Arnaldo Baptista - Entrevistado por Pacheco Santos em 1989

Arnaldo e Pacheco
Arnaldo Baptista e Pacheco Santos em 1989 (arte Barbieri)
Arnaldo Baptista e Pacheco Santos em 1989 (arte Barbieri)
Arnaldo Baptista é entrevistado por Pacheco Santos em 1989
"Tendo em vista a excelente repercussão dada ao documentário, primeiro longa metragem produzido pela produtora Canal Brasil, baseado na vida do ex-mutante Arnaldo Baptista, achei que agora mais do que nunca esta entrevista concedida muitos anos atrás, pela sua relevância, merece aqui ser reproduzida."
Antonio Celso Barbieri
Lá pelo finalzinho dos anos 80, os jornais noticiavam que Arnaldo Baptista recusava-se a receber visitas. Ele não queria receber nem seu irmão, Sergio Dias Baptista. De tudo, um pouco de verdade.
Não acreditando na veracidade dos fatos e lutando contra a barragem criada pelos parentes e amigos do músico, Pacheco Santos, tentou marcar um encontro.
Como Pacheco e Arnaldo já se correspondiam por carta à alguns meses, Pacheco fez o convite. Arnaldo no entanto impôs algumas condições que Pacheco não pode aceitar. Pacheco inconformado, deixou claro que ele não desistiria tão facilmente e durante uma conversa telefônica um acordo foi acertado.
72 horas depois Pacheco e Arnaldo estavam à beira da piscina entre um cigarro e outro gravando esse papo que reproduzo abaixo e que acabou fazendo parte do seu livro chamado "Balada do Louco" publicado em 1991 e infelizmente esgotado.
Através do Arnaldo, o entrevistador ficou sabendo que outros, que como ele, tentaram uma entrevista não tiveram a mesma sorte pois, tratava-se da primeira entrevista que Arnaldo concedia em cinco anos...
A ENTREVISTA
Pacheco: Qual a contribuição da tevê, para a vida das pessoas?
Arnaldo: Depende da forma e da cabeça.
Pacheco: E Os Mutantes contribuíram de que forma para o rock brasileiro?
Arnaldo: Houve uma certa hesitação em conciliar a música nordestina, que era bem latina, influenciada mais pela cultura africana que a de São Paulo, que era totalmente eletrônica mais um pouquinho voltada para New York, então houve a Tropicália, nesse sentido os Mutantes uniram o ritmo latino com a eletrônica do Sul, nascia a Tropicália
Pacheco: Como eram as críticas que o pessoal fazia em relação ao trabalho de vocês?
Arnaldo: Eramos relativamente novos e jovens na época, então sentia-se, por intermédio do empresário e comentários nos bastidores, que havia um movimento contrário à utilização do som de guitarras que a gente utilizou, que na época ainda era separado a Jovem Guarda da Bossa Nova que era um lado meio jazzístico frio mas levado para um lado sambístico, então a gente serviu de intermediário entre a Bossa e o Tropicalismo, a cultura de guitarras.
Pacheco: Nas críticas, o pessoal dava uma força ou malhava?
Arnaldo: Muita gente era contra, e alguns eram a favor.
Pacheco: Como eram os festivais, participar?
Arnaldo: No comecinho, a gente se viu envolvido, pela classificação de uma música que nós não havíamos composto, e a novidade das guitarras. Então o Gilberto Gil comandou, duma certa forma, isso do lado tropicalista. Então o Festival era assim até quando nós começamos a fazê-lo sozinhos depois de algum tempo. Descoberta da nossa parte que o Gil já havia feito. Caminhante Noturno foi a primeira composição nossa concorrendo num festival, depois a gente foi sabendo porque a nossa música atingia o público, e porque não atingia também.
Pacheco: E como era esse público?
Arnaldo: Era um pouquinho variante em relação ao público tropicalista, do público rock’n’roll, jovem guarda. Nós tocamos poucas vezes no programa do Roberto Carlos, então havia uma certa falta de ambientação entre o Tropicalismo e o Roberto Carlos com a Bossa Nova. Existia isso, a gente servia de ponte muitas vezes contrária ao público e esse se dividia a favor ou contra nós. A gente era classificado a respeito disso e sempre terminávamos como melhores intérpretes, uma coisa que a gente chegava perto do líder, nunca na classificação de música.
