Nascimento, Vida, Paixão e Morte do Rock no Brasil

Nota do Barbieri: Nesta matéria escrita pelo caro Cichetto, ele pinta um quadro deprimente e sombrio do Rock Brasileiro. À primeira vista parece "um balde de água fria" ou "um tapa na cara" mas, na essência deste texto, a "moral da história é": Não se pode esperar, pretenciosamente que o povo venha ao rock.  Se o rock quer sobreviver tem que ir em direção ao povo! Fica claro nesta matéria que o rock é uma manisfestação da classe média responsável por diferenciar-se e excluir-se do povão que é a grande maioria da população brasileira. Cichetto deixa claro que não é a favor da comercialização, simplicação e estupidificação do rock nacional. Neste texto duro, ele não aponta soluções mas, apenas "poêm o dedo na ferida" e mostra onde está o problema. Se o caro leitor discordar do ponto de vista do Cichetto ou, tiver alguma solução para este problema sério, solicito-lhe que use este espaço para uma discução inteligente e saudável! Rock'n'roll!!!  

Antonio Celso Barbieri

Nascimento, Vida, Paixão e Morte do Rock no Brasil
Escrito por Luiz Carlos Barata Cichetto

A história do Rock no Brasil começou ainda em 1955, com a gravação de "Rock Around The Clock" de Bill Halley, com o título traduzido para "Ronda das Horas" pela cantora de sambas de fossa chamada Nora Ney. A primeira das primeiras gravações de Rock em português foi feita dois anos depois com Cauby Peixoto ("Rock´n´Roll em Copacabana"). Nessa mesma época, conjuntos como Luizinho e Seus Dinamites, Betinho e Seu Conjunto e outros fizeram suas gravações naquele ritmo que chegou a ser proibido pelos governantes que o consideravam "obsceno". Nos anos 1960, com a chegada da Ditadura Militar com sua censura moral e política por um lado e por outro da Jovem Guarda, uma tentativa de se trazer o tal de Rock’n’Roll para cá de uma forma mais amena e pasteurizada, o Brazilian Rock se arrastou, embora muita gente teimasse em abrir esse espaço. Nos anos 70 o Rock viveu no Brasil seu maior momento, ao contrário da história contada hoje à revelia dos fatos. A explosão do Rock Progressivo no mundo e a abertura dos portos (e aeroportos) brasileiros a músicos estrangeiros no auge da carreira a partir da primeira metade da década, trouxeram às terras abaixo da linha do Equador a chance de se produzir e criar Rock, mesmo que debaixo das botas militares e sem alcance a equipamentos e instrumentos de boa qualidade, cujas importações eram proibidas. E surgiram então centenas e centenas de bandas, começou-se a pensar e realizar festivais de médio e grande porte e as gravadoras abriram um pouco as portas às bandas de Rock.

festival de aguas claras
Foto: http://aguasclarasfestival.blogspot.com.br

Parecia que o Rock no Brasil estava mesmo arraigado e estabelecido como a opção dos "jovens" de todas as idades. O Terço e Os Mutantes tocavam Beatles no Teatro Municipal de São Paulo, surgiam festivais como os de Iacanga em São Paulo e Hollywood Rock no Rio de Janeiro. Ginásios de futebol, como o do Palmeiras, da Portuguesa e do Corinthians e teatros particulares e das prefeituras recebiam festivais e temporadas de bandas, sempre lotados. “Banana Progressiva” e Festival Latino Americano de Rock”, temporadas do Made In Brazil e Chave do Sol no Paulo Eiró e até casas especificas com a lendária “Tenda do Calvário” e salões de Rock aos borbotões tocando Rock pelas tarde e noites adentro como a Led Slay, Fofinho, Tarkus, Templo do Rock, Paraíso dos Loucos e muitas outras onde além de discos de bandas estrangeiras sempre abriam espaço para o Rock Brasileiro.  E as bandas, empurradas e entusiasmadas com esses espaços e a presença do publico surgiam aos montes. Ave Sangria, Chave do Sol, Rock da Mortalha, Lírio de Vidro, Arnaldo e A Patrulha do Espaço, Terço, Novos Bahianos, Vímana, Joelho de Porco e muitas outras surgiam e tinham seu publico fiel e garantido.

Mas, ainda no final dos 70, a chegada do Punk ao Brasil, apesar de trazer novos ares, trouxe consigo um furacão que viria a derrubar todos os sonhos até então. O "movimento" Punk era um fenômeno puramente inglês, com causas e consequencias locais. Aqui, apenas uma caricatura mal feita, sendo responsável por uma divisão nas trincheiras já não muito resistentes do Rock Brasileiro. As tardes de Rock na Estação São Bento do Metrô, criadas como espaço de bandas emergentes e independentes, logo foi dominada pela violência gratuita de uma leva de Punks o que culminou com o fechamento do espaço.

