma salada total, rock, samba, punk, funk, MPB, de tudo mas sempre coisa boa, rara e de qualidade.  Não seguia nenhuma lógica e cada música era uma surpresa para os ouvintes.

No segundo baile, nem preciso dizer que a casa estava cheia. Infelizmente saiu um quebra-quebra bravo que acabou com a noite. Um monte de gente forte com cabelos cortados quase escovinha, vestidos com calça jeans e camisa xadrez mas usando botas pretas brilhando arrumaram uma briga atrás da outra.

No terceiro baile alguém jogou uma bomba de gás lacrimogêneo no meio do salão, criou um pânico danado, todo mundo saiu correndo e ponto final na festa.

Como eu ficava isolado, nos controles do som, num quartinho, num canto lá nos fundos do salão, tudo indicava que se continuasse o crescendo da violência era bem possível que eu acabasse sendo agredido ou morto. Coloquei para o Gushiken os meus receios e ele prometeu garantir-me a segurança.

Barbieri salvo pelo Gushikin

No quarto baile parece que toda a polícia militar tinha vindo em peso. Os caras não eram muito criativos nos disfarces e podíamos reconhece-los à um quilometro de distância. Sabíamos que muita gente ia sair ferida e o melhor foi cancelar o evento e assim evitar um confronto.

A coisa estava seríssima e parece que agora seria a vez do Técnico de Som (eu!!!) receber um “presente” dos órgãos de segurança. Desligamos o som mas, centenas e centenas de pessoas ficaram dentro do salão com medo de sair e passar pelo meio da turma da repressão.

Eu sei que foi tudo muito rápido e como num filme. O Luiz Gushikin com um grupo jovens armados com pedaços de pau, veio na salinha de som, puseram-me no meio do grupo criando um cinturão de proteção e me tiraram do salão para dentro de uma perua Kombi que saiu em disparada.

Imediatamente, a Kombi passou a ser seguida por um Fusca cheio de gente.

Era tarde da noite e antes de chegar na minha casa o Gushikin entrou por umas ruas desertas com o Fusca seguido bem atrás. De repente a Kombi deu uma freada, as portas abriram-se e todo mundo saiu correndo atrás do Fusca dando pauladas na lataria do carro enquanto o veículo afastava-se em marcha ré na maior velocidade. Eu fiquei dentro da Kombi só olhando...

Bom, depois da fuga dos perseguidores eu fui deixado em  casa são e salvo. Neste dia o Luiz Gushiken ganhou o meu respeito.

No outro dia voltei ao Salão Beta da PUC onde consegui recuperar parte do equipamento. Todas as fitas tinham sido roubadas, Os falantes das caixas acústicas foram rasgados e parte da iluminação destruída.  Na época lamentei muito a perda das fitas pois tinha muita coisa rara e, não tinha os originais.

Muitos anos se passaram e, felizmente, consegui recuperar todas as músicas que tinha gravado naquelas fitas.  Tenho tudo aqui comigo...

Este foi o último baile do que fiz para o Luiz Gushiken e a Tita.

Pensamentos finais

A Tita nunca passou de uma fantasia romântica na minha imaginação. Eu fui sempre uma pessoa emocionalmente retardada, levou muito tempo e três casamentos para eu encontrar meu caminho.

Nunca, na verdade tive uma conversa remotamente íntima com ela. Mesmo porque, depois do que passou no Salão Beta, ninguém aproximou-se para agradecer-me ou pelo menos dizer um "sinto muito" pela minha perda material. Nunca mostraram interesse em dizer-me quando arrecadaram financeiramente ou para que foi usado os recursos.

Evidentemente fiquei com a idéia de que fui usado. Da mesma forma que me senti deslocado no Banco também me senti deslocado com o pessoal militante. Com este povo "politizado" sempre tive aquela sensação de que eles eram paternalistas e achavam que eu era uma pessoa incapaz de entender o "Grande Plano" deles. Na verdade, no final das contas, George Orwell é que está certo. Leia a "Revolução do Bichos" que vocês saberão do que estou falando.

Logo depois desta aventura, a greve dos bancários acabou e eu distanciei-me do Sindicato. Algum tempo depois, fiz um acordo com o Banco, fui demitido e recebi um bom dinheiro que apliquei todo abrindo uma loja de discos chamada Rocker no Itaim Bibi em São Paulo.

Como não entendia nada de negócios a Rocker faliu... Mas, esta é uma outra história...


A passeata na Praça do Rock.

De qualquer forma, observando o Gushiken e a Tita eu aprendi muito à respeito de controle de massa em passeatas, como usar e controlar as palavras de ordem tipo "A praça é nossa!", "Roqueiro também merece respeito!, "Roqueiro unido jamais será vencido!", etc. O uso da palavra de ordem não só servia para transmitir a mensagem mas também para fazer o povo envolvido sentir-se participativo e canalizar a violência de forma construtiva. Estas lições viriam a ser muito úteis, mais para a frente, quando fui apresentador da Praça do Rock no Parque da Aclimação, no Rock na Sé e também liderando outras manifestações de protesto em favor do rock nacional.

Pensando bem, que voltas o mundo dá! Quem poderia imaginar que o Luis Gushiken acabaria sendo um personagem de destaque, um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores, partido este que um dia viria governar o Brasil.

Antonio Celso Barbieri

Não deixe de ler os outros capítulos desta história!

Comments   

0 #1 Guest 2012-08-01 16:37
Caramba!!!
Encontrar o meu antigo "chefe" foi uma suspresa enorme...me fez voltar ha um tempo bom...da minha juventude...O bene...o fonseca...O Wagner... a Virgina...a Tereza... Enfim, num momento dificl da minha aos 55 anos...emprego perdido a 5 dias...Nada melhor poderia ter-me acontecido. Sempre achei que Barbieri estava a passos a frente de nós...Tinha bronca de ti...era um chefe difícil! Mas admirava a tua maneira de ser...roqueiro convicto! é isso meu amigo...Me fez um bem muito grande ter-le encotrado...mes mo estando tu em Londres e eu em Curitiba...Apes ar de ser Gaúcho e estar longe dos meus!
Abraço
Joel
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