Pacheco: Qual era a mensagem do Tropicalismo?
Arnaldo: Dependia muito de quem era o tropicalista. Era diferente Gil de Gal Costa, do Caetano Veloso, Torquato Neto, Capinam esse pessoal todo.
Pacheco: No Brasil existia uma música superior à música estrangeira?
Arnaldo: Mas eu não creio atualmente que fosse superior ao que era feito no Exterior: Mamas e Papas, Ventures, etc.
Pacheco: Mas era uma música que já não era tão careta, era uma música que podia tocar no rádio, e que os jovens podiam consumir um produto natural daqui sem contra-indicações.
Arnaldo: É, mas também uma música que não era muito unida. Nós raramente ensaiamos com o Gilberto Gil com o qual tocamos. E nunca ensaiamos com Caetano Veloso, Gal Costa, com todo esse pessoal que tocava no programa “Divino Maravilhoso”.
Pacheco: Mas vocês participaram do Primeiro LP da Gal Costa, “Só”.
Arnaldo: Sim! Mas só cantando com ela. Com a Nana Caymmi igual, também. Então a gente chegava no estúdio e ouvia a fita um dia ou dois, ensaiava e lá gravava, não havia participação na criatividade que envolvesse harmonia, um palpite à respeito de uma parte musical que devia ser mais para um lado envolvente, um lado mais místico, ou outro lado mais sistema, a gente não podia compor, apenas cantava naquela época.
Pacheco: E quais são as boas lembranças desse período?
Arnaldo: Nenhuma que me lembre agora, apenas a eletrônica na música
Pacheco: Vocês aprontavam alguma sacanagem, contra aquele pessoal reacionário?
Arnaldo: Não! Eu pessoalmente não fazia essa diferença tão tangível que era mais exposta no Gil do que no restante das pessoas, eu não era tão crítico a esse ponto, achava que de uma certa forma se a música fosse de Bossa Nova, tropicalista, samba ou jazz, ou rock mesmo, se fosse boa era boa, não fosse boa era ruim. Não me interessava muito; interessava-me o resultado final do entretenimento.
Pacheco: A visão minha e de várias pessoas é a de que os Mutantes eram psicodélicos, alucinados...
Arnaldo: Houve fases, nós durante muito tempo não levamos adiante esse fato Psicodelismo, começamos a levar mais adiante a partir da gravação do LP “Divina Comédia” (1970), então, começou-se a sentir o psicodelismo na música.
Pacheco: De que maneira o psicodelismo interferiu na música do grupo?
Arnaldo: Não tão profundamente, mas no lado criativo que a gente imagina passou a ser mais real um pouco. A música é uma energia meio plasmática e fica impossível dizer que através disso a gente ficou isso, eu acho que é muito rotular esse tipo de visão. Um exemplo clássico disso: hoje fala-se muito de heavy-metal, e na minha época, que comecei com Os Mutantes, isso era tido entre nós músicos como “lenha”. Então é muito diferente outro termo, fala-se em heavy-metal e eu não entendo, pra mim heavy-metal é a orquestra de Glenn Miller. (risos).
Pacheco: Mas voltando no tempo, como foi que você começou a tocar piano?
Arnaldo: É que eu tinha um piano de cauda em casa, minha mãe era pianista, comecei com o conjunto no contrabaixo, até que um dia resolvi colocar o teclado, para, de uma certa forma, abranger o lado agudo também que era mais do Serginho e da Rita, então abrangi esse lado também. Depois de entrar com o teclado, deixei o baixo uma coisa que coloria o palco, mas não era o meu íntimo, tocava muito piano sem tocar no conjunto, então nas gravações fazia alguns apanhados de clichês de órgão, mas eu era mais contrabaixista e passei a ser tecladista.
Pacheco: Qual a sua maior influência nas teclas?
Arnaldo: Jimmy Smith e seu calor sonoro.
Pacheco: Agora aquela pergunta que é obscura e o pessoal ainda não leu por que você abandonou Os Mutantes?
Arnaldo: É tenho a impressão que isto ficou um pouquinho difícil de declarar, por meio de certas formas estou tentando colocar isso adiante na imprensa, mas ainda não consegui. Mas declaro agora foi unicamente devido a amplificação transistorizada, eu queria amplificadores valvulados e eles não quiseram, então abandonei Os Mutantes.
Pacheco: Quais os seus planos musicais para o presente?
