Túnel do Tempo Túnel do Tempo

tunel do tempo

Sempre que contava algumas das minhas lembranças, os amigos ficavam admirados com a minha abilidade em descrever os fatos e faze-los sentirem-se como se estivessem lá, comigo, ajudando a construir a História do Rock Brasileiro. Naquela época difícil, eu não estava sozinho. Muitos outros sonhadores como eu faziam a sua parte. Abaixo seguem algumas histórias contadas no melhor da minha memória.

É supreedente como nossa memória é falha e, como tendemos à "arrendondar as pontas" e sempre lembrarmos dos fatos atendendo a nossa necessidade pessoal de sucesso e atenção. É porisso que digo que, minhas histórias são contadas no melhor da minha memória exercendo sempre, minha capacidade de autocrítica ao máximo.

Se o caro leitor é mencionado aqui, em algum dos meus artigos, e não concorda com minha versão dos fatos, mande-me um email (This email address is being protected from spambots. You need JavaScript enabled to view it.) com a sua versão para que possamos fazer uma síntese dos acontecimentos citados.

Antonio Celso Barbieri

Em 1984, a Paulistur dirigida por João Dória (agora o Prefeito de SP)
frustrou roqueiros na Praça da Sé!

João Dória ganhou para prefeito de São Paulo mas, eu tenho boa memória e não esqueço! Em 1984, no tempo da Praça do Rock tivemos um encontro na Paulistur com João Doria e pedi para ele para organizar um festival de rock na Praça da Sé, um lugar que à muito tempo sonhava em realizar um evento deta natureza. Para minha felicidade e dos amigos e bandas presentes, Dória não só autorizou com fez a publicidade. No dia do show, milhares de roqueiros lotaram a praça mas, lamentavelmente a Paulistur não providenciou como prometido nem o palco e nem o sistema de som.

Mais tarde fiquei sabendo que toda a aparelhagem tinha sido desviada na noite anterior para uma festa de carnaval onde seria escolhido o Rei Momo daquele ano. Muito desapontado, organizei uma passeata mostruosa que saiu da Praça da Sé, paralizou toda a Rua Direita, parou o tráfico no Viaduto do Chá, terminando bloqueando a frente do Mappin assim como tomando toda a frente do Teatro Municipal. Deu até Rede Globo e Dória teve que pedir desculpas na frente das câmeras. Só muito mais tarde, em 86, quando sai para candidato a Deputado Estadual foi que concretizei este sonho usando o meu direito de realizar um comício de despedida de minha campanha para então realizar um show na Praça da Sé. 13 bandas tocaram incluindo entre outras Korzus, Viper, Virus, Anarca e Excalibur.

Se depis de lerem esta matéria, quizerem fazer uma viagem no tempo e saber como foi esta minha façanha de realizar o Rock na Sé, cliquem no link no final deste parágrafo e leiam esta matéria extensa e super completa contendo audio do show, fotos e até um vídeo: (Rock na Sé)

Antonio Celso Barbieri

Segunda-feira, 17 de dezembro de 1984
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Revoltada a turma do Heavy Metal fez um protesto contra a Paulistur. (foto: Avani Stein)
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Matéria rediagramada pelo Barbieri para facilitar a leitura.

Paulistur e roqueiros na se na folhaA matéria como apareceu diagramada no jornal.

 

 

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 Em 1984, ‘bate-boca’ entre roqueiros e o crítico Pepe Escobar
agitou o Jornal Folha de São Paulo

Por Luiz Carlos Ferreira

Era 28 de outubro de 1984, o Brasil vivia seu último ano sob o regime militar, que perdurava havia duas décadas no país. O maior festival de música da América Latina, o Rock in Rio, seria realizado 4 meses depois, em janeiro de 1985, sem bandas paulistas na programação. Na Folha, o crítico cultural Pepe Escobar (na foto acima, à esq., de preto e encostado à parede) causava polêmica em crítica antológica onde enfatizava o amadorismo dos roqueiros paulistanos, afirmando que apenas três bandas da capital tinham “boas possibilidades” de ascensão naqueles anos.

Intitulado ”Desventuras do rock paulistano“, o artigo de Escobar poupava apenas as bandas RPM, Voluntários da Pátria e Zero. Às demais, o crítico seguia com a afirmativa de que o rock de São Paulo era debate para “guetos”, e que neles deveriam permanecer.

“O RPM deveria ser contratado imediatamente por uma grande gravadora.” “Os Voluntários lançaram seu primeiro LP independente, e se passarem por cima de suas letras PT, vão longe.” “O Zero está com uma ótima fita gravada em estúdio.” “O resto é de lascar”, avaliava o crítico.

Escobar destacava ainda uma carta enviada à Folha pelo vocalista do grupo Zero, Guilherme Isnard, onde o músico e compositor carioca expressava sua indignação com o rumo que o rock vinha tomando na capital, e classificou um dos principais redutos do circuito, o Val Improviso, no centro de São Paulo – onde muitas bandas se apresentavam– de “pulgueiro”. Para o músico, que fez parte da primeira formação dos Voluntários, o local não passava de uma “armação para alimentar algumas bocas”, disse na época.

Seguindo o raciocínio de Isnard, que em sua carta destilava termos como “maçonaria do rock”, “máfia do rock” e “cooperativa musical intergrupos” para adjetivar os roqueiros paulistanos, Escobar não limitou sua opinião: “Aqui não adianta algum grupinho tentar monopolizar a vanguarda. Não existe uma vanguarda. Existe uma tendência explorada pelos donos do mercado, que precisa ser revertida”. Sobre o Rock in Rio, o jornalista declarou que seria “no mínimo ridícula” a participação de bandas paulistas no evento. “Imaginem Kid Girimum e suas Lagartixas Amestradas abrindo um show para as Go-Go’s”, ironizou.

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Observado por Caio Túlio Costa (à esq, de óculos), secretário de Redação da Folha à época, Nasi, vocalista do Ira! e do Voluntários
da Pátria gesticula diante de colegas na Redação do jornal (Foto: Avani Stein – 29.out.84/Folhapress)

No dia seguinte à publicação da crítica, integrantes e representantes de 12 bandas, entre elas Ira!, Inocentes, Garotas do Centro e Mercenárias, reuniram-se na sede do jornal a fim de manifestar suas queixas contra o texto.

Recebidos por Escobar, o grupo reivindicou ao jornal que fosse agendado um debate amplo sobre a questão. Em um dos momentos mais calorosos da discussão, Marcos Valadão Rodolfo, o Nasi, então vocalista do Ira! e do Voluntários, tentou agredir fisicamente o jornalista, que, antes de abandonar o debate, reafirmou sua opinião ao declarar que a maioria das bandas de São Paulo era sim “muito ruim musicalmente”. Marcus Mocef, responsável pela programação do Val Improviso, e que também acompanhava os músicos naquele dia, foi categórico: “Escobar não se interessa em entrevistar e ver de perto o trabalho das bandas, fica escrevendo de orelhada e incitando fofocas no meio”. “Não estamos contra a Folha, e sim contra um crítico incompetente”, completou.

Duas semanas depois, a Folha atenderia à súplica dos roqueiros quando, na noite de 14 de novembro, com um público de 150 pessoas, mais do que as 120 poltronas disponíveis em seu auditório, promoveu um grande debate sobre o rock de São Paulo e o papel da crítica na mídia impressa. Entre os presentes estavam profissionais e amantes de várias vertentes do gênero.

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Críticos, músicos e amantes do rock participam de debate no auditório da Folha (Foto: Mario Leite - 11.nov.1984/Folhapress)

Mediado pelo jornalista Matinas Suzuki Jr., então diretor da sucursal da Folha no Rio, o evento, pacífico, contou com a participação –dentre outros– do produtor Peninha Schmidt (Titãs, Ultraje e Ira!), Luiz Carlos Calanca, distribuidor independente e proprietário da loja de discos Baratos Afins, e José Augusto Lemos, crítico da extinta revista “Som Três”.

Momentos do debate foram publicados na Folha em 18 de novembro, na reportagem “Queixas e papos no debate sobre rock”, na primeira página da Ilustrada.

Frases:

“Temos que discutir aqui como surge uma nova geração de músicos, como interferem no sistema estabelecido. Como esses grupos podem se unir e participar, juntos, para acabar com essa divisão em guetos em que se encontram hoje”.
Pepe Escobar – crítico cultural da Folha

“A gente estar aqui é muito importante. Me envolvi com rock and roll desde o começo e nunca vi uma plateia tão séria de debatedores”
Pena Schmidt – produtor musical

“Se a Folha tivesse interesse em fazer um trabalho sério, não manteria em seus quadros repórteres que não pesquisam e não conhecem os trabalhos dos grupos de rock”
Thomas Pappon – baterista do grupo Smack

“O rock paulista é difícil e sofrido, as condições são precárias e o espaço conseguido depende do esforço isolado de cada banda”
Miguel Barella – guitarrista do grupo Voluntários da Pátria

“O rock paulista realmente ainda deixa muito a desejar. Não existe divulgação no rádio, entre outras coisas porque a execução ainda é muito precária…”
Paulo Leite – radialista da Excelsior

“Crítica e informação são coisas diferentes. A Ilustrada tem muita crítica e pouca cobertura. Mesmo assim é o único canal aberto para o público do rock”
José Augusto Lemos – crítico da revista “Som Três”

“O problema do rádio é simples: jabaculê. Paga-se e pronto.”
Paulo Ricardo Medeiros  – crítico da revista “Som Três”.

debate 03Público de cerca de 150 pessoas participa de debate promovido pela Folha (Foto: Mario Leite - 11.nov.1984/Folhapress)
(leia o original desta matéria clicando aqui)

Barbieri Comenta

Muito embora, o uso do termo “roqueiro” nesta matéria esteja correto, ele está sendo usado de forma muito genérica porque, pode até dar a impressão errônea de que todos os estilos de rock participaram deste debate.

Infelizmente apenas um grupo que eu chamo de “poposos” ou que outros preferem chamar de a turma do “rock de bermudas” esteve envolvida nesta discussão.

Na verdade, o “crítico” Pepe Escobar que possivelmente era apenas reconhecido como crítico pelo jornal onde trabalhava não foi na boate Val Improviso checar a temporada de shows de “pop” rock que lá estava acontecendo. Ele simplesmente perguntou para um amigo que foi, o que ele tinha achado. Então irresponsavelmente detonou o evento e meteu o pau nas bandas.

Cabe esclarecer que o Val Improviso era uma boate gay de baixa categoria que ficava na Rua Frederico Steidel próximo ao Largo do Arouche, não muito longe das boates gays mais badalas todas próximas da Rua Major Sertório. Aliás não foi muito longe dali que existiu um clube de rock muito legal chamado Napalm e depois um outro chamado Espaço Retro.

Como tive uma namorada que morou na Rua Frederico Steidel, muitas vezes vi o escandalo que os travestis faziam lá pelas 8 da manhã, pois este clube era provavelmente o último que fechava.

Logo notei que Val Improviso era o último clube noturno a ser visitado pelos “vampiros” da noite, pelo povo mais bizarro. A casa só começava a receber clientes depois das duas da manhã!

Nesta época já era empresário da banda Avenger, uma das primeiras bandas de Heavy Metal de São Paulo. Um dia, lá pelo começo da tarde, passando em frente do Val Improviso, vi que a porta estava aberta e um funcionário fazia a limpeza. Pedi para ele se podia dar uma olhada no interior do clube e, logo que entrei, notei que o lugar até que era bem legal por dentro. Tinha um palco, um sistema de som muito bom para tocar fita cassete e até uma pista de dança com o chão iluminado. Imaginei que os roqueiros iriam gostar de dançar naquela pista ao som do Metal.

Aparentemente o dono do clube dormia lá mesmo e não foi difícil contata-lo. Fizemos rapidamente um acordo e acertei um show do Avenger para um sábado à tarde. Coloquei cartazes por todo lugar e o show foi um sucesso. O curioso, foi descobrir que apenas umas semanas depois os “poposos” organizariam seus primeiros projetos de shows neste mesmo lugar. Será que eles viram meus cartazes?  :-)

Mas, voltando ao Pepe Escobar, sua atitude foi muito pobre e ele se indispôs com a nata das bandas que tinham muitos contatos e algum poder naquela época. Convém lembrar que este período, em termos de mídia foi muito difícil para o Rock Pesado e Heavy Metal em particular. Havia uma panela de bandas pop rock com músicos trabalhando em vários veículos de imprensa como a revista Veja, Jornal da Tarde e Folha de São Paulo. Estes "músicos reporteres" bajulavam a si mesmos e seus amiguinhos das outras bandas e até tinham uma atitude de tolerância, meio paternalista, com o movimento punk. Então, não é de se surpreender que a imprensa ignorava o Metal.

Gravadoras como a Baratos Afins imediatamente preferiram investir nestas bandas de pop rock que descaradamente copiavam bandas como Talking Heads e outras, mas, portavam-se como se fossem os grupos mais avançados do planeta. A verdade é que fora os seus visuais pós punk de boutique e seus sons pop rock estas bandas não eram diferentes da bandas pesadas e sofriam os mesmos problemas e limitações do mercado. Portanto quando Pepe Escobar recebeu uma "chapuleta" bem merecida do Nazi, a Folha resolveu organizar um encontro para discutir os problemas encontrados pelas bandas de rock de SP. Lamentavelmente ninguém importante e representativo do Rock Pesado, do Heavy Metal e mesmo do Punk foi convidado.

Pepe Escobar era o típico crítico que construia seu nome e fama falando de bandas internacionais underground totalmente desconhecidas do grande público. Normalmente sempre que a banda assinava contrato com alguma grande gravadora e ficava famosa ele passava a meter o pau e falar de outra banda desconhecida. Para ele, em geral, banda brasileira era sempre “grossa”.

Neste encontro, chamei-o de Pepe “Escovão”, acusando-o de sempre varrer debaixo do carpete as nossas bandas brasileiras. Nem preciso dizer que este pobre episódio acontecido na redação do jornal enterrou sua carreira como crítico.

Mais tarde, Escobar, como jornalista, se reinventaria e passaria a ser correspondente político, discutindo temas mundiais de relevância. Confesso que li algumas coisas que ele escreveu e achei que o homem melhorou muito e, com certeza, parece que encontrou seu destino como reporter.

Antonio Celso Barbieri

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Feira Hippie na Praça da república. Foto: Francisco de Almeida Lopes.


A Praça da República e a Feira Hippie: um pouco da história de SP!

A Feira Hippie da Praça da República
Escrito por Luiz Domingues e publicado originalmente no site Orra Meu em julho de 2015.

Segundo consta nos registros históricos, a Praça da República, no centro velho de São Paulo, até chegar nesse formato e ostentar tal denominação, teve outros nomes e seu espaço usado de maneira diferente. No fim do século XIX, por exemplo, aquela área era conhecida como Largo dos Curros, e foi cenário para a promoção de rodeios, e até touradas.

Posteriormente, formatou-se como praça, mas ostentando nomes diferentes, tais como: Largo da Palha, Praça dos Milicianos e Largo 7 de abril até que, pouco tempo após a Proclamação da República, em 1889, estabeleceu-se como Praça da República.

Em 1932, foi palco de um dos momentos mais emblemáticos da Revolução Constitucionalista, quando uma manifestação popular culminou em tragédia, onde quatro jovens estudantes ali foram mortos, e cujas iniciais de cada nome desses jovens, formaram a sigla MMDC, um símbolo da Revolução.

Cartão Postal do MMDC

As armas paulistas  revolucao constitucionalista  Obelisco de São Paulo 05
Cartão postal em homenagem ao M.M.D.C., Cartaz convocando à luta armada, foto de uma manifestação em pró do Movimento Constitucionalista e finalmente uma foto do Obelisco de São Paulo, no Parque Ibirapuera, construído em homenagem aos heróis da Revolução Constitucionalista.

8Feira Hippie na Praça da república. Foto: Francisco de Almeida Lopes.

Consta também nos anais da história, que nos anos 40, tornou-se um costume espontâneo dos munícipes, realizar trocas de objetos em geral, embora isso não fosse um evento propriamente dito, ou algo programado desse nível.

Segundo o jornalista Marcelo Duarte, que mantém o Site Guia dos Curiosos e que, de fato, é um dos maiores pesquisadores de cultura em geral do país, foi a partir de 1956, que a praça começou a se tornar um ponto de encontro de colecionadores, graças à um evento específico desse teor, promovido pelo filatelista J.L. de Barros Pimentel, que reuniu ali sua coleção de selos, atraindo a curiosidade de filatelistas paulistanos. Contudo, apesar disso, a praça só ganharia a fama como cenário de um evento fixo, e com regularidade, no final dos anos sessenta e graças à uma questão excepcional de caráter contracultural, iniciada no exterior, mas que rapidamente encontrou eco em São Paulo.

Com a explosão do movimento hippie nos Estados Unidos e em muitos países europeus, tais ideias e ideais chegaram com relativa simultaneidade no Brasil e, particularmente em São Paulo e, como sinal disso surgiu na Praça da República os vendedores de artesanato e, por volta de 1967, algumas manifestações isoladas de Hippies, tentando vender sua produção artesanal, foram duramente reprimidas pelo poder policial.   

Bem, com a ditadura militar apertando o cerco, apoiada pela camada mais conservadora da sociedade, era natural que cabeludos usando roupas coloridas fossem muito malquistos e mesmo que aparentemente fossem pacíficos e apenas interessados em vender seus objetos artesanais, tal reação e preconceito, resultassem em atitudes repressivas.

30Feira Hippie na Praça da república. Foto: Francisco de Almeida Lopes.

Pouco tempo antes, por volta de 1965-1966, há registros na imprensa informando que nas imediações da Praça da República, nas Ruas Sete de abril, Barão de Itapetininga e Vinte e Quatro de maio, rapazes com cabelos longos, acima do padrão socialmente aceito como "normal", foram hostilizados com vaias da população e que em alguns casos a violência resultou até em apedrejamentos.

Portanto, , pouco tempo depois, aos olhares da burguesia paulistana os hippies com visual ainda mais “agressivo” que surgiram devem ter chocado ainda mais. E pelo lado social, propriamente dito, o artesanato era a única forma de ser anti-sistema, mas manter-se minimamente dentro dele, a não ser a opção adotada por hippies mais arrojados e radicais, em buscarem rincões remotos do país, para montarem comunidades rurais e autossustentáveis pela agricultura comunitária etc etc.

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Feira Hippie na Praça da república. Foto: Francisco de Almeida Lopes.

Mas para quem queria ser hippie urbano, só embrenhando-se na arte, via música, artesanato ou mesmo literatura alternativa (e de fato, a partir dessa mesma época, tornou-se comum a abordagem de poetas e escritores alternativos, vendendo publicações mimeografadas pelas ruas, notadamente em portas de cinemas; teatros e Shows de Rock.

Por sorte, e apesar da ditadura, São Paulo tinha um prefeito muito dinâmico nessa ocasião (Faria Lima), e mais aberto ao mundo moderno, e não à Idade Média, como a maioria de seus pares desta época, baixou um decreto em 1968, autorizando a presença dos artesãos hippies na Praça da República. Dessa forma, começou ali uma nova tradição na cidade, a Feira Hippie dominical.

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Feira Hippie na Praça da república. Foto: Francisco de Almeida Lopes.

Rapidamente a feira cresceu e se tornou um ponto turístico da cidade, atraindo o público, e fazendo a Feira se tornar solidificada, economicamente, inclusive. Em princípio, os produtos expostos resumiam-se a poucas opções. Artigos de couro em predominância, no formato de bolsas e cintos. Mas claro que com o tempo, outros artesãos trouxeram uma gama de produtos diferentes, enriquecendo a Feira.

Por volta de 1969, outras cidades brasileiras também já tinham Feiras Hippies significativas. No Rio, a Praça General Osório, em Ipanema, tornou-se a Feira Hippie dos cariocas, escrevendo sua história na cidade maravilhosa; em Belo Horizonte, a Feira Hippie dos mineiros, ganhou proporção mastodôntica, realizada na rua, como Feira Livre de alimentos; e outras cidades também abraçaram a ideia, incluso cidades interioranas, caso de Campinas, no interior de São Paulo.

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Feira Hippie na Praça da república. Fotos: Francisco de Almeida Lopes.

No caso da Praça da República, a Feira manteve sua tradição hippie, até meados dos anos oitenta, quando aos poucos, outros artesãos, não necessariamente comprometidos com a ideologia aquariana, começaram a ser absorvidos.

Nos anos noventa, a Feira ainda era enorme, mas a raiz hippie que a notabilizou desde 1968, já quase não existia mais. Se parecendo mais com uma feira de bugigangas para vender para turistas gringos, seu charme original diluíra-se.

Sai prefeito, entra prefeito, e um desses que passou pela prefeitura e nem merece ser mencionado, resolveu que a Feira deveria ser extinta. Gritos surgiram em protesto e uma ideia mais amena, mas ainda absurda, propôs então uma mudança de local, no afã de não radicalizar. Mas venceu o bom senso, e a Feira voltou rapidamente à Praça da República, seu endereço histórico.

Ainda se vê algum Hippie veterano aqui e ali; alguns Neo-Hippies, mas hoje em dia, aquele comprometimento com o movimento, não existe mais, e a Feira tem mais característica de uma Feira de antiguidades, mesclada ao artesanato, além de artigos para encantar turistas estrangeiros, encantando-os com o exotismo tropical do Brasil, mas mesmo assim, ainda se encontra alguma coisa bacana, mesmo que para achá-las, seja preciso garimpar bem...

Luiz Domingues

Lembranças do Barbieri:

Muito embora esta matéria tenha sido centrada na Feira Hippie da Praça da República, não pude deixar de viajar no tempo e retornar mentalmente à este período tão importante da minha vida. Para muitos jovens da minha idade, se por um lado, no norte do Planeta, o Flower Power desabrochava, infelizmente, os países ao sul da linha do Equador, viviam debaixo de ditaduras patrocinadas pelos Estados Unidos através da CIA. Então, Brasil, Argentina e Chile eram controlados com mão de ferro pelos seus ditadores militares. A censura dos meios de comunicação era rígida e, portanto, foi nada mais do que um milagre o fato de lá pelo começo dos anos 70 o filme Woodstock ter sido liberado. Mais dois filmes escapariam a tesoura da censura e seriam para mim muito influenciais; Um estranho no Ninho e Sem Destino. Enquanto o teatro e o cinema brasileiros eram controlados com "vara curta" o rock nacional comparado com a MPB, parecia que corria solto. Na verdade, apenas parecia que "corria solto" porque muito embora Raul Seixas, tenha sido o único músico de rock diretamente convidado à retirar-se do país, muita gente teve problemas com "os homens". Niguém escapou! De Mutantes à Made in Brazil passando por Som Nosso de Cada Dia, Patrulha do Espaço e muitas outras bandas (até Rita Lee conheceu cadeia), todo mundo teve seus problemas com "a lei". Há! Não esqueçamos da fatídica Tenda do Calvário onde muita gente passou por 24 horas de terror dentro do DEIC (Até o Barbieri aqui!), a coisa estava brava.

Mas, os anos 70, não foram apenas anos de miséria. Mesmo assim, conseguimos ter no nosso mini Woodstock com o Festival de Águas Claras mais conhecido como Festival de Iacanga porque aconteceu nas cercanias da cidade de mesmo nome. Estes anos também foram os anos das minhas descobertas relativas ao sexo oposto, foi no começo dos anos 70 que aconteceu o meu primeiro beijo, e foi a primeira vez que fiz amor. Ninguém esquece estas coisas! Neste período assistir um show de rock era um evento para ser lembrado o ano todo. A feira que acontecia na Praça da República era mais uma parte desta realidade libertaria que coincidia com a descoberta de uma nova consciência tanto espiritual como sexual. A ideia de morar num sítio ou ir nadar nu numa praia deserta, fumar à noite à volta de uma fogueira na beira da praia praticamente desconhecida como a Praia Branca ou mesmo em Maresias que nos anos 70 era apenas residência de pescadores e o seu acesso só podia ser feito por uma estrada de terra estreita e perigosa. Foi neste mesmo período que uma cidade despontou como meca para todos os hippies buscando um lugar onde todos pertencessem à mesma tribo. Embu tornou-se de repente um lugar para visitas de fim de semana. Modismo ou não até hoje Embu guarda uma aura meia hippie. Bom, em termos de rock internacional, foi um tempo muito especial e o número de bandas lendárias que tiveram seus momentos de glória neste período é muito grande para ser enumerado aqui. Perdemos alguns heróis (Hendrix, Janis e Jim Morrison) mas, ganhamos Led Zeppelin, Black Sabbath e Deep Purple (só para citar 3 porque a lista é grande)      

Bom, fico pro aqui porque a minha ideia não era aprofundar-me demais e só dar uma pequena pincelada. A verdade é que lendo esta matéria do amigo Luiz Domingues fiquei saudoso… :-)

Antonio Celso Barbieri

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Feira Hippie na Praça da república. Foto: Francisco de Almeida Lopes.


Feira Hippie da Praça da República

Escrito por Vera Morattapor e postado por Bruna Pezzini Corrêa no seu blog em outubto de 2012

Por volta do final dos anos 60 e o início dos 70, surgiu o Movimento da Contracultura: uma tentativa de estabelecer novos padrões na arte. Não apenas surgiram novas temáticas, mas também surgiram novas cores, novas misturas, novas harmonias. Como todo movimento artístico, este também influenciou novas tendências ideológicas, como o Movimento Hippie.

A juventude, guiada por esta época de clemência por paz e amor, vivia seus tempos de voz ativa e reformulações. Foi por volta deste tempo que, na cidade de São Paulo, se desenvolveu uma Feira Hippie. Esta acontecia na Praça da República, periodicamente, e a cada ensolarada manhã de domingo tinha o poder de conceder à cidade uma nova dose de cor e música.

“Era inevitável dar um passeio por ali, sobretudo naqueles domingos de sol. Eram chamadas de feiras hippies que, no começo, provocaram muita indignação dos mais tradicionalistas, capazes de dizer que aquilo não era trabalho, era tudo "coisa de cabeludo" e que a "juventude estava perdida".
Feira Hippie da Praça da RepúblicaFeira Hippie na Praça da república. Foto: Francisco de Almeida Lopes.

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Feira Hippie na Praça da república. Foto: Francisco de Almeida Lopes.

 Felizmente a Praça da República era, de fato, um espaço democrático no meio da ditadura, uma contestação colorida e viva, o espaço da juventude marcar a sua presença através de um trabalho nada convencional, mas criativo, cheio de pulsação, de alegria de viver, abrindo-se espaços para a diversificação dos saberes e de outras tantas numerosas praças de artesanato pelo país.”

Vera Morattapor

Vídeos


O sonho do  roqueiro comunista estadao small
Matéria publicada no Estadão em 1986, Para facilitar a leitura transcrevi o texto abaixo:

 

O Sonho do Roqueiro Comunista

O Som da pesada no lançamento hoje da candidatura de Celso Barbieri à Assembleia.
Publicado no dia 30 de agosto de 1986 no Caderno 2 do Jornal O Estado de São Paulo.

Escrito por Ricardo Soares

O rock errou? Perguntou Lobão no seu último LP. Não, deixou o palco e subiu ao palanque, responde o roqueiro, animador e produtor de shows de diversas bandas Celso Barbieri, 34 anos, que lança hoje (pelo Partido Comunista Brasileiro) sua candidatura a deputado estadual em seu comitê eleitoral, na rua Brigadeiro Galvão, 993, Barra Funda.

Para animar a jam-session político- roqueira, Barbieri convidou duas bandas em que acredita: a Sacerdote (Heavy Metal) e a Sigma (Instrumental). Entre os agudos e rataplãs das baterias, Celso vai empunhar seu microfone e anunciar à galera possivelmente vestida de negro sua plataforma política. Ela inclui a abolição da censura para shows de rock e a obrigatoriedade de gravação de bandas de rock nacional pelas multinacionais do disco, numa proporção mais equilibrada em relação aos lançamentos do Exterior.

Os caminhos de Barbieri com o rock and roll não se cruzaram há pouco tempo. Em 1972, ele já estava envolvido com Os Mutantes e o Terço (nota do Barbieri, na entrevista eu falei Made in Brazil e Patrulha do Espaço!). desempenhando funções que iam desde carregar pesadas caixas de som a organizar a contabilidade ou ainda varrer palcos repletos de copos e pontas de cigarro, depois dos shows.

"São 14 anos envolvidos com o rock nacional, tempo suficiente para perceber que nada vai mudar se não houver uma luta, um grande esforço político" - diz Celso Barbieri.

Os olheiros do partido do Montoro já tinham percebido Barbieri bem antes. Tempos atrás, empunhando um microfone com chiado, ele liderou uma passeata de bandas de rock que não queriam o fim da Praça do Rock, espaço dedicado à bandas desconhecidas no Parque da Aclimação. Depois que cessaram os gritos de "roqueiro-unido-jamais-será-vencido", Barbieri também foi vencido pelos argumentos dos militantes da esquerda do PMDB e descobriu o socialismo.

Hoje ele acredita que este sistema político "não seria mau para o Brasil". E lembra os seus prováveis eleitores: "Quem tem alguma coisa a perder com o socialismo é só Paulo Maluf. Para quem ganha salário, nada muda" - diz Barbieri, cansado de conviver com a apatia política dos roqueiros. Mesmo assim, hoje ele dá o primeiro passo em busca dos eleitores.

Nota do Barbieri: Para quem não se lembra, o PMDB agrupava todos os partidos de esquerda, alguns na época ilegais. Em 1986 foi a primeira vez que o PCB foi para as eleições como um partido legalizado. Muito embora os militares tenham feito muito mais terrorismo do que a esquerda, o PCB só foi legalizado porque as leis eleitorais foram mudadas e, somada à campanha de desinformação criada por tantos anos de controle militar ficou claro para a direita que a chance do PCB eleger alguém seria bem remota. Mais tarde, lideres do PCB migrariam para o PT e, por de trás dos panos criariam o Novo PT, mais confiável para a direita, apertariam a mão do Diabo, chegariam ao poder e, como sempre acontece, lamentavelmente o poder do capital os corromperia e a cúpula do partido se tornaria numa elite burguesa sem nenhuma ética e como uma insaciável sede de poder. Isto me leva às eleições de 2014. O problema é grave e, simplesmente por falta de opção. Não vou votar na Marina porque ela abrirá ainda mais as portas para os evangélicos e, acredito que o Brasil está caminhando perigosamente para um regime religioso totalitário. Não votarei no Aécio Neves porque ele representa a direita e somente atende aos interesses dos ricos e latifundiários. Sou contra cancelar meu voto porque este é meu momento importante para participar na direção dos destinos do meu país. Portanto só me resta a Dilma que, apesar de ser um cordeiro do Lula, totalmente sem carisma, ainda é a melhor opção entre os candidatos para presidente. Acredito que o PT como partido socialista seria bom, desde que ele tivesse uma base realmente politizada, que verdadeiramente policiasse a sua cúpula, renovasse as lideranças e aposentasse o Lula. Para isto só existe uma solução, todo mundo entrar para o PT e muda-lo de dentro para fora!

 

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Barbieri participa junto com Dalam Junior do primeiro programa da série A Praça Era Nossa
relembrando a história da Praça do Rock no Parque da Aclimação
Escrito por Antonio Celso Barbieri

A produção do programa, encabeçada pelo grande Markko Mendes trabalhou à mil por hora para colocar este programa no ar. A Praça Era Nossa é um programa radiofônico com duas horas de duração que, tem como objetivo, atravéz da colheita de depoimentos com os idealizadores, colaboradores e público participante, de resgatar a história dos espaços e eventos que foram importantes para a divulgação do Rock Paulista. O progama que, rodou nesta segunda-feira (03/02/2014), num bate-papo informal relembrou um passado não tão distante, mas que na verdade é desconhecido do grande público. Ao mesmo tempo, ele mostrou um pouco do rock feito por algumas das muitas bandas daquele período lembrando que algumas delas ainda hoje estão em ação nos palcos da nossa querida São Paulo. Nesta conversa, Dalam Junior e eu, mediados por Markko Mendes, retornamos lá pela metade dos anos 80 para os primórdios da Praca do Rock que acontecia na Concha Acústica do Parque da Aclimação. Dalam Junior foi o idealizador da Praça do Rock e o Brabieri aqui acabou sendo o apresentador do evento. 

dalan junior e markko mendes
Dalam Junior e Markko Mendes nos estúdios da MKK Web Rádio no dia da gravação do programa.

O produtor Markko Mendes está de parabéns pela inciativa e profissionalismo onde devo destacar a sua qualidade vocal como locutor de rádio. Seu excelente timbre vocal e dicção o coloca, no Brasil, como uma das grandes vozes do rádio. Fiquei mais feliz e orgulhoso por entender que ele empresta sua vóz de qualidade internacional à serviço do Rock Nacional! Parabéns Markko Mendes!

Antonio Celso Barbieri

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Vista aérea do Parque da Aclimação, um oasis no meio do concreto!

Memórias da Praça do Rock no Parque da Aclimação


"Esses Voivod"
Escrito por Ricardo Batalha


Em mais um domingo de sol no Parque da Aclimação, aquela edição da "Praça do Rock" prometia. Afinal, estariam no mesmo palco bandas como Centúrias e Abutre. Antes dos shows, enquanto os mais novos curtiam a discotecagem cheia de novidades, os da velha guarda não viam as mudanças no Heavy Metal com grande entusiasmo. "Agora todo mundo só quer saber desses 'Voivod'. Não entendo. Pô, vou falar com o Dalam. Eles bem que poderiam rolar um Aerosmith, um UFO ou um Kiss", dizia João Carlos.

 

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Dalan Junior
O funcionário do escritório de advocacia de meu falecido pai não conseguiu achar Dalam Junior, mas seguiu com seu inconformismo. "A Woodstock já está começando a divulgar demais essas bandas aí. Rica, desse jeito a moçada vai esquecer de quem surgiu antes. Eu não te mostrei Voivod, mas UFO, Aerosmith, Kiss, Judas Priest, Scorpions, Iron Maiden, né?", perguntava Joãozinho, um grande incentivador para me colocar nesse mundo da música pesada e que também era chamado por outros de Sujeirinha ou Johnny Dillinger.

Ao lado de Antonio Celso Barbieri, que apresentava os eventos, Dalam Junior (baixista do Mercúrio) foi idealizador e um dos responsáveis pela realização dos eventos na concha acústica do Parque da Aclimação, que tinha apoio do Jornal do Cambuci. Tenho grande respeito e admiração por eles pela perseverança em transformar aquele espaço em um grande ponto de encontro de rockeiros. Basta você imaginar que, no último domingo de cada mês, bastava ir ao Parque da Aclimação para estar rodeado de grandes árvores e todo o verde do local, tendo atrás um belo lago e à sua frente um palco com sistema de som potente, com as melhores bandas de Rock/Metal da época tocando. Ah, sim, sem pagar um centavo.
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Antonio Celso Barbieri

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O Parque da Aclimação

João Carlos "Sujeirinha" não se conformava, mas eu tentava argumentar: "João, eu gosto dessas bandas novas. Não sei explicar direito, mas elas são bem mais agressivas e eu acho isso legal!". Ele ficava cada vez mais impaciente: "Vou falar com o Orlando para ver se ele muda esse cara do som! Ou mudam ou nunca mais vou chegar cedo aqui!", falava o sempre calmo e bem humorado João Carlos no alto de seu momento de irritabilidade.

