Reggae Reggae

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Fauzi Beydoun e Tribo de Jah
Provavelmente a melhor banda de Reggae brasileira!

Escrito por Antonio Celso Barbieri

Dois estilos musicais sempre tiveram uma consciência social muito forte; o Punk e o Reggae. Enquanto o Rock esporadicamente nos brinda com alguma temática de contestação social, nos dois estilos inicialmente citados a crítica social é quase que uma obrigação, é quase que parte do próprio estilo. Entretanto, no Reggae, esta crítica vem sempre acompanhada, mesmo que não explícita, de uma mensagem espiritual. Talvez isto explique o fato do pessoal do Punk ser mais agressivo e o do Reggae mais pacífico!
 
Quando falamos de Reggae imediatamente três nomes nos veem à mente; Bob Marley, Jimmy Cliff e Peter Tosh. No Brasil, num primeiro momento não podemos deixar de lembrar que Gilberto Gil ajudou a divulgar o Reggae no nosso país com sua versão do clássico No Woman no Cry de autoria de Bob Marley. Na verdade Gilberto Gil apenas executou esta música mas, não abraçou a filosofia Reggae. Para ele foi apenas mais um bom momento na sua carreira.  

Paralelamente, em 1982, na capital de São Paulo vivia o músico e compositor Fauzi Beydoun, paulista de nascimento, filho de italianos com libaneses. Fauzi  já havia morado três anos na Costa do Marfim (África), falava francês com fluência e já era um grande aficionado pela cultura reggae.

Ele era amigo de minha amiga Enny Parejo, que na época estudava Composição e Regência na UNESP. Fauzi  decidiu reunir algumas composições próprias, montar uma banda e produzir um show de Reggae no Teatro Lira Paulistana.  Os backing vocais e direção artística ficaram à cargo de Enny que recrutou seu amigo e colega de faculdade, o já falecido, Oswaldo Mori e mais uma garota que à qual não me lembro o nome. Os ensaios para este show aconteceram na garagem da casa de Enny, onde infelizmente, gravei apenas 3 músicas (vocês podem escuta-las aqui logo abaixo, desliguem primeiro o player do álbum que está tocando!). Minha participação neste evento, limitou-se, como na época estava estampando camisetas de rock, à estampar as camisetas que foram usadas pela banda no palco neste show.

Não muito tempo depois deste show Fauzi mudaria de residência para São Luís, possivelmente especificamente por causa da efervescência Reggae que virara um fenômeno quase que inexplicável nas terras do Maranhão, invadindo inicialmente os guetos para depois tomar toda a cidade, o interior do estado e até os estados vizinhos.

Já em São Luís, Fauzi Beydoun, começou um programa de rádio tocando só Reggae e ganhou muita evidência na cidade. A verdade é que o reggae viria marcar profundamente a já tão forte e original cultura maranhense. Mesmo contestado por uma minoria de intelectuais conservadores o Reggae foi abraçado pela grande massa que, motivada por este estilo musical daria o título de "Jamaica Brasileira" à capital do Maranhão. Centenas de clubes de reggae com suas "radiolas" (potentes equipamentos de som que se encarregavam de divulgar o ritmo quando ainda não era tocado nas rádios) e depois diversos programas de rádios, finalmente viriam aderir ao mesmo em busca de audiência justificariam largamente o título conquistado.

A história da banda Tribo de Jah iniciou-se na Escola de Cegos do Maranhão. Lá onde viviam em regime de internato, quatro músicos cegos e um quinto músico com visão parcial se conheceram e começaram a desenvolver o gosto pela música improvisando instrumentos e descobrindo timbres e acordes. Posteriormente passaram a realizar shows nos bailes populares da capital (São Luiz) e outras cidades do interior do estado fazendo covers de seresta, reggae e lambada.  Foi neste momento que surgiu o radialista Fauzi Beydoun e juntou-se ao grupo.

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Tribo de Jah

Foi neste cenário que a Tribo de Jah deu a partida para difundir o seu reggae roots até os ossos, com suas mensagens de amor e paz, políticas, sociais e divinas. Após sucesso conquistado no Brasil com shows que partiram de Belém a Porto Alegre, passando pelos principais palcos de São Paulo e Rio, eles partem para uma série de turnês pelo exterior participando de festivais como: Festival “Bob Marley Day” em Los Angeles e San Diego, no Festival Paris-Bercy na França e o Rototon Sunsplash na Itália, e também fez duas apresentações realmente aclamadas no Festival de Jazz de Montreux, na Suíça e no principal palco do reggae mundial - REGGAE SUNSPLASH FESTIVAL JAMAICA 954, além de passar por cidades como Nova Iorque, Tókio e Buenos Aires. A Tribo de Jah passou também por países inusitados onde o grupo jamais imaginou chegar, como Cabo Verde na África e Guiana Francesa.