Arnaldo: Estão direcionados para o mínimo que é escutado, por todos os seres humanos, e quer dizer em outras palavras que é a máquina som acompanha a máquina ser humano. Um paralelo entre a ciência, tecnologia e nosso corpo também uma máquina de certa forma.
Pacheco: Por que você começou a pintar? Gasta muito tempo com a pintura?
Arnaldo: Foi recentemente, uma coisa de dois anos atrás, mais a fundo, antes eu fazia um quadro ou outro num ano ou menos. Mas foi tarde, comecei com 25 anos creio.
Pacheco: E quantos quadros você tem em média?
Arnaldo: Aqui em casa tenho mais ou menos ao redor de 200 quadros, numa média que não posso dar exata, uns 10% ou 15% pode ter 230 ou 190 alguma coisa assim.
Pacheco: E como é a produção dos quadros, leva muito tempo?
Arnaldo: Não! Cada um depende do apanhado, modo de vista meu, faço o esquete, desenho como vai ser apoiado numa idéia. Senti a necessidade de extravasar esse sentimento atualmente. Por exemplo, estou transando um que ainda não pintei. É a respeito do cigarro, eles produzem monóxido ou dióxido de carbono? Uma coisa que vou expressar a respeito disso com um quadro. Existem muitos tipos de trabalho: a colagem, tinta a óleo, dois tipos de conotação pintura tipo Rafael, tipo Leonardo Da Vinci; não sou profundo no sentido de Bosh, sou mais Da Vinci. Então, têm impressionismo e cubismo tons que envolvem o produto final em colagens etc...
Pacheco: Tem algo de Salvador Dalí?
Arnaldo: Tem muito dele no princípio e tem principalmente um pouquinho mais no meu interior de Maxfield Parrish que é pintor. Dali foi o desbravador do Surrealismo, mas o Parrish foi adiante no lado mais de paisagens de perfeccionismo junto a fotografia. Dali era um pouquinho distante. Mas é difícil pensar isso que envolve Dali e Parrish; ambos são bons no tempo.
Pacheco: E atualmente, na cena musical brasileira, quem você destaca?
Arnaldo: Hermeto Paschoal, gosto do estilo dele.
Pacheco: E da antiga?
Arnaldo: Num pouquinho do passado do Lanny Gordin, tocava guitarra com o Gil e o Caetano. O pai dele é dono da boate Stardust, tem um lado musical íntimo meu que vem de ensaios. Eu respeito o lado público, é muito difícil chegar a um entendimento a respeito do Lanny. Ele é uma pessoa mais de boate, músico que entra e toca, não é nenhum star. Só isso engloba a música dele tipo que não é um cara muito assim Lulu Santos que é um pouquinho demais nesse sentido. Mas haveria um intercâmbio de Lulu e Lanny seria o mais próximo da realidade.
Pacheco: O que você achou daquela declaração que o Lulu fez a seu respeito para a revista Bizz?
Arnaldo: Muito estrela, o que falta no Lanny, mas faltou a ele um pouquinho do Lanny, ser mais íntimo. Um exemplo disso que é uma coisa que eu falo mais como músico o relacionamento que o ser tem com a música: um produto que é resultado dele. Lulu possui uma guitarra perfeita que nunca usa então tem haver com isso, o modo de ser. O Lobão também tem subir no palco mas nunca usou, mas tava lá.
Pacheco: E encerrando qual o título do seu próximo LP?
Arnaldo: Deixe Cama! Os Rolling Stones possuem um LP chamado “Let it Bleed” (“Deixa Sangrar”), já os Beatles tem um outro “Let it Be” (“Deixa Estar”), eu utilizei bed; "Let it Bed" (“Deixa Cama”).
Pacheco: Algum recado em especial par aos leitores?
Arnaldo: Eu li ontem que um intercâmbio entre a música e a ciência, servirá de resultado final que vai trazer soluções contra o apocalipse. Irá chamar-se Após-calipse, essa é a minha impressão.
Pacheco: Por que o final da parceria entre você e Rita Lee Jones?
Arnaldo: A parceria teve um lado meio difícil de extrapolar, é um lado mais íntimo, ela juntou-se a Lúcia Turnbull (que eu aprecio muito), não foi totalmente comigo. Além disso ela possuía um lado artístico meio difícil de acompanhar, mas era bonito/sonhador nesse sentido poético/místico, foi nesse sentido que a parceria desencaminhou, não houve concordância. Um exemplo disso o fato dela gostar da marca Grestch e eu gosto de guitarras Gibson que tem muito haver com guitarras e envolve a composição também.