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A banda Voivod

Joãozinho saiu do local onde estávamos e demorou para voltar, já que estava procurando Orlando Lui Jr., o já falecido baixista que passou pelas bandas Gozo Metal e Rock da Mortalha e que tinha grande influência entre os organizadores da Praça do Rock. "O Abutre bem que podia começar o show logo para a moçada ouvir som legal e parar com esses 'Voivod'!", seguia o excepcionalmente irritado Joãozinho.

Os shows do Abutre e Centúrias foram excelentes, mas aquele não era mesmo o dia de Joãozinho, pois bastou o Abutre entrar no palco para ele disparar: "Tá vendo? São os 'Voivod' no som e agora os Abutre me aparecem com lencinhos no braço?! Mas o que está acontecendo?!", indignava-se. Como não sentia absolutamente nada em relação àquilo, curti cada momento daquela bela tarde de domingo. Joãozinho, por sua vez, saiu antes do final dos shows.


Na semana seguinte, após passar pela Woodstock Discos, resolvi ir à Galeria do Rock. Joãozinho falou tanto, mas tanto, que resolvi comprar uma fita cassete com a gravação do disco "War And Pain" (1984) do Voivod – algo muito comum naquela época em que os discos importados eram caríssimos e difíceis de se encontrar por aqui. Comprei, gostei e me tornei fã. Porém, mal sabia eu que, muitos anos depois, viveria o papel de João Carlos. Eu sei bem o que ele sentiu e passou naquele domingo. Depois eu conto...

Ricardo Batalha

Barbieri recomenda: Fique sabendo mais sobre a Praça do Rock no Parque da Aclimação lendo esta matéria:

Rock & Política: Capítulo II - Dalam, Jornal do Cambucí e a Praça do Rock

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Capa do álbum "War And Pain" da banda Voivod
Batalha Ricardo Batalha

São Paulo, SP, Brazil
Redator-chefe da revista Roadie Crew.
Diretor da Brasil Music Press.
Colaborador do Stay Heavy, Maloik, Sleevers, Rádio Shock Box e Território da Música

 

 

sabado dinotos
Sábato Dinotos. Digital Arte: Barbieri

Sábato Dinotos:
Discos Voadores, Ditadura Militar e o dia em que Barbieri quase entrou numa fria!

Escrito por Antonio Celso Barbieri

Lá por volta de 1968, a população brasileira  vivia momentos difíceis. Vivíamos o auge da Ditadura Militar. A censura aos meios de comunicação era implacável e saber o que realmente estava acontecendo no país uma tarefa difícil. O jornal o Estado de São Paulo cansado de ter suas páginas censuradas, resolveu usar a tática de apenas substituir as matérias censuradas por receitas culinárias. Como resultado, era curioso frequentemente encontrarmos, na primeira página do “Estadão”, uma receita de bolo. Este ano foi um ano cheio de atentados terroristas com muitas bombas explodindo, assaltos à bancos e roubos de explosivos.

Em 68 eu tinha apenas 16 anos. Não fazia muito tempo que tinha descoberto o rock. O mundo da música ainda reverberava ao som dos Beatles e seu álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967), um marco revolucionário em termos de gravação e produção. Os Beatles viviam o psicodelismo e o LSD e, nós a ditadura.  

Eu ainda estava no ginásio, nunca tinha tido uma namorada e vivia  acompanhando de perto os programas espaciais russos e norte americanos. Os norte americanos, com o seu Projeto Apolo tinham claramente passado a perna nos russos e, em apenas mais um ano, pisariam na Lua.  

Era fã de carteirinha de Vernher von Braun o cientista alemão responsável pela criação do gigantesco foguete Saturno V e o cérebro por trás do programa espacial dos norte americano.  Era também um ativo interessado em míssil modelismo. Pesquisava em casa, várias combinações de substâncias para criação de um combustível sólido eficaz para meus foguetinhos. Meu quarto mais parecia um laboratório de química.

Minha família não tinha a menor ideia que eu dormia com uma lata vermelha contendo um quilo de pólvora debaixo da cama. Além disso também tinha uma enorme coleção contendo uma grande variedade de produtos químicos. A pólvora, comprava numa casa de armas e munições que, não fazia perguntas e, os produtos químicos comprava em pequenas quantidades da Casa do Cientista do Amanhã, uma lojinha que ficava numa pequena galeria no centro de São Paulo. 

Nas festas juninas, adorava brincar com fogos de artifício. Gostava de desmontar as bombinhas para ver que tipo de pólvora os fabricantes estavam usando. Logo percebi que, o pó das bombinhas quando espalhados nos dedos, brilhavam com uma cor metálica. Era pó de alumínio. Quando misturamos pó de alumínio com pólvora, durante a combustão da pólvora, o alumínio misturado libera rapidamente uma grande quantidade de oxigênio e, uma vez que esta pólvora normalmente está comprimida, enrolada em papel, a bombinha explode. Estava claro que adicionar alumínio no combustível sólido dos meus foguetes seria suicídio. Mais tarde descobri que pó de zinco era mais efetivo é até,  já era usado em foguetes.


Bom, a verdade, é que meu conhecimento de química era muito limitado e meus foguetes acabavam sempre explodindo espetacularmente. Meu amigo Adonis, para meu desagrado, sempre se referia aos meus “foguetes” como sendo “petardos”.

A minha turma de “cientistas malucos” era formada, além de mim, pelo meu irmão Jorge, e meus amigos Adonis e George Romano. Adonis era o teórico e George Romano o prático. Éramos assíduos visitantes, nas escolas, das Feiras de Ciência, sempre buscando por alguma solução para os nossos foguetes.

Adonis Jorge George Paulo
Adonis, meu irmão Jorge, George Romano e Paulo, meu irmão mais novo
em uma de nossas "expedições" por Botucatu, minha cidade natal. Foto: Barbieri

Outro assunto que tínhamos muito interesse eram os relacionados aos Discos Voadores (OVNI ou UFOS). Sempre que possível, procurávamos visitar pessoas que diziam terem visto discos voadores e principalmente aqueles que diziam terem sido contatados por seres alienígenas. A ideia da possibilidade de termos contato com um ser vindo de uma outra civilização fora do nosso planeta era e, ainda é, realmente muito excitante.

Quando fiquei sabendo que um tal de Sábato Dinotos iria comparecer à um programa de auditório nos estúdios do, agora, extinto Canal 9 para falar dos seus encontros com extraterrestres, convenci meu amigo Adonis à ir comigo no programa. Aliás, Sábato Dinotos era um nome que já conhecia à algum tempo, só que, não sabia do que se tratava.  Frequentemente, quando tomava ônibus, assim que sentava em um banco, via o nome Sábato Dinotos escrito abaixo do desenho de uma estrela de David. Era sempre assim, tudo escrito em azul, com “pincel atômico”, nas costas do banco à minha frente. Parece que o homem vivia com uma caneta na mão "grafitando" todos os ônibus da cidade de São Paulo. Sem dúvida ele foi um dos precursores desta arte.

O programa de TV foi gravado em um estúdio em São Paulo que, ficava exatamente onde hoje é o Teatro Cultura Artística pertencente à Secretaria Municipal de Cultura. Neste programa, o senhor Dinotos, fazendo publicidade do seu livro A Antiguidade dos Discos Voadores que, tinha sido publicado no mês de março do ano anterior, com tranquilidade informou que ele mantinha contatos frequentes com seres de outros planetas e que tinha formado um grupo reduzido de pessoas que ele permitia presenciar estes encontros. Nós assistimos ao programa e, no final, saímos e fomos para a saída dos artistas esperar por ele.

Quando este senhor saiu, batemos um papo rápido, deixamos claro o nosso interesse pelo assunto e que gostaríamos de saber mais à respeito.

Muito embora, tudo que ele falasse fosse muito duvidoso, é lógico que, se ele realmente tivesse algum contato com outra civilização, nós obviamente também queríamos participar do seu grupo.

O homem, de uma forma simpática, mas reservada e até com uma certa desconfiança nos informou que, no dia seguinte, ele estaria o dia inteiro recebendo os leitores e interessados, na Livraria Freitas Bastos que ficava não muito distante da Praça da Sé.

No outro dia, lá fomos nós para a Livraria Freitas Bastos. Não iríamos abandonar este caso tão facilmente!

george adamski
George Adamski

Quando chegamos na livraria ele estava só. Obviamente, apesar da excelente publicidade que ele andava fazendo, participando de vários programas de TV, aparentemente, não havia muita gente interessada no seu livro.   

Levei meu álbum de recortes com várias fotos de discos voadores, tiradas entre outros, por George Adamski um norte americano que, como ele, era também uma figura controversa que se dizia “contatado”. Adamski, era e é considerado por muitos ufólogos  como sendo um grande charlatão. Sábato Dinotos, folheou rapidamente meus recortes, disse que já conhecia todo o seu conteúdo e que, as fotos do Adamski já eram bem conhecidas e muito possivelmente fraudes. 

Bom, conversa vai conversa vem, ele falou exatamente o que queríamos ouvir. Disse que tinha um pequeno grupo que reunia-se, todos sábados, em um escritório, no antigo Prédio Martinelli. Se não me engano, os encontros aconteciam, no último andar. Então, para nossa alegria, convidou-nos para o encontro do próximo sábado.

No sábado, cheios de expectativas, nos dirigimos aos Prédio Martinelli. Tomamos um elevador pequeno, muito antigo, daqueles que a porta é apenas uma sanfona metálica que temos que fechar manualmente. Já no andar, percorremos corredores escuros e abandonados até encontrarmos uma porta trancada. Nós ficamos ali, um tempão, esperando que alguém chegasse mas, foi em vão. 

george adamski ufos
Algumas das famosas fotos tiradas por George Adamski em 1951/52.

Voltamos para casa desapontados. O fim de semana terminou sem maiores novidades. Na segunda-feira, de manhã, para minha absoluta surpresa, Sábato Dinotos estava na capa dos principais jornais.

Ainda hoje recordo-me, ter visto a foto do homem com uma expressão de medo e cansaço, a barba por fazer, usando uma camiseta branca sem manga, atrás das grades de uma sela. Seu nome verdadeiro era Aladino Félix.

A matéria dizia que ele tinha sido preso pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) dentro dos estúdios da TV Record ao sair de um programa de entrevistas. Este programa tinha como entrevistadores, Blota Junior, Kalil Filho e Randal Juliano. No programa Dinotos tinha falado proféticamente sobre diversos atos terroristas e incêndios em TVs que, no final acabaram acontecendo. A matéria informava também que ele seria o responsável somente naquele ano por, 14 bombas explodidas e o roubo de um banco (Algumas fontes dizem que foram 12 bombas e um assalto à banco e outras que as bombas resultaram em vários mortos e feridos).  

Segundo Cláudio Tsuyoshi Suenaga no seu texto A Verdadeira história de Dino Kraspedon e Aladino Félix (leia abaixo no final desta matéria), “tais atos acabaram errônea e convenientemente atribuídos a esquerda, e contribuíram de sobremaneira para disseminar o clima de agitação e desordem que abriria o leque de justificativas para o fechamento total do regime militar, por meio da decretação do Ato Institucional numero 5 – o famigerado AI-5 em dezembro daquele ano.”

As verdadeiras motivações que levaram Aladino Félix, um homem nascido em 1920 no Vale do Paraíba, na cidade de Lorena no estado de São Paulo, à tomar estas atitudes extremistas, talvez nunca saberemos. Logo que foi preso, à primeira vista, como era de se esperar, o governo militar, apontou o dedo para “os comunistas infiltrados no país”. Entretanto, Aladino Félix, assim que pode, denunciou à Justiça Criminal que tinha agido seguindo orientação do general Jayme Portela, chefe da Casa Militar da Presidência da República, reclamou que tinha sido torturado indevidamente uma vez que ele estava à serviço das Forças Armadas. Curiosamente, não demorou muito para que Aladino Félix conseguisse fugir (!?). Aparentemente ele era um tipo de agente secreto plantando bombas para justificar as medidas ditatoriais do próprio governo militar.  Mais tarde, em meio à histórias nebulosas, nunca realmente comprovadas, ele foi preso novamente, cumpriu sua pena e, simplesmente desapareceu de cena. Aladino Félix faleceu em 1985.

a antiguidade dos discos voadores
Barbieri e o livro A Antiguidade dos Discos Voadores escrito por Sábato Dinotos (Aladino Félix)

Vocês imaginem só, se eu tivesse sido preso juntamente com este homem e depois, em uma visita à minha casa os militares encontrassem embaixo da minha cama uma lata com aproximadamente um quilo de pólvora, vários produtos químicos, canos de alumínio (do tipo mais resistente que chamávamos duro-alumínio) e todo tipo de parafernália elétrica e de laboratório. Não quero nem pensar...

Certamente, eu e toda a minha família estávamos correndo risco de vida. Isto só serve para provar que muitas vezes os pais, debaixo dos seus narizes, são incapazes de ter a menor ideia do que está acontecendo com seus filhos. Recordo-me que até meu pai foi com a turma testar um dos meus foguetes!

Testávamos meus foguetes em um enorme terreno baldio abandonado que, ficava paralelo à linha de trem pertencente à Estrada de Ferro Santos à Jundiaí localizada à mais ou menos um quilometro de distância da na minha casa, no bairro da Barra Funda. A plataforma de lançamento do foguete consistia em uma pequena base de madeira onde estava montada uma estrutura metálica que mantinha o foguete em pé. A ignição elétrica era provida por uma pequena bateria de moto que ficava perto da base de onde saia um longo cabo que terminava em um interruptor elétrico.

Uma vez, quando testávamos pela primeira vez um foguete cujo corpo era montado num tubo de duro-alumínio, quando, escondidos atrás de um barranco, fizemos a contagem regressiva e apertamos a ignição, imediatamente ouvimos uma explosão fortíssima com o foguete literalmente desaparecendo no ar. Parecia que ele tinha se desintegrado instantaneamente. Ficamos todos olhando para o céu tentando encontrá-lo. Depois de vários segundos ouvimos um barulho forte de algo caindo sobre um barraco pertencente à uma pequena favela que tinha sido formada recentemente à uns 300 metros do local.  Imediatamente vimos várias pessoas saindo para fora do barraco e correndo na nossa direção. Fugimos e nunca mais voltamos!

Sem um lugar para testar meus foguetes, este foi o final das minhas experiências perigosas. Neste período, entre os projetos, discutidos mas, nunca realizados, estavam a fabricação de nitroglicerina, a construção de um raio Laser e a construção de um telescópio usando um espelho côncavo.  :-)

Confesso que tenho saudades deste tempo. Apesar da loucura adolescente, foi um tempo em que como jovens, aparentemente erámos mais práticos e nossos interesses eram menos voltados aos bens de consumo e mais em busca do conhecimento.  Foi um tempo cheio de idealismo e fantasia muito diferente do comercialismo e cultura de massa dos dias de hoje onde jovens passam a maior parte do seu tempo na frente dos computadores sonhando com o próximo modelo do iPhone ou iPad.

Abaixo, para download, seguem links para alguns textos muito bons que, vinha recolhendo já a algum tempo e que, colocam uma luz muito maior neste tempo conturbado da história brasileira conhecido como Os Anos de Chumbo. Não deixem também de ler os dois textos que seguem depois dos links!

Antonio Celso Barbieri

A Provocação da Anarquia folha.uol.com.br
Aladino Feliz, o Homem que Queria Ser o Rei do Mundo Bira Câmara
Aladino Felix (texto retirado da Biografia dos Ufologos Brasileiros) Autor Desconhecido
Culto aos Discos Voadores - Ascensão e Queda dos Ufolátras Claudeir Covo
Generais Estadistas e Estadistas Generais na Politica Brasileira Adriano Nervo Codato
A Ditadura Envergonhada - Vol I Elio Gaspari
A Ditadura Escancarada - Vol II Elio Gaspari
A Ditadura Derrotada - Vol III Elio Gaspari

A Verdadeira história de Dino Kraspedon e Aladino Félix
Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

Aladino Félix, também assinava livros como Dino Kraspedon, Sábado Dinotos e Dunatos Menorá.

Aladino Félix é um dos nomes mais polêmicos da Ufologia Brasileira. Félix escreveu livros como Contato com os Discos Voadores, um clássico da literatura ufológica mundial, Mensagens aos Judeus, o Hebreu e A Antiguidade dos Discos Voadores, que se antecipava a Erich von Daniken. E para completar, o autor líder messiânico e acusado de terrorismo, preso pelo Departamento de Ordem Política e Social(DOPS) e demais órgãos de repressão política do regime militar (1964-1985) - Aladino Félix foi torturado conseguiu escapar e acabou recapturado. Depois de cumprir pena, desapareceu. A meteórica trajetória de Félix é em si mesma um mistério, ele foi responsável por cerca da metade de todos os principais atentados políticos ocorridos em São Paulo em 1968. Tais atos acabaram errônea e convenientemente atribuídos a esquerda, e contribuíram de sobremaneira para disseminar o clima de agitação e desordem que abriria o leque de justificativas para o fechamento total do regime militar, por meio da decretação do Ato Institucional numero 5 – o famigerado AI-5 em dezembro daquele ano. Ligado a altos escalões do governo, Félix insurgiu-se como o primeiro a alertar que um “golpe dentro do golpe” estava em vias de ser implantado, e a denunciar, junto com seus adeptos, as torturas a que foram submetidos nas dependências do Departamento Estadual de Investigações Criminais (DEIC).

Durante cinco anos, desde novembro de 1952, Aladino Félix teria conservado em segredo o contato que alegava ter mantido com os tripulantes de um disco voador na Estrada de Angatuba, interior de São Paul, bem como a visita que recebera do comandante deste. Os visitantes que dizia ter encontrado eram altos, tinham suas cabeças raspadas e usavam macacões colantes. Pelo que lhe fora explicado pelo comandante da nave – disse proceder de dois satélites de Júpiter, Io e Ganímedes – as naves deviam sua alta velocidade ao vácuo que formavam com o bombardeio de raios catódicos em toda a parte externa, formando um túnel. Tendo o vácuo sempre a sua frente, o disco podia movimentar-se sem qualquer atrito, em qualquer velocidade e em todas as direções.

O comandante ainda teria postulado que o Sol e os planetas se sustentam no espaço de forma contrária a que a ciência terrena afirma. O Sol não atrairia os planetas, mas provocaria uma repulsão. “ Se até então a ciência não encontrara a solução para o problema dos três corpos, brevemente haveria maior dificuldade com a inclusão de um outro sol em nosso sistema”, dizia Félix, aliás, segundo ele, essa seria uma das razões que atrairia naves extraterrestres aqui, além de nos prevenir contra os perigos a que estávamos expostos com o advento da era atômica. O comandante dizia que todos os planetas teriam suas órbitas modificadas. A Terra por exemplo, sob a pressão de dois Sóis, iria ocupar a zona onde hoje se encontra o cinturão de asteroides, entre Marte e Júpiter.

Contato com os Discos Voadores aborda assuntos como astronavegação e a vida em outros mundos. Lança novos conceitos sobre Deus, matéria e energia. Alerta-nos sobre o perigo atômico e discute os erros cometidos por nossas ciências. Os visitantes espaciais se identificaram como habitantes de dois satélites jupiterianos, chamados Io e Ganimedes. Quanto à aparência física, Dino descreve o comandante como um homem alto, corpo esguio de simetria perfeita e com olhos grandes e azuis.

Em seu livro, Dino afirma, entre outras coisas, que há um planeta em nosso sistema solar, conhecido como SS433, que, segundo os extraterrestres, está vindo de encontro à Terra. “Quando chegar à altura do Sol, irá se incandescer”, garantiu. Como os corpos se repelem pela luz, todos os planetas serão afastados de suas órbitas. “Com isso, nosso ano passará a ter 1000 dias”, finalizou.

Foi após esses encontros que o senhor escreveu o livro?
Dino: "Sim, mas só fui escrevê-lo em 1955. Nesta época, o comandante veio novamente à minha casa. Só que a razão da visita era trazer uma profecia que deveria ser incluída no livro. Esta profecia previa um trágico fim para a humanidade: “De todo será esvaziada a Terra e de todo será saqueada, porque o Senhor anunciou esta palavra: a maldição consome a Terra e os que habitam nela serão desolados. Por isso, serão queimados seus moradores e poucos homens restarão. Os fundamentos da Terra tremem. De todo será quebrantada a Terra, de todo se romperá a Terra e de todo se moverá a Terra. De todo vacilará a Terra como o ébrio e será movida e removida como uma choça da noite”.

Para o senhor, o que quer dizer esta profecia?
Dino: "Bem, para eu entender a profecia, o comandante precisou fazer um desenho no meu caderno (que está reproduzido na página 47 do livro). Esse desenho mostra dois sóis... Ele me explicou que – ao contrário do que explica a nossa física clássica – os corpos se repelem pela luz. Explica também que todos os corpos têm luz, mas nós não temos capacidade de perceber isso. A luz é uma força que repele outros corpos. Assim, os astros se movem e não se chocam uns com os outros. Eles se repelem mutuamente. Esse é um fato que os astrônomos não dão nenhum valor... Mas voltando à profecia, ela diz respeito a um novo corpo celeste que iria invadir o nosso sistema e comprometer a vida na Terra.

De que forma esse astro pode nos prejudicar?
Dino: "O nosso sol repele naturalmente a Terra. Segundo as palavras do comandante, virá um outro sol, que também a repelirá. Essa repelência afastará todos os corpos do Sistema Solar, de forma que o planeta Plutão será jogado fora do sistema. A Terra também será afastada, indo até a região espacial dos planetoides, perto de Marte. Ao chegar nesse ponto, começará a fazer o movimento de translação em torno dos dois sóis existentes. Porém – como disse o comandante – para chegar até a região dos planetoides, nosso planeta levará aproximadamente seis ou sete dias.
Nesse período ela tremerá, causando um grande cataclismo. Este sol será detectado pelos cientistas ainda antes do fim do século (lembrar que a entrevista foi feita em 1996). Desta forma, como diz a profecia, a Terra tremerá como um ébrio... infelizmente, com isso, dois terços da humanidade serão extintos.

E foi por isso que o senhor escreveu o livro?
Dino: "Sim, por todos os motivos. Foi ele quem me pediu para escrever. Apenas cumpri uma missão... e foi o único livro que escrevi na minha vida. Várias pessoas leram a obra e gostaram muito. Em 1957, alguém levou o livro para a Rússia e, em março do mesmo ano, a Academia de Ciências da União Soviética enviou uma carta para a editora no Brasil. Então, como naquela época havia muita repressão, o Departamento de Ordem Política e Social do governo controlava tudo, principalmente o que vinha da Rússia [risadas]. O pessoal tinha horror a comunistas. O departamento pegou a carta dos russos, abriu-a e foi até a editora tirar satisfações.

Alguns fatos sobre ele

O trabalho de Cláudio Suenaga, 1968, A História Que Tentaram Apagar traz revelações surpreendentes sobre a figura de Aladino Félix e levanta a suspeita de que a sua participação na história daquele conturbado período foi subestimada pelo descaso ou preconceito de nossos historiadores. As informações a seu respeito se resumem a rotulá-lo de louco ou lhe atribuir um papel secundário.

Há muitas evidências de que Aladino tinha contatos com altos escalões do Regime Militar e é provável que acreditasse servir-se deles no seu projeto de tomada do poder. Pode ter sido um inocente útil que acreditava no apoio de alguns militares aos seus planos, ou também um bode expiatório utilizado pob eles para deflagrar a caça às bruxas. Para o pessoal da esquerda, ele não passava de um simples informante ou agente provocador. O Dr. Walter Bühler declarou que Aladino havia sido treinado pela CIA, em Chicago, de onde, “por uma razão qualquer, foi desligado”. As evidências de suas ligações com autoridades militares e as suspeitas de que poderia ter agido cumprindo ordem deles nunca foram investigadas a fundo. Isto é compreensível partindo de quem estava ligado ao regime militar; só não consigo entender o desinteresse dos historiadores em geral, que poderiam talvez levantar fatos inéditos de nossa História. As autoridades sempre negaram qualquer ligação com Aladino e apenas diziam que recebiam dele informações e denúncias, de caráter grave, sobre a situação do país. Mas, na época, falava-se que o terrorismo de grupos paramilitares de direita não começara nos anos 60, mas décadas atrás, nos anos 40 e 50. Aladino também fez esta denúncia, mas tido na conta de “louco”, “místico” e “visionário”, ninguém acreditou que por trás dele pudesse ocultar-se uma “gigantesca rede conspiratória que ao longo dos anos assumiu o controle de todos os aspectos da vida da nação”.

claudio tsuyoshi suenaga
Claudio Tsuyoshi Suenaga

Diz Cláudio, em sua tese: “Os problemas com a Igreja explicam porque Aladino não foi nem mesmo citado no livro “Brasil: nunca mais”, projeto conduzido e coordenado pelos arcebispos da Arquidiocese de São Paulo. A omissão é tanto mais grave se levarmos em conta que Aladino e seus seguidores foram praticamente os primeiros “terroristas” torturados pelo aparato repressivo que se solidificava. Apenas à página 116 deste livro, numa tabela mostrando a atuação de diversos grupos de esquerda, vemos que uma “organização sem identificação” atuou em 1968. Muito pouco para um movimento responsável por quase metade dos atentados cometidos naquele ano em São Paulo.

Provas de que Aladino Félix era Dino Kraspedon

O bancário aposentado Oswaldo Pedrosa, já falecido, assumiu a identidade de Dino Kraspedon, inventada por Aladino Félix

Ao assumir a identidade de Dino Kraspedon, o bancário aposentado Oswaldo Pedrosa necessariamente teria também de alterar sua personalidade em todos os aspectos que esta comportava. Mas não foi o que fez, entretanto [Veja UFO 106]. No intuito de restabelecer a verdade histórica sobre esse curioso personagem da Ufologia Brasileira, apresentamos provas incontestáveis de que Pedrosa não é nem nunca foi o autor de Contato com os Discos Voadores, como alardeou em congressos de Ufologia pelo Brasil afora, que freqüentou a partir dos anos 90, já octogenário. Todos aqueles que se acostumaram à falsa certeza de que o bancário era de fato Kraspedon talvez estivessem convencidos pelo seu singelo discurso ou influenciados pela ação de seus arautos, também iludidos pelo imponderado consenso que se formou a respeito.

A usurpação do nome

Um dos argumentos mais capciosos e recorrentes dos ufólogos que defendem o bancário é o de que Dino Kraspedon e Sábado Dinotos seriam personagens distintos. Para eles, Dino seria o bancário e contatado, e Sábado seria Aladino Félix, o líder messiânico e terrorista. Nada mais falso. Como se já não bastassem os testemunhos de todos os que conheceram Félix, incluindo sua família, há garantias documentais de que o autor de Contato com os Discos Voadores era de fato Aladino Félix, apenas e tão somente ele. Uma prova é a edição de 24 de agosto de 1968 do jornal Última Hora, de São Paulo [Número 5.090, ano XVII], que traz nas páginas 08 e 09 uma reportagem cujo título principal é Os Caminhos do Terror, e na página 10, um perfil do contatado e terrorista, sob o título O Incrível Aladino ou Sábado Dinotos ou Dino Casperton. Embora o jornal tenha errado na grafia, fica patente que na época a própria imprensa já reconhecia Dino e Sábado como sendo a mesma pessoa, ou seja, Aladino Félix.

A Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, instituição que armazena os registros de todos os escritores nacionais, enviou a este autor, em 24 de novembro de 1995, um documento assinado por Anna Naldi, chefe da Divisão de Informação Documental, e referendado pela pesquisadora Cássia Krebs, confirmando que Dino Kraspedon e Sábado Dinotos eram a mesma pessoa, ou seja, Aladino Félix. Em sua lista, constam como sendo de Félix as obras Bíblia Sagrada [Pentateuco], Contato com os Discos Voadores, O Hebreu: O Libertador de Israel, Mensagem aos Judeus: O Nascimento do Messias e A Órbita da Terra e a Gravitação.

Poucos meses antes de falecer, em 13 junho de 1996, este autor manteve intensa correspondência com o médico e pioneiro da Ufologia Brasileira Walter Karl Bühler, fundador e presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Discos Voadores (SBEDV), que estabelecera vários encontros com Félix na década de 50. Bühler citou Félix inúmeras vezes nos boletins da SBEDV, sempre fazendo questão de relacionar o pseudônimo Dino Kraspedon ao verdadeiro nome do mencionado, Aladino Félix. Como que antevendo a usurpação do nome, em seu Livro Branco dos Discos Voadores [Editora Vozes, 1985], Bühler ainda fez questão de declinar em várias passagens o verdadeiro nome de Kraspedon, isto é, Félix.

Por fim, durante uma visita que fiz ao veterano ufólogo carioca Fernando Cleto Nunes Pereira [Veja seção Diálogo Aberto de 132], em companhia do ufólogo espanhol e também consultor da Revista UFO Pablo Villarrubia Mauso, em 1996, aproveitei para mostrar-lhe a edição de 06 de março de 1968 do Jornal da Tarde com a matéria O Golpe Fantástico, que traz uma foto de Félix, que já fora hóspede em sua residência. Ao vê-la, Cleto logo reconheceu o velho colega. Acima da foto, o pioneiro escreveu: “Acredito que este é o Dino Kraspedon que conheci na década de 50”. O ufólogo decano Fernando Grossmann confirmou igualmente que Dino Kraspedon era de fato Aladino Félix.

Explicação necessária

Mas os leitores certamente devem estar se perguntando por que só agora, passados mais de 10 anos, é que resolvi publicar estes fatos. Em consideração aos que prezam pelo silogismo, explico. Antes, cabe dizer que este texto é apenas uma breve síntese de um extenso trabalho que compôs pouco mais da metade de minha tese de mestrado, intitulada A Dialética do Real e do Imaginário: Uma Proposta de Interpretação do Fenômeno OVNI, desenvolvida entre os anos de 1994 e 1998. O trabalho contou com a orientação do antropólogo Benedito Miguel Angelo Perrini Gil, foi apresentado junto ao Departamento de História da Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Assis, e defendido em 22 de março de 1999. Ou seja, no âmbito acadêmico, a verdade sobre Dino Kraspedon é fartamente conhecida e está acessível a qualquer pessoa que se predisponha a consultar o banco de teses daquela universidade.

Mas se até agora eu vinha adotando uma postura de resignação e protelando a publicação destes dados, isso se deveu a uma série de fatores que fugiram ao meu controle. Inúmeros problemas pessoais, inclusive de saúde, tiraram-me de circulação por anos seguidos. Compromissos e projetos mais urgentes também me ocuparam integralmente. Foram anos pesquisando e escrevendo sobre outros assuntos até que dissesse a mim mesmo que conseguiria fazer o que deveria sobre esse tema. Mesmo assim, ainda antes de ter concluído a referida tese, jamais me neguei a enviar informações a respeito aos pesquisadores sérios que me têm solicitado.

A maior preocupação, porém, não era com o desconforto de reviver episódios pouco agradáveis da história de nosso país e da Ufologia Brasileira, remexendo suas piores memórias. Mas o desafio de encontrar um tom apropriado para abordar o caso, sem ferir suscetibilidades ou instar conflitos desnecessários, ainda que em certo grau isso fosse absolutamente inevitável. Tampouco me faltaram vontade e coragem para tanto, ainda que sob a ameaça de retaliações em forma de ataques via imprensa ufológica. O que determinou meu silêncio foi, principalmente, a intimidação velada que sofri dos detentores do poder econômico, que me acenavam com infaustos processos judiciais, e o pedido de Raul Félix, filho de Aladino, para que aguardasse pacientemente o desfecho da ação que movia contra os usurpadores do nome e da obra de seu pai. Assim o fiz.

A verdade acima de tudo — Nesse período, entretanto, confesso que não foram pequenas as decepções diante da indiferença, da incompreensão e da veleidade renitente de alguns ufólogos e pesquisadores ilustres em relação às descobertas que apresento neste box e no artigo principal. Em compensação, também foram muitas as satisfações que tive, mais tarde, com o apoio e a colaboração que passaram a prestar alguns colaboradores, igualmente ilustres, entre os quais estão Mauso, Grossmann e Bühler, já citados, e ainda Antônio Manoel Pinto, Lobo Câmara, Ari Nicácio Moreira.

Embora a mentira sobre a identidade de Dino Kraspedon já tenha se consagrado, temos que fazer com que a verdade seja ouvida, principalmente para que sirva de estímulo e força impulsionadora para todos aqueles que têm coragem e a necessária força de vontade para prosseguir lutando por ela. Foi estimulado por tal propósito que fiz intensa pesquisa sobre Aladino Félix, resultando nas descobertas aqui apresentadas e no livro que acabo de lançar pela coleção Biblioteca UFO, Contatados. Mover céus e terras para localizar documentos históricos, testemunhas idôneas e informações fidedignas, que nos ajudassem a desvelar os segredos que se ocultavam sob uma crosta de 30 anos de silêncio, compensou.

O livro sobre sobre Aladino Felix foi escrito pelo historiador Claudio Tsuyoshi Suenaga que pesquisou os arquivos da ditadura em São Paulo.

Fontes:
Trecho da Revista Ufo Ano XXIII - Numero 134
Revista Conspiração

 A Provocação da Anarquia
Texto encontrado na folha.uol.com.br

Para quem olhava a crise de dentro do governo, a questão estudantil e mesmo o terrorismo eram apenas parte do problema. As manifestações de rua indicavam que o regime perdera o apoio da classe média e até de uma parcela da elite. Para uma Revolução que se considerara abençoada pelas Marchas de 1964, a Passeata dos Cem Mil fora uma excomunhão. A base parlamentar de Costa e Silva, sustentada pelos sucessivos expurgos da bancada oposicionista, caminhava para segunda metade do mandato com a antevisão de uma inevitável derrota nos grandes centros urbanos.

No coração do regime, o ministro do Interior, general Affonso Augusto de Albuquerque Lima, baronete da linha dura e candidato à Presidência, investia simultaneamente contra a agitação de esquerda e a conduta de colegas de governo. Chamava Costa e Silva de “molengão”. (01) Numa conversa com o prefeito de Salvador queixara-se de seus colegas da Fazenda e dos Transportes: “O Delfim e o Andreazza devem ser enforcados e pendurados de cabeça para baixo, como ladrões”.(02) Delfim sabia que Albuquerque Lima o odiava, mas embrulhava o general com a cumplicidade do presidente, a quem narrava suas manobras.(03)

No meio militar, Costa e Silva sofria o reflexo da debilidade do ministro do Exército. Lyra Tavares era um general fraco jogado num Alto-Comando de prima-donas que, ao contrário dele, haviam arriscado o fim de suas carreiras de 1964. Chocara-se com o chefe do Estado-Maior do Exército, Orlando Geisel, e depois de penosas negociações conseguiu empalhá-lo no EMFA. (04) Sofria as costumeiras pressões de radicalismo dos coronéis da linha dura, dos tenentes-coronéis da ESCEME e dos capitães da ESAO, Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais. A elas se somava o descontentamento com os soldos. Eram todas pseudônimos da anarquia. Diante dela, perdia a voz.