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A Banda Tribo de Jah no camarim depois do show de Londres. Foto: Andrea Falcão. Da esquerda para a direita:
Aquiles Rabelo (baixo), Fauzi Beydoun (vocal e guitarra), Marlon Siqueira (guitarra), João Rodrigues (bateria), José Orlando (vocal e percussão) e Frazão (teclados).

Em 2008, a Tribo também apresentou dois shows em Londres com os ingressos esgotados antecipadamente para as duas noites que marcaram o pré-lançamento de seu CD para o mercado internacional. Eu estive na noite do primeiro show em Londres e foi muito bom mesmo com direito à confratenização no camarim, fotos e tudo mais. Fauzi lembrou-se do show acontecido no Teatro Lira Paulistana na primeria metade dos anos 80 e ficou muito feliz com a minha presença. Foi realmente uma noite inesquecível! 

Antonio Celso Barbieri

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Tribo de Jah - Love To The World, Peace To The People (2007)

Banda:  
Fauzi Beydoun composição, vocal e guitarra
Frazão teclados
José Orlando vocal e percussão
Aquiles Rabelo baixo
João Rodrigues bateria
Marlon Siqueira guitarra
   
Discografia:  
Roots Reggae 1995
Ruínas da Babilônia 1996
Reggae'n Blues (solo de Fauzi) 1997
Reggae na Estrada 1998
2000 Anos Ao Vivo 1999
Além do Véu de Maya 2000
Essencial 2001
A Bob Marley 2001
Ao Vivo 15 Anos 2002
Guerreiros da Tribo 2003
In Version 2004
The Babylon Inside 2006      
Love to the World, Peace to the People 2007
Breve Sopro no Ar (acústico) 2008
Refazendo 2008

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Fauzi Beydoun e Barbieri no camarim depois do show de Londres. Foto: Andrea Falcão.

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Reggae de primeira qualidade de Teresina, Piauí, para o mundo!
Escrito por Antonio Celso Barbieri

Dois estilos musicais sempre tiveram uma consciência social muito forte; o Punk e o Reggae. Enquanto o Rock, esporadicamente, nos brinda com alguma temática de contestação social, nos dois estilos aqui citados a crítica social é quase sempre uma obrigação e até parece que faz parte do próprio estilo musical. Entretanto, convém destacar que, no Reggae, esta crítica vem sempre acompanhada, mesmo que não explícita, de uma mensagem espiritual. O trabalho de james Brito é sempre paltado por um comentário social bem humorado e numa linguagem simples e bem popular. Fica difícil não nos identificarmos com muito do que ele canta! Parabéns!

Antonio Celso Barbieri

Release fornecido pelo artista

James Brito é um músico e compositor natural de Teresina, Piauí. Ele nasceu em 1972 e aos 15 anos aprendeu dois acordes musicais com seu primo Helder, a partir daí continuou ouvindo de tudo, assistindo muitos shows e finalmente participando de várias bandas (Contrabanda, Tokaya, Cuscuz de Mamãe) tocando em vários espaços culturais alternativos, bares, etc. Além disso James acompanhou cantores como Jorjão, Dimas Bezerra, Gomes Brasil, Caetano BC, França Filho e Darlene Viana.

Em 1997, James Brito passou um tempo no Rio de Janeiro, tocando baixo elétrico, onde trabalhou no Teatro Municipal Infantil Jujuba e na banda Bicho. Acompanhou Tom Reis e compôs musicais com o compositor e escritor Haroldo César e o percussionista Dinho (Edson Côrtes) todos cariocas. Participou de inúmeras canjas musicais destacando suas apresentações com Edwin, percussionista pernambucano, Da gama (Ex Cidade Negra) e Wellington (Percussionista do Farofa Carioca).

Participou de vários projetos musicais que aconteceram em Teresina como por exemplo o Boca da Noite, Santo de Casa, MPB na Calçada, Cultura de Casa vai a Praça (João Pessoa), acompanhou o cantor Gomes Brasil na abertura do show da cantora Sandra Sá (Projeto Seis e Meia), Acompanhou o cantor e compositor pernambucano Humberto Barbosa em Petrolina (PE) e também na abertura do show de Tânia Alves e Marcio Greyk (Projeto Seis e Meia Teresina (PI). Participou do Unireggae (Festival de Reggae organizado pela UFMA - Universidade Federal do Maranhão), festival Cantos do Piauí, Chapadão, projeto Reggae na Boca, Tocou também em vários cidades como Rio de Janeiro (RJ), Queluz (SP), São Luiz (MA), Olinda e Petrolina (PE) e Salvador (BA).

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James Brito gravou dois CDs, o primeiro chamado Ta Doido ou Ta Massa lançado em 2008 e o segundo chamado Estranho. Além disse James tem participações em inúmeros DVDs e CDs. Como educador musical, ministra oficinas de violão popular em projetos de educação na ONG internacional Obra Kolping, PDE (Plano de Desenvolvimento de Educação), PELC (Programa de Esporte e Lazer na Cidade), sala de leitura do Colégio Agrícola de Teresina (UFPI).