Arnaldo Baptista é entrevistado por Pacheco Santos em 1989

"Tendo em vista a excelente repercussão dada ao documentário, primeiro longa metragem produzido pela produtora Canal Brasil, baseado na vida do ex-mutante Arnaldo Baptista, achei que agora mais do que nunca esta entrevista concedida muitos anos atrás, pela sua relevância, merece aqui ser reproduzida."

Antonio Celso Barbieri

Lá pelo finalzinho dos anos 80, os jornais noticiavam que Arnaldo Baptista recusava-se a receber visitas. Ele não queria receber nem seu irmão, Sergio Dias Baptista. De tudo, um pouco de verdade.

Não acreditando na veracidade dos fatos e lutando contra a barragem criada pelos parentes e amigos do músico, Pacheco Santos, tentou marcar um encontro.

Como Pacheco e Arnaldo já se correspondiam por carta à alguns meses, Pacheco fez o convite. Arnaldo no entanto impôs algumas condições que Pacheco não pode aceitar. Pacheco inconformado, deixou claro que ele não desistiria tão facilmente e durante uma conversa telefônica um acordo foi acertado.

72 horas depois Pacheco e Arnaldo estavam à beira da piscina entre um cigarro e outro gravando esse papo que reproduzo abaixo e que acabou fazendo parte do seu livro chamado "Balada do Louco" publicado em 1991 e infelizmente esgotado.

Através do Arnaldo, o entrevistador ficou sabendo que outros, que como ele, tentaram uma entrevista não tiveram a mesma sorte pois, tratava-se da primeira entrevista que Arnaldo concedia em cinco anos...

A ENTREVISTA

Pacheco: Qual a contribuição da tevê, para a vida das pessoas?

Arnaldo: Depende da forma e da cabeça.

Pacheco: E Os Mutantes contribuíram de que forma para o rock brasileiro?

Arnaldo: Houve uma certa hesitação em conciliar a música nordestina, que era bem latina, influenciada mais pela cultura africana que a de São Paulo, que era totalmente eletrônica mais um pouquinho voltada para New York, então houve a Tropicália, nesse sentido os Mutantes uniram o ritmo latino com a eletrônica do Sul, nascia a Tropicália

Pacheco: Como eram as críticas que o pessoal fazia em relação ao trabalho de vocês?

Arnaldo: Eramos relativamente novos e jovens na época, então sentia-se, por intermédio do empresário e comentários nos bastidores, que havia um movimento contrário à utilização do som de guitarras que a gente utilizou, que na época ainda era separado a Jovem Guarda da Bossa Nova que era um lado meio jazzístico frio mas levado para um lado sambístico, então a gente serviu de intermediário entre a Bossa e o Tropicalismo, a cultura de guitarras.

Pacheco: Nas críticas, o pessoal dava uma força ou malhava?

Arnaldo: Muita gente era contra, e alguns eram a favor.

Pacheco: Como eram os festivais, participar?