O melhor exemplo dessa afonia política está no comportamento de Lyra Tavares nas duas reuniões do Conselho de Segurança Nacional que Costa e Silva presidiu em julho, para discutir a crise política. Na primeira, no dia 2, o ministro do Exército foi prudente: “É evidente que ao chefe militar escapa competência para sugerir as providências legais reclamadas pela situação, mas como se configura, na presente conjuntura, um grave problema de segurança nacional, é de presumir-se que ela comporte medidas a serem tomadas no campo jurídico, na forma que o governo julgue deverá fazê-lo, sem comprometer os postulados da democracia, mas, ao contrário, precisamente para defendê-la“. (05)

Era uma parabólica defesa do estado de sítio, mas duas semanas depois, na segunda reunião, aparece um novo Lyra Tavares: Não parece haver mais dúvida de que estão sendo cumpridas no Brasil, como em toda a América Latina, as recomendações de Havana. [...] Dir-se-á que as realizações do governo, a liberalidade de seu comportamento democrático, a não-repressão das manifestações hostis, em linguagem subversiva, e o espírito de disciplinas das Forças Armadas terminarão por separar a crise quando a Nação se der conta da verdade e da importância do que o governo está fazendo por ela. A revolução rápida dos acontecimentos não parece, infelizmente, autorizar esse prognóstico otimista. [...] O quadro se configura é o de um processo já bem adiantado de guerra revolucionária. (06)     

Entre os dias 2 e 16 de julho não aconteceu nada de relevante na rua. A “evolução rápida dos acontecimentos” a que se referiu o general ocorrera no governo. Costa e Silva resolvera admitir a hipótese da decretação do estado de sítio. No momento em que Lyra fazia sua síntese apocalíptica, o general Jayme Portella tinha na pasta o decreto de suspensão das garantias constitucionais e a relação dos nomes dos futuros executores do interlúdio de exceção. Ao seu lado estava o chefe do Serviço Nacional de Informações, general Emilio Garrastazú Medici, acreditando que “o que estava na rua era a contra-Revolução”. (07) Segundo Portella, as duas  reuniões e a iminência do sítio funcionaram como ameaça. Orgulhoso, registrou em suas memórias que “o ambiente se modificou, surgindo um ou outro caso de pouca importância”. (08)   

O que houve depois das duas reuniões do Conselho de Segurança não foi um arrefecimento, mas uma opção do governo pela repressão. No dia 16 de julho, quando os ministros estavam reunidos, estourara uma grande greve em Osasco, no cinturão industrial de São Paulo.  O movimento começou às 8h30 da manhã, quando tocou o apito da fábrica de vagões Cobrasma. Era o sinal combinado. No fim da tarde havia quatro indústrias paradas, duas delas ocupadas. Um dia depois, pararam mais quatro, e os grevistas chegaram a 10 mil. A polícia atacou no terceiro dia, quatrocentos operários foram presos, cinqüenta ficaram detidos, desocuparam-se as oficinas e ocupou-se a cidade. A greve capitulou em 72 horas, antes mesmo que comandos ultra-esquerdistas conseguissem interromper o fornecimento de energia às fábricas. (09) A idéia segundo a qual se podia radicalizar nas fábricas para colher benefícios semelhantes aos recebidos no início do ano pelos operários de Contagem mostrara-se errada
.
Um dos líderes da ocupação da Cobrasma fora o baiano José Campos Barreto, o Zequinha, nascido em Buriti Cristalino, nas serras de Brotas de Macaúbas. Estivera no Primeiro de Maio da praça da Sé, mas na Cobrasma tornara-se uma espécie de capeta. Arengou aos soldados da Força Pública que se preparavam para derrubar as barricadas da fábrica, comandou a fuga dos últimos grevistas e reteve a polícia com uma tocha na mão, ameaçando explodir o depósito de gasolina. Quando a fábrica foi retomada, o ministro do Trabalho, Jarbas Passarinho, anunciou: “A Cobrasma está sob controle, José Campos de Barros foi preso”. (10) Zequinha foi levado para a sede da Polícia Federal; deram-lhe choques elétricos, passaram-lhe sabão em pó nos olhos e espancaram-no para que se confessasse ligado a Marighella. (11)

A tortura de presos políticos estava de volta. A Folha da Tarde denunciara dez modalidades de suplício. (12) o economista Luciano Coutinho, preso semanas depois pelo DOPS, levou choques para que confessasse a autoria de um documento. José Genoino, presidente do Diretório Central de Estudantes da Universidade Federal do Ceará, capturado na rodoviária de São Paulo, resumiu sua experiência: “Me espancaram como a um animal”. (13) Vladimir Palmeira, detido na PE do I Exército, viu presos ensangüentados sendo levados para suas celas. (14)  Praticada pela “meganha” nas delegacias de polícia, eterno foco de violações de direitos humanos de cidadãos humildes, ela reaparecia a serviço do regime, mas distanciada dos quartéis. Vinha na sua forma habitual, primitiva, produto de um sistema policial inepto que até hoje se vale do espancamento dos presos como modo de imposição da autoridade e dos tormentos como instrumento essencial de investigação.

No final de agosto São Paulo já fora sobressaltada por 29 bombas. (15)  Marighella organizara o ataque a um carro-forte nos subúrbio da cidade e um audacioso assalto ao trem pegador da estrada de ferro Santos – Jundiaí, do qual tirou o equivalente a US$ 21.600. (16)

Depois do ataque ao QG do II Exército, o atentado mais espetacular fora a explosão de um estacionamento situado em frente ao DOPS. O líder do grupo terrorista foi capturado em pouco tempo. Chamava-se Aladino Félix, fazia-se passar por Sábato Dinotos, mistura de mago e marginal. Ameaçava com o Apocalipse e apresentava-se como o Salvador dos Afortunados, amparado por discos voadores de uma civilização superior existente em Júpiter. (17) Levado para o Departamento Estadual de Investigações Criminais, o DEIC, confessou catorze explosões e um assalto a banco. Revelou os nomes de seus cúmplices, e a polícia prendeu toda a rede, formada por soldados e cabos da Força Pública. Sem sigla, programa revolucionário ou filiação marxista, Aladino Félix não fazia sentido. Mais tarde, denunciou que foi torturado por vinte horas. (18) Um de  seus colegas, o soldado Juraci Gonçalves Tinoco, viu-o no chão de uma sala, desacordado, com a boca ensangüentada. (19)

Na fase de instrução criminal, Aladino disse que agira por ordem do general Jayme Portella, chefe do Gabinete Militar da Presidência. O soldado Juraci informou que um delegado o mandou confessar que era o presidente Costa e Silva quem “orientava e financiava a ação terrorista”. (20) Documentadamente, o doido tinha no seu círculo de relações um general da reserva. Com sua ajuda, denunciara ao governo uma conspiração contra-revolucionária e estivera por duas vezes com o diretor da Polícia Federal. Encontrara-se com o chefe da seção de informações do II Exército, a quem revelara ter à mão uma força de blindados capaz de tomar a cidade de São Paulo. O delegado do DOPS que cuidou do inquérito de Aladino concluiu que seu grupo era formado por “idealistas que tiveram de lançar mão de marginais para executar seus planos”. Em suma: “Não eram terroristas dentro do esquema de subversão ligado ao Partido Comunista”. (21) 

No dia 16 de dezembro, anunciou-se que Dinotos escapara da prisão, mas policiais do DOPS informaram reservadamente que haviam recebido ordens para libertá-lo. Capturaram-no em setembro de 1969 numa favela, onde se dizia empenhado em traduzir a Bíblia do hebreu para o português. Nunca se identificou a mão que iluminava suas bombas. É implausível que ele tenha tratado diretamente com Portella, mas é provável que fosse a mão da direita quem lhe dava fogo. Essa, pelo menos, era a suspeita do cônsul americano em São Paulo. (22)

Apesar dos sinais de agravamento da crise que incrustavam bolsões de ilegalidade na máquina do governo, Costa e Silva persistia numa postura malandra. Deixava-se boiar na corrente, cavalgando um discurso desconexo. Levado numa direção, dizia que estava indo noutra, como se as palavras e os movimentos tivessem perdido a articulação. Repetia com freqüência que “o poder é como um salame, toda vez que você o usa bem, corta só uma fatia, quando o usa mal, corta duas, mas se não o usa, cortam-se em três e, em qualquer caso, ele fica sempre menor”. (23) As fatias iam  sendo cortadas de três em três. Reiterava seu compromisso democrático, mas cada profissão de fé legalista correspondia uma réplica de fé militarista.

Era capaz de anunciar que “creio na liberdade em si mesma, como o maior de todos os bens concedido ao homem na Terra”, com a mesma naturalidade com que informava que o Exército “não pode, em absoluto [...] sair do quartel para acabar com a anarquia e entregar, depois, o país à anarquia”. (24) Exercitava um fatalismo egocêntrico em que se via como baluarte e se confundia com a República: “Enquanto aqui estiver, essa Constituição [...] há de ser cumprida a rigor”; “Enquanto eu estiver aqui, não permitirei que o Rio se transforme em uma nova Paris”. “O poder legislativo só desaparecerá quando me eliminarem”. (25)

Capturado pelo processo de anarquia militar desde o alvorecer da sua candidatura, Costa e Silva, como Castello, governava sob pressão dos generais que o garantiam. À diferença de seu antecessor, não fez nenhum esforço real para fortalecer as instituições republicanas. De março a setembro de 1968 aplicou à crise o remédio da procrastinação. Nem reprimiu as manifestações de rua quando elas pareciam uma tempestade mundial, nem enquadrou o radicalismo do regime quando ele se criminalizou. Pode-se entender que, por razões ideológicas, e até mesmo por convicção. Costa e Silva não tivesse soluções a oferecer à esquerda, mas sua desastrosa contribuição decorreu do fato de ele não ter oferecido soluções nem sequer à direita.

No dia 2 de setembro, durante aquele horário sonolento da manhã que na Câmara se denomina “pinga-fogo”, no qual os parlamentares ocupam a tribuna para tratar de assuntos irrelevantes, o deputado Marcio Moreira Alves tomou a palavra para condenar uma invasão policial que acontecera dias antes na Universidade de Brasília. A certa altura perguntou “Quando o Exército não será um valhacouto de torturadores?”. Fazia essa acusação amparado nas violências recentes e na autoridade que conquistara denunciando e provando dezenas de casos de tortura ocorridos no governo Castello Branco, todos acobertados pelos comandantes militares. Salvo uma pequena nota publicada na Folha de S. Paulo, ninguém ouviu falar no discurso. Impressionado com a greve de mulheres proposta pelo ateniense Lisístrata na peça de Aristófanes, que assistira havia pouco em São Paulo. Moreira Alves voltou à tribuna e sugeriu que, durante as comemorações da Semana da Pátria, houvesse um boicote às paradas. “Esse boicote”, acrescentou, “pode passar também [...] às moças, às namoradas, àquelas que dançam com os cadetes e freqüentam os jovens oficiais”. (26)

Dois dias depois o ministro Lyra Tavares criou o caso. Criou-o à sua maneira. Num ofício de quatro itens endereçado a Costa e Silva, narrou o conteúdo dos discursos, reconheceu que o deputado estava “no uso da liberdade que lhe é assegurada pelo regime” e admitiu a “dignidade intangível” da Câmara.  Pediu apenas “a proibição de tais violências e agressões verbais injustificáveis”, sempre declarando-se “obediente ao Poder Civil e confiante nas providências que Vossa Excelência julga devam ser adotadas”. (27) O oficio 01/68 de Lyra a Costa e Silva parece-se na ambigüidade com a sua carta a Castello de 23 de março de 1964. Há nele toda a indignação de uma tropa ofendida e toda a compostura de um ministro disciplinado. Com o tempo, convencionou-se dizer que Lyra Tavares enviou a Costa e Silva uma representação pedindo que o deputado fosse processado. Trata-se de uma falsidade. Não há no ofício essa solicitação.

Mesmo assim, era o que bastava ao general Jayme Portella. Desde o primeiro despacho de Lyra com o presidente, o chefe do Gabinete Militar articulou a grande provocação. Dedicou-se à construção da crise com tamanho desembaraço que, capturado pela própria fantasia, chegou a dizer em suas memórias, onze anos depois, que o discurso de Moreira Alves “havia sido publicado em toda a imprensa, servindo de manchetes, o que mais irritou as Forças Armadas, pelo destaque dado”. (28) Além do registro da Folha de S. Paulo, nenhum jornal publicou nenhuma só palavra. As manchetes, os destaques e a irritação, ele os providenciaria.

Os ministros da Marinha e da Aeronáutica solidarizaram-se com Lyra. Costa e Silva determinou ao ministro da Justiça que estudasse uma fórmula jurídica para punir o deputado. A sugestão veio rápida e drástica: o governo deveria solicitar à Câmara dos Deputados uma licença para processar Marcio Moreira Alves. Essa proposição era uma monstruosidade jurídica, visto que a essência da imunidade parlamentar está na inviolabilidade das palavras, opiniões e votos dos deputados e senadores. O presidente do partido governista, senador Daniel Krieger, encarregou-se de esclarecer isso em carta ao presidente, acrescentando uma óbvia reflexão daquilo que viria a ser desfecho da embrulhada: “O processo depende de licença da Câmara. A tradição, o espírito de classe e a natureza secreta do voto nos levam à convicção da negação da licença. Criada essa situação, dela decorreria uma crise institucional, pondo em antagonismo Câmara e as Forças Armadas do país”. (29)

O que se buscava era o antagonismo. O governador Abreu Sodré ensaiou a denúncia da manobra, dizendo que “o radicalismo brasileiro está infiltrando até em mínimas áreas da periferia do governo, nos subúrbios do poder”. (30) Estava no palácio do Planalto. Portella, o mais destacado, era de longe colaborador mais influente de Costa e Silva. O general tinha como corneta o ministro da Justiça, professor Luís Antonio da Gama e Silva, o Gaminha, ex-reitor da Universidade de São Paulo, a quem conhecera quando comandara a 2ª Região Militar. Portella não falava, Gama e Silva não conseguia ficar calado. Um vivia na sombra, o outro era antes de tudo um exibicionista.

Durante todo o mês de setembro o caso do discurso foi cozinhado no palácio. Assim como procedera em relação às passeatas. Costa e Silva manteve-se numa estratégia de imobilismo e ameaça. Começara ameaçando com o estado de sítio contra agitações estudantis. Agora, como Krieger lhe mostrava, levava a crise para outra avenida, colocando em curso de colisão os tanques e a Câmara. Eram muitas as razões que conduziam o governo para esse caminho. A mais forte era a incapacidade de Costa e Silva de enfrentar uma a uma as tensões típicas do governo.

De todas, a maior era o caso Para-Sar. Encruado, arrastara-se seis meses em silêncio, mas entrara no último ato. De um lado da manobra, o brigadeiro Itamar, com os documentos de sua sindicância, contestava a versão de Burnier. Do outro lado, o brigadeiro Eduardo Gomes procurara o senador Krieger e pedira-lhe que expusesse o caso a Costa e Silva, informando-o de que “interferira no sentido de que a ocorrência não fosse divulgada [...] pois julgava a sua difusão prejudicial à disciplina e às tradições da Forças Aérea”. (31) O Brigadeiro agia de acordo com o manual da nobiliarquia. Se ganhasse, comprovaria mais uma vez que roupa suja se lava em casa. Se perdesse, passaria pelo dissabor de perceber que a sujeira não estava na roupa, mas na casa. Perdeu.

No dia 26 de setembro o brigadeiro Itamar mandou entregar pessoalmente ao ministro da Aeronáutica o resultado da sindicância. Ouvira 36 oficiais e sargentos, e concluíra que a maioria esmagadora confirmara a narrativa do capitão Sérgio, “sendo que nenhum elemento categoricamente a houvesse negado”. (32) Diria mais: “Concluo [...] ser nítida e insofismável a intenção do brigadeiro Burnier de usar o Para-Ser como executor de atentados a figuras políticas [...] Volto a insistir quanto à necessidade de intervenção de V. Excia., numa avaliação mais profundas dos fatos, porquanto os mesmos têm sido apurados de maneira superficial, em desacordo com a sua extrema gravidade”. (33)

No dia seguinte foi demitido da Diretoria de Rotas Aéreas e preso por dois dias. Esse desfecho foi estimulado pelo general Portella e referendado por Costa e Silva. O ministro da Aeronáutica levara ao presidente o decreto de demissão do brigadeiro Itamar antes mesmo que ele remetesse a sindicância, mas o marechal confiava na possibilidade de um acordo. Entregue o cartapácio com os depoimentos que provaram o delito e desmentiram Burnier, a demissão foi assinada em 24 horas. Já não se estava em abril, quando um capitão podia se recusar a aceitar ordens ilegais de um brigadeiro. Nem se estava em junho, quando outro brigadeiro podia fazer saber ao ministro que duvidava da palavra de seu chefe-de-gabinete.

A vitória de Burnier informava que, num choque entre a ilegalidade e “a disciplina e as tradições” da FAB, vencera a anarquia. Era um aviso a toda a corporação militar. Eduardo Gomes, o venerado Brigadeiro das revoltas da República Velha e das campanhas contra a ditadura de Vargas, foi incapaz de ir buscar junto à opinião pública o desagravo à honra da FAB. Mesmo em outubro, quando o caso Para-Sar finalmente foi denunciado da tribuna da Câmara, manteve-se em olímpico silêncio. É certo que havia em 1968, dentro da hierarquia militar, um grupo de oficiais que poderiam ser chamados de liberais, respeitadores de algumas noções de direito como, por exemplo, a condenação do homicídio. O caso Para-Sar e o silêncio do Brigadeiro indicaram que essa brigada liberal preferia o silêncio a tomar risco diante da criminalização das atividades policiais das Forças Armadas.

Itamar reagiu semanas depois da sua degola, remetendo aos demais brigadeiros um documento em que dizia: “Por trás de nossas patentes, observando nossas atitudes e reações, existe toda uma força armada. Com o brio com que reagirmos, com a altitude de nossos gestos de repúdio e com o exemplo do nosso procedimento, estaremos crescendo aos olhos dos subordinados que acreditam em seus chefes”. (34) O texto tinha seis páginas e a marca de “confidencial”. O caso Para-Sar acabara. Burnier vencera em público, e os brigadeiros que o combateram reclamavam em segredo.

O único protesto fardado partiu do general Mourão Filho, provisionado no Superior Tribunal Militar, cujo nome apareceu numa das versões da lista de políticos que sumiriam por conta da ofensiva de Burnier. Com seu gosto pelo teatro, foi para televisão e ameaçou: “Vocês devem estar me ouvindo, fiquem sabendo que não tenho medo de morrer, nem entro em automóvel para não ser seqüestrado. Uso um Colt 45 e atiro muito bem”. (35) Ficou nisso.

A justificativa mais freqüente para essas capitulações sempre foi associada a um hipotético desejo de preservação da unidade militar. Mesmo reconhecendo-se que o tradicional espírito de corpo da oficialidade pode ser um ingrediente na fabricação de uma cumplicidade de última instância, ele não é o único. Velho conhecedor da máquina militar, o marechal Cordeiro de Farias ensinaria que “há o interesse pessoal, pois o pensamento dominante é preservar posições, garantir permanência em posição de vantagem”. (36) O comportamento do brigadeiro Eduardo Gomes em anos posteriores, defendendo publicamente Sérgio Macaco com uma bravura proporcional ao declínio do regime, indica que sua capitulação conteve uma opção preferencial pela ditadura. Ao calar-se, não procurou preservar a FAB, mas o regime em que era hierarca. Se para ele o silêncio era uma conveniência, para oficiais biograficamente menos afortunados seria uma necessidade, quando não fosse uma convicção.

O caso Para-Sar, tornado público no dia 1º de outubro, surpreendia pela simplicidade de sua trama e pelo absurdo de seu desfecho. O ministro Souza e Mello pudera demitir o brigadeiro Itamar, mas não conseguia apresentar uma versão que se sustentasse. Acusado de proteger o que o Correio da Manhã denunciava como a “Operação Mata-Estudante”, o ministro, através de seu gabinete, respondeu com a trapaça pela qual se confundia uma acusação feita contra um oficial com um ataque à corporação. Vislumbrava uma “manobra divisionária em ofensiva dirigida contra as próprias instituições militares, fazendo parte dos processos de tentativa de isolamento das Forças Armadas na comunidade brasileira”. (37)

Apesar do refluxo das agitações estudantis, algo de raro estava acontecendo com os sentimentos da sociedade brasileira em relação aos militares. Confundidos com a natureza ditatorial do regime e com o desgaste do governo, os oficiais sentiam-se inibidos de vestir a farda fora dos quartéis. (38)  Caíra o número de estudantes no Colégio Militar que decidiam fazer o concurso de ingresso na Academia das Agulhas Negras. (39) No final de setembro encerrou-se no Maracanãzinho mais um dos gloriosos festivais da Canção da época. Num país onde as manifestações culturais de massa se limitavam a novelas de televisão e partidas de futebol, esses festivais reuniam a mais talentosa geração de compositores que o Brasil já tivera. Tornaram-se a um só tempo festa e instante de refinamento intelectual.  Duas canções disputavam a final. Uma era “Sabiá”, de Antonio Carlos Jobim e Chico Buarque de Hollanda. Soava bonita, mas estava fora do lugar. A outra era “Caminhando”, de Geraldo Vandré. (40) Musicalmente banal, quase uma guarânia, impressionava  pela letra emocional, verdadeiro hino político, poético na sua raiva. Falava de “soldados armados, amados ou não”, prontos “a morrer pela pátria ou viver sem razão”. Sua força estava no refrão:

Vem, vamos embora, que esperar não é saber.
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

As 20 mil pessoas que estavam no Maracanãzinho transformaram-se em coral dessa variante melódica do conceito marighelista de que “a vanguarda faz a ação”. “Sabiá” derrotou “Caminhando”, mas Tom Jobim mal conseguiu tocá-la. A arquibancada vaiou-o por 23 minutos. (41) Talvez tenha sido a mais longa das vaias ouvida nos auditórios do país. Não era a Tom que se apupava, muito menos ao júri, que deixara “Caminhando” em segundo lugar. A vaia era contra a ditadura, e aquela seria a última manifestação vocalista das multidões brasileiras. Passariam uma década em silêncio, gritando pouco mais que “gol”. Poucas semanas depois, o governo proibiu a execução de “Caminhando” nas rádios e em locais públicos. Temia que se tornasse “o ponto de partida para a aceleração e ampliação de um processo de dominação das massas”. (42)

A vanguarda que se supunha capaz de fazer a hora vinha fazendo acontecer. Praticava uma ação relevante a cada duas semanas. Uma pequena dissidência estudantil de Niterói intitulou-se Movimento Revolucionário 8 de Outubro, MR-8, em memória do dia da captura do Che Guevara. Assaltava bancos e comprava terras no Paraná, onde pretendia montar bases de treinamento para um foco guerrilheiro na região da foz do Iguaçu.

Cada grupo fazia sua hora. Algumas das melhores faculdades e escolas secundárias do Rio de Janeiro e São Paulo tornaram-se focos de recrutamento para a guerrilha. O calendário do movimento estudantil anunciava um grande acontecimento. No fim do ano devia se realizar o XXX Congresso da UNE. Os três últimos haviam sido abrigados clandestinamente em conventos. Dessa vez planejava-se algo maior, com perto de mil participantes. O governador Abreu Sodré fez saber aos estudantes paulistas que estava disposto a tolerar a reunião caso ela tivesse lugar no Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo, o CRUSP. Era legalidade demais para tantos anseios revolucionários. Na liderança estudantil, chegara-se a discutir uma proposta para que o congresso fosse realizado depois de uma fulminante ocupação de um edifício na avenida Rio Branco, no centro do Rio de Janeiro. (43) Desde julho militares do marighelismo vinham estudando a convivência de utilizar o sítio de um veterano militante comunista na localidade de Ibiúna, a setenta quilômetros de São Paulo. A propriedade foi inspecionada pelo general cassado Euryale de Jesus Zerbini e pelo coronel Plínio Rolim de Moura, um oficial da reserva que se considerava depositário de poderes paranormais, através dos quais recebera vibrações premonitórias do assassinato do presidente John Kennedy e da deposição de João Goulart. Ambos consideraram a topografia do local adequada para a reunião. (44) 

A idéia segundo a qual mil estudantes poderiam ser convocados para um congresso clandestino, chegar a Ibiúna, eleger uma nova diretoria para a UNE e voltar às suas casas sem que o governo percebesse, era uma fantasia. Até que ponto ela resultou da inocência, não se sabe. Nenhum dos organizadores da reunião admitiu que houvesse, subjacente ao projeto, o desejo secreto de um confronto armado entre a segurança do congresso e a polícia, ou de uma prisão em massa. Oito anos depois, o CIE estava convencido de que o Congresso da UNE foi levado para Ibiúna propositalmente, numa “grande traição” destinada a facilitar o recrutamento de jovens para as organizações terroristas. (45) Rinaldo Claudino de Barros, militante do Partido Comunista Revolucionário, PCR, e presidente do diretório acadêmico da Faculdade de Sociologia da Fundação José Augusto, de Natal, revelou mais tarde que o Congresso de Ibiúna “foi feito para que todos serem presos”, “Pensava-se que, de repente, quando o cara fosse preso uma vez, ele saía de casa, abandonava a família e a faculdade, e entrava num partido de uma vez por todas. (46) Zuenir Ventura, que entrevistou os principais líderes estudantis da época, concluiu que “Ibiúna funcionou um pouco como laboratório para a guerrilha, como provavelmente desejava Carlos Marighella”. (47)

Quando os estudantes começaram a afluir para o Congresso da UNE, o terrorismo de direita já lhes ensinara que o último trimestre de 1968 era diferente do primeiro. Na pequena rua Maria Antonia, no bairro paulista de Higienópolis, conviviam a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP e a Universidade Mackenzie. Uma, conhecida popularmente pelo nome da rua, era faculdade de produção brilhante, jóia da esquerda, fornecedora de quadros para o radicalismo da esquerda paulistana. Na outra, militava o CCC. Durante todo o ano os dois lados da calçada hostilizaram-se, até que no dia 2 de outubro alunos da escola de filosofia fecharam a Maria Antonia, cobrando pedágio em benefício da organização do Congresso da UNE. Um estudante do Mackenzie jogou um ovo no grupo que bloqueava a rua, e deu-se uma breve pancadaria, esfriada com o aparecimento da polícia. À noite o laboratório do Mackenzie foi aberto para fabricação de bombas. (48)

Na manhã seguinte o CCC desceu os tanques. Sua tropa atacou com tiro e centenas de coquetéis molotov. Mataram um secundarista de vinte anos, José Guimarães, invadiram a Maria Antonia e incendiaram-na. Do ataque participaram, além dos estudantes do Mackenzie, pelo menos dois policiais, o delegado Raul Careca e o comissário Octávio Gonçalves Moreira Junior. Ambos eram sócios e fundadores do CCC. O segundo militava também na organização católica ultramontana Tradição, Família e Propriedade. O terrorismo de direita, que acabara com o teatro Opinião no Rio de Janeiro, incendiara a Maria Antonia. Esta fora refúgio de professores europeus fugitivos do nazismo, era o berço da moderna sociologia brasileira. Nas suas ruínas, estudantes cantaram “Saudosa maloca”. (49)

Ibiúna terminou como era de se supor. A polícia sabia local, dia e hora da reunião. Cercou-a com tropas da Polícia Militar na madrugada fria de 12 de outubro. Prenderam toda a UNE, sua liderança passada, presente e futura. No maior arrastão da história brasileira, capturaram-se 920 pessoas, levadas para São Paulo em cinco caminhões do Exército e dez ônibus. (50) O movimento estudantil se acabara. Dele restou um grande inquérito policial, que se transformou em mola para jogar na clandestinidade dezenas de quadros das organizações esquerdistas. Nos seis anos seguintes, militando em agrupamentos armados ou na guerrilha rural, morreria 156 jovens com menos de trinta anos. Deles, pelo menos dezenove estiveram em Ibiúna. (51)

Na mesma hora em que os estudantes eram colocados nos ônibus que os levariam à prisão em São Paulo, a dissidência comandada pelo ex-sargento Onofre Pinto, egresso do MNR brizolista, assassinou com seis tiros e uma rajada de submetralhadora o capitão americano Charles Rodney Chandler. Emboscaram-no quando saía de sua casa, no bairro paulistano do Sumaré. Veterano do Vietnã, tinha trinta anos e estudava sociologia na Fundação Armando Alvares Penteado. Dera entrevistas e fizera pelo menos uma palestra sobre a guerra para uma audiência de militares. (52) Deveria voltar para Washington dali a poucas semanas. (53)  Chamar a a atenção dos terroristas e, sem que soubesse, fora sentenciado por um grupo de pessoas que arrogava a condição de tribunal revolucionário.

No caso da execução do major alemão Von Westernhagen supusera-se o assassinato do oficial que capturava o Che Guevara. Pela lógica de uma organização terrorista, a sentença faria nexo. O erro dos assassinos de Von Westernhagen não se situou na definição do objetivo, mas na sua identificação equivocada. Com Chandler a delinqüência esteve precisamente na escolha do objetivo. Por mais de trinta anos, mesmo depois da anistia, seu assassinato foi defendido com base em duas acusações: era um agente da Central Intelligence Agency e torturara vietcongues. Nenhuma das duas jamais foi provada. Consideravam-no agente da CIA apoiando-se num raciocínio segundo o qual qualquer americano era, em princípio, um perigoso espião. (54) Fora para Guerra do Vietnã como oficial do exército, assim como vinte anos antes outros capitães americanos desembarcaram  na Normandia lutando contra o nazismo, mas isso não vinha ao caso.

O tribunal não decidiu matá-lo porque tivesse feito algo de errado, mas porque era americano e era militar. Além disso, estavam a fim de matar alguém que desse publicidade ao terrorismo. Iam longe os dias de outubro de 1967, quando o ex-sargento Pedro Lobo de Oliveira, dirigindo o táxi com que ganhava a vida, vagara pela noite paulista com um pedaço de cano cheio de clorato de potássio, alumínio em pó e açúcar. Queria jogá-lo na mansão de um empresário americano, mas acabou atirando-o em frente à casa da filha do governador Abreu Sodré. No dia seguinte, para seu desencanto, nenhum jornal falara do atentado. (55) Dessa vez Pedro Lobo dirigiu o automóvel que transportou o pelotão de fuzilamento e,  quando voltou ao volante do seu táxi, tinha garantidas as primeiras páginas das edições dos jornais do dia seguinte. Meses depois, Marighella relacionava a “execução do espião da CIA” como uma das provas de que “estamos em plena guerra revolucionária”. (56)

Somados os dois PMs assassinados semanas antes em São Paulo, Chandler fora o quinto cadáver fardado de 1968. O terrorismo de esquerda tomara a ofensiva tanto na quantidade como na qualidade. As ações de significado político, que rendiam publicidade, prevaleceram sobre aquelas com objetivo logístico, que buscavam dinheiro e armas. Ofensiva virulenta, incluiu dois assassinatos vindicativos (do major alemão e do capitão americano) e dois ataques a instalações militares (o hospital do Cambuci e o QG do II Exército). Desbaratou o comício de Abreu Sodré, ferindo-o. Explodiu pelo menos dez bombas. Foi eficaz também na busca de meios. A polícia atribuía aos seus assaltos uma arrecadação de 1,2 milhão de cruzeiros, equivalente a 330 mil dólares ao câmbio da época. Além disso, roubou-se perto de 1,5 toneladas de explosivos. (57) É possível que essa lista, como todas as produções policiais do gênero, esteja inflacionada. Muito provavelmente as ações praticadas em 1968 passaram de cinqüenta. Nelas, em confrontos deliberados, foram assassinadas sete pessoas. (58)

Do outro lado, os grupos paramilitares praticaram dezessete atentados, que devem ser somados às catorze explosões e a um assalto a banco confessado por Aladino Félix. Disso resulta que foram 32 os atos terroristas saídos da direita, sem vítimas fatais. Dias depois do arrastão da UNE, um comando terrorista integrado por oficiais e sargentos do Exército explodira a Livraria Civilização Brasileira, no centro do Rio de Janeiro. Era a mais corajosa editora de esquerda do país. Só a tenacidade de seu dono, Ênio Silveira, impedira que ela perecesse, como o teatro Opinião e a Maria Antonia. (59)  Para os padrões da política brasileira, onde a cordialidade da crônica perdoa a violência do Estado, o ano de 1968 teve também uma violência específica. Enquanto os distúrbios ocorridos na França custaram cinco vidas e os dos Estados Unidos, uma, as passeatas brasileiras que se seguiram à morte de Edson Lima Souto custaram mais dez. Nenhum desses homicídios foi investigado.

Seja qual for o nome que se dê ao surto terrorista de 1968, o que houve de essencial nele foi a instrumentalização daquilo que se denominou “guerra revolucionária”. Para Marighella e as outras organizações de esquerda que usavam a mesma expressão, ela pretendia significar um salto de qualidade no combate ao regime. Havendo a “guerra revolucionária”, a luta armada deixava de ser uma tese, tornando-se uma inevitabilidade. Para os comandantes militares, havendo “guerra revolucionária”, o regime constitucional deixava de ser um constrangimento, tornando-se um estorvo.

Nos dois casos o uso da expressão era uma conveniência retórica a serviço de uma idéia maior de tutela da sociedade. O radicalismo esquerdista beneficiava-se da idéia de “guerra” dispensando a parafernália teórica que punha no caminho dos revolucionários a mobilização da sociedade, ou pelo menos de uma parte considerável da classe operária. Para apressar o socialismo, dispensavam temporariamente as massas. Do outro lado, o regime embebia-se na literatura militar francesa, em que o conceito de guerra revolucionária racionalizara a derrota sofrida na Indochina e justificara a conduta do exército na expressão ao movimento de libertação da Argélia.

Os dois lados queriam provar que estourara uma revolução no Brasil, mas como ela não existia, contentavam-se em proclamar a existência do processo a que chamavam de “guerra revolucionária”. À esquerda o slogan carregava o embuste de sugerir que a revolução estava na rua porque algumas centenas de pessoas tinham resolvido começar uma guerra. À direita, queria-se colocar o país em estado de guerra porque algumas centenas de pessoas queriam fazer uma revolução. Por conta disso, falavam a mesma língua:

Dizia Marighella: “A questão no Brasil não está no mito de quem der o primeiro tiro. Aliás, o primeiro tiro já foi dado, pois encontramo-nos em pleno curso da guerra revolucionária”. (60)

Dizia o general Humberto de Souza Mello, ao assumir a Diretoria de Ensino e Formação do Exército: “A guerra revolucionária, cujas características definem a guerra dos nossos tempos, assumindo importância imprevisível e envolvendo problemas humanos fundamentais, exige que cada cidadão-combatente tenha criado em si um mundo interior conscientizado nas forças morais, espirituais e de cultura, que permita maior eficiência na utilização das armas com as quais está adestrado”. (61)

Menos de um mês depois da execução de Chandler a polícia começara a puxar dois fios da rede terrorista. Capturara em novembro dois militares cassados que operavam no Colina. No Rio de Janeiro, Marighella assaltara um carro pagador do Instituto de Previdência do Estado da Guanabara que lhe rendeu o equivalente a 31 mil dólares e o fim do seu próprio mistério. Com a prisão de um dos envolvidos na “expropriação” a polícia conseguiu finalmente associar o nome do velho dirigente comunista a um assalto. A capa da revista Veja avisava: “Procura-se Marighella, chefe comunista, crítico de futebol em Copacabana, fã de cantadores de feira, assaltante de bancos, guerrilheiro, grande apreciador de batidas de limão”. (62)

A verdadeira guerra que os generais tinham nos quartéis estava na insatisfação da oficialidade. Os dois principais centros de instrução do Exército, a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais e a Escola de Comando e Estado-Maior, haviam-se tornado focos de panfletagens. Na ESAO chegara-se a redigir um manifesto em que os capitães, arrochados em salários de menos de trezentos dólares mensais, reclamavam: “A carreira militar encontra-se em visível fase de desfibramento devido à falta de motivações profissionais e insuficiência de vantagens materiais”. (63)  Denunciavam o “tráfico de influência” na rotina da carreira, “a onda de descrédito do governo [que] se avoluma pela corrupção” e “o alastramento da horda subversiva”. Concluíam: “É hora de mudar!”. Nesse documento os capitães balearam até mesmo a gramática, com “excessões” e “dissenções”. (64)  Nada mais subversivo.