Até que na década de 80, a indústria fonográfica e a mídia global começaram a polir o Rock, transformando em algo mais palatável ao "gosto brasileiro".  Isto significava irrediavelmente uma infantilização do Rock, ou melhor, uma idiotização do Rock, tornando-o mais comercializável. E da-lhe então bandas infantilóides como Blitz, RPM, Capital Inicial, Legião Urbana. O "Rock In Rio" tido como um marco do Rock no Brasil, foi sim um divisor de águas, sendo que a partir dele, tudo degringolou trazendo uma quantidade de bandas querendo conquistar seu espaço tocando o que foi chamado de "Pós Punk", “Proto-Isso” Prato-Aquilo”. Estava criada a cultura dos rótulos e consequentemente a divisão do “Exército do Rock” em pequenas divisões de uma infataria fraca e sem comando. Perdidos.

Paralelamente o "Metal" começava a tomar conta das cabeças, mas o que até então era desenhado como "Rock Nacional" foi transformado em rascunho, passando a maior parte a ser meras copias de estilos, letras, gestos e atitudes das bandas e artistas estrangeiros.

Chegamos assim aos anos 90, uma década perdida sob todos os aspectos, definidos pela frustração logo no primeiro ano com a primeira eleição de Presidente da República das ultimas décadas. E tal e qual a política, o Rock Brasileiro foi de fracassos a fraudes passando pela insipiência e total falta de criatividade. Com o inicio do terceiro milênio, o avanço tecnológico e as facilidades na veiculação e acesso à informação poderia ter trazido às terras brasileiras no que tange ao Rock uma sedimentação. Mas o que ocorreu foi justamente o contrário. Os artistas das bandas "antigas" se cansaram das dificuldades e muitos abandonaram o barco, outros trocaram de bandeira e foram ganhar dinheiro mais fácil. A história foi se perdendo, as referências apagadas. Pouco sobrou e também pouco interessava a essa "nova" legião de "roqueiros" que tinham fácil acesso a instrumentos, sistemas de gravação e distribuição de musica.

Iludidos por uma fama de "15 minutos", a maioria optou pelo caminho fácil e pouco trabalhoso. A forma passou a ser mais importante que o conteúdo, a vaidade mais que qualidade e o tesão maior que a emoção. Poucos sobraram com aquela disposição de transformar o Rock no Brasil senão em dominante, mas em opção. Senão em hegemônico, mas como parte de um harmônico caldo cultural, que é afinal o que diferencia uma grande cultura de uma falácia cultural. Essa mesma sempre fomos.

E por fim, analisando o contexto histórico do Rock Brasileiro, percebemos que não foram as gravadoras e a grande mídia apenas os únicos responsáveis pela morte precoce do Rock por cá. A falta de visão e de cultura, aliada a vaidade excessiva da maior parte dos músicos brasileiros foi o grande responsável por esse falecimento. Explicando: enquanto o Rock nos Estados Unidos da América surgiu dos guetos pobres, dos artistas de Blues que buscavam na musica a expressão de sua dor e de sua emoção maior, aliados a musica caipira (Folk) que remetia às também dores da terra e ao Jazz, musica de bêbados, vagabundos e intelectuais, o Rock no Brasil foi tomado pelas elites jovens, daqueles filhos da burguesia cansados de escutarem a Musica Popular Brasileira de seus pais. Eram eles, e apenas eles, que tinham acesso a comprar instrumentos, equipamentos e discos importados. E foram eles que tomaram para si a "missão" de tocar Rock. Isso fica patente nos temas, nas letras da maioria da bandas brasileiras até hoje em dia. O trinômio "Carrão/Moto&Mulher&Bebida" sempre foi a temática principal, como se outras preocupações não fizesse parte do seu dia-a-dia. Atitude típica de classe média/alta.

Tal afastamento da realidade da imensa maioria da população, com temas e instrumentos que eram inacessíveis a ela, fez com que o Rock não atingisse as periferias, que continuava a escutar Samba e outros gêneros mais “populares”, com temática e instrumental mais próximos de sua própria realidade. Era muito mais fácil para um garoto pobre da periferia chegar a comprar um violão e tocar Samba falando de sua realidade, do que uma cara guitarra ou baixo e falar sobre algo que não lhe dizia muito respeito, como a vida na estrada de um motociclista pilotando uma potente Harley Davidson. O Pagode, uma versão "Pop", ou seja mais simplificada do estilo tomou seu lugar, principalmente nas faixas de idade mais baixas. A chegada do "Rap" e "Hip Hop" deu a molecada da periferia o lugar que o Rock deveria ter tomado bem antes, com temas e instrumental acessível. O moleque do subúrbio não queria de fato saber do Punk, pois inconscientemente ele sabia que não tinha a ver com sua realidade. E assim se fez, e assim foi.