Arnaldo: No comecinho, a gente se viu envolvido, pela classificação de uma música que nós não havíamos composto, e a novidade das guitarras. Então o Gilberto Gil comandou, duma certa forma, isso do lado tropicalista. Então o Festival era assim até quando nós começamos a fazê-lo sozinhos depois de algum tempo. Descoberta da nossa parte que o Gil já havia feito. Caminhante Noturno foi a primeira composição nossa concorrendo num festival, depois a gente foi sabendo porque a nossa música atingia o público, e porque não atingia também.

Pacheco: E como era esse público?

Arnaldo: Era um pouquinho variante em relação ao público tropicalista, do público rock’n’roll, jovem guarda. Nós tocamos poucas vezes no programa do Roberto Carlos, então havia uma certa falta de ambientação entre o Tropicalismo e o Roberto Carlos com a Bossa Nova. Existia isso, a gente servia de ponte muitas vezes contrária ao público e esse se dividia a favor ou contra nós. A gente era classificado a respeito disso e sempre terminávamos como melhores intérpretes, uma coisa que a gente chegava perto do líder, nunca na classificação de música.

Pacheco: Qual era a mensagem do Tropicalismo?

Arnaldo: Dependia muito de quem era o tropicalista. Era diferente Gil de Gal Costa, do Caetano Veloso, Torquato Neto, Capinam esse pessoal todo.

Pacheco: No Brasil existia uma música superior à música estrangeira?

Arnaldo: Mas eu não creio atualmente que fosse superior ao que era feito no Exterior: Mamas e Papas, Ventures, etc.

Pacheco: Mas era uma música que já não era tão careta, era uma música que podia tocar no rádio, e que os jovens podiam consumir um produto natural daqui sem contra-indicações.

Arnaldo: É, mas também uma música que não era muito unida. Nós raramente ensaiamos com o Gilberto Gil com o qual tocamos. E nunca ensaiamos com Caetano Veloso, Gal Costa, com todo esse pessoal que tocava no programa “Divino Maravilhoso”.

Pacheco: Mas vocês participaram do Primeiro LP da Gal Costa, “Só”.

Arnaldo: Sim! Mas só cantando com ela. Com a Nana Caymmi igual, também. Então a gente chegava no estúdio e ouvia a fita um dia ou dois, ensaiava e lá gravava, não havia participação na criatividade que envolvesse harmonia, um palpite à respeito de uma parte musical que devia ser mais para um lado envolvente, um lado mais místico, ou outro lado mais sistema, a gente não podia compor, apenas cantava naquela época.

Pacheco: E quais são as boas lembranças desse período?

Arnaldo: Nenhuma que me lembre agora, apenas a eletrônica na música

Pacheco: Vocês aprontavam alguma sacanagem, contra aquele pessoal reacionário?

Arnaldo: Não! Eu pessoalmente não fazia essa diferença tão tangível que era mais exposta no Gil do que no restante das pessoas, eu não era tão crítico a esse ponto, achava que de uma certa forma se a música fosse de Bossa Nova, tropicalista, samba ou jazz, ou rock mesmo, se fosse boa era boa, não fosse boa era ruim. Não me interessava muito; interessava-me o resultado final do entretenimento.

Pacheco: A visão minha e de várias pessoas é a de que os Mutantes eram psicodélicos, alucinados...

Arnaldo: Houve fases, nós durante muito tempo não levamos adiante esse fato Psicodelismo, começamos a levar mais adiante a partir da gravação do LP “Divina Comédia” (1970), então, começou-se a sentir o psicodelismo na música.

Pacheco: De que maneira o psicodelismo interferiu na música do grupo?

Arnaldo: Não tão profundamente, mas no lado criativo que a gente imagina passou a ser mais real um pouco. A música é uma energia meio plasmática e fica impossível dizer que através disso a gente ficou isso, eu acho que é muito rotular esse tipo de visão. Um exemplo clássico disso: hoje fala-se muito de heavy-metal, e na minha época, que comecei com Os Mutantes, isso era tido entre nós músicos como “lenha”. Então é muito diferente outro termo, fala-se em heavy-metal e eu não entendo, pra mim heavy-metal é a orquestra de Glenn Miller. (risos).

Pacheco: Mas voltando no tempo, como foi que você começou a tocar piano?