Diante da desordem, Lyra Tavares reagiu ao seu estilo. Respondeu aos panfletos dizendo que “julgo, por princípio e por temperamento, sempre útil qualquer sugestão”. Depois atacou: “É estranho [...] que fontes já identificadas tivessem dado curso à notícia de que o ministro estivesse cogitando punir os capitães”. (65)  Prender a UNE em Ibiúna era fácil, prender os oficiais da ESAO, outra conversa. Em vez de enquadrar os capitães insubordinados, o ministro ameaçava quem espalhara a idéia segundo a qual faria cumprir o regulamento disciplinar da Força que comandava.

Para os analistas da Central Intelligence Agency, em Washington, a situação diferida pouco – para pior - da previsão feita dois anos antes pelo diplomata Philip Raine:

Os protestos e os problemas internos dos militares, como os baixos salários, espalharam a insatisfação nas Forças Armadas, que, por sua proximidade do governo, tiveram de suportar o grosso dos ataques da oposição. Os chefes militares, preocupados com a insatisfação, sobretudo entre os oficiais mais jovens, estão pressionando o presidente para melhorar o funcionamento de seu governo e para liquidar as forças de oposição mais radicais. Embora Costa e Silva tenha sido capaz de evitar ações drásticas que posteriormente virão a debilitar as fracas instituições civis, como o Congresso, uma piora substancial da situação política pode muito bem forçá-lo a aceitar o aumento do controle militar sobre a política do governo, e então a enfrentar o perigo de ser deposto. (66)  

Às três horas da tarde de 12 de dezembro o presidente Costa e Silva ia do aeroporto do Galeão para o palácio Laranjeiras. Pelo rádio da limusine ouviu o resultado da votação do pedido de licença para processar Marcio Moreira Alves. Como previa o senador Krieger, o pedido foi rejeitado. Foram 216 votos contra 136 a favor. Também como previra Krieger, estava feita a “crise institucional, pondo em antagonismo a Câmara e as Forças Armadas do país”. Costa e Silva trancou-se no palácio e deixou-se boiar.

No Gabinete Militar, o general Portella trabalhava desde a manhã. Antes mesmo de ser anunciado o resultado da votação, ele se reunira com o diretor da Polícia Federal, esquematizando uma operação militar destinada a censurar a imprensa. As rotativas d’O Estado de S. Paulo foram desligadas pela Polícia Federal ainda na madrugada do dia 13, para impedir a circulação de um editorial em que se lembrava a Costa e Silva que governar uma nação era coisa mais complicada que comandar uma tropa.

Durante trinta horas o marechal presidiu em silencio uma revolta militar. Ainda na tarde do dia 12, diante do resultado da votação, os generais mais graduados do quartel-general foram ao ministro Lyra Tavares. Ele saíra do seu gabinete do nono andar e subira para uma sala que ocupava no piso superior sempre que desejava descansar. Os generais queriam o golpe. “Os mais extremados, inclusive pelas notícias que recebíamos dos quartéis, achavam que precisava começar tudo de novo”, lembraria o general Muricy, chefe do Estado-Maior do Exército. (68) O general Moniz de Aragão dizia que “se o presidente estava vacilando, que fosse ultrapassado” (69)  Lyra disse que ficava com o que decidisse Costa e Silva, ao que Muricy respondeu que ficava com o que ele, Lyra, decidisse, deixando implícito que se o ministro decidisse contra o presidente, teria o seu apoio.

Decidiu-se que o ministro e o chefe do EMFA, Orlando Geisel, iriam ao Laranjeiras para expor a situação ao presidente. O comandante do I Exército, Syseno Sarmento, resolveu fazer a mesma coisa. Costa e Silva não os recebeu. Subiu para o primeiro andar do casarão e trancou-se nos aposentos, onde ficou ouvindo música. Só desceu ao salão de jantar para ver um filme de faroeste. (70)  Numa folha de bloco deixada pelo presidente na mesa de seu gabinete lia-se: “Recesso do Congresso”. (71)  A essa altura o comandante da Vila Militar, general João Dutra de Castilho, estava rebelado, sem contudo ter colocado um só de seus praças em posição de combate. (72)  Por via das dúvidas, alguns oficiais do Gabinete Militar preferiram dormir no palácio. (73)  Gama e Silva, velha vivandeira, circulava pelos bivaques dos granadeiros com uma proposta de extravagância do poder militar. Denominava-a Ato Institucional nº 5.


Bibliografia e referências:

(01) Roberto Campos, A lanterna na popa – Memórias, p. 887.
(02) Antonio Carlos Magalhães, junho de 1987.
(03) Antonio Delfim Netto, maio de 1988.
(04) Jayme Portella de Mello, A Revolução e o governo Costa e Silva, pp. 550-3, e Diário de Heitor Ferreira, 23 de fevereiro de 1967. APGCS/HF.
(05)  Síntese da Situação, exposição feita pelo ministro Lyra Tavares na reunião do Conselho de Segurança Nacional de 2 de julho de 1968. Em O Exército e o Ato Institucional nº5, livreto mercado “reservado”, Ministério do Exército, 1969. APGCS/HF.
(06) Síntese da Situação, exposição feito pelo ministro Lyra Tavares na reunião do Conselho de Segurança Nacional de 2 de julho de 1968. Em O Exército e o Ato Institucional nº5, livreto mercado “reservado”, Ministério do Exército, 1969. APGCS/HF. Jayme Portella de Mello, A Revolução e o governo Costa e Silva, p. 566, diz que essa reunião foi no dia 11 de julho.
(07) Voto de Medici na reunião do Conselho de Segurança Nacional de 13 de dezembro de 1968. APGCS/HF.
(08) Jayme Portella de Mello, A Revolução e o governo Costa e Silva, p.566.
(09) Celso Frederico (org.), A esquerda e o movimento operário – 1964-1984, vol. 1: A resistência à ditadura, p. 178. Para a ação dos comandos, depoimento de Antonio Roberto Espinosa, em Marcelo Ridenti. O fantasma da revolução brasileira, p. 48. 
(10) Emiliano José e Oldack Miranda, Lamarca, pp. 132 e segs.
(11) A Gazeta, de 9 de agosto de 1968, cidade em Projeto Brasil: nunca mais, tomo V. vol. 2: As torturas, p. 486. Ver também Judith Lieblich Patarra, Iara, p. 239.
(12) Folha da Tarde, de 19 de setembro de 1968, citada por Judith Lieblich Patarra, Iara, p. 264.
(13) Judith Lieblich Patarra, Iara, pp. 264, 230, e 239, citando a Folha da Tarde de 19 de setembro de 1968 para as torturas de 5 de agosto de 1968 para o caso de José Genoino. 
(14) José Dirceu e Vladimir Palmeira, Abaixo a ditadura, p. 161.
(15) Telegrama do consulado americano em São Paulo ao Departamento do Estado, de 20 de setembro de 1968.
(16) Para o papel de Marighella como organizados dos dois assaltos, entrevista de Aloysio Nunes Ferreira a Luiz Maklouf Carvalho, Jornal do Brasil, 4 de julho de 1999, p. 4 do Caderno Brasil. Para o butim, feita a redução para cruzeiros novos, Emiliano José, Carlos Marighella, p. 228.
(17) Percival de Souza, Autópsia do medo, p. 458.
(18) Projeto Brasil: nunca mais, tomo V, vol. 1: A tortura, p. 189.
(19) Idem, p. 190.
(20) Idem.
(21) Relatório do delegado Benedito Sidney de Alcântara do DOPS paulista. Em Percival de Souza, Autópsia do medo, pp. 461-2.
(22) Telegramas do consulado americano em São Paulo ao Departamento de Estado, de 3 de janeiro de 1969 (Possibilidade de que Muitas Explosões de Bombas em São Paulo Tenham Sido Trabalho de Grupo de Direita) e de 29 de setembro de 1969. DEEUA.
23 Antonio Delfino Neto, outubro de 1990.
(23) Antonio Delfino Neto, outubro de 1990.
(24) A primeira citação refere-se ao discurso feito na Associação Brasileira de Imprensa em 7 de abril de 1968. Arthur de Costa e Silva, Pronunciamento do presidente p. 382. A segunda, ao pronunciamento feito em 15 de março de 1968. Jayme Portella de Mello, A Revolução e o Governo Costa e Silva, p. 533. 
(25) A primeira citação vem da entrevista que concedeu em março. Jayme Portella de Mello, A Revolução e o governo Costa e Silva, p. 533. A segunda vem de declaração feita no dia 12 de maio. Zuenir Ventura, 1968 – O ano que não terminou, p. 133. A terceira, uma conversa de Costa e Silva com o presidente da Câmara, deputado José Bonifácio, em outubro. Veja de 9 de outubro de 1969. 
(26) Aurelio de Lyra Tavares, O Brasil de minha geração, vol. 2, pp. 182-3. A confusão sobre o texto desse discurso é tão grande que, passados 32 anos, o ex-ministro Jarbas Passarinho acusava Moreira Alves de ter chamado o Exército de “valhacouto de gangsters”. Depoimento de Passarinho, em Histórias do Poder, de Alberto Dines, Florestan Fernandes Jr. e Nelma Salomão (orgs.), vol. 1: Militares, Igreja e sociedade civil, p. 337.
(27) Aurelio de Lyra Tavares, O Brasil de minha geração, vol. 2, p. 183.
(28) Jayme Portella de Mello, A Revolução e o governo Costa e Silva, p. 586.
(29) Daniel Krieger, Desde a Missões, p. 331.
(30) Jornal da Tarde, 14 de setembro de 1968, p. 3. No dia 19, uma entrevista à televisão. Sodré falou em “rearticulação das extremas para, num cochilo nosso, tomar o poder”. Folha de S. Paulo, 20 de setembro de 1968, p. 5.
(31) Daniel Krieger, Desde as Missões, p. 325.
(32) Comunicação de Ocorrência do brigadeiro Itamar Rocha de 2 de outubro de 1968, marcada “confidencial”. Cópia cedida ao autor pelo capitão Sérgio Miranda de Carvalho. AA.
(33) Cópia de expediente remetido pelo brigadeiro Itamar Rocha ao ministro Souza e Mello, sem assinatura nem data. AA.
(34) Comunicação de Ocorrência do brigadeiro Itamar Rocha, de 2 de outubro de 1968, marcada “confidencial”. AA.
(35) Olympio Mourão Filho, Memórias, p. 443.
(36) Aspásia Camargo e Welder de Góes, Meio século de combate – Diálogos com Cordeiro de Farias, p. 610.
(37) Pery Cotta, “A Operação Mata-Estudante”, Correio da Manhã de 4 de outubro de 1968.
(38) A esse respeito, ver o manifesto dos alunos da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais: “O Exército [...] se torna alvo de uma insidiosa agressão, que vai desde a prisão dos companheiros em universidades, até a inibição de usar farda”, em o Estado de S. Paulo, 1º de novembro de 1968. Também Lyra Tavares, em O Exército e o Ato Institucional nº5, livreto marcado “reservado”, Ministério do Exercito, 1969. APGCS/HF. Na reunião do Conselho de Segurança Nacional de 16 de julho de 1968, disse o general: “Sucedem-se os casos de provocação contra militares fardado, sobretudo no III Exército, como expõe, em relatório, o respectivo comandante”.
(39) Alfred Stepan, The military in politics, p. 258. De 117 em 1963, esse número baixara para 47 em 66.
(40) O título oficial da canção é “Pra não dizer que não falei de flores”.
(41) Zuenir Ventura, 1968 – O ano que não terminou, p. 206.
(42) Oficio nº 427/68-SCDP, de 23 de outubro de 1968. Do chefe do Serviço de Censura de Diversões Públicas ao diretor da Divisão de Operação da Polícia Federal. AA.
(43) João Guilherme Vargas Netto, outubro de 1988, e Zuenir Ventura, 1968 – O ano que não terminou, pp. 239 e segs. 
(44) Zuenir Ventura, 1968 – O ano que não terminou, p. 246. Os poderes do coronel estão em carta de 2 de fevereiro de 1975 de Plínio Rolim de Moura ao general Sylvio Frota. APGCS/HP.
(45) A Subversão Comunista em São Paulo. Relatório de 1/76 do DOI-CODI do II Exército, marcado “reservado” de abril de 1976, fls. 3. AA.
(46) Entrevista de Rinaldo Claudino de Barros a Luiz Gonzaga Cortez, publicada no jornal Dois Pontos do Rio Grande do Norte, maio-agosto de 1988, e reproduzida em Cadernos de Jornalismo, 1, dezembro de 1990, Brasília, Fenaj, p. 199.
(47) Zuenir Ventura, 1968 – O ano que não terminou, p. 255.
(48) Maria Cecília Loschiavo dos Santos (org.), Maria Antonia: uma rua na contramão, p. 226. Para um estudo do episódio, ver Irene Cardoso “Maria Antonia –O edifício de nº 294”, em 1968 faz 30 anos, organizado por João Roberto Martins Filho, pp. 27-48.
(49) Consuelo de Castro, em Maria Antonia: uma rua na contramão, organizado por Maria Cecília Loschiavo dos Santos, p. 94.
(50) Veja, 16 de outubro de 1968, p. 12. Coronel Luiz Helvecio de Silveira Leite, maio de 1985. Para os ônibus e caminhões, Samarone Lima, Zé-José Carlos Novais da Mata Machado, uma reportagem, p. 68, Segundo um delegado do DOPS, em Samarone Lima, Zé, p. 68, o local da reunião era conhecido desde o dia 7.
(51) Levantamento com base Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio. Dos filhos deste solo, lista quinze nomes de jovens mortos que estiveram em Ibiúna: Antônio de Pádua Costa, Antônio dos Três Reis Oliveira, Aylton Adalberto Mortati, Eduardo Collier, Helenira Rezende de Souza Nazareth, Ivan Mota Dias, Jaime Petit da Silva, José Carlos Novais da Mata Machado, José Maurílio Patrício, Lauriberto José Reyes, Márcio Beck Machado, Maria Augusta Thomaz, Ranúsia Alves Rodrigues, Ruy Carlos Vieira Berbert e Tito de Alencar Lima (os dois últimos, acusados de ter participado da organização do congresso). Jacob Gorender, Combate nas trevas, p. 162, menciona Antônio Guilherme Ribas. Somam-se a eles Chael Charles Schreier e Fernando Borges de Paula Ferreira, presos quando atuavam no esquema de segurança do encontro (Judith Lieblich Patarra, Iara, p. 251), e José Roberto Arantes de Almeida (mencionado em  http://www.desaparecidospoliticos.org.br/detalhes1.asp?id=136>). Também esteve em Ibiúna, como jornalista, Luiz Merlino, militante do POC, morto em 1971.
(52) Entrevista de Charles Chandler, Folha de S.Paulo, 3 de março de 1968, 1º caderno, p. 10.
(53) Depoimento do diretor da CIA, Richard Helms, à Subcomissão de Assuntos Hemisféricos do Senado americano, 5 de maio de 1971, parcialmente liberado em 1987. DEEUA.
(54) Exemplo da distorção propagandística com que se confundiam funcionários do governo americano com agentes da CIA pode ser encontrado na nota da VPR de abril de 1970, referente ao seqüestro do cônsul americano em Porto Alegre, Curtis Cutter. “Este indivíduo, ao ser interrogado, confessou suas ligações com a CIA (Agência Central de Inteligência, órgão da espionagem internacional dos EUA) e revelou vários dados sobre a atuação da CIA no território nacional e sobre as relações dessa agência com os órgãos de repressão da ditadura militar. Ficamos sabendo, entre outras coisas, que a CIA trabalha em estreita ligação com o Cenimar, fornecendo inclusive ‘orientação’ a este último órgão sobre os métodos de tortura mais eficazes a serem aplicados nos prisioneiros”. O seqüestro de Cutter falhou, e ele jamais foi interrogado pela VPR. A nota fora redigida durante o planejamento da operação e deixara-se em branco o espaço onde deveria entrar na data. O documento está em IstoÉ de 19 de agosto de 1987, pg. 21, na reportagem intitulada “Os segredos do terror”.
(55) Depoimento de Pedro Lobo de Oliveira, em Antonio Caso. A esquerda armada no Brasil – 1967-71, p. 113.
(56) Carlos Marighella, Manual do guerrilheiro urbano e outros textos, p. 60
(57) Veja, 18 de dezembro de 1968, p. 23, para os assaltos, e 23 de outubro de 1968, para a dinamite. Essa cifra derivaria de 26 assaltos que, não sendo sido desvendados, eram atribuídos à esquerda armada.
(58) Além de Mário Kozel Filho, Von Westernhagen e Chandler, foram assassinados os PMs paulistas Antonio Carlos Jeffery e Eduardo Custódio de Souza. (O PM Nelson de Barros, morto no Rio de Janeiro quando foi atingido por um objeto atirado de um edifício, não entrou nessa conta.) Morreram também dois civis, Wenceslau Ramalho Leite e Estanislau Inácio Correa, ambos durante o roubo de seus automóveis.
(59) Heleno Cláudio Fragoso, em seu Advocacia da liberdade, pp. 24-5, conta que um ex-colaborador do CIE informou a Ênio Silveira no dia 16 de outubro de 1968 que os autores do atentado haviam sido o major Bismark, o capitão Ramalho e os sargentos Mazza, Fialho e Dárcilo, todos do CIE. O maior Bismark Baracuhy Amancio Ramalho mais tarde foi para o SNI.
(60) Carlos Marighella, Manual do guerrilheiro urbano e outros textos, p. 37.
(61) Boletim da Agência Nacional de 30 de agosto de 1968.
(62) Veja, 20 de novembro de 1968.
(63) O salário de um capitão, segundo Veja de 13 de novembro de 1968, era de 850 cruzeiros novos mensais, equivalente a 265 dólares.
(64) Manifesto da ESAO, em O Estado de S. Paulo, 1º de novembro de 1968.
(65) Correio da Manhã, 8 de novembro de 1968.
(66) The Military in Brazil, Special Report da Weekly Review da Central Intelligence Agency, de 29 de novembro de 1968. DEEUA.
(67)  “Instituições em frangalhos”, editorial d’O Estado de S.Paulo, edição de 13 de dezembro de 1968, da qual circularam apenas 106 mil exemplares.
(68) General Antonio Carlos Muricy, agosto de 1988.
(69) Jayme Portella de Mello, A Revolução e o governo Costa e Silva, p. 724 . 
(70) Idem, p. 641, e Hernani d’Aguiar, Estórias de um presidente, p. 133. 
(71) Jayme Portella de Mello, A Revolução e o governo Costa e Silva, p. 642.
(72) General Antonio Carlos Muricy, agosto de 1988.
(73) Hernani d’Aguiar, Ato 5, p. 284.

Fonte: folha.uol.com.br

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Jorge Luiz de Souza, o Gigante!


Lembranças do Gigante em um festival em Forianópolis (SC)
Escrito por Antonio Celso Barbieri

Rock Capital foi um festival que aconteceu lá pelo meio dos anos 80 em Florianópolis (na ilha). O festival foi organizado pela Radio Capital local. Eu levei para este festival, duas bandas; Made in Brazil e Excalibur. No hotel que ficamos hospedados havia uma perua à disposição dos músicos e empresários e, aproveitei para checar o estádio e a aparelhagem. Quando cheguei lá, pelas 4 da tarde, descobri que a eletricidade ainda não havia sido ligada e o palco estava vazio. A empresa de som que era de Curitiba, tinha comprado aparelhagem nova e claramente não tinha muita experiência na coisa. Bom, dirigi-me ao responsável pela empresa de som e perguntei-lhe se poderia dar uma adiantada no palco. Ele imediatamente concordou e, à meu pedido, colocou 3 pessoas à minha disposição. Então perguntei-lhes:

"Tem um praticável para a bateria no caminhão?" A resposta foi positiva.

"Tem um carpete para a bateria?" Balançaram a cabeça afirmativamente.

"Então vamos começar, podem trazer para o palco!" Subi no palco e comecei trabalhar, dirigindo todas as atividades.
 
"Você vai montando a bateria e você traz o cabeçote do baixo e as caixas e monta aqui deste lado! E, você traz o amplificador e caixas da guitarra e põem aqui… Não tem amplificador para os teclados? Quero um direct box já?" E assim por diante. E, depois, vieram a mesa de retorno, caixas de retorno, microfones de palco, etc, etc.

Nem vi as horas passarem. A luz foi ligada e a noite foi chegando… as bilheterias começaram funcionar e, o povo começou encher o estádio. Apareceu alguém de uma rádio que queria uma saída mixada do som e, para minha surpresa o dono da aparelhagem disse que eu era o responsável.

Não dava mais tempo para passar o som. A banda de abertura era a Gang 90. Cheguei para o Gigante que, eu não conhecia pessoalmente, e perguntei-lhe quem era o baterista. Ele sorrindo disse que era ele mesmo e já começou fazer uma batucada com a boca tirando uns sons incríveis.

Falei para ele que iríamos afinar bateria juntos. Ele sentou-se na bateria e eu fui no microfone do palco. Com 25.000 pessoas na plateia, usando o microfone, me comunicava com a "ilha" do som que operava, desde o meio do gramado, na frente do palco, acima de um palanque elevado. Olhei para o Gigante e no microfone falei: Bumbo!

Gigante começou bater um bumbo ritmado. Sempre, aqui e ali, brincava com o tempo. Então falei: "Caixa!" e, Gigante foi batendo a caixa em cima do bumbo e quebrando tudo.

No final da afinação ele já estava dando um show de bateria. Então chamei o baixista. Depois foi a vez da guitarra e assim por diante até que o show, própriamente dito, começou.

Minha memória do Gigante foi de um negrão (literalmente), muito simpático, paciente e amigo! Ele deve estar tocando bateria com umas feras numa dimensão superior!

Teve muita gente importante da época neste show que, foi realizado em duas noites, mas acreditem-me que a banda Made in Brazil que foi destacada para fechar o sábado, fez um show muito bom e, a banda Excalibur fez um show tão bom no sábado que, foi a única banda do evento a tocar duas vezes, no sábado e também no domingo, sendo que no domingo tocou no final do show, exatamente antes da banda RPM que era a banda principal e, obviamente o sucesso do momento. A banda Excalibur, na época, ainda com o carismatico Luiz Alberto Machado Cabral (Beto) nos vocais, para desagrado do tour manager do RPM, fez uns 5 biz :-) Desculpem-me mas, eu era o manager de palco e a banda era minha... então... :-)

O gramado do campo de futebol estava cheio de gente e o palco era isolado do povo por um cinturão feito por soldados da policia militar. Recordo-me que o palco tinha uns 200.000 watts de luz mas o show começou e ninguém apagava as luzes das torres do estádio. Depois de usar, sem sucesso, o microfone de palco várias vezes pedindo que apagassem peguei o microfone e gritei:

“Vamos apagar a porra destas luzes para que o povo nas arquibancadas possa fazer a cabeça em paz!” Imediatamente recebi um ovação geral e pelo menos um cinco baseados foram jogado no palco!

É... hoje eu sei, não foi politicamente correto mas, naquela noite foi um ato corajoso e rebelde para com a polícia presente. Foi minha pequena resposta às prisões em Floripa de vários artistas brasileiros, incluindo a minha querida Patrulha do Espaço. Foi na verdade, uma grande vitória porque as luzes das torres, depois da bronca, apagaram-se em menos de 30 segundos! :-)

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Primeiro álbum do Gigante onde ele aparece como vocalsita

Gigante Brazil grava disco como cantor e se apresenta no Sesc

Escrito por Ronaldo Evangelista em colaboração para a Folha (19/11/2006)

O baterista, percussionista e cantor Gigante Brazil é um daqueles músicos que seguem a carreira por anos a fio impressionando a todos, mas sem nunca chegar a uma parcela muito grande do público. Tornou-se uma lenda, mas é reconhecido apenas por poucos sortudos que têm a oportunidade de ter contato com sua música.

Agora, a primeira possibilidade de ter nova amostra de seu talento surge com seu primeiro disco como cantor, "Música Preta Branca e etc", gravado em dupla com o baixista e produtor Paulo Lepetit e lançado pelo próprio selo de Lepetit, Elo Music, dentro da série CD7.
Hoje acontece no Sesc Pompéia show de lançamento.

A idéia do disco é antiga. Os dois se conheceram no fim da década de 70 e, ao longo de cerca de dez anos, trabalharam juntos na banda Isca de Polícia, que acompanhava Itamar Assumpção. "Sempre que o Gigante toca com alguém, ele acaba também cantando", conta Lepetit. "E eu sempre disse a ele que tinha que fazer um disco solo, mas nunca acontecia.
Aí, de uns quatro anos pra cá tenho insistido e tentado fazer o projeto acontecer. Agora resolvemos fazer isso juntos." "Ele já vinha falando dessa história desde que a gente se conhece", confirma Gigante.

"Sempre dizia: "Uma hora vai sobrar pra você", e agora aconteceu", ri. "Antes eu não estava voltado pra isso, mas agora eu fiquei bem animado. Pra mim é tudo novo, mas a partir do momento que eu começo a cantar, me sinto um cantor."

De Mautner a Melodia

Com sua voz profundamente grave e interpretação tão suingada quanto divertida, Gigante começou sua carreira tocando bateria no Rio em fins dos anos 60. Em 1972 veio pra São Paulo acompanhando Jorge Mautner e daí para fazer shows com Elza Soares, Caetano Veloso e Luiz Melodia foi um pulo.

Até que entrou para a banda new wave Gang 90 e começou a tocar com Itamar. No começo dos anos 90, foi abordado por Marisa Monte e com ela ficou tocando durante mais alguns anos. De lá pra cá, projetos, participações, acompanhamentos. "Agora estou voltando a mim mesmo", diz ele sobre o disco.

Com sonoridade ainda filha da tal vanguarda paulistana, o disco tem alguns arranjos datados, teclados com timbres ruins e idéias desperdiçadas.

Mas vale a pena pelo repertório divertido ("Ensaboa", de Cartola, "Paula e Bebeto", de Milton e Caetano, "Na Quitanda", de Zeca Baleiro). E tem todo o mérito de colocar Gigante sob o holofote.

gigante2Jorge Luiz de Souza, o Gigante!

Sai de cena, aos 56, o baterista Gigante Brazil

http://blogdomauroferreira.blogspot.co.uk/2008/09/sai-de-cena-aos-56-o-baterista-gigante.html

Saiu de cena nesta segunda-feira, 29 de setembro de 2008, o baterista e percussionista Gigante Brazil, nome artístico de Jorge Luiz de Souza. Vítima de uma parada cardíaca, Gigante tinha um suingue enorme, tendo tocado eventualmente com nomes como Caetano Veloso e Gilberto Gil. Em 1991, ele teve grande exposição ao participar do disco e show Mais, de Marisa Monte. Eram de Gigante os vocais na faixa Ensaboa. Mas sua carreira começara bem antes, em 1969, quando fundou a banda Massa Experiência.

Em 1975, formou outra banda, Sindicato, depois de ter tocado com Jorge Mautner. Em 1980, Gigante teve seu primeiro instante de visibilidade nacional ao defender a música Rastapé - ao lado de Chico Evangelista - no festival MPB-80, promovido e exibido pela Rede Globo de Televisão. Ainda na década de 80, integrou as bandas Isca de Polícia - liderada por Itamar Assumpção - e Gang 90, com a qual lançou o LP Pedra 90. Em 2006, Gigante Brazil se assumiu como cantor no disco Música Preta Branca e etc. - gravado em dupla com o baixista Paulo Lepetit e lançado pelo próprio selo de Lepetit, Elo Music, na série CD7. Merecia ter obtido mais projeção.

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Jorge Luiz de Souza, o Gigante!

camisetas rocker

Loja Rocker, Clube Rainbow São Paulo & banda Attack
Escrito por Antonio Celso Barbieri

ROCKER

Em novembro de 1980, abri uma loja na Rua João Cachoeira, no bairro do Itaim Bibi em São Paulo. Como já, à algum tempo, usando a marca Rocker, estampava camisetas de rock, naturalmente abri a loja usando o mesmo nome.

Rocker era uma lojinha bem minúscula que ficava dentro de uma galeria que, na verdade, não passava de um corredor cheio de cubículos, um ao lado do outro, sempre do lado esquerdo. Quando, de manhã,  abria a loja o que tinha à minha frente, o dia inteiro, era apenas um grande paredão sem janelas.

Depois de algum tempo descobri que tinha caído numa cilada. Aquele ponto era um lugar morto onde pequenos lojistas, inocentes, vinham tentar a sorte para acabarem sempre perdendo tudo. Arrependi-me, profundamente, não ter aberto minha loja nas Grandes Galerias, hoje mais conhecida como Galeria do Rock.

Na minha lojinha, eu vendia além de camisetas de rock, discos e moda jovem. Minha inexperiência com comércio aliada à situação da economia brasileira, com uma inflação galopante e sem controle, condenou meu sonhos à falência.

Meu amigo Lido Valente, companheiro de várias aventuras anteriores, era meu companheiro de todos os dias. Ele era um tipo de sócio honorário que passava o dia comigo na loja, ajudava em tudo que era possível sem, nenhuma remuneração. Ele sabia que a minha situação e a da loja era muito difícil para poder pagar um salário para ele. A garotada roqueira preferia ir no Shopping Center Iguatemi do que ir na João Cachoeira que era um lugar mais voltado à moda feminina. Assim mesmo lá recebemos algumas visitas ilustres como Arnaldo Baptista (Ex Mutantes), Junior (Patrulha do Espaço) e Oswaldo (Made in Brazil).

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O botão. Outro objeto raríssimo, desta vez, cedido por Kim Kell (Kim Kell e os Kurandeiros).

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As etiquetas. Foto rara, gentilmente cedida por Janete Makhajda.

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Um panfleto do Rainbow São Paulo (Agosto de 1981)
RAINBOW SÃO PAULO

Neste período inicial de luta para criar uma clientela, descobrimos que o primeiro andar da galeria estava todo vago. Aparentemente o dono da galeria não tinha tido dinheiro para finalizar a obra. Imediatamente percebi o potencial do lugar para criar um salão de rock. Como existia em USA um clube chamado Rainbow, resolvi criar um chamado Rainbow São Paulo. Seria alguma coisa bem rústica e improvisada. Basicamente rock e um lugar para dançar.

Arnaldo Baptista e Barbieri no Teatro Augusta em 1981. Foto Lido Valente

 ATTACK

Foi meu amigo Lido Valente quem sugeriu montarmos uma banda de rock para inaugurar o lugar.

Eu escolhi o nome Attack. Lido, que já tocava bateria chamou seus amigos Alfredo (Fred) para a guitarra e Clovis para o baixo. O equipamento era todo nacional. A bateria foi emprestada da banda Made in Brazil e era uma Goppe de acrílico laranja que estava encostada lá no porão da casa dele. A guitarra e o baixo eram da marca Giannini.

A gravação que pode ser ouvida aqui no site, a única em existência, foi feita uma semana antes da inauguração da casa. Tocamos esta música apenas 3 vezes e já gravamos, foi uma coisa crua, quase sem ensaio, à seco mesmo.

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Attack - "Pendurado no Trem" (1981).
Desculpem-me pela qualidade péssima de gravação!

À muito tempo, já tinha consciência das minhas limitações vocais. Justamente por isto, tinha uma certa atração pelo punk onde a técnica não era tão importante quanto a mensagem. Meu pensamento na época era simples: Se até Kid Vinil podia cantar então eu também poderia :-)

O punk naquela época já estava evoluindo e lançando outros estilos como por exemplo o Ska e o New Wave. Novas banda surgiram e uma delas destacou-se pela criatividade, era a banda B52. Então naquele período ouvíamos não só muito Hard Rock, nacional e internacional, mas também, o Punk, principalmente o da banda Ramones e, o New Wave do B52. Meu vocal foi escancaradamente, tiradas as devidas proporções, cantado na linha do B52.

PENDURADO NO TREM

A música Pendurado no Trem é um comentário relatando minhas memórias pois, venho de uma família de ferroviários. Meu avo, alguns tios, meu pai e até meus irmãos trabalharam na antiga Estrada de Ferro Sorocabana. Viajei muito, todos os dias em trens lotados, os chamados “subúrbios”. Estes trens viajavam tão lotados que muita gente viajava pendurada do lado de fora das portas ou até sentados encima dos carros. Era, e ainda é, a vida dura do povo da periferia vindo todos os dias para trabalhar no centro de São Paulo.

Esta letra da música Pendurado no Trem, que pode ser vista mais abaixo, na coluna à direita, é apenas um amontoado de frases aparentemente desconexas que pretendem passar um clima de crítica e desencanto.

attack_with_barbieriAttack: Barbieri, Clovis, Lido e Fred (1981).


attack_band_without_barbieriAttack: Clovis, Lido e Fred (1981)

ATTACK
"PENDURADO NO TREM"

Letra A.C. Barbieri
Música Attack (Fred, Lido, Clovis e Barbieri)

Já para acordar é um sufoco
Se já acordo muito louco

Quase perco pescoço
Quase perco pescoço

Com este trem que é um arrocho
Deste jeito muito louco

Meu dinheiro é muito pouco
Quase perco pescoço

Solo

Deste jeito muito louco
Meu dinheiro é muito pouco

E ela da bola para outro
Vou fugir enquanto é tempo

Vou fugir se não eu não agüento
Não agüento! Não agüento!

 É Lido Valente quem comenta:

"… aquele show que fizemos na Rocker com você cantando, eu na bateria, Alfredo na guitarra, Clovis no baixo, tenho até hoje as fotos (são as fotos aqui mostradas), custei para encontrá-las mas achei-as! Pena que a pessoa que as tirou não tinha a mínima idéia do que estava fazendo, mas não tem como negar que é você (a dita gravatinha e o colete).

Obrigado por enviar-me o som do Attack, para uma gravação com quase 30 anos, está bem melhor do que imaginei! Tem atitude, o que falta hoje em dia em muita banda…

ATTACK - "PENDURADO NO TREM"

Escutei mais de 20 vezes a gravação (copiei no Itunes e depois no Ipod):

A guitarra realmente foi Punk, com um riff  característico de deboche no final dos acordes. A guitarra não era uma Fender ou Gibson, era uma Giannini estridente mesmo.

O baixo com notas clássicas de rock anos 50 segurou em muitos momentos a  melodia. O baixo, também foi um modelo nacional e fez bem seu papel.

A bateria, se não foi boa também não foi “chá com pão”, ela faz uma entrada tipo, “banda de fuzileiros navais” que não lembro de ter ouvido antes, repetindo o feito no meio da música. A bateria emprestada, pega lá no porão do Made in Brazil, talvez precisa-se de uma afinação e ajustes mas era laranja da cor da bateria do Nazareth na época :-)

O vocal combina com a letra e, o estado de “acordar muito louco” se não foi super afinado entrou na hora certa dando um ar de B52 bem diferente. O microfone Shure talvez precisasse de mais médio e agudo faltou um pouco de eco no PA sei lá.

