Avenger: Uma das primeiras bandas do Heavy Metal Brasileiro!


Avenger, uma das primeiras bandas do Heavy Metal Brasileiro!
escrito por Antonio Celso Barbieri

pic004b
Gilson, Roberto (Bob), Paulo Egydio e Luiz Teixeira. Fotos branco & preto: Barbieri

A banda Avenger liderada pelo vocalista Paulo Egydio Rossi surgiu em 1983 no bairro de Guarulhos em São Paulo. Além de Paulo, a banda contava com Roberto (Bob) na guitarra, Luiz Teixeira no baixo e Gilson na bateria. Assim como muitas outras bandas paulistas, o grupo fazia um Heavy Metal competente e bem tradicional influenciado pelo estilo das bandas inglesas do mesmo período. Estilo este, que no seu início teve o nome “The New Wave of Heavy Metal”.

Esta banda, infelizmente, seguindo a norma geral, não conseguiu sobreviver por muito tempo. Entretanto, no curto tempo que esteve ativa, conseguiu lançar duas músicas na famosa coletânea SP Metal produzida pelo Luis Carlos Calanca da loja e gravadora Baratos Afins. Além disso, ainda teve uma música incluída na coletânea São Power produzida por mim e lançada pela loja e gravadora Devil Discos.

Lamentavelmente, no começo dos anos 80, a produção e gravação de rock no Brasil ainda estava apenas engatinhando. Com os estúdios mais acostumados a mixar música religiosa, sertaneja e MPB, as gravações e mixagens do rock nacional sempre deixaram muito à desejar. Faltava o peso, o vocal estava sempre muito mais para frente e a idéia geral, era a de que rock era muito barulhento e tinha que ser “melado” para tocar nas rádios.  As bandas de rock mais pareciam ratos de laboratório nas mãos de técnicos inexperiêntes. Como as bandas não tinham nenhuma experiência com estúdios de gravação e, a maior parte, nem dinheiro para bancar as próprias produções, a coisa ficava mesmo na mão do produtor da gravadora que, também não tinha experiência e, nem sempre era um grande aficionado deste estilo.

Tendo dito isto, me surpreende a qualidade e quantidade do legado artístico dos Mutantes, banda da geração anterior que teve excelentes albuns lançados nos anos 70. Os Mutantes devem ser julgados não só pela qualidade artística mas também pela inovação e pioneirismo do seu trabalho.

Bob, a identidade secreta do guitarrista

pic002b

O banho de Champagne!

Mas, voltando ao Avenger, estas duas músicas gravadas para a colêtanea SP Metal, pelos motivos acima expostos, sofreram na gravação e mixagem não conseguindo capturar o melhor que a banda tinha a oferecer.

Ao vivo, a coisa era bem diferente. O Avenger agradava muito com um show energético e cheio de surpresas.

Normalmente todo concerto incluía covers de bandas como Judas Priest e Metallica e sempre terminava, como nas corridas de Formula 1, com um banho de Champagne na platéia.

Fui o empresário da banda por um bom tempo e, durante o tempo que andei nos controles, mantive a banda ocupada promovendo shows na capital de São Paulo e cidades vizinhas.

A falta de teatros para shows obrigou-me a invadir espaços até então nunca explorados pelo Heavy Metal como por exemplo um show que fizemos numa casa noturna chamada Wal Improviso que existia lá na Rua Frederico Steidel perto do Largo do Arouche.

Como o Wal Improviso começava funcionar somente depois da 1 da manhã indo fechar só lá pelas 7 ou 8 horas da matina, convencí o dono a nos ceder o espaço numa tarde de sábado. O show foi um sucesso. Como pagamento a banda fez um show de madruga para o público da casa que infelizmente foi apático e não receptivo.

Aprendí uma lição importante. Pensar duas vezes antes de colocar meus artístas na frente de um público ignorante ao estilo musical que sera apresentado.

Falando em estilo, nesta época o Heavy Metal não era o único estilo em voga. O Punk estava comendo solto na periferia e, nós tivemos mais que um problema com o radicalismo dos punks e skinheads.


Paulo Egydio e Luiz Teixeira

pic003b

Luiz Teixeira e Paulo Egydio

No Teatro Conchita de Morais no Município de Santo André, na entrada do teatro, por uma fração de segundo, fiquei literalmente paralizado olhando este punk com cabelo cortado ao estilo moicano, com sua machadinha levantada à menos de um metro da minha cabeça pronto para acabar comigo.

Enquanto o show da banda de abertura acontecia, na portaria, eu tentava controlar sozinho uma gang de pelo menos uns 30 punks que queriam entrar sem pagar. O problema não era o pagamento, pois estava claro que o que eles queriam mesmo era causar desordem e quebrar tudo dentro do teatro. Foi durante o show do Avenger que a violência explodiu.