Arnaldo: É que eu tinha um piano de cauda em casa, minha mãe era pianista, comecei com o conjunto no contrabaixo, até que um dia resolvi colocar o teclado, para, de uma certa forma, abranger o lado agudo também que era mais do Serginho e da Rita, então abrangi esse lado também. Depois de entrar com o teclado, deixei o baixo uma coisa que coloria o palco, mas não era o meu íntimo, tocava muito piano sem tocar no conjunto, então nas gravações fazia alguns apanhados de clichês de órgão, mas eu era mais contrabaixista e passei a ser tecladista.

Pacheco: Qual a sua maior influência nas teclas?

Arnaldo: Jimmy Smith e seu calor sonoro.

Pacheco: Agora aquela pergunta que é obscura e o pessoal ainda não leu por que você abandonou Os Mutantes?

Arnaldo: É tenho a impressão que isto ficou um pouquinho difícil de declarar, por meio de certas formas estou tentando colocar isso adiante na imprensa, mas ainda não consegui. Mas declaro agora foi unicamente devido a amplificação transistorizada, eu queria amplificadores valvulados e eles não quiseram, então abandonei Os Mutantes.

Pacheco: Quais os seus planos musicais para o presente?

Arnaldo: Estão direcionados para o mínimo que é escutado, por todos os seres humanos, e quer dizer em outras palavras que é a máquina som acompanha a máquina ser humano. Um paralelo entre a ciência, tecnologia e nosso corpo também uma máquina de certa forma.

Pacheco: Por que você começou a pintar? Gasta muito tempo com a pintura?

Arnaldo: Foi recentemente, uma coisa de dois anos atrás, mais a fundo, antes eu fazia um quadro ou outro num ano ou menos. Mas foi tarde, comecei com 25 anos creio.

Pacheco: E quantos quadros você tem em média?

Arnaldo: Aqui em casa tenho mais ou menos ao redor de 200 quadros, numa média que não posso dar exata, uns 10% ou 15% pode ter 230 ou 190 alguma coisa assim.

Pacheco: E como é a produção dos quadros, leva muito tempo?

Arnaldo: Não! Cada um depende do apanhado, modo de vista meu, faço o esquete, desenho como vai ser apoiado numa idéia. Senti a necessidade de extravasar esse sentimento atualmente. Por exemplo, estou transando um que ainda não pintei. É a respeito do cigarro, eles produzem monóxido ou dióxido de carbono? Uma coisa que vou expressar a respeito disso com um quadro. Existem muitos tipos de trabalho: a colagem, tinta a óleo, dois tipos de conotação pintura tipo Rafael, tipo Leonardo Da Vinci; não sou profundo no sentido de Bosh, sou mais Da Vinci. Então, têm impressionismo e cubismo tons que envolvem o produto final em colagens etc...

Pacheco: Tem algo de Salvador Dalí?

Arnaldo: Tem muito dele no princípio e tem principalmente um pouquinho mais no meu interior de Maxfield Parrish que é pintor. Dali foi o desbravador do Surrealismo, mas o Parrish foi adiante no lado mais de paisagens de perfeccionismo junto a fotografia. Dali era um pouquinho distante. Mas é difícil pensar isso que envolve Dali e Parrish; ambos são bons no tempo.

Pacheco: E atualmente, na cena musical brasileira, quem você destaca?

Arnaldo: Hermeto Paschoal, gosto do estilo dele.

Pacheco: E da antiga?

Arnaldo: Num pouquinho do passado do Lanny Gordin, tocava guitarra com o Gil e o Caetano. O pai dele é dono da boate Stardust, tem um lado musical íntimo meu que vem de ensaios. Eu respeito o lado público, é muito difícil chegar a um entendimento a respeito do Lanny. Ele é uma pessoa mais de boate, músico que entra e toca, não é nenhum star. Só isso engloba a música dele tipo que não é um cara muito assim Lulu Santos que é um pouquinho demais nesse sentido. Mas haveria um intercâmbio de Lulu e Lanny seria o mais próximo da realidade.

Pacheco: O que você achou daquela declaração que o Lulu fez a seu respeito para a revista Bizz?