Não houve ensaio, não fizemos várias gravações para escolher a melhor, o lugar não era o recomendado para se fazer uma gravação, o gravador não passava de um pequeno gravador mono portátil que usava aquelas fitas bem pequenas cuja finalidade principal era apenas gravar entrevistas. Se não bastasse isto o mesmo ainda tinha problemas no motor com flutuação na velocidade.

Resumindo, considerando-se todas as limitações, cada um de nós deu o melhor de si, deu o que sentia no coração e a música teve começo, meio e fim. O final, com a guitarra depois da bateria, achei o mais inovador, se nós tivéssemos tido chance de ensaiar certamente Attack teria sido uma grande banda.

…sabe foi um tempo muito feliz… de todo meu coração obrigado, por resgatar a nossa vida.." - Lido Valente

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Attack: Lido na bateria (1981)

Barbieri dá o nome para o Rainbow Bar!

Lamentavelmente, problemas com a polícia e vizinhança obrigaram-me à fechar o Rainbow São Paulo que não durou nem dois meses. Algum tempo depois Roberto Cruz que viria ser o vocalista da banda Chave do Sol pediria permissão para usar o nome Rainbow para uma casa de rock no Jabaquara chamada Rainbow Bar. Esta sim durou muito tempo com centenas e centenas de bandas tocando neste lugar. Alguns meses depois de fecharmos o Rainbow São Paulo, foi a vez da loja Rocker bater as botas e falir.

Antonio Celso Barbieri

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Lido Valente e Alfredo P.Vercaska (Fred) em 1979.

(Qualquer semelhança do guitarrista Fred com o guitarrista Brian May é pura coincidência!)

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Lido Valente em 2011.

fred_no_rock_in_rio_lisboaAlfredo P.Vercaska (Fred) muito bem acompanhado no Rock in Rio Lisboa.
Tudo indica ele continua um verdadeirto rocker!

wiki_metal_logo
Clique no logo acima para visitar o website do WikiMetal e ouvir outras ótimas entrevistas!

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WikiMetal entrevista Barbieri!

Oi Pessoal! Muitos de vocês, provavelmente, já leram aqui alguma matéria publicada por mim e perguntaram-se, quem realmente é este tal de Barbieri?

Bom, aqui está uma grande oportunidade para saberem um pouco à meu respeito!

Moro em Londres desde 1987 e fui contaminado pelo virus do rock quando ainda era bem jovem. Recentemente quando estive visitando São Paulo, fui entrevistado pelo pessoal do WikiMetal e, num papo muito informal com Rafael Masini, Nando Machado e Daniel Dystyler relembrei os meus primórdios que coincidem com o começo do Heavy Metal Brasileiro! Aliás, à respeito deste período, muito bem colocou aqui neste site um dos leitores dizendo: "Este foi um tempo que nós eramos felizes e nem sabíamos!

Segundo se fala, o escritor Jack London no seu leito de morte, confidenciou para um amigo que, "preferia ser cinzas do que pó", que "preferia ser um meteoro ardente do que um planeta estático", que, neste mundo, para ele, "somente existir não é suficiente que o importante é viver!". Decidi reproduzir aqui suas palavras pois achei-as muito oportunas e, acredito que realmente representam minha forma de pensar.

Espero que gostem!

Antonio Celso Barbieri

 

wikimetal_peopleRafael Masini, Nando Machado, Celso Barbieri e Daniel Dystyler.

WikiMetal entrevista Barbieri! (Parte I & Parte II)

Barbieri comenta

Foi um dia de muita emoção mas, quando Daniel Dystyler inesperadamente abriu sua pasta cheia de recortes, panfletos e memórias deste período, aí sim, fiquei sem palavras.

Quando, do meio daqueles documentos, Daniel tirou o poster do Projeto Metal Rock & Cia foi demais para o meu coração. Este evento histórico do qual, realmente, sou muito orgulhoso, aconteceu no Teatro Sesc Fábrica Pompéia em 85.

caricatura_01Caricatura criada em 1987 por Hanne Cath em Barcelona retratando um Celso Barbieri solitário e deprimido,
sem saber que destino dar para sua vida. Clique na caricatura acima para visitar a Galeria de Caricaturas do Barbieri
.


Então, vendo este cartaz que, já considerava como perdido, não resisti e fui tomado pela emoção...chorei. Na verdade, não gosto muito de falar da parte dificil, que foi a solidão, a incompreensão e a falta de dinheiro que sempre esteve por perto, rondando como um fantasma neste período.... Portanto, ver aquele cartaz novamente, depois de tanto tempo, foi um choque traumático onde boas memórias e momentos difíceis estiveram sempre presentes. Esta série de shows no Teatro SESC Fábrica Pompéia gerou muitas matérias nos jornais e até chamadas na TV mas, no final do projeto, como em muitos outros, quando chegou a segunda-feira eu tive que vender meus discos para poder almoçar.... Bom, valeu o esforço? Claro, faria tudo de novo, só que melhor!

meta_rock_e_cia_posterO poster que muito me emocionou! Clique no poster acima para ouvir alguns shows ao vivo deste evento!

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O teatro Sesc Fábrica Pompéia

Obrigado Rafael, Nando e Daniel pela forma amiga, respeitosa e até de reverência com que fui tratado! Vocês realmente mostraram que é possível tratar o Heavy Metal Brasileiro com o respeito que ele merece!

Antonio Celso Barbieri

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Arte: Colagem digital criada por Barbieri

Anos 70: Barbieri e o Rock Argentino

 

Casei-me com minha primeira esposa em dezembro de 1975. Nossa Lua de Mel foi, bem ao estilo hippie, uma viagem de carona desde São Paulo até a Argentina. Eu já possuía alguma experiência em pegar caronas pois, já tinha tentado esta façanha anteriormente duas vezes.

A primeira viagem foi logo depois que fiz o serviço militar obrigatório. Foi a forma que encontrei para destruir todo o condicionamento recebido e assim voltar para o meu antigo eu. Infelizmente o dinheiro que tinha para a alimentação era muito pouco e eu só consegui chegar até Chuí na divisa do Brasil com o Uruguai. Uns dois anos depois tentei novamente, desta vez fui mais equipado, com mais dinheiro, uma barraca e a companhia de uma garota.

Perigo no Uruguai!

Consegui chegar apenas até Montevidéu, a capital uruguaia. Cabe lembrar que, no começo dos anos 70, todo o cone Sul vivia debaixo do controle de ditaduras militares patrocinadas pelos Estados Unidos. No Uruguai a guerrilha de resistência era comandada pelo Movimento Tupamaro. O nome Tupamaro foi inspirado no nome do revolucionário Inca Túpac Amaro II e este movimento foi resultado da união do Movimento de Apoio ao Camponês com membros de vários sindicatos.

No Uruguai pegar carona era um perigo porque o risco de ser confundido com um “colaborador” e, “desaparecer” na mão dos militares era muito grande. 

Não tinha viajado tanto para desistir tão fácil! Não dei atenção aos conselhos da população local que dizia que a coisa estava perigosa do outro lado da fronteira. Quer dizer, para não arriscar muito, tomamos um ônibus em Chuí com direção à Montevidéu. Umas horas depois, já no meio do caminho fomos parados pelo exército uruguaio que, depois de revistar e checar os documentos de todo mundo, felizmente nos deixou passar. Chegamos tarde da noite em Montevidéu e nos hospedamos num hotelzinho modesto. Não conseguimos dormir pois, tivemos uma noite assustadora ao som de rajadas de metralhadoras e explosões.

No outro dia, de manhã, descobrimos que justamente a nossa rua estava interditada pelo exército e à poucos metros do hotel podia-se ver a frente de uma casa com manchas escuras e cheia de marcas de bala. O boato no hotel era de que aquela casa abrigava uma célula comunista. Ficamos sabendo também que havia um forte rumor de que o governo estava para decretar Estado de Sítio e iria fechar todas as fronteiras. Achei melhor abandonar o país o mais rápido possível.

Bom, em 1975, com meu casamento chegou a chance de tentar novamente. A moeda brasileira estava forte, e eu estava bem de dinheiro. Viajar de carona era apenas uma opção minha.

Pegar Carona

Houve um tempo, em que as pessoas eram mais desarmadas, menos desconfiadas e existiam menos bandidos na estrada. Pedir carona era uma coisa nova tanto para quem pegava como também para quem dava carona. A verdade é que muita gente não gostava de viajar sozinha e a idéia de ter um acompanhante para conversar durante a viajem era boa, tirava a monotonia da viagem. Sempre aprendemos alguma coisa conversando com as outras pessoas, não é mesmo? Eu tinha só 23 anos e minha esposa 20. Dois jovens com uma plaquinha escrito “Recém Casados”. Para nós, naquela época pegar carona foi fácil demais. O povo quando sabia que estávamos em Lua de Mel até pagavam o almoço.

Na estrada

Fizemos o trajeto São Paulo/Curitiba em um dia e depois Curitiba/Florianópolis no próximo, então foi a vez de Florianópolis/Torres já no Rio Grande do Sul onde acampamos e passamos o Ano Novo. A próxima jornada foi de Torres até Porto Alegre onde atravessamos a ponte sobre o Rio Guaíba e pegamos uma carona até Pelotas. No próximo dia fizemos o trajeto Pelotas/Chuí. À partir de Chuí achamos melhor tomarmos um ônibus até Montevidéu e de lá uma barco até Buenos Aires. Dormimos numa cabine à bordo do navio e acordamos bem cedo para ver o Sol nascer em alto mar. Foi a primeira vez que tive tido este tipo de experiência e foi também a primeira vez que vi uma gaivota.

Lembro-me que fiquei impressionado com a cidade. Muitos anos depois quando visitei Madri imediatamente percebi de onde os argentinos tinham tirado a inspiração.

Na trilha certa

Durante a nossa estada em Buenos Aires, em um sábado ensolarado, no começo da tarde, entramos em uma galeria cheia de lojas elegantes. A maior parte das lojas já estavam fechadas. O sistema de som da galeria tocava em bom volume um rock argentinho de qualidade e bem pesado para a época. Imediatamente quis saber o nome da banda. Lá, num cantinho meio escondido vimos uma loja de discos com a porta aberta. Era esta loja que fazia o som da galeria.

O dono da loja muito simpático mostrou-me a capa do disco. Era o álbum La Bíblia da banda Vox Dei. Eu comprei o álbum imediatamente e perguntei que outras bandas argentinas de rock ele tinha.

Para resumir, naquela tarde eu comprei 35 LPs. Nem preciso dizer que acabei ficando amigo do dono da loja que, naquela noite nos levou para uma churrascaria no seu carro um Ford Falcon que corria pelo centro de Buenos Aires como se estivesse numa pista de corridas.

Eu acabei ficando com uma respeitável coleção com o melhor do rock argentino daquele período. Nesta coleção estavam incluídos álbuns das bandas e artistas: Sui Generis, Almendra, Aquelarre, El Reloj, Espiritu, Invisible, Pescado Rabioso, Porcheto, Spinetta, etc.

Nesta época a banda Los Gatos da qual sairia o famoso guitarrista Pappo já era considerada legendária. Infelizmente não consegui achar um álbum para comprar, em todo lugar estava esgotado. Só alguns anos depois, já no Brasil foi que fui ouvir um dos primeiros álbuns da banda do Pappo chamada Pappo’s Blues. Até hoje não conheço o som do Los Gatos.

Para quem não conhece, o músico Spinetta é também uma figura legendaria e, juntamente com Charly Garcia são considerados por muita gente como os pais do rock argentino. Em 1969 Spinetta gravou seu primeiro álbum com sua banda chamada Almendra. Mais tarde, quando a banda acabou, Spinetta lançou um álbum solo e partiu para a Europa. Algum tempo depois, Spinetta voltaria para a Argentina para formar outra banda que ficaria legendária: Pescado Rabioso e, em 1974 Spinetta formaria mais uma banda: Invisible.

Neste período inicial, bem turbulento da história de seu país, Spinetta assumiu uma postura de esquerda, e usou o rock para manifestar suas idéias. Em um tempo onde a censura imperava em todos os meios de comunicação, sua aparição num show com as mãos pintadas de verde foi um ato simbólico e corajoso que entrou para o folclore local e foi contado de boca em boca pelos roqueiros da época por um bom tempo.

Recordo-me que busquei por um show de rock em Buenos Aires e não consegui encontrar nenhum. Conformei-me em ir à um cinema local para assistir pela segunda vez o filme Concerto para Bangladesh organizado pelo Beatle George Harrison. Já dentro do cinema, fiquei surpreso com o comportamento da platéia que aplaudia depois de cada música como se estivessem presenciando um show ao vivo.

Nesta visita, fiquei com a impressão de que a repressão militar e a falta de liberdade para manifestação física fez com que o rock argentino caminhasse para o lado progressivo onde a música era mais voltada para a mente do que para o corpo.

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Confesso que fiquei com uma certa inveja dos argentinos porque suas bandas e músicos eram muito bons e carregavam uma aura de profissionalismo que os colocavam muito à frente dos brasileiros. Na Argentina existia um público que venerava as suas bandas. Existia também uma revista de rock verdadeira chamada Pelo (cabelo). A Revista Pelo era como se fosse a revista Rock Brigade já em 1975! A Pelo tratava os músicos argentinos de igual para igual com os músicos ingleses e norte americanos. No Brasil a coisa era diferente. Nossas bandas foram sempre tratadas como bandas de segunda categoria.

Quando voltei da Argentina emprestei meus discos para o Jacks que fazia o legendário programa Kaleidoscópio que era transmitido na Rádio América. Ele fez um especial sobre o rock argentino. O difícil foi conseguir pegar os discos de volta :-)

Passariam mais de 2 anos para que eu pudesse ver um show com bandas de rock argentino. Foi em setembro de 1977 no Ginásio do Ibirapuera em São Paulo no I Concerto Latino-Americano de Rock. O show contou com as bandas Crucis, Los Desconocidos de Siempre, Máquina de Hacer Pajaros, Pastoral Alas e o músico Leon Gieco. Eu já conhecia Leon Gieco porque ele fez parte da banda Porsuigieco que tinha uma música que eu ouvia muito chamada La Mama de Jimmy. Aliás, eu tive a oportunidade de fotografar Leon Gieco neste show e enviar-lhe as fotos. (Minha memória me diz que aconteceram dois shows. No primeiro show eu fotografei. Como trabalhava só com filme branco e preto, revelando e ampliando-os eu mesmo, fiz um trabalho rápido e entreguei as fotos pessoalmente no outro show). Deste festival, a banda que marcou pelo som poderoso foi a banda Crucis. Mais tarde compraria o LP.

Que aconteceu com meus discos? Infelizmente nos tempos do Projeto SP Metal que produzi no Teatro Lira Paulistana na capital de São Paulo a pobreza foi tanta que tive que vende-los para poder ter uma refeição decente. Vários deles hoje fazem parte da coleção particular do Luis Calanca da Loja Baratos Afins. Graças à internet, pude encontrar a maior parte deste material raro que, aqui compartilho, fazendo uma seleção especial para esta matéria. Tudo que vocês ouvirem aqui é clássico para fazer argentino que viveu esta época chorar :-)
 

Nota final
Lembro-me que, além dos 35 LPs, também comprei uma bota de bico, um paletó de couro cor vinho e um homenzinho de madeira articulado, mostrado todas as suas proporções físicas, um objeto muito útil para quem desenha e que era muito caro e difícil de ser encontrado no Brasil. Comprei também numa loja de livros usados uma coleção de mais de 50 fascículos de uma publicação especializada só em discos voadores, um assunto que eu acompanhava de perto.

A bota de bico causou sensação porque em São Paulo era quase impossível conseguir-se uma. Naquela época, botas só mesmo modelo "jeca" de bico redondo. Recordo-me que uma noite no bairro do Bixiga, no famoso restaurante Montequiaro uma pessoa saiu da sua mesa para vir me perguntar onde é que tinha comprado a mesma.

O paletó de couro vinho lamentavelmente foi roubado de dentro do ônibus da Patrulha do Espaço durante um show pelo interior de São Paulo.

O bonequinho de madeira, ainda existe. Está bem velhinho, com mais de 35 anos. Já na época, ele recebeu um nome carinhoso: Palitinho. Lá por volta de 1985, por duas vezes tirei-o de dentro da bolsa da Andrea, na época minha namorada, hoje minha atual esposa. Eu era muito magro e ela me chamava de Palitão. Ela sempre queria levar o Palitinho para casa. A mensagem estava clara! :-)

Hoje depois de tantos anos, o Palitinho mora no nosso quarto na casa da mãe dela em São Paulo. Isto só vem mostrar como é forte o poder de quem ama! Andrea acabou dona do Palitinho e também do Palitão que, desde então, com a idade, ganhou uns quilinhos e já não é mais tão palito assim…

 

Antonio Celso Barbieri

O Melhor do Rock Argentino!
Uma coletânia feita pelo Barbieri

Nota: Obviamente muitas bandas estão fantando.
Aceitamos contribuições com gravações raras deste período.

Barbieri no Loucuras...

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Apesar do nome hispânico lhes asseguro que esta banda não tem nada de espanhol! Alias, este competente power trio é de origem multinacional sendo Diego o vocalista e guitarrista australiano, o baixista Paulo  português e Marcelo Carvalho, o baterista, brasileiro.

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A publicidade do primeiro show

O começo

A banda fez seu primeiro show no dia 03 de março de 2005.  Neste batismo de fogo tocaram num pub londrino numa típica noite chuvosa. Nesta noite,  H.E.D. tocou com mais duas bandas e mostrou num set coeso que tem o poder para tocar no futuro em muitos lugares melhores. Se em termos de performance de palco, naturalmente, a banda ainda estava um pouco crua, em termosde  sonoridade, o poder de fogo foi inegável.  Na minha opinião, honestamente, achei que o H.E.D. foi a melhor banda da noite.

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A primeira formação do H.E.D. em 2005 com Diego, Marcelo e Rossco

Neste show a banda ainda contava com Rossco Diamond no baixo. Rossco tocava em várias bandas ao mesmo tempo e logo largou o H.E.D. preferindo dedicar-se à outros projetos. Foi aí que o Paulo entrou na banda revigorando e atualizando o som da mesma. Paulo é um baixista de primeira grandeza e usa seu baixo de forma muito especial quase como um sintetizador.

Infelizmente, o guitarrista por problemas pessoais decidiu retornar aos ares mais saudáveis das praias australianas até que tudo pudesse ser resolvido.


No período de mais de um ano que a banda ficou sem guitarrista e sem um futuro definido. Marcelo e Paulo continuaram ensaiando e desenvolvendo um trabalho mais pesado e experimental. Paulo claramente influenciado por bandas tipo Tool e Marcelo grande fã da banda Rush começaram desenvolver um projeto baseado num duo onde o baixo usando pedais especiais fazia o papel natural do baixo mais o de uma guitarra altamente distorcida e sintetizada. As gravações que me chegaram às mãos mostravam muito futuro e grandes idéias.


Diego o guitarrista por sua vez, já sem as nuvens pretas ameaçadoras fora do caminho, retornou à Londres para encontrar os outros membros da banda mais afiados do que nunca. Já fazem alguns meses que a banda ensaia e, como já disse muitas vezes para o Marcelo, gostaria de ver um álbum lançado ainda este ano!


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O H.E.D. em 2008 com Diego, Marcelo e Paulo

O vídeo

O vídeo foi gravado durante os ensaios da banda que, aproveitavam também para gravar tudo digitalmente. A mesma música foi filmada umas 8 vezes. Eu escutei a música e principalmente durante o solo senti o lado psicodélico anos 70 da mesma. Como o local de ensaio era pequeno e os músicos estavam mais preocupados em tocar do que se mover, achei que quem tinha que se mover era a câmera. Fiquei no centro da sala, no meio do triângulo formado pelos 3 músicos. Durante a execução da música, movi no tempo da música rapidamente de um músico para o outro. A idéia era distorcer o ambiente  com movimentos rápidos de câmera e assim criar um clima alucinógeno. Na hora do solo deixei a câmera livre como numa viagem de drogas. 

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Barbieri em ação filmando a banda Hablo el Diablo


Mais tarde o Marcelo Carvalho editou as cenas ajudando criar o clima de velocidade com mudanças rápidas de cena.


Efeitos especiais

O vídeo então foi transferido para o computador Mac do Barbieri para receber o tratamento final. Usando o programa Quicktime Pro o vídeo exportado em quadros individuais. Cada quadro virou uma foto. No total, Barbieri ficou com uma pasta contendo quase 8.000 fotos. Barbieri abriu a primeira foto no Photoshop e processou-a de várias formas até achar um efeito que lhe agradasse. Depois de achar um efeito satisfatório Barbieri instruiu o Photoshop à processar automaticamente todas as quase 8.000 fotos daquela pasta.


Paralelamente Barbieri criou algumas animações como por exemplo a de um corvo voando e,  usando a mesma técnica anterior fundiu as animações em algumas seqüências de fotos.


Depois que as animações tinham sido incluídas, Barbieri usando Quicktime Pro reagrupou todas as fotos num vídeo novamente.


O vídeo então recebeu mudanças de contraste, luz e cor para chegar no efeito final que o leitor poderá ver abaixo:


 


O logo da Gravadora Devil Discos
 
Barbieri, Chicão e Devil Discos
Escrito por Antonio Celso Barbieri

Ano 1986

No segundo andar das Grandes Galerias, hoje, mais conhecida como Galeria do Rock em São Paulo, entre as muitas lojas de discos alí existentes, duas lojas lideravam as vendas.

Em primeiro lugar vinha a loja Baratos Afins do Luis Carlos Calanca e em segundo a Devil Discos do Francisco Domingos de Souza, mais conhecido como Chicão. Vivíamos o tempo do vinil onde os "sebos" de disco tinham evoluído para "lojas de vendas de discos novos e usados".

No tempo dos sebos realmente tínhamos a chance de achar muitas raridades por preços baixos. Mas com os anos, os vendedores ficaram especializados e, o comércio das bolachonas pretas virou a arte do comércio onde o truque era comprar as raridades baratas e vendê-las por preços salgados. Lojistas, usando outras pessoas, chegavam até à comprar os discos raros uns do outros para vede-los depois com preços salgados.

Quer dizer, existia uma forte competição entre os lojistas da galeria e, naturalmente muitas destas lojas sonhavam em tornarem-se gravadoras. Era a evolução lógica esperada e, a loja Baratos Afins foi a primeira que deu este grande passo. É claro que Chicão da Devil Discos obviamente não queria ficar para trás!

Era na Galeria do Rock, principalmente na Devil Discos e Baratos Afins, onde eu fazia contato e arrigimentava as bandas para os meus projetos (Projeto SP Metal, Projeto Metal, Rock & Cia, Projeto São Power, etc). Eu era um produtor/empresário sem escrítório e nem telefone que vivia perambulando de uma loja à outra na galeria. No meu íntimo eu tinha um título para mim mesmo; "O mestre da corda banda!"

Sabendo das intenções do Chicão, propuz o lançamento de uma coletânea de bandas baseadas em gravações de shows que eu possuia. Eram gravações pobres, feitas em fita K7 e gravadas nos shows direto mesa de som, geralmente usando uma saída de retorno para o palco.

Então, em 1986 o primeiro lançamento do selo Devil Discos chamado São Power mostrando 8 bandas paulistas de rock pesaso foi preparado. As bandas Viper e Korzus foram convidadas mas recusaram-se a participar. Claramente meu projeto não estava à altura de bandas do calíbre do Viper e Korzus mesmo porque a idéia era documentar algumas bandas que praticamente já haviam acabado.

A arte da capa do album São Power é de minha autoria baseada em uma ilustração de Bruce Pennington extraída da revista de ficção científica inglesa Science Fiction publicada em 1974.


Korzus & Devil Discos

Bom, a tiragem do album São Power foi limitada à 1.000 cópias e, as vendas mostraram-se muito fracas (hoje o album está esgotado e fora de catálogo) e, numa tarde, Chicão desabafou: "Se a gente tivesse incluído o Korzus, ja teríamos vendido tudo!"

Então, sugerí ao Chicão que oferecessemos ao Korzus um album só deles. O Korzus tinha participado com duas músicas no LP coletânea SP Metal II lançada em 1985 pela Baratos Afins. O Korzus estava "engavetado" na Baratos Afins com esperança da promeça do lançamento de um album pela gravadora.

À meu ver, estava claro que o Luiz Carlos Calanca preferia investir no metal clássico do que no black metal radical e demoníaco que a banda fazia na época. A verdade é que a imprensa estava (e está) infiltrada pelos "poposos" e o rock pesado nunca teve espaço nos jornais, nas rádios e TVs (com raras excessões!).

Convencí o Chicão que o futuro álbum Korzus ao Vivo deveria ser um lançamento para preencher um espaço vago, mantendo a chama da banda acesa até que ela tivesse tempo para gravar seu primeiro albúm de forma correta.

Disse que certamente Korzus aceitaria lançar o album Korzus ao Vivo se, além de um incentivo financeiro, apresentássemos a proposta como parte de um pacote maior onde a banda tivesse perspectiva de crescimento. Entrei em contato com a banda. Passamos por um período de negociação que culminou com a assinatura do contrato na minha casa com a presença de todos os envolvidos mais o advogado do Chicão. Convem lembrar que, obviamente a cerimónia terminou com o povo selando a coisa com a famosa passagem na roda do "cachimbo da paz".

A arte da capa do album Korzus ao Vivo também é de minha autoria e foi baseada num detalhe de uma ilustração feita por E. M. Clifton-Day também extraída da revista inglesa Science Fiction publicada em 1974.

Korzus ao Vivo foi o primeiro de vários albuns lançados pelo Korzus neste selo. Foi com o álbum Korzus ao Vivo que ganhei pela primeira vez algum dinheiro com rock. Foi o suficiente para eu comprar minha passagem para a Europa e cair fora.

devilkorzusspowerPublicidade publicada em 1986 na Revista Metal (Número 22)


O logo da Gravadora Devil Discos.

Barbieri cria a arte do selo!

Quase ninguém sabe que o selo da gravadora Devil Discos foi criado por mim quando do lançamento do albúm São Power em 1986. O selo foi fruto de uma colagem que fiz mostrando uma mão que usa no pulso um bracelete de tachas e, segura uma furadeira elétrica que, por sua vez, perfura a letra "D". A mão empunhando a furadeira elétrica foi recortada de uma foto do Robert Halford (Judas Priest) onde ele aparece vestido com uma jaqueta com uma gola semelhante à de um padre (priest) e, apontando a furadeira para a sua própria cabeça num gesto insano. O trabalho de tipografia foi feito usando Letraset (decalques gráficos transferíveis). Este selo, depois ganhou mais popularidade porque Chicão acabou adotando-o como sua marca, pintado-o na placa na frente da sua loja. A idéia de incorporar ruídos feitos por máquinas no rock ainda não tinha acontecido como um estilo definido. Só mais para frente, bandas como Ministry e Nine Inch Nails viriam a popularizar esta vertente do rock que ficaria conhecida como Rock Industrial. Portanto acho que este logo foi um tanto quanto profético para época que foi criado.

Antonio Celso Barbieri

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Robert Halford (Judas Priest)

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Brain Brazil Vol. 1 - The Roots of Brazilian Metal (1997)

Lancei, com apoio da Revista Dynamite, esta coletânea em 1997. A idéia, foi fazermos uma distribuição gratuita na Europa para ver se conseguíamos que uma gravadora internacional assinasse um contrato de gravação com alguma banda brasileira. Infelizmente pareceu que o mercado estava fechado para todas as bandas exceto Sepultura. Eu sinceramente ainda acho que existe espaço neste planeta para todo mundo! Como nada é perfeito, houve uma certa controvérsia com relação à faixa número 15, TBSD VS DORSAL. Clique aqui para visitar a página da Banda Dorsal Atlântica e ficar sabendo tudo o que aconteceu! Sei que vai parecer presunção de minha parte mas, acredito que esta seja uma das melhores coletâneas de rock já feitas no Brasil. Estas músicas foram escolhidas com muito cuidado, durante meses e, tiradas de um lote de mais de 100 CDs recebidos. Qualidade de gravação, arranjo, coragem, poder de fogo e rock, muito rock foram meus critérios. Esta coletânea passa por muitos estilos e, minha intenção foi mostrar para o mundo que o Brazil em termos de rock é mais do que uma banda chamada Sepultura, mostrando que o Brazil é muito rico em termos de estílos, idéias e poder de fogo. Não me entendam mal! Não sou contra a banda Sepultura mas acredito que se o seu surgimento foi bom para projetar o nosso rock tanto no Brasil como no exterior, por outro lado, nada ajudou no tocante ao resto da bandas brasileiras. A Austrália tem ACDC, Canadá tem RUSH, Alemanha Scorpions e Brazil tem Sepultura... Não, não é assim que eu quero que seja! A Inglaterra tem centenas de bandas, Os Estados Unidos tem centenas de bandas e o Brasil, cacete, tem centenas de bandas, senão milhares!!! Vamos mudar as coisas pessoal! Não me digam que é falta de talento! Escute esta coletânea e jugue por você mesmo, se é que você é um roqueiro de verdade!

Introduction (A tradução desta introdução poderá ser encontrada no final desta página!)

"It could be said that the history of Brazilian metal started way back in the late sixties and beginning of the seventies. Bands like "Mutantes", "Terço", "Som Nosso de Cada Dia", "Made in Brazil", "Patrulha do Espaço", "Peso", "Casa das Maquinas", "Terreno Baldio", "Joelho de Porco", "Bicho da Seda", among many others, all started the rock scene rolling there. The band "Mutantes" is still today, regarded by many people as the most creative Brazilian band of all time. Back then Brazilian musicians were influenced by the same international acts (specially the British bands), events and films responsible for shaping the heads of the young generation world wide. Living under a military government and heavy censorship, these were very difficult times for the Brazilian people. To be an artist then could cost you your life... Later, coinciding with the British New Wave of Heavy Metal we had an explosion of rock bands. The city of São Paulo was the centre and still is, of all activities. São Paulo is undoubtedly the South American capital of rock. In this industrial crowded city, in small theatres and clubs the underground scene flourished and provided opportunities for Heavy Metal bands to show their talents. Without any support from the media and with production costs in a country suffering from very high rates of inflation running absurdly out of proportion, to be a rock band was a real challenge. Another problem was the lack of good professionals. The engineers and sound technicians did not have enough experience to deal with rock music. Because of this, our bands were treated like guinea pigs and the quality of their albums were always far from good. Regardless, bands like "Avenger", "Korzus", "Viper", "A Chave do Sol", "Excalibur", "Virus", "Salario Minimo", "Cerbero", "Dorsal Atlantica", "Centurias", "Karisma", "Vodu", "Platina", "Vulcano", "Santuario" and, of course "Sepultura", came out to prove that rock can survive against all adversities. These bands are just a few examples of the second generation of Brazilian bands. Today, the Brazilian economic situation is much better and hundreds of bands are playing everywhere. Unfortunately, most of the Brazilian press are still deaf and blind. However, when CD production costs became cheaper, several independent labels brought out the best of our bands. This compilation is just a small sample of what is going on in Brazil at the moment. I hope you enjoy it.

Antonio Celso Barbieri
London, Winter 1997

"15 tracks CD with the best of Brazilian metal bands. A must for the headbanger who appreciates quality. Very heavy and powerfull stuff!!! The best Brazilian rock compilation ever made!!!

Dynamite Magazine
Brazil

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Brain Brazil Vol. 1 - The Roots of Brazilian Metal

 


TRACK

01
02
03
04
05
06
07
08
09
10
11
12
13
14
15

BANDA

KORZUS
GENOCIDIO
MOSH
CORTINA
MADAME BUTTERFLY
SKILO
PRIME MOVER
NECROMANCIA
IN MEMORIAN
BRAINSTORM
THE PILLS
THE FOREST
SACRED CURSE
OLOMAN
TBSD VS DORSAL

MÚSICA

Internally
Black Depth
The Scene
Agitated World
Uarana Seseí
Destitution
My Experience
Cold Wish
Stream Of Evil
Riddles
Nature
Insanity Solutions Time
Confusion
Classica
Walking In Circles

As bandas

Korzus, Genocidio, Mosh, Cortina, Madame Buterfly, Skilo, Prime Mover, Necromancia, In Memorian, Brainstorm, The Pills, The Forest, Sacred Curse, Oloman e TBSD Vs. Dorsal.