E enquanto os roqueiros brasileiros, que, aliás, nunca tiveram nada de bandidos, se debatiam para ter espaços sem deixar seu próprio quadrilátero nos bairros de classe média e alta, esses "movimentos" tomaram literalmente de assalto às mentes da garotada. O chamado "Funk Carioca", que nada mais é do que um reflexo de uma sociedade que oscila entre sexo fácil e drogas baratas, usa disso como instrumento de fuga das dificuldades cotidianas. Enquanto isso, o Rock brasileiro ainda fala do mesmo trinômio e acrescenta bruxas, dragões alados e duendes.

Um parêntese com relação a uma frase decantada, requentada e repetida por muitos músicos e artistas, de autoria de Milton Nascimento: “Todo artista tem de ir aonde o povo está.” Sob o ponto de vista de postura cultural e política, um artista tem que ser provocador e inovador, ditando tendências culturais, nunca ir na tendência da manada popular. Mas isso tem que ser levado “onde o provo está” e não esperar que este venha até ele. Em outras palavras, o Rock tinha que ter ido até as periferias, aos guetos mais pobres e mostrar ao “povo” seu espírito provocador e inovador, não esperar que ele saísse da periferia por livre e espontânea vontade e os fosse procurar em seus redutos. Mas a arrogância e a preguiça da maioria dos artistas fez com que preferissem ficar no papel de um Maomé esperando que a montanha chegasse até ele.

Enfim, o Rock no Brasil perdeu sua grande oportunidade de ser o que foi na maior parte dos paises onde se estabeleceu e se firmou: um catalisador de idéias e cultura, um aglutinador de pessoas e um porta-voz dos jovens de todas as idades. O Rock perdeu o trem da história do Brasil. E esse trem não para em todas as estações. "Cuidado com o vão entre o trem e a plataforma."

Comments (2)

Amigo Barbieri! Grato pela publicação do meu texto e principalmente pela "apresentação" do mesmo. Realmente, eu não aponto a solução, pois francamente não a enxergo. Não acredito que exista, sendo mais franco e sincero. Acredito que o Rock...

Amigo Barbieri! Grato pela publicação do meu texto e principalmente pela "apresentação" do mesmo. Realmente, eu não aponto a solução, pois francamente não a enxergo. Não acredito que exista, sendo mais franco e sincero. Acredito que o Rock Brasileiro esteja realmente morto. E não existe vida pós morte. Mas, estarei disposto a escutar todos aqueles que me demonstrem, de forma consciente, que estou errado. Abraço a todos.