Arnaldo: Muito estrela, o que falta no Lanny, mas faltou a ele um pouquinho do Lanny, ser mais íntimo. Um exemplo disso que é uma coisa que eu falo mais como músico o relacionamento que o ser tem com a música: um produto que é resultado dele. Lulu possui uma guitarra perfeita que nunca usa então tem haver com isso, o modo de ser. O Lobão também tem subir no palco mas nunca usou, mas tava lá.

Pacheco: E encerrando qual o título do seu próximo LP?

Arnaldo: Deixe Cama! Os Rolling Stones possuem um LP chamado “Let it Bleed” (“Deixa Sangrar”), já os Beatles tem um outro “Let it Be” (“Deixa Estar”), eu utilizei bed; "Let it Bed" (“Deixa Cama”).

Pacheco: Algum recado em especial par aos leitores?

Arnaldo: Eu li ontem que um intercâmbio entre a música e a ciência, servirá de resultado final que vai trazer soluções contra o apocalipse. Irá chamar-se Após-calipse, essa é a minha impressão.

Pacheco: Por que o final da parceria entre você e Rita Lee Jones?

Arnaldo: A parceria teve um lado meio difícil de extrapolar, é um lado mais íntimo, ela juntou-se a Lúcia Turnbull (que eu aprecio muito), não foi totalmente comigo. Além disso ela possuía um lado artístico meio difícil de acompanhar, mas era bonito/sonhador nesse sentido poético/místico, foi nesse sentido que a parceria desencaminhou, não houve concordância. Um exemplo disso o fato dela gostar da marca Grestch e eu gosto de guitarras Gibson que tem muito haver com guitarras e envolve a composição também.