CD Track Information

  • 1. KORZUS Internally. Lyrics by Marcello Pompeu. Written & Arranged by Korzus.Taken from the album "KZS". Produced by Steve Evetts. Executive Producer: Francisco Domingos de Souza (Chicão). Courtesy of Devil Discos. Korzus is: Marcello Pompeu (Vocals), Silvio Golfetti (Guitar), Dick Siebert (Bass), Marcelo Nejen (Guitar) and Fernando Schaefer (Drums).
  • 2. GENOCIDIO Black Depth. Lyrics by Juma and Daniel. Written & Arranged by Genocidio. Taken from the album "Posthumous". Produced by Genocidio. Courtesy of Velas/Primal Records. Genocidio is: Murillo (Vocals/Guitar), W. Perna (Guitar), Daniel (Bass) and Juma (Drums).
  • 3. MOSH The Scene. Lyrics by Rosanna and Dinis. Written & Arranged by Sileci and Dinis. Taken from the album "Private Place". Produced by Roberto Sileci. Courtesy of Velas/Primal Records. Mosh is: Rosanna Riberti (Vocals), Marcelo Dinis (Guitar), Roberto Sileci (Drums) and Mauricio Mattos (Bass).
  • 4. CORTINA Agitated World. Lyrics by Lucia, Luiz, Andre and Ricardo Machado. Written & Arranged by Cortina. Taken from the album "Tribal Tech". Produced by Philip Colodetty. Courtesy of Dov-Age ECPA. Cortina is: Luiz Roberto Alves (Vocals/Bass), Lucia Alves (Keyboards), Andre Luiz (Guitar) and Mauricio (Drums).
  • 5. MADAME BUTTERFLY Uarana Seseí. Written by Beto Sallaberry. Arranged by Madame Butterfly. Taken from the album "Dr. Feelgood". Produced by Artium/Madame Butterfly. Courtesy of Artium. Madame Butterfly is: Amaury Bueno (Vocals), Luciano (Guitar), Dalam Junior (Bass) and Beto Sallaberry (Drums and Sequencer).
  • 6. SKILO Destitution. Lyrics by Luiz H. Spilari. Written & Arranged by Skilo. Taken from the album "Skilo". Produced by Marielle Loyola. Courtesy of Act Music. Skilo is: Luiz H. Spilari (Bass/Vocals), Pedro Merlini (Guitar) and Armando Chrastello (Drums).
  • 7. PRIME MOVER My Experience. Lyrics by Luis Cesar. Written & Arranged by Prime Mover. Taken from the album "My Experience". Produced by Paul Johnston. Co-Produced by Prime Mover. Courtesy of Lemon Music Co.. Prime Mover is: Pimenta (Vocals), Luis (Guitar), Thomas (Bass) and Bill (Drums).
  • 8. NECROMANCIA Cold Wish. Lyrics by Marcelo and Kiko. Written & Arranged by Marcelo and Kiko. Taken from the album "Necromancia". Produced by Geraldo díArbilly. Courtesy of Necromancia. Necromancia is: Marcelo DíCastro (Vocals/Guitar), Roberto Fornero (Bass) and Kiko DíCastro (Drums/ad. Keyboards).
  • 9. IN MEMORIAN Stream Of Evil. Lyrics by Wilson Junior. Written & Arranged by In Memorian. Taken from the album "Insantification". Produced by Eugeneo "Dead Zone", Tarso Senra and In Memorian. Courtesy of Heavy Metal Rock. In Memorian is: Wilson Junior (Vocals/ Guitar/Keyboards), Celio Oliveira (Bass) and Ales Sandre (Drums).
  • 10. BRAINSTORM Riddles. Lyrics by Alexandre and Rodrigo. Written & Arranged by Brainstorm. Taken from the album "Brainstorm". Produced by Beto Toledo and Brainstorm. Executive Producer: Helen Marie Dobignies. Courtesy of B&H Management. Brainstorm is: Rodrigo Brittes (VocalslGuitar), Neliton Junior (Guitar), Alain Dobignies (Bass) and Alexandre Celli Grabowski (Drums).
  • 11. THE PILLS Nature. Lyrics by Marcio Geromel. Written & Arranged by Marcio Geromel. Taken from the album "The Pills". Produced by Beto Machado. Co-Produced by The Pills. Courtesy of Paradoxx Music. The Pills is: Luiz Paulo (Vocals), Marcio Geromel (Guitar), Cristiane Machado (Keyboards), Kuky (Bass) and Marcos Zillo (Drums). Special Guest: Mozart Mello (lst and 3rd Guitar solos).
  • 12. THE FOREST Insanity Solutions Time. Lyrics by Sergio A. P. Foltran. Written & Arranged by The Forest. Taken from the album "Insanity Solutions Time". Produced by Marielle Loyola and Marco Maximiliano. Co-Produced by The Forest. Courtesy of Act Music. The Forest is: Sergio Foltran (Vocals/ Guitar), Marcelo Graciolli (Guitar), Sonner Foltran (Keyboards), Lizardman (Bass) and Niar Navarro (Drums).
  • 13. SACRED CURSE Confusion. Lyrics by Sacred Curse. Written & Arranged by Sacred Curse. Taken from the album "Sacred Curse". Produced by Edu Vianna, Andre Cagni and Sacred Curse. Courtezy of Dov-Age ECPA and Act Music. Sacred Curse is: Fernando Gorpo (Vocals), Edu Mariz (Guitar), Flavio Canovas (Guitar), Carlos Tuca (Bass) and Paulo Mariz (Drums).
  • 14. OLOMAN Classica. Lyrics by OlomAn. Written & Arranged by OlomAn. Taken from the album "OlomAn". Produced by OlomAn. Executive Producer Eric de Haas. Courtezy of Dynamo Brazilie. OlomAn is: Paulo Nascimento (Guitar/Vocals), Christopher Leon (Guitar), Fabio Nascirnento (Bass) and Alexandre Cymes (Drums).
  • 15. TBSD Vs DORSAL Walking In Circles. Lyrics by Barbieri. Written & Arranged by Barbieri and Carlos. Taken from an experimental demo tape. Recorded at Raw Vibe Studios, London. Produced by Barbieri. TBSD Vs DORSAL was a short lived collaboration between TheBrainSexyDiet and the band Dorsal Atlantica from Rio de Janeiro. Dorsal Atlantica is: Carlos (Guitar/Vocals), Angelo (Bass) and Guga (Drums*) TheBrainSexyDiet is: Antonio Celso Barbieri (Sampling, Sequencer, Drum Programming and Keyboards).

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Acknowledgement

Very Special thanks to all musicians involved in this compilation. Special thanks to Andre Cagni and Dov-Age ECPA, Chicão and Devil Discos, Velas PAM&C, Primal Records, Artium, Act Music, Charles Mountfort and Paradoxx Music, Eric de Haas and Dynamo Brazilie, Heavy Metal Rock, B&H Management, Hard Face Music, John Curtis and every one who helped me to make this compilation possible. All tracks remastered by A.C.Barbieri at the Raw Vibe Studios, London. Cover design and art work by Roberto Fiorentino. Sponsored by Dynamite Magazine.

Introdução (tradução)

Nota: Tenha em mente que este texto foi escrito em 1997 e visava o mercado internacional

Poderíamos dizer que a história do Metal Brasileiro começou bem lá atrás, no final dos anos 60 e começo dos anos 70. Bandas como "Mutantes", "Terço", "Som Nosso de Cada Dia", "Made in Brazil", "Patrulha do Espaço", "Peso", "Casa das Maquinas", "Terreno Baldio", "Joelho de Porco", "Bicho da Seda", entre muitas outras, começaram o rock no Brasil. A banda "Mutantes", ainda hoje,  é considerada  por muita gente como a mais criativa banda de rock brasileiro de todos os tempos.  Já naquele tempo, os músicos brasileiros eram influenciados pelos mesmos artistas internacionais (especialmente as bandas inglesas), eventos e filmes responsáveis por formarem a cabeça da geração jovem do mundo todo.  Vivendo debaixo de um governo militar e uma censura pesada, este foram tempos difíceis para o povo brasileiro.  Ser um artista poderia até custar sua vida. Mais tarde, coincidindo com o British New Wave of Heavy Metal (BNWHM) nós tivemos no Brasil uma explosão de banda de rock. A cidade de São Paulo foi o centro e ainda é de todas as atividades. São Paulo, sem dúvida é a capital sulamericana do Rock.  Nesta cidade industrial e super populosa,  em pequenos teatros e clubes, a cena underground floresceu e forneceu oportunidades para que as bandas de Heavy Metal  mostrasse seus talentos. Sem nenhum apoio da imprensa e com os custos de produção, num país sofrendo altas taxas de inflação totalmente desproporcionais e absurdas, ser uma banda de rock foi um grande desafio. Outro problema era a falta de profissionais. Os engenheiros e técnicos de som não tinham experiência suficiente para lidar com o Rock. Por este motivo nossas bandas foram tratadas como cobaias,  ratos de laboratório, e a qualidade dos seus álbuns sempre eram longe do esperado.  Mesmo assim, bandas como "Avenger", "Korzus", "Viper", "A Chave do Sol", "Excalibur", "Virus", "Salário Mínimo", "Cérbero", "Dorsal Atlântica", "Centúrias", "Karisma", "Vodu", "Platina", "Vulcano", "Santuário" e, é claro, "Sepultura", surgiram para provar que o rock pode sobreviver à todas as adversidades.  Estas bandas são apenas um pequeno exemplo da segunda geração de  bandas Brasileiras.  Hoje a situação econômica brasileira está muito melhor e centenas de bandas estão tocando por todos os lugares. Infelizmente a maior parte da nossa imprensa continua cega, surda e muda.  Entretanto, como os custos de produção de CDs baixaram muito, vários selos independentes surgiram e, lançaram o melhor destas bandas.  Esta coletânea é um pequeno exemplo do que está acontecendo no Brasil neste momento. Espero que vocês gostem!

Antonio Celso Barbieri
Londres, Inverno de 1997

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Um cérebro estacionado num  quintal. arte do incarte do CD.

1982/83

Vai parecer incrível mas, as camisetas de rock tão popularmente conhecidas no nosso país foram introduzidas no mercado brasileiro aqui pelo Barbieri.

Eu escolhi o nome Rocker para a marca (logo) das minhas camisetas porque para mim ser Rocker não é apenas ser um roqueiro e sim ser um líder no palco, uma figura carismática, uma lenda. Eu gostava do visual e do som do Marc Bolan (T. Rex) e portanto, escolhi uma foto dele. A foto usada é a da capa do álbum The Slider. Mais tarde, abriria a loja Rocker usando o mesmo logo.

Eu sempre quis ter uma camiseta do Led Zeppelin. Eu era fã de carterinha do Robert Plant e achava o selo da gravadora Swan Song, aquele com um tipo de ícaro (um homem alado), o máximo. Na época eu estava muito envolvido com fotografia e fui fazer um curso na escola Imagem-Ação que existia na Avenida 9 de Julho. Lá aprendi a revelar e ampliar meus próprios filmes. Logo já tinha meu quarto escuro montado. Mais tarde aprendi a ampliar em folhas (filmes) de auto contraste, os chamados fotolitos. A próxima etapa foi aprender serigrafia (silkscreen). As primeiras camisetas que fiz foram: Robert Plant (Led Zeppelin), Janis Jopplin e Jimi Hendrix. Rapidamente já tinha mais de 10 estampas e achei que as lojas de discos e sebos iriam ficar muito interessadas no meu produto. Engano meu! A idéia de vender “roupas” numa loja de discos era inaceitável para aquela época. Fui recebido até com deboche.

Não desisti, comprei um pano preto e, num sábado, estendi o pano na calçada da Avenida São João exatamente em frente das Grandes Galerias, hoje Galeria do Rock. Nem acabei de colocar minhas camisetas no chão e foi o maior tumulto, vendi as 50 camisetas que tinha em 10 minutos. Não existia absolutamente ninguém para concorrer comigo. Minhas estampas eram feitas com fotolitos baseados em fotos tiradas de revistas importadas ou de capas de discos. Eu usava só tinta de qualidade e camisetas Hering. É lógico que na próxima semana eu estava lá e o público cada vez maior. No começo eu reinvestia todo dinheiro ganho em mais material e logo já tinha mais de 100 estampas.

Algumas lojas perceberam imediatamente o potencial ainda mais porque, eu deixava as camisetas em consignação com os lojistas. As lojas Woodstock, Punk Rock discos e Devil Discos foram os meus primeiros clientes. O dinheiro entrava rápido mas eu gastava tudo em “pizza” e discos sem nunca pensar realmente no futuro. A minha alegria e orgulho era ver todo mundo nas ruas usando minhas camisetas.

Foi vendendo camisetas na Avenida São João que acabei fazendo amizade com Paulo Rossi que mais para frente viria ser o vocalista da banda Avenger, banda que acabei sendo o empresário.

As primeiras camisetas de rock nacional que eu fiz foram obviamente para o Avenger e também para as bandas punk Cólera e Inocentes para serem vendidas na loja Punk Rock Discos. Na subsolo da Galeria do Rock eu supria as lojas dos "blacks" com camisetas do Bob Marley, James Brown, Michael Jackson e Jimi Hendrix. Eu tinha também meu preço para o atacado e tinha vendedores espalhados por várias cidades do interior de São Paulo, principalmente no ABC.

O show do Queen

A minha boa sorte praticamente mudou do dia para a noite com o show do Queen no Brasil. Quando cheguei na frente do estádio centenas de pessoas estavam vendendo camisetas. Vendiam quase pela metade do preço. Tecido de baixa qualidade, camisetas feitas em algum galpão da periferia. O tipo de camiseta que você lava uma vez e já era. O pior é que o design era muitas vezes igualzinho ao meu. O povo devia ter comprado uma camiseta minha colocado um papel vegetal encima e copiado. Minhas camisetas apresentavam imagens reticuladas e as dos concorrentes imagens modelo borrão! O povo não estava nem aí...

Outro fator negativo que aconteceu neste período foi o surgimento das camisetas pretas. Para imprimir num tecido preto a tela tem que ser em negativo. Portanto eu teria que fazer todas as minhas telas novamente. Eu fui me adaptando e mudando mas a concorrência era grande e eu já não tinha o mesmo entusiasmo.

John Lennon

Eu recordo-me que um dia logo de manhã o telefone tocou para me avisarem para ligar o rádio. As rádios não paravam de tocar John Lennon, pois ele acabara de falecer. Fiquei chocado e ao mesmo tempo imediatamente comecei estampar camisetas dele, pois eu já tinha a estampa à algum tempo. Aquela noite eu passei estampado camisetas. Sozinho, embriagado pelo sono, fazendo o rosto do John Lennon aparecer numa camiseta atrás da outra, senti-me mal, culpado, era uma coisa contraditória ganhar dinheiro com a morte de uma pessoa que eu admirava tanto. Era uma contradição muito grande mas, vergonhosamente o dinheiro falou mais forte e acabei vendendo umas 1000 camisetas naquela semana. Eu sei o que vocês estão pensando: Direitos autorais era uma palavra quase desconhecida nesta época. De qualquer forma, se eu morrer amanhã vocês podem vender quantas camisetas quiseram com a minha cara estampada! :-)

O show do Van Halen

Outro momento que guardo na lembrança foi na frente do Ginásio do Ibirapuera antes do show do Van Halen. Eu já sabia da fama do empresário do Led Zeppelin que tinha o habito de ir lá fora do teatro, destruir as coisas e bater em qualquer um que estivesse vendendo “merchandise” ilegal. Portanto, quando vi os Norte Americanos cabeludos do pessoal da produção do Van Halen vindo na minha direção, engoli seco. No final de tudo, fiquei surpreendido que a banda tenha instruído a produção à ir lá fora e “comprar” uma camiseta de cada vendedor para levar como souvenir.


Barbieri em Julho 1983 usando a camiseta da Mountain Productions Concert Staging
Pagaram em dolar. Achei demais, os caras ganharam um ponto comigo... nada de mesquinharia.

Já dentro do Ginásio depois do show, que aliás foi memorável e com a abertura da legendária Patrulha do Espaço, enquanto o povo se retirava, fui ficar no gargarejo, na beira do palco para ver o equipamento e os roads em ação. Um deles me viu, desceu até onde eu estava e fazendo mímica apontou para a camiseta do Van Halen que eu estava vestindo e já foi tirando a dele para a troca.


Não pensei duas vezes! A camiseta preta dele era da empresa que trabalhava chamada Mountain Productions Concert Staging (clique aqui). Usei-a por muito tempo...
Por A. C. Barbieri
Uma singela homenagem ao eterno Jimi Hendrix. Foto: Ken Marcus. Animação: Barbieri

abstrato

HOMOSINTESES
Escrito por Antonio Celso Barbieri

Nada como respirar a brisa fresca da tarde. Ar puro com cheiro de verde. Olhando para o céu de um azul imaculado, sem uma só nuvem, eu buscava um pontinho, uma cor diferente que destruísse aquele senso de perfeição. A palavra ”irreal” tomava conta da minha mente fazendo-me desconfiar dos meus próprios sentidos e, justamente por isso mesmo, fazendo com que a realidade daquele céu parecesse brutalmente palpável como se a Terra estivesse cercada por uma frágil redoma de vidro azulado pronta para partir-se e despencar-se na minha cabeça numa chuva de cacos pontudos e azulados.

De repente perturbado pelo súbito despertar à realidade física ao meu redor, deparei-me sentado num banco de madeira à contemplar um lago com mais ou menos um quilometro de diâmetro. O lago com sua forma circular absolutamente perfeita possuía em torno dele um pequeno anel de asfalto negro que, na margem do lago perdia-se dentro da água. No limite, separando o asfalto negro da grama verde encontravam-se os bancos de madeira, todos iguais e separados por intervalos precisos como se estivessem marcando os minutos num gigantesco relógio. No gramado mais para o fundo as arvores, todas da mesma espécie, pontiagudas, apontado para o céu, pareciam ter sido todas plantadas no mesmo dia e, clonadas uma das outras. A água do lago, estática, sem uma onda, sem uma impureza, um gravetinho flutuante que fosse, refletia o azul do céu como se fosse um espelho. Duas fatias de pão azulado sanduichando-me no meio. Quebrando a imobilidade mas, ao mesmo tempo, aumentando o senso de repetição e continuidade, do outro lado do lago, um grupo de seis pessoas lentamente prosseguem metodicamente na sua corrida pelo asfalto em torno do lago, alcançando cada banco como se fossem os ponteiros do relógio. Tique, taque, tique, taque...

O lago, um “círculo perfeito”. Meu antigo professor de geometria à muito muito tempo atrás me disse que um círculo perfeito não pode ser produzido, que o círculo perfeito é uma abstração geométrica que, tem vida apenas na nossa mente. Na minha eterna busca pela essência e significado da vida não posso deixar de sentir que o círculo está impregnado em tudo. A esfera não deixa de ser um círculo tridimensional. Desta forma, o universo é esférico, assim como as estrelas e os planetas com suas trajetórias elíptico circulares. No mundo sub atômico tudo indica que as partículas também estão presas às suas órbitas circulares. Não esqueçamos do óvulo, mãe da humanidade. Um dos aspectos do círculo que mais me fascina e que sinto dentro de mim talvez seja o elemento mais importante, é a questão da continuidade, do “loop”, da repetição. E se tem repetição tem movimento, freqüência, e de certa forma, é vida que não tem começo e que não tem fim. Infinito. Eternidade.

Próximo aos meus pés, vejo no chão duas folhas verdes e amarelecidas nas pontas. Como elas chegaram lá eu não sei pois eu não as tinha notado antes. Curvo-me para a frente e observo-as atentamente notando que as mesmas são desagradavelmente iguais. O amarelo envelhecido obedecendo padrões idênticos, as veias alastrando-se pelas folhas seguindo em ambas os mesmos caminhos como se estivessem tentando irrigar dois cérebros verdes porem já mortos. Meu Deus, tudo é tão estranho e irreal, sintético mesmo. Tão perfeito que machuca. E perfeição é outra coisa que só existe na mente. Um círculo perfeito. Será Deus um círculo, uma força em movimento, algo sem começo e sem fim? Algo que só existe na mente, preciso como uma fórmula matemática.

Perfeito na sua intransigência contra a imperfeição, no radicalismo do não retorno. Perfeito na impossibilidade da compreensão…Como absorver a perfeição dentro de algo tão imperfeito e finito como nós?

Mergulhado no silêncio dos meus pensamentos mas, com as veias esverdeadas daquelas folhas alastrando-se no meu cérebro, buscando caminhos como a água da chuva na terra seca, sou lentamente trazido à tona, pelo som da cadência rítmica dos corredores que se aproximam. Tique…….taque, Tique…….taque. Como um pequeno comando militar, cinco homens um atrás do outro com um sexto correndo paralelamente junto do último da fila aproximam-se em passos largos mas lentos, muito lentos. Mais parecem astronautas num bale coreografado andando na superfície da Lua. Seus braços em movimento sincronizado. Como uma antiga locomotiva com todas as suas rodas girando ao mesmo tempo. Partes de uma máquina invisível. Os homens todos nus, e iguais, sem nenhum cabelo no corpo, todos com uma gota de suor na testa, escorrendo exatamente no mesmo lugar. Sem expressão, os olhos vidrados, fixados num ponto distante e inatingível. Passam por mim sem notarem a minha presença, muito embora eu estivesse à um metro deles. Como manequins de vitrine. Nus e esperando para serem vestidos e personalizados. Serão Deuses? Serão todos apenas um? Músculos em movimento, correndo para completar a volta, o círculo. Deus. Círculo.

”-Dash!”

Deus. Círculo. Deus. Círculo. Deus. Círc...

”-Dash!” Repetiu a voz em seu cérebro.

Hum..Humm...Loop. Repetir. Círculo. Deus. Deus. De...

”-Dash! Acorde!” repetiu a voz com mais ênfase.

Com dificuldade, como se estivesse saindo de um estado de coma, Dash reconheceu a voz melódica, tranqüila e assexuada da sua SI (Servo Inteligência).

”-O que você quer?” Com um amargor na boca, Dash falava com dificuldade e mau humor como se ainda estivesse preso naquele sonho estranho.

”-Não sou eu que quero. Eu fui instruído por você mesmo a acordá-lo exatamente às 10 horas da manhã pois você me disse ontem que tinha que mudar seus hábitos. Você disse também que tinha chegado à conclusão que dormir o dia todo era um tipo de fuga da realida...”

”-X quer fazer o favor de deixar-me em paz!” Dash interrompeu sua SI bruscamente.

Do lado do seu colchão anti-gravitacional, X que era o nome carinhoso dado por Dash silenciou-se. X não tinha braços nem pernas e, sua forma cônica terminando com uma esfera na ponta mais lembrava uma daquelas antigas esculturas funcionais feitas pelos antigos seguidores da Bauhaus. Na sua base, a mesma tecnologia usada no seu colchão era usada para criar um pequeno campo anti-gravitacional que o mantinha poucos centímetros acima do chão. Movimentava-se silenciosamente de um lado para outro e, sempre estava à mão para qualquer dúvida ou para aquele bate-papo. X vivia conectado permanentemente via MegaNet com a BET (Biblioteca Eletrônica Terrestre). A BET incorporava todo tipo de informação tanto gráfica, visual como sonora. Desde a unificação da Terra a BET assim como a MegaNet tinham ganho uma importância sem precedentes na distribuição de informação e conhecimento.

A verdade é que agora Dash já não conseguia mais dormir. O silêncio de repente ficou insuportável e a presença muda da SI ali parada e imóvel era perturbadora. Dash observou aquela bola sem expressão e teve pena. Afinal de contas, X por meses tinha sido sua única companhia diária.

”-X perdoe-me?” Dash tentou recompor-se, limpando a garganta e continuou:

”-Você sabe...” E, usando a sua frase favorita acrescentou:

”-Alguém tem que pagar por isto!” Dash deu uma pausada para meditar e, continuou falando como se estivesse falando com sigo mesmo:

“-Eu estou aqui trancafiado por meses, só acumulando tensão e, acabo desabafando em quem está mais próximo. Se eu não espernear, fico louco!”

”-Eu entendo.” Respondeu X, acrescentado filosoficamente:

”- A liberdade é uma necessidade fundamental para todos os seres humanos.”

”-O que você entende à respeito de liberdade?” Dash explodiu indignado. E, sentindo-se como uma ilha continuou:

”-Você não passa de uma…”

”-Servo Inteligência?" X interrompeu candidamente e continuou:

”-Percebo que você está deprimido o que é bem natural diante das circunstancias. Eu não sei se este é um bom momento para uma discussão intelectual entretanto, devo salientar que uma rápida passada de olhos pelos bancos da BET mostra que antes da Grande Unificação os povos lutaram muito em busca de liberdade.”

”-X você não vê que tudo é relativo! O que é liberdade para um é repressão para outros! De qualquer forma você não tem idéia de como me sinto.” Dash cobriu o rosto com as mãos, encolhendo-se todo ao mesmo tempo que seu corpo virou no espaço para em suspensão dar as costas para o X.

”-Dash você está cometendo um engano. Certamente eu nunca vou poder experimentar as mesmas emoções que você. Aliás, nenhum ser humano ou SI pode. Um escritor chamado Audous Huxley escreveu à muito tempo atrás que, “Os amantes procuram em vão unir seus êxtases isolados” ele disse também que “Os mártires penetram na arena de mãos dadas mas morrem sozinhos”. Eu acho que estas frases exemplificam muito bem o problema da transmissão da nossa experiência para os outros. Eu nunca vou experimentar o seu sofrimento ou o seu prazer mas, eu posso comparar com o dos outros e ter uma idéia. É mais ou menos o que vocês humanos definem como sendo “empatia”.

”-Ok, ok ,ok X. Você tem razão. Desculpe-me novamente.” Dash sentia-se um perdedor.

”-Anime-se! Eu tenho a solução para o seu problema imediato.” Continuou X como se nada tivesse acontecido.

”-Dash o que você precisa é de um bom café da manhã!”

X tinha razão e Dash sabia disto.

Antonio Celso Barbieri

 

Comentário do Barbieri

Desde que me recordo sou fã de histórias de ficção científica. Eu concebi este conto por volta de 1986. Tinha lido um livro do escritor Isaac Asimov. Era uma coletânea dos seus primeiros trabalhos cheia de pequenos contos. Neste livro, antes de cada conto o escritor explicou qual foi o motivo que o levou a escrever aquela história em particular. Para mim esta leitura foi quase como um curso. Num dos seus comentários, Isaac Asimov esclareceu os leitores dizendo que ele gostava de pegar um problema real como por exemplo a Guerra Fria onde existia um conflito entre USA e União Soviética e, extrapoláva-o para um sistema planetário criando uma guerra interplanetária.

Eu, resolvi fazer o mesmo. O que o leitor leu nesta página foi só a introdução. O texto completo nunca foi escrito e continua dentro da minha cabeça. O interessante é que do jeito rápido que a ciência caminha logo minha idéia inicial será ultrapassada.

Para mim, pessoalmente, o conto acima tem relevância maior porque discute rapidamente alguns assuntos que acho fundamentais na minha existência. Este conto tem também um carácter premonitório no sentido de que, o lago descrito no começo do conto é muito semelhante ao pequeno lago circular do Hyde Park aqui em Londres. E, para mim, a questão das coisas iguais, da repetição tem muito à ver com a arquitetura da Inglaterra com uso intensivo do tijolo à mostra em suas casas todas semelhantes. Por volta de 1986 eu não tinha idéia, nunca poderia imaginar que, um dia eu acabaria morando em Londres.

rock_fantasma
Barbieri no começo dos anos 70. Foto tirada por uma aluna dentro da
escola de fotografia CAMERA AÇÃO que ficava na Avenida 9 Julho

1986...

Eu estava com uma dor de cabeça tremenda! Minha cabeça latejava pulsando doloridamente à intervalos regulares.

Também pudera, como produtor musical, nunca tinha tido tantos problemas como nesta noite. Tinha sido um show difícil.

Era responsável pelos shows do Projeto São Power que aconteciam no Teatro Mambembe toda segunda-feira. Nesta noite tinha sido a vez da banda Harppia, que fazia um Heavy Metal competente, mostrar seu trabalho.

Tibério, o baterista e líder, querendo impressionar a platéia, trouxe para o palco uma grande aparelhagem. Foram sete cabeçotes Marshall com caixas duplas, mais iluminação para complementar a que o teatro já fornecia, efeitos especiais e até um Raio Laser. O consumo de energia foi mais do que o sistema elétrico do teatro podia agüentar e como resultado, por segurança, a chave da caixa de força desligava-se automaticamente à todo momento, cortando a eletricidade e consequentemente deixando o teatro, que estava lotado, no escuro e sem som.

Isto nunca tinha acontecido antes e até parecia algo proposital para prejudicar a banda. Os donos do teatro tensos, os músicos tensos e o público impaciente! Todo mundo olhando para mim como se eu tivesse a solução mágica para os problemas desta noite. A verdade é que, naquele momento, só existia uma solução: Desligar metade do equipamento de palco. Como a banda negava-se a fazê-lo o problema perdurou quase o show inteiro.

Imaginem a cena: O grande vocalista Percy Weiss, no meio da música "Sete", conjurando os demônios:

"-Eles são sete, sete eles são
No profundo oceano, sete eles são
Estão vivendo entre o céu e a terra
Engendrados nas profundezas do mar
Não são nem machos nem fêmeas
Não tem esposas, nem podem ter filhos
Não conhecem a graça, nem a piedade
Não escutam orações, nem escutam as súplicas
Dos sete, o primeiro é a fúria dos ventos
E o segundo um dragão por sangue sedento
São seres incríveis, demônios eternos
Não conhecem a graça, nem a piedade
O terceiro é um grande leopardo
Que se alimenta de crianças inocentes
O quarto é uma besta furiosa
E o quinto é uma terrível serpente
O sexto é o arauto das pestilências
E o sétimo, uma torpe figura indecente
Sete deuses da força e opressão
Sete no céu, sete na Terra
Deles não sei como defenderei
Da ameaça a Deus e ao Rei."

Justamente quando Percy acabava de cantar a frase "São seres incríveis, demônios eternos", como que despertado por alguma palavra mágica, uma entidade malígna presente, um "fantasma da ópera", com dedos invisíveis, desliga o interruptor geral levando consigo toda a audiência para "as profundezas da escuridão total".

Perdi a conta de quantas vezes religuei o interruptor geral de força!

Então, para tornar as coisas mais difíceis, num destes "apagões" quando a luz acendeu um microfone Shure SM58 estava faltando. O pedestal do microfone estava vazio. Quem teria roubado? Alguém da banda? Um dos auxiliares de palco? Um dos sete demônios em pessoa? Nunca descobri o culpado...

Fiquei desolado, sentia-me um perdedor nadando contra a correnteza. Eu sabia, que sendo responsável pelo evento e tendo em vista que o microfone pertencia ao teatro, era minha responsabilidade repô-lo. O único jeito de pagar seria abatendo a dívida com o dinheiro da minha parte na bilheteria, parte esta que já era muito insignificante. Certamente teria que produzir vários shows sem receber nenhum tostão. No dia seguinte, novamente, teria que vender mais alguns dos meus discos queridos para poder ter um almoço descente.

O público já havia se retirado do teatro e eu ainda estava lá, reunido com os donos no escritório, acertando o pagamento do bendito microfone quando o telefone tocou. Era Verônica buscando por mim.

Verônica

Mais ou menos uns 15 anos atrás tinha tido, em sociedade com meu irmão Jorge, uma loja de discos no Bairro do Limão chamada Stocking Music Center. Este negócio era mais do que uma simples loja e sim um ponto de encontro da juventude do bairro. Verônica tinha apenas uns 12 ou 13 anos e vivia metida na loja.

Perto da loja existia uma escola e, durante a semana, todos os dias no começo da tarde, uma garotinha de uns 6 ou 7 anos, carregando uma lancheirinha, passava junto com a mãe na frente da loja. Como a garota sempre passava olhando curiosa para dentro da loja, eu sempre lhe mandava um aceno que era retribuido tímidamente ao mesmo tempo que a menina corria desaparecendo por trás de um muro.

Verônica era uma garota do tipo hiperativa e sapeca, uma verdadeira "moleca". Um dia ela me viu, no meu ritual diário, dando um aceno para a garotinha. A loja naquele dia estava cheia de amigos. Verônica apontou-me o dedo travesso e, com uma carinha diabólica gritou:

"-Você é um papa-anjo! Papa-anjo! Papa-anjo! Papa-anjo!"

No princípio, tentei ignorar mas foi impossível. Quanto mais pedia para que ela parasse mais ela intensificava a provocação:

"-Papa-anjo! Papa-anjo! Papa-anjo!"

Como conhecia muito bem meus amigos, o risco de ganhar um apelido para a vida toda era muito grande. Além disto, este apelido era um apelido perigoso com conotações sexuais muito sérias!

Dirigi-me em direção à garota insistindo para que parasse. Ela sorrindo e ignorando a tudo e todos ia afastando-se, repetindo como um gravador a mesma coisa o tempo todo.

Verônica afastou-se até ficar encurralada num canto da loja. No pick-up Led Zeppelin rolava a todo volume e o povo presente, em grupos conversando, pareciam não prestar atenção. De repente percebi que, com minhas costas tampando toda a visão Verônica estava totalmente isolada e indefesa. Agora eramos só nós dois.

Quase que numa ação reflexo e impensada, numa fração de segundo, agarrei Verônica e silenciei-a com um beijo bruto e salivento que espalhou-se por todo o seu rosto. Eu, cabeludo e barbudo, com mais de 20 anos e Verônica com apenas 12 ou 13 anos. Foi um beijo relâmpago. Eu esperava que quando a libertasse daquele abraço apertado a garota sairia correndo como uma louca e não voltaria à por os pés dentro da loja nunca mais.

Para minha surpresa, quando soltei-a, ela quedou-se imóvel, encostada na parede, como que derretendo-se com uma expressão hipnotizada.

Eu, por minha vêz, estava surpreso com minhas próprias ações. De uma forma infeliz, por uma ironia do destino, eu tinha, por alguns segundos tranformado-me exatamente naquilo que estava tão intensamente desejando não ser chamado. Felizmente ninguém tinha notado nada e, pelo menos a pestinha tinha silenciado. Voltei aos meus afazeres procurando esquecer o que tinha acabado de acontecer. Nem sequer percebi quando a garota se foi.

Bem mais tarde, já estava escurecendo e a loja estava vazia. Comecei organizar as coisas para terminar o dia. Abaixei-me atrás do balcão para pegar um rolo novo de fita adesiva e quando levantei-me, num susto, deparei-me com Verônica sorridente. Toda faceira ela olhou-me intensamente e disse:

"-Por trás desta menina de 12 anos tem uma mulher que pode fazê-lo muito feliz!" Ela falava tentando mostrar maturidade.

"-Por trás desta menina de 12 anos tem a polícia e cadeia! Perdoe-me, eu perdi a cabeça! A minha idéia com o beijo foi só de assustá-la e não de seduzi-la!" Respondi surpreso.

"-Qual é o problema? Sou muito feia? Beijo tão mal assim?" Falava com certa rebeldia.

"-Não! Você é uma gracinha mas é muito jovem e eu sou muito mais velho além do mais já tenho namorada!"

Ela ignorou minha resposta e ficou por ali sem graça, fingindo, por um minuto, que olhava a capa de um disco e se foi sem dizer uma palavra.

No próximo dia, outra vez quase na hora de fechar a loja, Verônica entrou na loja arrastando um sapatão de salto alto, ela quase não conseguia andar direito. Usava um casacão que parecia da mãe dela e estava com o rosto todo rebocado de pintura. Com os lábios vermelhos de batom e as bochechas avermelhadas de ruge ela parecia mais uma bonequinha.

Ela parou na minha frente, olhou-me dentro dos olhos com uma carinha sedutora e ficou esperando uma resposta. Fiz uma cara séria e falei bem alto:

"-NÃO!!!"

A garota fez um bico e puxando o casacão como se fosse uma capa deu-me as costas saindo com a cabeça empinada, batendo os pés como se fosse a Rainha da Inglaterra.

Depois disto, Verônica quando passava perto da loja caminhava pelo outro lado da rua. Sempre, de longe, buscando-me dentro da loja com uma expressão de revolta estampada no rosto.

Não demorou muito para Verônica sumir de vez e tornar-se apenas uma lembrança distante.

15 anos depois...

Depois de 7 anos de casado, havia terminado meu matrimônio não fazia muito tempo. Morava com dificuldade e de favor numa casa cheia de cupins no Bairro da Barra Funda que meu pai tinha posto à venda mas não conseguia vender. Minha mobília consistia em um colchão de solteiro, algumas centenas de livros, meu equipamento de som e meus discos de rock, raridades musicais que definhavam dia-a-dia pois na falta de dinheiro eram vendidas como forma de sobrevivência. A situação era tão precária que não tinha nem fogão nem geladeira.

Numa noite de sexta-feira, com um rolo de cartazes do Projeto São Power de baixo do braço e um rolo de fita crepe adesiva encaixado no pulso como se fosse uma pulseira, perambulava pelo Bairro do Bexiga indo de bar em bar pacientemente colando meus cartazes.

Nesta noite, vendo os casais de namorados passeando, o povo jantando nos restaurantes, todo mundo aparentemente feliz e tendo vidas "normais" deixou-me depressivo e revoltado. Não muito longe do Bar Piu-Piu, encostado numa parede, fiquei ali parado observando o movimento das pessoas, subindo e descendo, com uma expressão amargurada no rosto.

Estava ali, encostado, sonhando acordado com dias melhores, quando minha atenção foi despertada por esta mulher jovem que subia a ladeira acompanhada de um rapaz. Ela seria meio gótica para os padrões de hoje mas, na época, para mim ela era apenas uma punk de boutique, uma burguesinha punk. Cabelos pretos bem curtos e espigados, mini-saia preta, meias pretas tipo teia de aranha, botas pretas, olhos pintados, batom, enfim o serviço completo! Ela fazia um tipo meio rebelde, exatamente do tipo que eu gosto. O rapaz que a acompanhava não tinha nada à ver, não combinava, não era punk, não era rock, não era nada. Um tipo absolutamente comum. A gata caminhava e, já de longe, olhava atentamente para mim.