Só fui salvo porque o barulho das várias portas de vidro da frente teatro vindo abaixo à botinadas pelos seus parceiros desviou-lhe a atenção, dando-me tempo para correr, subir no palco, pegar o microfone das mãos do Paulo e convocar a platéia para a luta.

No meio dos shows do Avenger, como parte da performance, na hora do solo do guitarrista durante a apresentação da música “999”, um monge encapuçado geralmente entrava no palco com uma picatera com as pontas pintadas em vermelho,  aparentando sangue.

Depois de desafiar a platéia, o monge usava a picareta como guitarra e simulava um duelo de guitarras com Bob, o guitarrista.

Era um truque teatral que sempre funcionava...

Quando invadí o palco, pegando o microfone e chamando o público para a “guerra”, peguei a picareta e saí correndo atrás dos punks seguido pela platéia. Já na praça em frente do teatro com os punks fugindo à distância descobrí que estava só.

Olhei para trás só para descobrir que o público ainda estava todo dentro da entrada do teatro com caras de assustados observando o estrago. Mas que covardões!


Paulo Egydio e Roberto (Bob)

pic005b

Para ser franco, o pessoal do metal nunca foi um pessoal bom de briga. Os punks na sua maioria, eram movidos a pinga ou anfetaminas enquanto que o público do rock pesado na sua maioria vinham aos shows "caretas", movidos à cerveja ou no máximo um fuminho. Tudo gente pacífica! Em toda a minha carreira nunca tive um problema de violência com o pessoal do metal nos meus shows. Aliás, em termos de classe social a coisa estava mais ou menos dividida assim:


Plafleto 1

Classe Pobre: Punk/Pinga/Anfetaminas.
Classe Média: Rock/Cerveja/Fumo.
Classe Rica: Bossa Nova & Jazz/Whiskey/Cocaína

OK! Divaguei de novo! Mas, voltando ao teatro, a polícia até que enfim apareceu e pegou todos os punks numa estação de trem próxima. Foi bom porque se não achassem os culpados eu teria, como responsável, que pagar por todo o prejuízo.


Plafleto 2

Infelizmente, o show do segundo dia teve que ser cancelado e acabamos perdendo dinheiro com o aluguel do equipamento de som.

Imaginem só a cena: Eu correndo com uma picareta com as pontas "ensanguentadas" atrás de um punk com cabelo cortado tipo moicano e segurando uma machadinha. Sinto vontade de rir mas a verdade é que naquele momento a coisa foi séria. O que é que eu faria com a picareta se o punk parasse e me enfrentasse? Sei lá! É bom nem pensar...

Capa da Coletânea SP Metal I

A música “Barrados no Baile” do cantor Eduardo Dusek estava fazendo sucesso nas rádios e como resultado no jornal local saiu a manchete: “Punks barrados no baile quebram tudo!”.

Quero deixar claro que apesar de ter tipo problemas com certos elementos radicais, sempre gozei do respeito dos músicos das principais bandas punks daquele período como por exemplo João Gordo (Ratos de Porão), Fábio (Olho Seco), Redson (Cólera), Clemente (Inocentes). Aliás, as gangs punks eram os principais inimigos do seu próprio movimento.

Naquele período, o número de bandas de rock pesado aumentaram consideravelmente e percebí que, como diz o ditado "uma andorinha só não faz verão". A idéia era dar uma força para o movimento e assim ver se conseguia acordar a imprensa, rádios, emissoras de TV e gravadoras.

Parei de trabalhar com a banda Avenger pouco antes dos seus músicos começarem as gravações para a coletania SP Metal e, continuei a minha carreira de produtor de shows indo, na sequência, produzir as duas temporadas do Projeto SP Metal no Teatro Lira Paulistana onde tocaram dezenas e dezenas de bandas. Muitos outros projetos se seguiram, sempre envolvendo um grande número de grupos.

pic006b

Confesso que, conhecendo tão bem o som do Avenger, também fiquei decepcionado com o resultado final da participação deles na coletânea SP Metal.

Se Paulo nunca foi um grande virtuoso no vocal, em compensação, seu profissionalismo e postura de palco sempre foi excelente. Paulo era carismático e segurava o show com maestria. Com um repertório em português e música bem ao estilo da banda Judas Priest, o público sempre voltava para mais. Quer dizer, com a audiência crescendo à cada show, certamente a banda estava fazendo alguma coisa certo.

Acredito que um técnico de som competente e um produtor mais atento, teriam dado mais suporte para Paulo na gravação equalizando e mixando sua voz de maneira mais profissional.