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Comentários

Anderson Freitas posted a comment in Monterey Pop Festival (1967): Contado por quem esteve lá!
Saudações! Eu sempre acesso esse site para ler essa história. Fique muito triste agora. O senhor Stan Delk faleceu em 2016.<br />https://www.findagrave.com/memorial/171638689<br /><br />Descanse em Paz!<br /><br />Barbieri Comenta: Ele foi muito gentil comigo, disponibilizou o seu texto e acreditou nas minhas boas intenções! Quanto a matéria ficou pronta ele ficou muito satisfeito! R. I. P.
Neuza Maria posted a comment in Tony Osanah: Um argentino bem brasileiro
Muito interessante essa matéria sobre o Tony Osanah. Sou amiga pessoal dele há mais de 30 anos e hoje relembrei muitas coisas sobre ele, que já havia me esquecido. Grande talento! Ele está em visita no Brasil, esteve em Peruíbe até o dia 24 de janeiro e deverá retornar para a Alemanha no dia 07 de fevereiro. Pena que não programou nenhuma apresentação por aqui.
Daniel Faria posted a comment in JAJI: Homenagem postuma!
Tive o grande prazer de trabalhar com Jaji na decada de 1990. As festas no apartamento dele eram legendárias. Só fiquei sabendo da morte dele em 2017 e fiquei bem triste. Ele faz falta e será sempre honrado pelo público Metal de São Paulo.
Olá Barbieri! Que legal esse artigo, é sempre maravilhoso poder "beber" de fonte sábia. Neste sábado, 13/01/2018, teremos a chance de conferir o ensaio aberto da Volkana no Espaço Som, em São Paulo. A boa notícia é que, a exemplo do Vodu, que voltou à ativa em 2015, as meninas também decidiram se reunir, esperamos ansiosos que depois desse ensaio aberto role outros shows por ai. Um grande abraço!
Já sofremos muito também tentando fazer festivais. Mas resolvemos nos dedicar ao rock nacional de outras formas. Lançamos nosso primeiro disco https://base.mus.br que é para mostrar nosso amor pelo rock brasileiro.
André Luiz Daemon posted a comment in Luiz Lennon (Beatles Cavern Club)
Olá, boa noite! Alguém poderia me dizer o nome da música de abertura do programa Cavern Club que foi ao ar após o falecimento do saudoso e inesquecível Big Boy.<br />Logo após o seu falecimento, outro locutor entrou em seu lugar, e a abertura do programa era com o ex-Beatle Ringo Starr cantando.<br />Se alguém souber, por favor, me mande por e-mail, procuro essa música há muitos anos e signiifca muito para mim.<br />Valeu, abraços aos Beatlemaníacos que nem eu!!
José Carlos posted a comment in Tony Osanah: Um argentino bem brasileiro
Confirma pra mim, eu ouvi falar que o vocal da música Graffitti do Paris Group e de Tony Osanah, e que na realidade a banda nunca existiu. Foi um jingle produzido exclusivamente para a propaganda da calça Lewis e devido ao sucesso na televisão foi forjada uma banda para gravar um compacto e faturar uma grana em cima. É verdade?<br /><br />Oi José Carlos, sinto muito mas não tenho como confirmar esta história, entretanto, sei que nos anos 60 e 70 várias bandas brasilerias gravaram faixas em inglês usando nomes fictícios. Quer dizer, não será surpresa se for verdade!
Em se tratando de ROCK, é sem dúvida A Melhor Banda de ROCK até hoje.Acho o som deles o máximo. Conheci a pouco tempo (2010) e ouço desde então... Muito feras
jeronimo posted a comment in Delpht - Far Beyond (CDR Demo - 1997)
você podia disponibilizar essa demo para download pois ela não se encontra a venda
Parabéns Barbieri!!! ficou perfeito, muito original e harmônico, com o peso certo. Muito gostoso ouvir seu som.
CK posted a comment in Carioca & Devas
Ei! Obrigado por este artigo, ótima história e histórias.<br /><br />Hey! Thank you for this article, great history and stories. <br /><br />Thanks again!<br /><br />CK
Eu tinha 14 para15 anos em 1966 quando estava com outros amigos mais velhos e todos cabeludos na Av.Sao Luiz quando começaram a jogar pedras e saímos correndo pela. 7 de abril descemos a 24 de maio queriam nos matar uma multidão eu entrei no Mappin até chegar a polícia para nós tirar de lá.
De acordo com um set list desse show que achei na minha coleção, as músicas tocadas foram Maria Angélica, Perfume, British, Variações, Dissipações, Súplicas, Boca e Vade Retro.
Muito legal ver isso. Estive em muitos shows aqui relatados. O festival com o Dorsal, Vulcano em Santos, teve uma cena memorável quando o vocalista do Crânio Metálico, da Bahia, entendeu que as pessoas gritavam "côco metálico" para a banda e nao o nome coorreto. Ele se indignou com a falta de respeito e chamou as pessoas as briga. Muitos se solidarizaram com o vocalista da banda e o aplaudiram, repugnando o preconceito. Me lembro ainda que nesse show jogaram confete na apresentação do Vulcano e depois a serragem. Era tempo de ascenção do Death Metal e que muitos ridicularizavam o Black Metal... Cena triste também... Mas foi uma noite ótima. Vulcano mandou bem e Dorsal fez um show primoroso.
Charles Campos posted a comment in Soul of Honor
https://www.youtube.com/watch?v=Sn2ckIF0Gbk
Charles Campos posted a comment in Soul of Honor
Boas recordações de minha adolescência!!!<br />Assisti a uma apresentação do <br />Bodas de Sangue no Espaço Retrô (Senão estiver enganado)<br /><br />Foi uma baita apresentação!!!
CASSIO VIEIRA posted a comment in Carioca & Devas
Pessoal, alguém saberia me dizer se neste 'Ensaio (1977)' é o Tom (acho que o sobrenome dele é De Maia ou algo assim) que está tocando bateria? Ele morava no meu bairro, e o pai dele era dono da escola em que eu estudava, Colégio 7 de Setembro.
"Suspeitei desde o principio..." (Chapolin Colorado)<br /><br />Muito legal o texto, vivo fazendo coisas no automatico e com o maior temor de ter um colapso mental, e tenho tambem aprendido coisas novas sempre, autodidata por natureza. Agora estou mais tranquilo e posso tranquilizar outras pessoas a minha volta, a solucao e a causa do problema sao simples, (talvez eu tenha que me render aos passinhos de dança do ventre de vez em quando...).<br />Parabens pelo texto
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