À princípio fiquei em dúvida. Estaria aquela gata realmente olhando para mim? Olhei dos lados. Não havia dúvida! Então, pensei comigo mesmo:

"Laranja na beira da estrada, ou está bichada ou tem marimbondo por perto. Estas garotas punks são assim mesmo, gostam de provocar quando estão perto dos seus homens que é para ver o pau rolar. Desta vez vai ser diferente, não é uma gangue, será um contra um! Eu estou lá embaixo mesmo, vou chutar o balde e quebrar tudo!".

A gata foi aproximando-se, desencostei-me da parede, fui tomando posição e ficando no caminho dela. Fixei meu olhar nos olhos dela. Dava para perceber o seu parceiro sentindo-se desconfortável. Quando chegou bem perto, ela perguntou-me em inglês:

"-What is your name?" (qual é o seu nome?)

"-Celso Barbieri." Respondi, numa mistura de surpresa e curiosidade.

"-Você é o irmão do Jorge, filho do Professor Demétrio? Agora ela falava em português.

"-Sim sou eu e quem é você?" Repliquei.

"-Sou a Verônica! Lembra-se de mim? Ela sorria enquanto eu olhava seu rosto e reconhecia por trás daquela mulher aquela garotinha de uns 12 anos...

"-Você não disse que estava com fome?" Interrompeu o acompanhante mostrando impaciência.

"-Me faça um favor! Entra neste bar aí e compra um cigarro para mim enquanto eu despeço-me aqui do Barbieri!" Não foi um pedido, foi uma ordem! O rapaz correu insatisfeito para dentro do bar.

"-Eu moro em New Jersey, USA desde aquela época, fui morar com a minha tia. Estou aqui em São Paulo só por um mês. Depois te conto tudo. Este é o meu telefone me liga por favor." Seus olhos falavam mais do que sua boca.

Minha situação financeira era péssima, estava totalmente sem dinheiro, ligar para ela naquele fim de semana estava fora de cogitação. Mesmo porque, não queria mostrar que estava muito interessado. Toda vez que tinha mostrado que gostava de alguém, tinha perdido. Desta vez iria dar uma de difícil.

Na terça-feira seguinte, lá estava eu, como de costume, na Devil Discos conversando com o Chicão quando lembrei-me do telefone. Liguei imediatamente, direto da loja, para a gata que respondeu ansiosa:

"-Porque você não me ligou antes? Passei o fim de semana sentada do lado do telefone! Onde você está... não saia daí... estou pegando um táxi!"

Meia hora depois nós nos encontrávamos na Galeria do Rock e meia hora mais tarde já estavamos em minha casa, no colchãozinho de solteiro, fazendo amor.

Tudo indicava que Verônica guardava, por muitos anos, este desejo adolescente e desta vez, definitivamente, estava determinada a realizar suas fantasias. Agora, ela era uma mulher. A sua idade não seria um obstáculo!

PT e a Ford

Verônica tinha vindo dos Estados Unidos como secretária de uma professora universitária norte americana que estava no Brasil à convite do PT. Esta professora tinha feito um trabalho de pesquisa na Ford de lá, que estava implantando um sistema sofisticado de controle dos trabalhadores baseado num sistema em uso no Japão. Esta técnica, que favorecia o grupo em detrimento do indivíduo era fria e calculista, destruindo a noção de "comissões de fábrica", isolando e excluindo os representantes do sindicato dentro da empresa. Esta professora universitária veio preparar o PT para que pudessem orientar os sindicatos a combater esta nova tentativa de controle dos trabalhadores que seria implantada na Ford brasileira.

A professora juntamente com sua secretária estava hospedada num bom apartamento nos Jardins. Verônica tinha um carro do ano à sua disposição e sua situação financeira comparada com a dos brasileiros estava ótima.

Do dia para a noite, melhorei de vida. Passei a comer em restaurantes caros, dormir numa cama "king size" e com uma gatinha carinhosa do lado. Que mais poderia esperar!

Era algo mágico e impossível. Parecia um sonho, andava nas nuvens. Eu sabia que aquela mordomia ia durar só um mês. Além disso parecia que existia uma diferença social muito grande entre nos dois. Verônica aos 12 anos perdera a mãe e logo depois o pai e tinha sido mandada para os Estados Unidos para viver com a tia. Esta infância trágica claramente explicava, na época, a sua rebeldia e carência afetiva. Agora, depois de muitos anos ela voltava para o Brasil e talvez, eu fosse a única lembrança boa daquele período intenso da sua vida. A verdade é que nós eramos total estanhos, unidos por circunstâncias do destino. A chance de nós, vivendo tão longe um do outro, depois de 15 anos, nos encontrarmos no Bairro do Bexiga levaria um matemático a fazer um cálculo probabilístico envolvendo dezenas e dezenas de números. Tão difícil quanto ganhar na loteria.

Verônica não tinha mudado muito em certos aspectos. Continuava hiperativa só que agora, fumava um cigarro atrás do outro. Continuava meia louquinha e fazia coisas inesperadas de surpreender qualquer um. Na primeira segunda-feira depois que fizemos amor, estava, à noite, como de costume, no Teatro Mambembe quando uma perua parou em frente do teatro e foi presenteado com um buquê de cravos vermelhos. Nunca tinha ganho flores na minha vida inteira! Na semana seguinte, no mesmo local, à noite, outra perua parou e, desta vêz, fui presenteado com um jantar.

O Fantasma

Na terceira semana, nesta segunda-feira, estava, como já foi dito no começo deste conto, acertando com os donos do teatro, o pagamento do microfone roubado. Não tinha tido tempo de jantar, tinha tido um show muito problemático e estava, com uma dor de cabeça de arrebentar. Foi quando o telefone tocou:

"-Oi querido, quero que venha direto para cá! Estou com saudades!" Disse no seu tom imperativo.

"-Lamento baby, mas tive um dia péssimo, muitos problemas..." Não podia falar muito pois os donos do teatro estavam ali na frente.

De qualquer forma, nem terminei de falar e foi interrompido por ela:

"-Não aceito não como resposta! Toma um táxi que eu pago! Venha já!" Insistiu.

"Você tem por aí Aspirina?" Perguntei.

Ela respondeu afirmativamente. Desligei o telefone. Entregei, com pesar, minha parte da bilheteria para os proprietários do teatro e sai correndo atrás de um táxi. Nem tudo estava perdido! Pelo menos tinha uma garota me esperando!

Quando cheguei no apartamento que era no nono andar do prédio, encontrei-a com uma expressão preocupada. O computador estava ligado...

Fomos para o sofá da sala. Verônica, enquanto acariciava suavemente meu cabelo, disse:

"-Desculpe-me querido, mas não posso dar atenção para você agora. Depois que te liguei, caí na realidade. Estou aqui à trabalho e se hoje não traduzir pelo menos umas duas ou três páginas deste livro ela me matará..."

Verônica referia-se à professora quando subitamente o trinco da porta do apartamento deu um estralo. Nós dois, ao mesmo tempo, olhamos para a porta que se abriu lentamente com um leve rangido. Ficamos olhando em silêncio mas, ninguém entrou. Não havia ninguém.

Em voz alta, falei como que para mim mesmo:

"-Se veio por bem, que seja bem-vindo!" Eu não sou do tipo místico. Muito pelo contrário, sou mais do tipo inquisitivo, com uma mente científica, do tipo que duvida de tudo. A fala saiu da minha boca quase sem meu controle. Foi uma destas coisas bobas e impensadas que a agente fala quando não encontra nada apropriado para dizer.

"-Não diga uma coisa destas! Dá até arrepio! Falou assustada, ao mesmo tempo que levantava para fechar a porta garantindo-se, desta vez, que a mesma estivesse bem fechada.

Acompanhei-a sem jeito. Perto da porta, desculpei-me assegurando-a de que não existia razão para alarme e insistindo que não tinha tido nenhuma intenção de assustá-la. Examinei o trinco da porta e com um ar profissional dei meu veredicto:

"-Abertura Acidental!". Na verdade, como não consegui simular o acontecido novamente, não fiquei tão certo assim!

Enquanto desculpava-me, ela foi para a cozinha que era conjugada com a ampla sala e, de lá retornou com um copo d'água e duas Aspirinas.

Trocamos um beijinho reconciliador e fui para a cama. Verônica ficou trabalhando mais um pouco com a promessa de depois juntar-se à mim.

Sai da sala, por um pequeno corredor e logo à direita entrei no quarto. Neste corredor, à esquerda, imediatamente em frente à porta deste quarto, estava convenientemente localizado, a porta do banheiro. No fundo do corredor encontravam-se os outros dois quartos.

Dei três passos em direção aos pés daquela cama enorme e, num mergulho, me joguei...

Dor de cabeça, era uma grande conhecida minha. Dor de cabeça ou encefaléia, como também é conhecida, é o resultado da dilatação de minúsculas veias dentro do cérebro. O que bomba o sangue para elas? O coração!

Portanto, reduzindo a batida do meu coração, conseguia controlar a minha dor de cabeça.

Durante anos, tinha desenvolvido minha técnica pessoal para dominar esta besta. Duas aspirinas, escuridão, silêncio, exercício respiratório e relaxamento funcionavam sempre.

Deitei-me, olhando para o teto. Descruzei meus braços e pernas e deixei meu corpo afundar-se naquele colchão macio, como se fossem nuvens de algodão. Procurei pontos de tensão no meu corpo e fui ajustando-me na cama para evitá-los. Com a boca fechada, mantive o queixo livre sem deixar que os dentes do maxilar inferior se tocassem nos do superior. Respirando pelo nariz, enchi bem os pulmões e fui soltando o ar bem devagar. Conforme o ar saia do meu corpo, concentrei-me nos dedos dos meus pés, mandando um comando mental:

"Durma... Durma... Durrrrmmmmaaaa..... Está ficando quente.... formigando.... Durma..."

Já fazia este tipo de relaxamento à alguns anos e meu corpo já conhecia "o caminho a seguir."

O procedimento era simples, "desligar" meu corpo todo. Era possível "adormecer" até o nariz, a orelha e o couro cabeludo.

Uma sensação gostosa e tranqüila tomou conta. Agora totalmente relaxado podia ouvir à distância, um som abafado das teclas do computador lá na sala:

"-Tec, tec, tec te tec.... tec, tec, tec te tec...."

A porta do quarto estava aberta recebendo um pouco da claridade vinda da sala. Uma luz suave cinza azulada penetrava o quarto.

De repente, o som do teclado do computador parou. Com os olhos fechados senti uma mudança na luz e abri os olhos em tempo de ver Verônica discretamente e silenciosamente encostando a porta do quarto, deixando apenas uma fresta de mais ou menos um palmo de abertura. Ela pretendia entrar no banheiro em frente e como teria que acender a luz, certamente não queria perturbar meu sono. Ela entrou no banheiro e um pouco mais tarde o som amortecido da descarga pode ser ouvida acompanhada do som da maçaneta da porta do banheiro se abrindo.

Novamente com os olhos fechados, senti a variação da luz e os abri lentamente.

No escuro, numa penumbra cinza azulada, lá na porta estava ela. Ela era apenas um vulto indefinido. Queria ver seu rosto mas era impossível. Ela avançou na minha direção até meu lado, na cama. Na verdade, ela não andou na minha direção ela deslizou. Não havia aquele balanço natural de uma pessoa que caminha.

Por alguma razão totalmente inexplicável meu cérebro não funcionou. Sabia que não havia mais ninguém naquele apartamento. Era impossível não ser a Verônica.

Agora "ela" estava à apenas um metro de distância. O corpo era magro. A cabeça era meio alongada. Parecia que estava vendo as costas de alguém que tomou um banho e enrolou uma toalha branca na cabeça. No lugar do rosto, no escuro podia apenas ver variações de tonalidades como se fossem curvas do tecido.

Mesmo assim, meu cérebro não soava o alarme e eu esforçava-me para ver o rosto da Verônica.

Tinha cabeça, tinha ombro mas eu não conseguia ver os braços. Alguém com um lençol branco, fino e bem molhado caído sobre o corpo seria uma boa descrição.

Algo estava errado, muito errado e eu estava à um micro segundo de cair na realidade. Toda uma vida de racionalismo estava, dentro de mim, desmoronando-se como um prédio no meio de uma implosão. Meu sistema de auto-proteção estava trabalhando como um louco tentando processar aquelas informações contraditórias que chegavam tão inesperadamente.

De forma rapidíssima, aquele vulto subiu, como que flutuando e, foi parar em cima da cama. Sua cabeça chegava ao teto. Quase dois metros de altura. Até que enfim, os alarmes soaram dentro da minha cabeça. Um arrepio, subiu pela minha nuca levantando todo o seu cabelo no processo. Numa ação reflexa fechei os olhos ao mesmo tempo que meu corpo se contraiu e explodiu chutando aquele fantasma que desapareceu no meu piscar de olhos. Não tive tempo para pensar pois rolei com o meu corpo para a esquerda, cai da cama e sai correndo de quatro até chegar na porta onde consegui ganhar equilíbrio para ficar em pé e correr para a sala.

Já na sala, Verônica continuava compenetrada, digitando em frente do computador. Ela olhou para mim e perguntou casualmente:

"-Que foi? Você está melhor?" Ela referia-se a minha dor de cabeça.

Por outras razões, obviamente eu não estava bem! Minha dor de cabeça já não existia, tinha sido substituída por uma mistura de medo e confusão mental.

Nos momentos de tensão ou muita emoção, tinha descoberto ao longo dos anos que falar, repartir meus problemas, abrir o jogo, era uma forma muito beneficial de terapia. Portanto minha lógica naquele momento, fazia fundamental que contasse tudo o que acabava de presenciar.

Este foi um erro que custou-me caro. Neste exato momento perdi Verônica.

Depois que contei-lhe o acontecido. Verônica ficou, silenciosamente, olhando-me com uma expressão mista de surpresa e descrédito. Descabelado, com um rosto assustado, possivelmente, eu parecia um louco.

Imagino que, de repente, ela percebeu que o Barbieri "encantado" que ela conheceu quando ainda era quase uma criança e este homem "fora de si" ali na sua frente eram pessoas totalmente diferentes. A inocência havia acabado! Este relacionamento tinha sido um engano da parte dela. Eu era um desconhecido potencialmente perigoso.

Desde este dia já não fizemos mais amor. A relação esfriou-se e o dia da separação final que se aproximava pareceu para ela mais um alívio.

Ainda tentei, por algum tempo, em vão, reconquistá-la. Dentro da minha cabeça, na minha mente, incessantemente revivia o acontecido e pensava:

"A entidade não parecia malígna. Porque é que não tentei comunicação? Perdi uma oportunidade valiosa para ter umas respostas! Fui um covarde! Será que se acontecesse novamente eu seria forte o suficiente? Como? Se agora, tenho até medo de abrir os olhos no escuro do meu quarto. É uma pena que a Verônica não veja realmente quem sou eu. Que sou um ser humano que vivi uma situação extraordinária e que depois do ocorrido me questiono o tempo todo tentando entender o que realmente aconteceu. Que duvido até de mim mesmo. Será que eu trouxe algo comigo do teatro? Será que eu estava em um estado de relaxamento especial e querendo tanto que a Verônica entrasse naquele quarto, materializei-a de uma forma incompleta."

Estas são perguntas que acho jamais poderão ser respondidas e que carregarei até o final da minha vida. Foi a primeira vêz que tive uma experiência deste tipo e, desde então, nunca mais vi nada similar...

Verônica voltou para New Jersey e nunca mais recebi nenhuma comunicação dela.

Depois de quase 20 anos, já morando em Londres, foi contatado, via e-mail, pela sua irmã mais velha que vive no sul dos Estados Unidos perto do México. Por ela fiquei sabendo que hoje em dia Verônica é casada e tem dois filhos.

Quanto ao trabalho da Ford, num servicinho de espionagem muito bem intencionado, passei o estudo feito por esta professora para o Partido Comunista Brasileiro.

Por Antonio Celso Barbieri

Computação gráfica e animação criada com um computador ATARI no começo dos anos 90

Tendo chegado em Londres no começo de 1987, já em 1988 comprava meu primeiro computador, um Atari 520 ST FM.

Eu já conhecia Atari desde o Brasil pois eles ficaram famosos por laçarem aquelas caixinhas que eram ligadas aos monitores de TV e que permitiam uns joguinhos eletrônicos bem primitivos para os padrões de hoje.

MIDI (Musical Instrument Digital Interface)

Se no Brasil a Atari era conhecida unicamente como uma fábrica de jogos eletrônicos, em Londres,  Atari foi, por um período, o computador que todo músico, produtor musical e dono de estúdio sério tinha que ter. Atari, até hoje, foi a única fabricante de computadores que incluiu saídas de
MIDI IN e MIDI OUT instaladas diretamente nos seus produtos. 

Já naquela época todo teclado  semi pro ou profissional, além de possuír multi-timbralidade (a capacidade de tocar vários timbres ou instrumentos de uma vez só) vinha também equipado com saídas MIDI IN e MIDI OUT.

Quer dizer, usando-se o programa certo, neste caso um sequencer,  podia-se, plugando um teclado musical em  um computador Atari, gravar-se todas as partes e arranjos  de uma música e depois  fazer com que o computador obrigasse o teclado a tocar todas as partes ao mesmo tempo e em sincronismo.

Como desejava fazer música, naturalmente adquiri um Atari.

Atari assim como a Apple hoje em dia, arregimentou uma legião de fãs. Mensalmente haviam 3 publicações alimentado o mercado, fornecendo diskets cheios de programas gratuitos, demos  e tutoriais.

Atari era um computador limitadíssimo para os padrões de hoje. Não possuía disco rígido (Hard Drive). O OS (Sistema Operacional) que, por exemplo, nos PCs é chamado Windows e é um software que pode ser reinstalado,  nos Ataris, já de fábrica vinham gravados num microship soldado na placa mãe e não podiam ser  trocados ou melhorados.  

Além disso, o tamanho da memória RAM era mínimo e todos os programas tinham que ser carregados de diskets com capacidade de somente 520 Kilobytes (pouco mais que a metade de 1 Megabyte).


Atari 520 STFM
Especificações Técnicas
Processador 8Mhz Motorola 68000
RAM 512kB
Drive Single sided 3.5" floppy
Outputs V, MIDI In/Out, RS232, Printer, Monitor (RGB and Mono), Extra Disk drive port, Joystick and Mouse ports
Sistema Operacional TOS (The Operating System) with the GEM (Graphic Enviroment Manager) GUI
Monitor 320x200 (16 colour), 640x200 (4 colour), 640x400 (mono)


Mesmo com todas estas limitações técnicas ou, talvez justamente por isto, surgiu uma legião de programadores concorrendo para mostrar quem era o melhor  em  criar os efeitos gráficos e animações mais espetaculares.  Não demorou muito para ser lançado no mercado um pacote voltado para as pessoas interessadas em explorar as possibilidades gráficas do computador Atari. Surgiu então o STOS. Um outro Sistema Operacional que rodava emulado dentro TOS do Atari para, usando uma linguagem similar ao Basic, permitir manipulação gráfica. 

Eu fiquei fascinado pelas possibilidades. Muitas animações apareciam nos diskets dados pelas revistas e muitas delas vinham acompanhadas com páginas de texto contendo a programação para que pudéssemos ver os códigos e assim criar nossas próprias bibliotecas de códigos para tarefas diferentes.

STOS não era para qualquer um! O sistema não possuia um interface gráfico. Tinha-se que editar o código diretamente dentro do editor e depois, salvar e executar o código para ver o resultado. O tempo perdido com “tentativa e erro” era muito grande. Perdia-se muito tempo tentando-se driblar as limitações do computador que na maioria das vezes não conseguia “dar conta do recado”.

Cheguei passar um dia e uma noite, trabalhando sem parar, hipnotizado por metros de código. Também pudera,  pois para mim, o estase conseguido com as pequenas vitórias era muito grande para ser desprezado e valia todo o esforço. A processo era viciante e eu sentia um grande orgulho pessoal. Chegar em Londres sem dinheiro, sem falar a língua e em tão pouco tempo estar “programando” era para mim uma grande vitória pessoal.

Logo mudei para um Atari mais potente, um
STE e fiz todas as modificações possíveis e inimagináveis no mesmo. Acabei conhecendo o bichinho por dentro e por fora. Fui seduzido pelo sequencer Cubase e fiz muita música com ele. Joguei muito Lamatron, Xenon II e Robotz

Hoje em dia, à mais de 10 anos que uso Macs. Computadores Macintosh tornaram-se para mim, como diria o pensador e filósofo Marshall McLuhan, "uma extensão dos meus cinco sentidos". O fato de usar Macs não quer dizer que abandonei meu Atari. Tenho um carinho todo especial por ele e nunca o venderei!

Abaixo segue uma pequena lista de algumas das minhas animações que acho merecem ser vistas:


KORZUS (Animação, 1992)
Quando, em 1992, produzi o show da banda Korzus no legendário Marquee Club, de tanto ouvir o álbum Mass Illusion, acabei fazendo uma animação para a música Pay For Your Lies

Nunca tive a oportunidade de mostrar este trabalho para a banda. Espero que eles gostem!

NESS (Animação, 1994)
Quando, lá por 1985,  produzi o Projeto Não São Paulo no Teatro Sesc Pompéia ganhei uma camiseta da banda Ness. A camiseta tinha um desenho do monstro Escocês estampada. Eu gostava tanto que acabei trazendo a camiseta comigo para Londres.  Bom, esta camiseta, depois de muitos anos já estava toda desbotada e furada. Antes de “aposentá-la” coloquei um papel vegetal por cima e copiei o desenho. Este desenho acabou virando uma animação intitulada Ness - The Psychedelic Experience. Minha idéia para a animação era a de que o Ness era um monstro que tinha uma certa caída pelas drogas. O nome The Psychedelic Experience foi uma homenagem ao Jimi Hendrix. A música usada chama-se Juno Reactor Version (Beyond the Infinte Mix) pertencente à banda LAIBACH
retirada do single Final Countdown lançado em 1994.

IN THE NURCERY (Animação, 1994)
A banda In the Nurcery (ITN) que tive o privilégio de conhecer seus integrantes e até assistir um show, foi uma grande influencia no meu próprio trabalho musical com sua mistura de poesia com percussão militar, música clássica, música étnica e eletrônica. Sua música, para mim, sempre soou como uma trilha sonora para um filme que está por ser lançado. Em 1994 a banda lançou o álbum Anatomy of a Poet. Neste álbum, uma música em particular, chamada Hallucinations? (Dream World Mix) despertou-me a atenção de tal forma que não sosseguei até criar uma animação meia surrealista para a mesma.

Todos os trabalhos acima citados, obviamente são limitados e primitivos mas curiosamente possuem uma qualidade “retro psicodélica” que é difícil de ser conseguida nos dias de hoje onde, com o poder dos computadores atuais, o resultado é sempre muito perfeito. 

Através da ciclagem das cores era possível criar-se uma ilusão de movimento e psicodelia que, para muitas pessoas, claramente poderia ser associado com o efeito causado pelas drogas.

Por A. C. Barbieri

 

Anos 70 - Capítulo I

O começo da Stocking, as gangs de bairro, Fábio fundador da loja Punk Rock Discos e da banda punk Olho Seco.

O ano: 1972

Meu pai trabalhava na  antiga Estrada de Ferro Sorocabana. A ferrovia introduziu um sistema, novo para a época, de controle dos trens chamado Controle de Tráfico Centralizado (CTC). Meu pai conseguiu ser escolhido para fazer parte do grupo de pessoas que trabalhariam com este serviço de altíssima responsabilidade e como consequência além de uma melhoria financeira meu pai também conseguiu uma moradia gratuíta da ferrovia.

A casa ficava dentro da estação da Barra Funda e quase debaixo do Viaduto Pacaembu no bairro da Barra Funda (hoje nem a casa nem a estação existem mais). Eu acabei morando lá por mais de 10 anos.

A casa era grande e eu e meus irmãos tínhamos um “quarto de som” .  Eu comprei um kit na Rua  Santa Efigênia e montei meu primeiro amplificador estéreo de 50 watts por canal.

Montei também duas caixonas acústicas. Comprei um pick-up Garrard com cápsula Shure e pronto! Me sentia como  o rei da cocada!

Todos os sábados vinham os amigos em casa para passar a tarde no quarto de som ouvindo rock.


Casa na Estação da Barra Funda

O povo se espalhava pelo chão e muitos traziam as suas preciosidades para tocar. Como um amigo acabava geralmente trazendo outro, logo o quarto ficou pequeno demais. Teve um sábado que contei 30 pessoas!

Falei para o meu pai que gostaríamos de abrir uma loja de discos e ele apoiou. Como a maior parte dos nossos amigos vinham do Bairro do Limão, Cachoeirinha e adjacências, abrimos a loja no começo da Avenida Deputado Emílio Carlos no Bairro do Limão. Junto com meu irmão Jorge montamos a loja que batizamos de Stocking Music Center. Como ouvíamos na época muito Alice Cooper procuramos um nome sexy e também com uma conotação meio andrógina. Stocking significa "meia de mulher".

Entre estes amigos havia um que se destacava em particular. Era o Fábio. Ele tinha dois irmãos; o Mazola e o Cazola. Sempre fiz confusão e nunca realmente fiquei sabendo quem era o Mazola e quem era o Cazola. O Fábio sempre foi do tipo sério, não fazia o visual hippie como a gente. Usava sempre coturno do exécito. Quando vinha em casa trazia suas preciosidades cuidadosamente enroladas num pano preto. O Fábio era amigo do pessoal da turma do  “Português”, da turma do “Mi” e da turma do “Bi”. O “Português”  era um tipo cabeludo que tinha sempre os olhos vidrados, ele fazia um tipo Jim Morrison (The Doors) psicótico e assustava.

O “Mi” era um negro forte, modelo armário, daquele que faz curvinha na nuca, ótimo para ter como amigo nas horas difíceis. A turma do Mi não era de brincadeira. O pessoal andava em grupos nas Lambretas, Gordines e Kombis da vida.  Quando a caravana chegava nos bailes, todos com suas jaquetas de couro pretas, jeans surrados e usando coturnos imediatamente eu já ficava de olho nas possíveis saídas de emergência porque era certo que o baile terminaria com eles quebrando tudo. O DJ era sempre obrigado a tocar apenas os sons que eles gostavam. Eles empilhavam as jaquetas no meio do salão e ai de quem esbarrasse em alguma. Felizmente sempre gozei do respeito deste povo todo.

 

A turma do “Bi” era associada com a turma do “Português” e basicamente consistia de uma meia dúzia de gays roqueiros que gostavam de se divertir, tudo gente boa e sem forçar a barra.

Foi o Fábio que me mostrou o som de bandas seminais como The Stooges e Iggy Pop, New York Dolls, MC5, Lucifer Friends e muitos outros. O Fábio era um pré-punk  e eu não sabia. Seu jeito de ser era do tipo norte Europeu, meio Alemão.

Quer dizer, não foi nenhuma surpresa, saber que algum tempo depois o Fábio abriria sua própria loja, a Punk Rock Discos. A Punk Rock Discos foi a catalisadora de todo o movimento punk de São Paulo.

 

Dentro da sua loja transitou as principais bandas de punk brasileiras. Retson (Cólera), João Gordo (Ratos de Porão), Clemente (Inocentes), só para citar alguns nomes,  eram visitas constantes. Inevitavelmente Fábio também acabou montando sua própria banda, o hoje legendário Olho Seco.

Fábio sem dúvida entra para a minha lista das dez mais importantes e influentes personalidades do rock nacional.


Capa do primeiro compacto


Fabio e Barbieri (maio de 2007)

Entrevista com Fabio

Barbieri: "-Qual foi a primeira banda punk de São Paulo?"
Fabio: "-Foi Restos de Nada (clique aqui)."

Barbieri: "-Olho Seco nasceu antes ou depois do Ratos de Porão (clique aqui), Cólera e Inocentes?"
Fabio: "-Olho Seco foi formado em 1980 e nesta época Cólera já existia. Depois veio Inocentes e por último Ratos de Porão."

Barbieri: "-Qual o nome das gangs que vinham criar problemas na sua loja? Eu me lembro de uma chamada Irmãos Metralha. É isto mesmo?"
Fabio: "-A gang Irmão Metralha Número 13 criou alguns problemas na época, mas foram solucionados, além disso tive problemas com algumas pessoas da Carolina Punk e alguns Carecas."

Barbieri: "-Eu sei que sua primeira loja chamava-se Punk Rock Discos mas, qual é o nome da sua nova loja?" 
Fabio: "-Agora o nome da loja é Decontrol Discos."

Barbieri: "-Qual era o nome da sua gravadora/selo?"
Fabio: "-O primeiro selo foi Punk Rock Discos que lançou Olho Seco, a coletânea Grito Suburbano (com Olho Seco, Inocentes e Cólera), a coletânea Começo do Fim do Mundo com a participação de várias bandas da época e o EP da banda Rattus. Mais tarde, criei o selo New Face Records que também lançou discos do Olho Seco, Lobotomia, Ratos de Porão, Terveet Kadet, Rattus, etc."

Barbieri: "-Para finalizar, gostou da página do Olho Seco?"
Fabio: "-Eu li e gostei muito! Você até lembrou-se da Turma do Mi e da Turma do Bi! Tinha até me esquecido desse pessoal e foi  muito bom lembrar-me desta época! Falando da Turma do Protuguês, você diz que do seu ponto de vista o Português parecia com Jim Morrison mas, eu ja achava ele mais parecido com um dos integrantes do grupo Hell Angels." :-)

Em maio de 2007 quando estive no Brasil, visitei Fábio na sua loja na Galeria do Rock  e fui autorizado por ele a tornar público o primeiro compacto da sua banda Olho Seco chamado Botas, Fuzis e Capacetes lançado em 1983, hoje fora de catálogo e raríssimo. Eu tinha comprado o vinil na época e estava só esperando o momento para mostrar para todo mundo. Além disso, Fábio também permitiu que eu mostrasse o vídeo da tournée Européia do Olho Seco feita em 1999 (veja no final desta página). Quase ninguém sabe que a banda tocou por toda a Europa e é muito respeitada mundialmente no seu estilo.
Antonio Celso Barbieri
 
 
 
 

Pichação no Muro de Berlin

 

 

Compacto: Botas, Fuzis e Capacetes (1983)

 

Vídeos da banda Olho Seco tocando ao vivo na Europa em 1999
{youtube}tWfPtWc0KEA{/youtube}
Domentário com mais de 1 hora de duração!

 
Não deixe de ler:

Anos 70 – Capítulo II (1972/73)

Logo da loja criado por Brabieri

 

Stocking Music Center

No começo dos anos 70, juntamente com meu irmão Jorge, abri uma loja de discos no Bairro do Limão em São Paulo. A loja chamava-se Stocking Music Center e localizava-se no começo da Avenida Deputado Emilio Carlos. Porque tínhamos menos de 21 anos idade, a loja foi aberta no nome de meu Pai.

Éramos todos jovens, vivendo a descoberta da nossa sexualidade. O nome “Stocking” significa “meia de mulher” e foi inspirado pela androginia de David Bowie, Alice Cooper, Marc Bolan (T Rex), Robert Plant (Led Zeppelin), Iggy Pop & The Stooges e New York Dolls. No Brasil, o androginismo ficava por conta de Ney Matogrosso (na época, vocalista da banda Secos e Molhados), Cornélios (vocalista da banda Made in Brazil), Arnaldo Baptista (Mutantes), Magnólio (apresentador de shows de rock) e do bailarino e coreógrafo norte americano Lennie Dale e seu grupo Dzi Croquetes com seu show “Gente Computada Igual a Você” (1972).

Lennie Dale

Devo admitir que o nome da loja era bem pretensioso e sua localização num bairro longe do centro da cidade não era o lugar mais adequado para uma loja de discos que não vendia MPB, Samba nem Música Sertaneja. Lembre-se que estamos falando do começo dos anos 70. A Stocking imediatamente aglutinou a juventude roqueira da região e transformou-se num ponto de encontro da moçada. Infelizmente, a Stocking sobreviveu aproximadamente apenas um ano. Nunca deu lucro e foi subsidiada por mim que trabalhava no Banco Noroeste do Estado de São Paulo para pagar as contas. Meu irmão Jorge, todos os dias, tomava conta da loja até que eu chegasse do trabalho. A bem da verdade, ele também não viu nenhum tostão.

A loja era dividida em dois ambientes. Na parte da frente ficava a loja propriamente dita e nos fundos uma área de lazer que consistia num carpetão, algumas almofadas e um jogo de xadrez. Não havia separação entres as duas partes e, a garotada podia vir e ficar dentro da loja sentados no carpete batendo papo, ouvindo música ou jogando xadrez. Também começamos organizar bailes de rock pela redondeza. Nossos bailes eram sempre disputados pois, como DJs nós estávamos, naquela época pré-internet, em sintonia com tudo que estava acontecendo no mundo em termos de rock.

Enquanto lá fora os militares controlavam o país com mão de ferro censurando qualquer manifestação artística, dentro da loja, bem ao estilo Woodstock (1969), vivíamos os ideais hippies de fraternidade regados à muita música.

Eu tinha feito um curso de teatro na Escola Macunaíma que ficava bem perto de minha casa, no bairro Barra Funda. A escola ficava na Rua Lopes Chaves, exatamente na casa onde morou o escritor modernista Mário de Andrade autor de Macunaíma.

Mário de Andrade

Instalei holofotes de teatro no teto da loja, montei uma mesa de iluminação, comprei um gravador de rolo Akay modelo 4000 DS (um luxo para a época) e, nos fins de semana, empurrávamos as mobílias para junto das paredes, baixávamos a porta da loja que então virava um teatro. Coloquei em prática muitos dos exercícios que aprendi no Macunaíma e acabamos desenvolvendo um trabalho coletivo, uma peça, chamada “A Faca”.

A Faca era baseado num tipo de teatro conhecido como “Teatro do Absurdo” bem na linha do Grotowisk e consistia numa série de atos aparentemente desconectados entre si onde, de forma simbólica, sempre era discutido a comunicação ou a falta dela entre as pessoas. Fazíamos uso intensivo de maquiagem usando pinturas faciais que hoje em dia seriam muito semelhantes à da banda Kiss.

Para muitos dos jovens que frequentavam loja, a Stocking virou o centro de suas vidas, marcando-os profundamente.

Para mim, depois de alguns meses, ficou difícil manter uma certa hierarquia e “ordem na casa”. Além do custo financeiro, o desgaste na relação com meu irmão foi aumentando. Enquanto eu trabalhava no banco para pagar o aluguel, tinha gente faltando ao serviço para passar o dia todo dentro da loja. Eu, no final da tarde, chegava na loja, para encontrar cinza de cigarro encima dos discos, por todos os lados e um bando de gente jogando cartas e bebendo cerveja dentro do estabelecimento. Muito embora, na verdade a garotada fosse tudo gente boa, aos olhos de quem passava na rua parecia um centro de drogados. Ninguém entrava, ninguém comprava.

E como parecia um centro de drogados aqueles que gostam das drogas começaram a aparecer e fornecer para todo mundo indiscriminadamente. Minha autoridade começou ser questionada porque aos olhos dos frequentadores da loja eu parecia um ditador “careta”.

T-Shirt Logo. Design: Barbieri.