Neste mesmo período iniciei a produção de uma coletânea para o selo “Devil Discos” pertencente ao Francisco Domingos de Souza (Chicão). Aproveitei então para incluir uma faixa gravada ao vivo no Teatro Lira Paulistana chamada “Usinas Nucleares”. Usinas Nucleares era uma das músicas preferidas do público e foi uma boa oportunidade para mostrar o poder de fogo do grupo.

Eu dei o nome São Power para o álbum que era composto apenas por faixas gravadas ao vivo de bandas que já tinham acabado. A qualidade das gravações é pobre, mas a idéia foi documentar e preservar, de alguma forma, o som destas bandas ao vivo. Apesar de todas as limitações, Usinas Nucleares mostra no álbum um Avenger poderoso e quebrando tudo. O álbum São Power foi o primeiro lançamento do Selo Devil Discos. O segundo lançamento foi o album Korzus ao Vivo.


Capa da coletânea São Power

Luiz Teixeira (Baixo)

Korzus ao Vivo foi o primeiro de vários álbuns lançados pela banda Korzus neste selo. Foi com o álbum Korzus ao Vivo que eu ganhei pela primeira vez algum dinheiro com rock. Foi o suficiente para que eu pudesse comprar minha passagem para a Europa e cair fora. (clique aqui para saber mais sobre a colaboração do Barbieri com a Devil Discos)

A banda Avenger acabou pelos mesmos motivos que muitos grupos acabam.

Foi por falta de experiência, deterioração das relações inter-pessoais entre os membros da banda e, principalmente, resultado dos comentários destrutivos feitos pelo público à respeito do desempenho do vocalista na coletânia SP Metal. O resto da banda acabou rompendo com Paulo e formando um novo grupo chamado Destroyer que teve uma existência relâmpago e acabou tão rápido quanto começou. A verdade é que, quem tinha o poder financeiro era Paulo e sem Paulo a banda não teve condições econômicas para continuar.

pic001bCuriosamente, muitos anos se passaram e parece que a banda foi redescoberta por um público novo.

Recentemente revistas de música tem feito boas críticas dos albuns SP Metal I e SP Metal II onde Avenger, surpreendentemente, sempre foi congratulado pela qualidade do seu trabalho. É, o mundo da muitas voltas...

Infelizmente, é uma pena que a “fita master” destas gravações não tenha sido guardada pois, com a tecnologia de hoje uma nova mixagem seria a solução final.

Enqunato escrevia esta matéria, único membro da banda que continuava ativo, seguindo o seu sonho, era o baixista Luiz Teixeira. Ele fez parte da banda TARKUS, talvez o grupo de rock progressivo que, por um período, tenha chegado a ser o mais importante do Brasil. Só para finalizar, gostaria de dizer que o logo da banda e o desenho do monge foram criados por Roberto, o guitarrista. A animação e adaptação para a Internet foram feitas por mim.

Antonio Celso Barbieri
Avenger ao vivo no Teatro Lira Paulistana em 1984


pic008b

Comments   

PETER
0 #3 PETER 2014-09-30 02:45
Cara viajei no tempo lendo o texto, principalmente a parte da treta do Teatro Conchita de Morais, nasci e moro até hoje em Santo Andre e estava lá !!! Não sei como não achei essa matéria antes, sensacional, Avenger !!! Foi nessa noite onde ouvi pela primeira vez o termo "headbangers" não lembro mas acho que foi no show do Avenger mesmo que recebemos essa lição: "Nós somos headbangers!!!! "
Quote
Guest
0 #2 Guest 2012-05-25 13:17
Olá Barbieri,venho agradecer por compartilhar com o grande publico tanto material importante e que conta a história do Heavy Metal no país. Adoraria manter contato com vc. Abraço.

Barbieri responde: Caro amigo meu email é
Quote
Guest
0 #1 Guest 2011-11-25 18:36
Sou o baterista da Antiga banda de sampa DESTROYER e tenho a gravação original feita no teatro mambembe junto com o Show do Korzus, precisa melhorar a qualidade do som e vídeo, fala para o Luizão entrar em contato comigo e agendaremos para lembrar os velhos tempos, valeu...

Barbieri responde: Oi Gilson, se estiver interessado tenho equipamento para melhorar a qualidade do vídeo e do áudio. Estou muito interessado neste seu material, desde que possa colocá-lo no site para que todo mundo tenha acesso! Um grande abraço!!! Meu email
Quote

Add comment

Tenha paciência! Seu comentário aparecerá assim que for avaliado pelo administrador deste site!


Security code
Refresh

Comentários dos Visitantes

Articles View Hits
2370162

We have 115 guests and no members online