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Comentários

Anderson Freitas posted a comment in Monterey Pop Festival (1967): Contado por quem esteve lá!
Saudações! Eu sempre acesso esse site para ler essa história. Fique muito triste agora. O senhor Stan Delk faleceu em 2016.<br />https://www.findagrave.com/memorial/171638689<br /><br />Descanse em Paz!<br /><br />Barbieri Comenta: Ele foi muito gentil comigo, disponibilizou o seu texto e acreditou nas minhas boas intenções! Quanto a matéria ficou pronta ele ficou muito satisfeito! R. I. P.
Neuza Maria posted a comment in Tony Osanah: Um argentino bem brasileiro
Muito interessante essa matéria sobre o Tony Osanah. Sou amiga pessoal dele há mais de 30 anos e hoje relembrei muitas coisas sobre ele, que já havia me esquecido. Grande talento! Ele está em visita no Brasil, esteve em Peruíbe até o dia 24 de janeiro e deverá retornar para a Alemanha no dia 07 de fevereiro. Pena que não programou nenhuma apresentação por aqui.
Daniel Faria posted a comment in JAJI: Homenagem postuma!
Tive o grande prazer de trabalhar com Jaji na decada de 1990. As festas no apartamento dele eram legendárias. Só fiquei sabendo da morte dele em 2017 e fiquei bem triste. Ele faz falta e será sempre honrado pelo público Metal de São Paulo.
Olá Barbieri! Que legal esse artigo, é sempre maravilhoso poder "beber" de fonte sábia. Neste sábado, 13/01/2018, teremos a chance de conferir o ensaio aberto da Volkana no Espaço Som, em São Paulo. A boa notícia é que, a exemplo do Vodu, que voltou à ativa em 2015, as meninas também decidiram se reunir, esperamos ansiosos que depois desse ensaio aberto role outros shows por ai. Um grande abraço!
Já sofremos muito também tentando fazer festivais. Mas resolvemos nos dedicar ao rock nacional de outras formas. Lançamos nosso primeiro disco https://base.mus.br que é para mostrar nosso amor pelo rock brasileiro.
André Luiz Daemon posted a comment in Luiz Lennon (Beatles Cavern Club)
Olá, boa noite! Alguém poderia me dizer o nome da música de abertura do programa Cavern Club que foi ao ar após o falecimento do saudoso e inesquecível Big Boy.<br />Logo após o seu falecimento, outro locutor entrou em seu lugar, e a abertura do programa era com o ex-Beatle Ringo Starr cantando.<br />Se alguém souber, por favor, me mande por e-mail, procuro essa música há muitos anos e signiifca muito para mim.<br />Valeu, abraços aos Beatlemaníacos que nem eu!!
José Carlos posted a comment in Tony Osanah: Um argentino bem brasileiro
Confirma pra mim, eu ouvi falar que o vocal da música Graffitti do Paris Group e de Tony Osanah, e que na realidade a banda nunca existiu. Foi um jingle produzido exclusivamente para a propaganda da calça Lewis e devido ao sucesso na televisão foi forjada uma banda para gravar um compacto e faturar uma grana em cima. É verdade?<br /><br />Oi José Carlos, sinto muito mas não tenho como confirmar esta história, entretanto, sei que nos anos 60 e 70 várias bandas brasilerias gravaram faixas em inglês usando nomes fictícios. Quer dizer, não será surpresa se for verdade!
Em se tratando de ROCK, é sem dúvida A Melhor Banda de ROCK até hoje.Acho o som deles o máximo. Conheci a pouco tempo (2010) e ouço desde então... Muito feras
jeronimo posted a comment in Delpht - Far Beyond (CDR Demo - 1997)
você podia disponibilizar essa demo para download pois ela não se encontra a venda
Parabéns Barbieri!!! ficou perfeito, muito original e harmônico, com o peso certo. Muito gostoso ouvir seu som.
CK posted a comment in Carioca & Devas
Ei! Obrigado por este artigo, ótima história e histórias.<br /><br />Hey! Thank you for this article, great history and stories. <br /><br />Thanks again!<br /><br />CK
Eu tinha 14 para15 anos em 1966 quando estava com outros amigos mais velhos e todos cabeludos na Av.Sao Luiz quando começaram a jogar pedras e saímos correndo pela. 7 de abril descemos a 24 de maio queriam nos matar uma multidão eu entrei no Mappin até chegar a polícia para nós tirar de lá.
De acordo com um set list desse show que achei na minha coleção, as músicas tocadas foram Maria Angélica, Perfume, British, Variações, Dissipações, Súplicas, Boca e Vade Retro.
Muito legal ver isso. Estive em muitos shows aqui relatados. O festival com o Dorsal, Vulcano em Santos, teve uma cena memorável quando o vocalista do Crânio Metálico, da Bahia, entendeu que as pessoas gritavam "côco metálico" para a banda e nao o nome coorreto. Ele se indignou com a falta de respeito e chamou as pessoas as briga. Muitos se solidarizaram com o vocalista da banda e o aplaudiram, repugnando o preconceito. Me lembro ainda que nesse show jogaram confete na apresentação do Vulcano e depois a serragem. Era tempo de ascenção do Death Metal e que muitos ridicularizavam o Black Metal... Cena triste também... Mas foi uma noite ótima. Vulcano mandou bem e Dorsal fez um show primoroso.
Charles Campos posted a comment in Soul of Honor
https://www.youtube.com/watch?v=Sn2ckIF0Gbk
Charles Campos posted a comment in Soul of Honor
Boas recordações de minha adolescência!!!<br />Assisti a uma apresentação do <br />Bodas de Sangue no Espaço Retrô (Senão estiver enganado)<br /><br />Foi uma baita apresentação!!!
CASSIO VIEIRA posted a comment in Carioca & Devas
Pessoal, alguém saberia me dizer se neste 'Ensaio (1977)' é o Tom (acho que o sobrenome dele é De Maia ou algo assim) que está tocando bateria? Ele morava no meu bairro, e o pai dele era dono da escola em que eu estudava, Colégio 7 de Setembro.
"Suspeitei desde o principio..." (Chapolin Colorado)<br /><br />Muito legal o texto, vivo fazendo coisas no automatico e com o maior temor de ter um colapso mental, e tenho tambem aprendido coisas novas sempre, autodidata por natureza. Agora estou mais tranquilo e posso tranquilizar outras pessoas a minha volta, a solucao e a causa do problema sao simples, (talvez eu tenha que me render aos passinhos de dança do ventre de vez em quando...).<br />Parabens pelo texto
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