O fim da Stocking

Tinha passado a noite na casa de um amigo remixando a trilha sonora da peça A Faca para o ensaio do outro dia. Era um sábado de manhã e, quando chegava na loja, de longe vi um grupo de jovens batendo bola na frente do estabelecimento. Eu já tinha dito que não queria este tipo de coisa acontecendo na frente da loja pois espantava os clientes.

Neste momento eu vi alguém chutar a bola que foi bater direto no luminoso, um painel acrílico com o nome da loja que, partiu-se e caiu ao chão. Bom, para mim, esta foi a “gota d’água” que faltava!

Retirei meu equipamento de som, meus discos pessoais e levei tudo para casa. Nunca voltei mais.

Meu irmão ainda tentou administrar a loja sozinho por mais alguns meses sem sucesso. Fiquei sem falar com a maior parte do pessoal, incluindo meu irmão por vários anos.

Das pessoas que frequentavam a loja poucas hoje me recordo. Do grupo, o único que deixou uma contribuição ao rock nacional foi o Carlinhos também conhecido como Charles que foi o baterista na primeiro álbum da primeira banda Punk brasileira chamada “Restos de Nada”.

Teve o Kiko, que virou Hare Krishna. A Celina e sua irmã Verônica que foram morar em USA. O Ari e Toninha que encontraram-se dentro da loja e acabaram se casando. Teve este rapaz que depois de vários anos, quando andando pelo centro de São Paulo, acidentalmente nos encontramos e ele aproveitou para agradecer-me por, sem saber, tê-lo ajudado a assumir a sua homosexualidade. Resumindo, acredito que direta ou indiretamente a Stocking influenciou a vida de quem viveu aquele período. Foi uma época mágica de descobertas interiores e experimentação onde fizemos nossa transição para a maturidade. Literalmente vivemos Sex, Drugs and Rock'n'roll. Tudo aconteceu dentro dos limites do bom senso e debaixo de um quadro político repressivo e reacionário onde felizmente nunca rolou droga pesada, nenhum de nós morreu de overdose ou virou bandido.

Antonio Celso Barbieri

Memória: Uma nota fiscal da loja.

Não deixe de ler:

Anos 70 - Capítulo I
O começo da Stocking, as gangs de bairro, Fábio Zvonar (Punk Rock Discos e Olho Seco)

Anos 70 - Capítulo III
Tenda do Calvário

tenda_do_calvario_panfletoPanfleto da Tenda do Calvário gentilmente enviado por George Romano

Anos 70 – Capítulo III
TENDA DO CALVÁRIO
Escrito por Antonio Celso Barbieri

No começo dos anos 70 muitas bandas de rock ganharam proeminência no cenário paulista. Mutantes, Terço, Made in Brazil, Som Nosso de Cada Dia, Sá, Rodrix & Guarabira, etc, são alguns nomes que de imediato me vem à mente. Apesar da presença dos militares na vida do país, havia uma certa efervescência roqueira no ar.

Foi então que uma nova casa de shows, fazendo propagandas no rádio, começou anunciar sua inauguração:  “Tenda do Calvário! Faltam 25 dias para a inauguração!” Dizia o locutor da rádio numa contagem regressiva diária.

igreja_do_calvarioIgreja do Cálvário em Pinheiros - SP

Eu recentemente abandonara a Stocking, minha loja de discos aberta em parceria com meu irmão Jorge e tinha tirado um mês de férias (Não deixe de ler os outros capítulos desta série para saber mais sobre a Stocking). Sem ter o que fazer, entrei de cabeça neste projeto. Na verdade, eu era bem inexperiente e não havia muito que eu pudesse ajudar. Eu passa os dias dentro do teatro fazendo amizades e vendo a coisa tomar forma. O teatro era germinado com a Igreja do Calvário que fica na Rua Cardeal Arcoverde, 950 no bairro de Pinheiros. A torre da igreja ficava dentro do teatro, e praticamente separava os dois espaços.

tenda_do_calvarioTenda do Calvário (vista aérea)

A torre tinha vários andares e foi imediatamente escolhida pela produção da Tenda como escritório central. O espaço onde aconteceriam os shows parecia ter permanecido desocupado por muito tempo. O lugar deveria ter sido o “cinema do padre” por um tempão. Este espaço, convenientemente, já possuía até cadeiras de madeira com acentos dobradiços, típicas dos cinemas antigos. Muitas cadeiras estavam quebradas e estavam sendo reparadas pela produção. O personagem central do lugar era Magnólio. Magnólio, já faleido,  foi um comunicador de palco bem conhecido dos roqueiros da época por ter sido o apresentador dos, hoje, lendários concertos realizados no Parque Ibirapuera lá no comecinho dos anos 70. Ele era é uma figura carismática que naturalmente atraia as pessoas e obviamente, eu também o admirava. Magnólio mais tarde mudaria residência para próximo da Floresta Amazônica onde como um palhaço ecológico, até o seu falecimento, defenderia as causas dos povos ribeirinhos.

Mas, voltando ao teatro, ele parecia um formigueiro de gente andando de um lado para outro. Vários voluntários pintavam as paredes com desenhos psicodélicos (cogumelos, metamorfoses e fantasias). Outro pessoal decorava o teto com tecidos coloridos e variados dando a impressão de que o teatro era uma enorme tenda. Tinha gente limpando debaixo do palco para que o mesmo virasse o camarim dos artistas. Havia também o pessoal criando arte para cartazes e panfletos. Quer dizer o lugar era um verdadeiro centro de criação cheio de gente jovem e idealista. Homens, mulheres e até algumas crianças com visual hippie e descontraído passavam os dias envolvidos nas mais variadas atividades.

Os Mutantes

Os dias foram passando e eu já estava meu penúltimo dia de férias. Naquela noite seria a pré-estréia para a imprensa com um show dos Mutantes. Era os Mutantes na sua última formação, a mais progressiva que lançou o lendário álbum Tudo Foi Feito Pelo Sol. A banda contava com Rui Motta na bateria, Antonio Pedro no baixo, Túlio Mourão nos teclados e Sergio Dias nas guitarras e vocais.

Lá pelo começo da tarde a banda chegou e os músicos começaram preparar o palco. Eu estava realmente emocionado pois era um grande fã dos Mutantes. Sergio Dias perguntou se alguém sabia onde havia um telefone público e, eu imediatamente prontifiquei-me a ajudá-lo.

Mutantes_progressivo
Mutantes: Rui Motta, Antonio Pedro, Túlio Mourão e Sergio Dias

sergio_e_barbieri
Sergio Dias e Barbieri
no Clube Guanabara em Londres
Foto C. A. Zanarotti (2005)

Juntos, atravessamos a Praça Benedito Calixto em frente à igreja em direção à um bar que sabia de antemão, possuía um telefone público. Curiosamente, este bar ficava quase ao lado de um lugar que eu conheceria intimamente no futuro, mais de 10 anos depois, o Teatro Lira Paulistana.

No caminho, além de confessar minha adoração pela banda, emocionado ia procurando puxar conversa com Sergio. Se não me falhe a memória, parece que ele, na conversa, me disse tinha vendido uma casa e gasto todo dinheiro comprando guitarras...

Eu sei que, Sergio disse que tinha um compromisso marcado. Pediu que avisasse a banda que logo estaria de volta. Nós nos despedimos ali no bar e eu voltei para o teatro. Lá, comecei ajudar o responsável pela iluminação do show. Não tenho certeza mas, parece que o nome da sua empresa de luz era “Umas e Outras”. O técnico posicionou-se no topo de uma escada e eu passava para ele os holofotes para serem fixados na barra de luz.

A policia acaba com a festa

Recordo-me que escutei um som de rádio walkie-talkie vindo de fora da porta de saída do palco que, vivia constantemente fechada. Apesar de ser um som incomum, não dei importância. Alguns segundos depois, a porta da frente do teatro abriu-se violentamente e dezenas de policiais, usando roupas civis, portando metralhadoras, invadiram a casa correndo e gritando. Hoje em dia, pareceria uma operação da S.W.A.T. na busca de perigosos terroristas. Eu estava à ponto de entregar um holofote para o técnico de luz. Ele olhou para mim e disse:

“Fique calmo! Vamos continuar fazendo o que estamos fazendo até que nos mandem parar”.

Uns policiais foram para o porão debaixo do palco e vieram puxando um rapaz. Um disse para o outro:

“Olha o olho vermelho dele! Deve estar muito louco!”.

O rapaz protestou:

“Eu não estou drogado não!"

A reação calma e tranquila dos presentes contrastava com a dos policiais que rapidamente pareciam frustrados e nervosos porque não encontram droga nenhuma. Gritaram:

“Parem tudo o que estão fazendo e venham para cá!”

Os policiais estavam agrupando todo mundo na recepção do teatro, um salão próximo à porta de entrada, quando trouxeram um rapaz vindo da torre da igreja. Era o lendário músico Coquinho. Os policiais que o acompanhavam pareciam jubilosos pois Coquinho estava carregando, segundo eles, alguns micro pontos de LSD. Ele foi levado imediatamente para a viatura. En†nao, os policiais, separam os homens das mulheres e começaram uma revista geral. Num dado momento um rapaz, vindo de fora, entrou todo nervoso pois quando entrava imediatamente viu sua companheira lá dentro cercada de homens portando metralhadoras. Ele queria aproximar-se dela mas os policiais não deixavam e ainda comentavam:

“Este também deve estar muito louco porque ignora até as metralhadoras!”

Nós os homens estávamos todos juntos, em pé, próximos de uma parede. Um policial puxou uma mesa para o meio do salão, sentou-se numa cadeira e começou chamar-nos um por um:

“Tira tudo que você tem nos bolsos! Onde está a droga?” Dizia ele enquanto examinava tudo que colocavamos na mesa.

Rui Motta, o baterista dos Mutantes colocou na mesa uma carteira estufada, cheia de pedacinhos de papel com números de telefones, endereços, recados, etc. O policial espalhou-os pela mesa e começou abri-los um por um e jogá-los do lado. Rui Motta começou a pega-los um por um e reorganizá-los meticulosamente novamente.

Quando o policial percebeu o que estava acontecendo, aproveitou que ele estava curvado sobre a mesa e, imediatamente, deu-lhe um forte tapa na cabeça acompanhado de uma ordem para que ele ficasse quieto se não quisesse apanhar mais. Aquela agressão, foi uma ameaça para todos nós. Enquanto a revista prosseguia em silêncio, a porta da rua abriu-se lentamente e meu amigo Ari colou a cabeça para dentro do teatro. Ele perguntou meio sem jeito:

“O Celso está aí?”

“Está sim meu filho! Entra e vai lá para a parede” Foi a resposta de um policial.

Ari era um amigo frequentador da Stocking, um dos únicos que ainda mantinha contato. Ele estudava na Escola Panamericana de Artes e trazia seus desenhos para mostrar para Magnólio para ver se conseguia uma vaguinha no “departamento de artes” da Tenda. Ele, assim como eu, era fã dos trabalhos do Roger Dean artista gráfico que foi responsável pelos desenhos mostrados em muitas capas de discos de rock daquela época. No Brasil, Roger Dean ficou muito conhecido pelas capas que fez para os álbuns da banda Yes e Uriah Heep. Seus trabalhos refletiam muito a temática em voga na época, com desenhos mostrando metamorfoses e elementos de ficção científica. Bom, nem preciso dizer que quando os policiais viram os desenhos, para eles foi um prato cheio!

Imediatamente separaram a sua pasta como exemplo de arte feita sob a influência de tóxicos. Para bem da verdade, devo deixar claro que o Ari era um rapaz que nem bebia nem fumava cujo pai era uma pessoa muito séria e restrita. O velho parecia um general! Até eu tinha medo dele! O coitado do Ari tinha passado em casa à minha procura e minha mãe lhe tinha informado onde eu estava. Então, já que ele estava com seus desenhos aproveitou para mostrá-los na tenda. Pura falta de sorte!

Naquele grupo ali encostado na parede estavam a banda Mutantes (com exceção de Sergio Dias que escapou por sorte), Jaques (famoso radialista do legendário programa de rádio chamado Kaleidoscópio, que era transmitido pela Rádio America), Pena Schimidt (Técnico de som dos Mutantes que ficaria famoso como Produtor Fonográfico, onde acabaria destacando-se, entre outros, pela produção da música Inútil da banda Ultraje a Rigor em 1983), Allan Kraus (famoso técnico de som dos Mutantes), funcionários e colaboradores da Tenda, alguns repórteres e muitas outras pessoas que não me recordo e espero que os leitores me ajudem a lembrar os nomes. Aliás, estou certo que deve tem gente que não quer ter seu nome lembrado! :-)

Léo Wolf, um dos roads dos Mutantes, imediatamente despertou a atenção dos policiais pois era um tipo alto com cabelos longos quase brancos, um tipo meio Johnny Winter. Ele, como o nome sugere, não era brasileiro e já foi separado.

O Sol foi baixando, a tarde estava no fim e nós, ali agrupados num canto, apreensivos, não tínhamos idéia do pesadelo que ainda estava por acontecer. Um enorme ônibus branco e preto, sem janelas, com apenas uns orifícios para respiração chegou. Fizeram nós, os homens, entrarmos no ônibus. Allan Kraus foi um dos primeiros a entrar. Fecharam as portas e a penumbra tomou conta. O ônibus começou a rodar e, para surpresa de todos, o som de uma gaita de blues preencheu os espaço. Era Allan Kraus com sua gaita tocando o que, defino como “o blues da cadeia”.

Fomos levados para o DEIC na Brigadeiro Tobias. O ônibus parou, as portas abriram-se debaixo de luzes de holofotes, no chão policiais armados de metralhadoras e carabinas nos esperavam:

“Mãos na cabeça! Todos em fila indiana!”. Gritaram.

Enquanto saíamos do ônibus pude ver uma outra viatura parada de onde tiravam um rapaz com aparência de estudante universitário. Era um rapaz de boa aparência, vestia camisa social, blusa de lã e jeans. Numa longa fila subímos por vários lances de escadas. Não sei se nos levaram para o segundo ou terceiro andar. Nos colocaram numa sala que tinha dois ambientes. A sala propriamente dita e um lado separado por grades, parecendo uma cela de prisão. Allan Klaus foi posto na cela juntamente com o “estudante” que não fazia parte do nosso grupo.

Mais tarde, dois policiais retiram o “estudante” da cela e o levaram para uma salinha próxima. Depois de alguns minutos ouvimos alguns gritos dos policiais seguidos do som de uma forte pancada surda imediatamente acompanhada de um gemido. O rapaz foi então trazido para a cela. O rapaz, assustado, estava pálido como cera e andava arcado com as mãos no estômago. Nós todos passamos horas ali sentados no chão, só imaginando o pior.

A porta abriu e um tipo barrigudo e cínico entrou com uma carabina, era o delegado Raul Careca, dado como torturador e mal elemento (acabou morrendo baleado)  e disse:

“Quem não levantar a cabeça vai levar uma coronhada!”. Depois, olhou para trás e disse para o fotógrafo do Jornal O Diário da Noite:

“Pode entrar que eles já estão prontos!”.

O fotografo entrou e fez seu trabalho sujo!

diario da noite2
A Foto acima foi tirada pelo fotógrafo do Diário da Noite e colocada na capa da manchete do outro dia

diario da noite1
Quinta-feira, 7 de novembro de 1974. A manchete do Diario da Noite, cheia de mentiras e exageros!
Deixo aqui meus agradecimentos à Manolo Barbero Belmonte por enviar-me estas duas fotos muito raras.

A noite chegou e o barrigudo veio anunciar que “ele fazia questão que ficássemos como hospedes da casa”:

“Antes de descer é lógico que vocês precisam se cadastrar com a gente”. Disse com um sorriso irônico e maligno.

Depois que todos fomos fichados ele chamou uns policiais e disse:

“Leva eles lá para o porão!”.

Allan Klaus ficou na cela. Foi a última vez que eu o vi. Em fila indiana, descemos pelas escadas. Descemos vários andares para o que parecia ser um labirinto interminável de escadas e corredores. Sabíamos que estávamos no subsolo mas não sabíamos quantos andares abaixo. Abriam uma porta de metal com grades, entravamos e a fechavam de novo por detrás de nós, lá na frente havia outra porta com grades e assim por diante. Chegamos num tipo de ante sala onde um policial carcereiro nos ordenou que tirássemos os cadarços dos sapatos, os cintos e entregássemos todos os nossos pertences para que fossem colocados em cubículos com nossos nomes.

Inesperadamente começamos ouvir uma gritaria de mulheres. Naquela recepção carcerária uma outra porta com grades podia ser vista. Esta porta dava para um corredor com umas 10 celas do lado esquerdo terminando com uma cela de frente lá no fundo, no final do corredor. Esta cela estava cheia de mulheres. Só ela podiam nos ver.

Éramos todos jovens, cabeludos e parece que a mulherada gostou porque gritavam como “macacas de auditório”:

“Loirinho você é lindo! Carcereiro trás aquele gostoso para mim!”

Usavam uma linguagem pesada e gritavam todo tipo de besteira pornográfica. As outras 10 celas estavam cheias de homens, gente barra-pesada, muitos esquecidos ali por um tempão. A única referencia sexual feminina deste povo eram aquelas mulheres naquela cela e eles não gostaram nada de ouvir as mulheres mostrando sua preferência por nós. Dezenas e dezenas de braços saíram das celas, gesticulando e fazendo sinais obscenos, acompanhados de pedidos dos prisioneiros para que os policiais deixassem eles “brincarem” conosco.

O policial carcereiro olhou para o corredor cheio de braços esticados, olhou para nós e sem muita emoção perguntou para os outros policiais:

“Qual é a ordem do chefe?”

“Dividi-los e colocá-los em grupos de 3 ou 4 em cada cela para sentirem nossa hospitalidade.” Foi a resposta.

Rapidamente nos olhamos uns aos outros aterrorizados. Um rapaz do nosso grupo tinha uma cartola preta velha e carcomida. Passamos a cartola e todo mundo colocou rapidamente tudo que tínhamos de dinheiro nela. Demos o dinheiro para o carcereiro ao mesmo tempo que imploramos que fossemos colocados todos juntos numa cela só.

Felizmente, o carcereiro aceitou. No caminho para nossa cela tivemos que passar rente da parede para escapar das mãos dos presos que queriam alcançar nossos cabelos. Na nossa cela já haviam uns 6 ou 7 presos que imediatamente agruparam-se num canto. Nós éramos muitos e lotamos a cela, mal dava para sentarmos no chão. A cela era um cubículo nojento com um buraco num canto para os prisioneiros fazerem suas necessidades fisiológicas. Nem preciso dizer que no tempo que ficamos lá ninguém usou o “banheiro”.

Um dos prisioneiros que já estava na cela, um tipo branco, baixinho e forte estava muito nervoso e inquieto e não parava de falar alto consigo mesmo. Ele dizia:

“Esta noite, eu não vou aguentar! É muita tortura! Eu não aguento! Eu não aguento!

De tempos em tempos ele era interrompido por algum dos seus companheiros de cela que o mandava calar a boca. Alguém do nosso grupo puxou conversa com ele e ficamos sabendo que ele era um sorveteiro que vendia drogas na porta de uma escola. Ele estava num dilema, se contasse para os policiais quem fornecia a droga ele poderia morrer ali dentro ou então fora da prisão e se não falasse, os policiais o matariam de tanta tortura.

Sem podermos mudar de posição, sentados com os joelhos levantados, um companheiro apoiava as costas nas pernas do próximo e assim por diante. Foi uma noite interminável e cheia de medo. De tempos em tempos passava um policial com uma caneca metálica fazendo barulho nas barras de metal e escolhendo um de nós para aterrorizar. Ele dizia:

“É você mesmo! Você vai ser o meu peixinho! Daqui a pouco vou buscar você e mostrar com quantos paus se faz uma canoa!”

De madrugada trouxeram alguém arrastado e jogaram na cela anterior à nossa. Era o “estudante”. Um gemido de dor ficou marcando o tempo como a batida lenta de um relógio diabólico. A mulheres que viram a chegada do rapaz começaram gritar:

“Chamem um médico! Chamem um médico!”.

Os prisioneiros das outras celas gritavam:

“O cara é um fraco! Enfia um pau no cu dele que ele para de gemer!”.

Alguns policiais vieram, abriram a cela e puxaram o rapaz para o corredor. Ele ficou ali caído imóvel. O dia chegou e a hora do almoço chegou. Um prisioneiro cozinheiro trouxe uma panelona que tinha dentro algo que só poderia ser descrito como uma lavagem para porcos. Ninguém quis almoçar e o prisioneiro ficou muito ofendido. Ele queria bater em todo mundo. O dia passou com os carcereiros aterrorizando a gente. Lá pelo final da tarde o chefão barrigudo chegou com uma lista de nomes na mão:

“Chegou a hora das crianças verem o que é bom! Eu vou dizer o nome dos premiados que devem fazer uma fila aqui próximo da parede”. Todo arrogante ele começou ler os nomes:

“Antonio Celso Barbieri”

Meu coração disparou! O primeiro nome da lista tinha que ser o meu?

“Ari”

Quando ele falou o nome do Ari e dos próximos eu percebi que os nomes estavam em ordem alfabética. Percebi que a lista incluía todos nós. Para formar a fila, tive que pular o corpo do estudante que estava esticado no chão. Estava com os olhos fechados, seu rosto e suas mãos estavam azulados e sua expressão facial mostrava muita dor. Ele não era mais aquele rapaz saudável que eu tinha visto chegar. Agora ele era um farrapo humano quase irreconhecível. Nos levaram para a recepção carcerária e nos devolveram nossos pertences.

Depois, nos levaram para cima novamente, para a mesma sala com uma cela interna. Entre nós alguém comentou que a polícia não podia nos deter por mais de 24 horas sem provas. Os país de alguns dos membros do nosso grupo começam a aparecer e levar seus filhos. O nosso grupo foi diminuindo. Num dado instante, a porta abriu e meu pai e o pai do Ari entraram. O barrigudo estúpido disse imperativo:

“Qual desses marginais é o seu filho?”.

Meu pai estava branco como uma folha de papel. O pai do Ari parecia estar fumegando. Assim que saímos daquela sala, fomos cercados por advogados que estavam ali para nos defender. Alias, o Magnólio não foi preso porque procuravam pelo Magnólio (nome artístico) e naquela hora, convenientemente, ele era o advogado Paulo Roberto. Os advogados que batalharam por nós foram ele e seus dois irmãos. Obrigado Mag!

Felizmente, os irmãos do Magnólio tentavam amenizar as coisas, dizendo para nossos pais que nós éramos inocentes, não tínhamos feito nada de errado e devíamos ser motivo de orgulho. Meu pai aceitou a coisa muito bem. Depois, pediu que eu mantivesse isto como um segredo de família :-)

Nós já estávamos de saída quando o barrigudo chamou o pai do Ari e mostrou-lhe os desenhos feitos pelo filho. Disse:

“Como é que o senhor não percebe que para seu filho desenhar estas coisas só pode estar sob efeito de drogas!”

“É meu trabalho de fim de ano na escola!” Protestou o Ari.

“Fica quieto!” Cortou seu pai.

“Estes desenhos ficarão aqui e farão parte do nosso Museu do Drogado!” Falou o barrigudo.

Não teve jeito! Ari nunca mais viu seus desenhos! No dia anterior Ari não tinha aparecido para jantar, ido na escola e nem dormido em casa. Minha mãe já estava acostumada com meus desaparecimentos mas, a família do Ari não. No outro dia a mãe e o pai do Ari apareceram na minha casa. Foram então até a Tenda do Calvário.

Uma vez que a única pessoa presente não lhes não lhes deu nenhuma explicação convincente, desconfiados mandaram meu irmão Jorge na Tenda. Meu irmão então, foi informado que eu estava preso no DEIC. Meu irmão voltou para casa e contou tudo. Tinha passado meu último dia de férias na prisão.

No mesmo dia, ainda tive tempo de passar no barbeiro da esquina e cortar o cabelo bem curto. No dia seguinte chegava cedinho ao Banco Noroeste do Estado de São Paulo com uma cópia do Jornal O Diário da Noite debaixo do braço.

Mais mentirosa que a matéria do O Diario da Noite, só mesmo o Bush dizendo que o Iraque tinha "armas de destruição em massa". A matéria dizia que a vizinhança já não aguentava mais o cheiro de fumo que sai do teatro e que um policial tirou a sua aliança e, infiltrou-se naquele antro promíscuo onde até as crianças dos hippies estavam envolvidas. Um lugar onde ninguém tomava banho, etc, etc. Na minha opinião acho que o repórter que escreveu a matéria fumou um antes de escrevê-la.

Na primeira página, numa foto central bem grande aparecia um monte de cabeludos sentados no chão. Eu podia ser visto bem no meio do grupo. A manchete:

58 presos no salão de festas da igreja hippies: LSD

O número de pessoas detidas aquele dia quase chegou aos 60 mas, apenas uma, pessoa carregava LDS, o falecido Coquinho. Se a polícia barrar todo mundo na saída de um cinema possivelmente encontraria droga no bolso de alguém. Isto seria motivo para fechar o cinema e prender todo mundo?

Quanto ao “estudante”, no mesmo jornal, numa nota pequena, informava que um vizinho havia chamado a polícia pois, tinha visto, pela janela da sua casa, o rapaz fumando dentro do seu próprio quarto. Ainda tiveram a cara de paú de mensionar ca capa do jornal: Apanhou e denunciou os traficantes. Quanta violência! E pensar que, hoje em dia, tem assassinos e traficantes comandando o crime de dentro das prisões.

Algumas semanas depois da prisão, recebi pelo correio um convite. Era convidado especial para a inauguração da Tenda do Calvário. Fiquei muito feliz por terem lembrado de mim e, é lógico que fui! Como conseguiram meu endereço até hoje não sei! Quem tocou foi a banda O Som Nosso de Cada Dia. Aliás, um dos membros da banda tocou sentado, com um pé engessado pois, no ensaio caiu atravéz de abertura no palco, indo parar no porão embaixo e quebrando um pé. Definitivamente a bruxa estava à solta! Este começo turbulento da Tenda marcou-a negativamente para sempre. A Tenda durou poucos meses, sempre com medo de outra visita da polícia. Infelizmente pouco se fala do lado positivo, dos muitos shows que lá aconteceram.

sergio_dando_autografo
Sergio autografando meus CDs no Clube Guanabara em Londres
Foto C. A. Zanarotti (2005)

Segundo declaração feita pelo baixista Antonio Pedro ao jornalista Rodrigo Werneck na whiplash.net, parte da razão do fim dos Mutantes foi por causa do que aconteceu na tenda. Quando perguntado porque essa formação não durou mais tempo e como ocorreu a sua saída, ele respondeu:

"O showbiz por aqui era muito devagar. Trabalhávamos muito e ganhávamos pouco. E ainda tinham os empresários, que costumavam nos roubar. Mas teve um episódio que ajudou a acelerar o fim daquela formação. Fomos convidados para a abertura da Tenda do Calvário, local para shows ao lado da igreja do Calvário, em SP. Acontece que o local estava sendo vigiado pela polícia, devido a denúncias de que os organizadores estavam usando drogas no local. Na tarde do dia da inauguração, estávamos lá passando o som quando a polícia chegou e levou todo mundo, inclusive nós. Foi muito desgastante. Pouco depois, eu e Túlio pedimos as contas." Em 2005, em Londres, depois do show no camarim do Clube Guanabara, pude trocar umas palavras com o Sergio Dias onde rapidamente revivemos o acontecido. Ele disse que só não foi preso porque teve muita sorte. Foi coisa do destino!

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Celso Barbieri em dezembro de 1975. Foto: Adonis Arlindo de Camargo

Depois, deste episódio meus familiares mudaram de atitude em relação à idéia da possibilidade de eu me casar. Antes, meu pai dizia:

"Filho, tem muita mulher neste mundo, aproveita a vida. Você é muito jovem para se casar!".

Depois da prisão ele passou a dizer:

"Esta garota que você está namorando é gente boa. Nasceu em Botucatu, na mesma cidade que você, é filha de ferrovíarios como nós. É uma garota bonita, boa menina, um casamento será bom para você, vai ajudar a acalma-lo, a acentar sua vida, dando-lhe um maior senso de responsabilidade".

Eu caí no conto e me casei em dezembro de 1975, tinha só 23 anos. 3 anos depois nascia minha filha. O casamento durou mais ou menos 7 anos.

Curiosidade - Descoberta acidental de uma catacumba

Um dia, próximo da escada de acesso para a torre da igreja, durante os trabalhos de limpeza do local, um tijolo solto, quando retirado, revelou uma área aparentemente secreta. Vários tijolos foram retirados e revelaram um pequeno corredor que dava para uma escada de concreto sem corrimão que descia para uma grande sala. Alguém arrumou uma lâmpada com uma extenção e descemos as escadas para explorar. Nas paredes podia-se ver entradas seladas com tijolos. Tudo indica aquela sala era um grande túmulo. Será que a Tenda do Calvário foi castigada por tirar os sossego dos mortos?

por Antonio Celso Barbieri
 
tenda_do_calvario_circular
Circular fornecida para meu amigo George Romano juntamente com planfletos para distribuição
(veja um panfleto no topo desta página)

Comentários

Anderson Freitas posted a comment in Monterey Pop Festival (1967): Contado por quem esteve lá!
Saudações! Eu sempre acesso esse site para ler essa história. Fique muito triste agora. O senhor Stan Delk faleceu em 2016.<br />https://www.findagrave.com/memorial/171638689<br /><br />Descanse em Paz!<br /><br />Barbieri Comenta: Ele foi muito gentil comigo, disponibilizou o seu texto e acreditou nas minhas boas intenções! Quanto a matéria ficou pronta ele ficou muito satisfeito! R. I. P.
Neuza Maria posted a comment in Tony Osanah: Um argentino bem brasileiro
Muito interessante essa matéria sobre o Tony Osanah. Sou amiga pessoal dele há mais de 30 anos e hoje relembrei muitas coisas sobre ele, que já havia me esquecido. Grande talento! Ele está em visita no Brasil, esteve em Peruíbe até o dia 24 de janeiro e deverá retornar para a Alemanha no dia 07 de fevereiro. Pena que não programou nenhuma apresentação por aqui.
Daniel Faria posted a comment in JAJI: Homenagem postuma!
Tive o grande prazer de trabalhar com Jaji na decada de 1990. As festas no apartamento dele eram legendárias. Só fiquei sabendo da morte dele em 2017 e fiquei bem triste. Ele faz falta e será sempre honrado pelo público Metal de São Paulo.
Olá Barbieri! Que legal esse artigo, é sempre maravilhoso poder "beber" de fonte sábia. Neste sábado, 13/01/2018, teremos a chance de conferir o ensaio aberto da Volkana no Espaço Som, em São Paulo. A boa notícia é que, a exemplo do Vodu, que voltou à ativa em 2015, as meninas também decidiram se reunir, esperamos ansiosos que depois desse ensaio aberto role outros shows por ai. Um grande abraço!
Já sofremos muito também tentando fazer festivais. Mas resolvemos nos dedicar ao rock nacional de outras formas. Lançamos nosso primeiro disco https://base.mus.br que é para mostrar nosso amor pelo rock brasileiro.
André Luiz Daemon posted a comment in Luiz Lennon (Beatles Cavern Club)
Olá, boa noite! Alguém poderia me dizer o nome da música de abertura do programa Cavern Club que foi ao ar após o falecimento do saudoso e inesquecível Big Boy.<br />Logo após o seu falecimento, outro locutor entrou em seu lugar, e a abertura do programa era com o ex-Beatle Ringo Starr cantando.<br />Se alguém souber, por favor, me mande por e-mail, procuro essa música há muitos anos e signiifca muito para mim.<br />Valeu, abraços aos Beatlemaníacos que nem eu!!
José Carlos posted a comment in Tony Osanah: Um argentino bem brasileiro
Confirma pra mim, eu ouvi falar que o vocal da música Graffitti do Paris Group e de Tony Osanah, e que na realidade a banda nunca existiu. Foi um jingle produzido exclusivamente para a propaganda da calça Lewis e devido ao sucesso na televisão foi forjada uma banda para gravar um compacto e faturar uma grana em cima. É verdade?<br /><br />Oi José Carlos, sinto muito mas não tenho como confirmar esta história, entretanto, sei que nos anos 60 e 70 várias bandas brasilerias gravaram faixas em inglês usando nomes fictícios. Quer dizer, não será surpresa se for verdade!
Em se tratando de ROCK, é sem dúvida A Melhor Banda de ROCK até hoje.Acho o som deles o máximo. Conheci a pouco tempo (2010) e ouço desde então... Muito feras
jeronimo posted a comment in Delpht - Far Beyond (CDR Demo - 1997)
você podia disponibilizar essa demo para download pois ela não se encontra a venda
Parabéns Barbieri!!! ficou perfeito, muito original e harmônico, com o peso certo. Muito gostoso ouvir seu som.
CK posted a comment in Carioca & Devas
Ei! Obrigado por este artigo, ótima história e histórias.<br /><br />Hey! Thank you for this article, great history and stories. <br /><br />Thanks again!<br /><br />CK
Eu tinha 14 para15 anos em 1966 quando estava com outros amigos mais velhos e todos cabeludos na Av.Sao Luiz quando começaram a jogar pedras e saímos correndo pela. 7 de abril descemos a 24 de maio queriam nos matar uma multidão eu entrei no Mappin até chegar a polícia para nós tirar de lá.
De acordo com um set list desse show que achei na minha coleção, as músicas tocadas foram Maria Angélica, Perfume, British, Variações, Dissipações, Súplicas, Boca e Vade Retro.
Muito legal ver isso. Estive em muitos shows aqui relatados. O festival com o Dorsal, Vulcano em Santos, teve uma cena memorável quando o vocalista do Crânio Metálico, da Bahia, entendeu que as pessoas gritavam "côco metálico" para a banda e nao o nome coorreto. Ele se indignou com a falta de respeito e chamou as pessoas as briga. Muitos se solidarizaram com o vocalista da banda e o aplaudiram, repugnando o preconceito. Me lembro ainda que nesse show jogaram confete na apresentação do Vulcano e depois a serragem. Era tempo de ascenção do Death Metal e que muitos ridicularizavam o Black Metal... Cena triste também... Mas foi uma noite ótima. Vulcano mandou bem e Dorsal fez um show primoroso.
Charles Campos posted a comment in Soul of Honor
https://www.youtube.com/watch?v=Sn2ckIF0Gbk
Charles Campos posted a comment in Soul of Honor
Boas recordações de minha adolescência!!!<br />Assisti a uma apresentação do <br />Bodas de Sangue no Espaço Retrô (Senão estiver enganado)<br /><br />Foi uma baita apresentação!!!
CASSIO VIEIRA posted a comment in Carioca & Devas
Pessoal, alguém saberia me dizer se neste 'Ensaio (1977)' é o Tom (acho que o sobrenome dele é De Maia ou algo assim) que está tocando bateria? Ele morava no meu bairro, e o pai dele era dono da escola em que eu estudava, Colégio 7 de Setembro.
"Suspeitei desde o principio..." (Chapolin Colorado)<br /><br />Muito legal o texto, vivo fazendo coisas no automatico e com o maior temor de ter um colapso mental, e tenho tambem aprendido coisas novas sempre, autodidata por natureza. Agora estou mais tranquilo e posso tranquilizar outras pessoas a minha volta, a solucao e a causa do problema sao simples, (talvez eu tenha que me render aos passinhos de dança do ventre de vez em quando...).<br />Parabens pelo texto
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