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Bob Marley: Novo filme sobre a vida de Marley explora seus conflitos internos.
Escrito por Tim Adams para o Jornal The Observer (Londres - 08/04/2012)

Traduzido por Antonio Celso Barbieri

O diretor Kevin Macdonald conta como foi que ele reuniu material para este novo filme sobre Bob Marley, a lenda do Reggae. O filme retrata desde seus primeiros anos turbulentos na Jamaica até a adulação mundial que continuou mesmo depois da sua morte.

Em 2005, o diretor Kevin Macdonald trabalhou em Uganda no seu último filme chamado The Last King of Scotland (O Último Rei da Escócia). Lá, nas favelas de Kampala ele presenciou por um fato curioso. Por todo lugar que ele ia existiam imagens de Bob Marley, cartazes com a mensagem "Get up, stand up" (Levante-se, fique em pé!) e o povo com "dreadlocks" nos cabelos.

De qualquer forma, Bob Marley já tinha estado, não fazia muito tempo, na mente do diretor pois, Macdonald tinha sido consultado por Chris Blackwell, fundador da gravadora Island Records. A gravadora queria saber se ele estaria interessado em participar de um projeto para um filme sobre o duradouro legado deste famoso músico jamaicano.

O plano original seria seguir um grupo de rastafáris em sua viagem para participar de uma celebração do aniversário de 60 anos do nascimento de Bob Marley, acompanhando o grupo desde Kingston na Jamaica até a sua pátria espiritual na Etiópia. No final, o projeto deste filme nunca foi concretizado mas, quando mais tarde, Macdonald viu a oportunidade para fazer um documentário mais ambicioso sobre Marley, aceitou imediatamente.

O mais importante, foi que este documentário teve a bênção e a ajuda da família de Marley e também das figuras chaves na evolução musical de Marley, incluindo Neville "Bunny" Livingstone um dos músicos originais da banda Wailer com que Marley teve alguns mal entendidos.

"Pareceu-me muito importante fazer este filme neste momento, quando algumas das pessoas que conheceram melhor Bob Marley, particularmente nos primeiros anos, ainda estão por perto para contar a história." Esclareceu Macdonald.

O diretor saiu coletando entrevistas e pesquisando alguns dos aspectos mais misteriosos e mitológicos da sua vida que, terminou trágica e prematuramente em 1981, quando Bob Marley tinha apenas 36 anos.

Nesta pesquisa Macdonald ficou frustrado em descobrir uma total inexistência de filmagens e fotografias que retratassem os anos iniciais da formação da banda Bob Marley and The Wailers. Mas, com persistência e as ricas memórias do período conseguidas com Livingstone, Rita a viúva de Marley e outras pessoas, ele conseguiu criar uma boa biografia.

Em sua vida Bob Marley foi uma pessoa relutante para dar entrevistas.

"Tendo pouco ensino convencional." Macdonald sugere e continua:

"Ele sentia-se incômodo respondendo às perguntas feitas por jornalistas."

Em todo o caso, existiam certos aspectos de seu passado que ele não gostava de comentar, em particular seus sentimentos à respeito de seu pai Norval Marley que era branco e esteve sempre foi ausente. Norval Marley foi um homem que mentia, dizendo ter sido, no período colonial, um capitão do exército Caribenho. Então, de alguma forma, neste filme, o "Capitão Norval" transformou-se na chave para compreendermos Bob Marley. Como Macdonald diz:

"Muita gente acha que Bob Marley era negro e ficam surpreendidos em descobrir que ele teve um pai branco. O preconceito associado com o fato de Bob Marley ter vivido numa vila remota no topo de uma colina jamaicana ajudou a dar forma à sua grande busca por uma identidade que, no final acabou descobrindo no Rastafarianismo."

Suas contradições biográficas transformaram-se em uma sedutora metáfora global proclamando a "luta" e a "unidade": "Let's get together and feel all right" (Vamos nos unir e sentir bem) . É Macdonald quem comenta:

"Outro dia, estava junto Ziggy Marley, fazendo um trabalho de imprensa e Ziggy comentou:

"Eu acho que meu pai sempre lamentou o fato de ele não ser negro."

"Eu não colocaria a coisa tão diretamente e, neste termos mas, eu penso que esta é a essência da sua psicologia e música. Ele sempre foi um estranho, uma pessoa de fora e, encontrou uma maneira na sua vida e na sua música para justificar este fato."

Essa redenção igualmente forneceu para Macdonald parte da resposta explicando porque Marley tem um significado enorme, não somente nas favelas de Uganda mas, também entre os pobres e oprimidos do mundo todo.

Seu filme termina com uma sequência de referências contemporâneas relativas ao cantor, encontradas entre os recentes movimentos políticos populares.

"Na Tunísia no início das manifestações conhecidas como "o verão árabe", o povo cantava "Get Up, Stand Up". Macdonald comenta e continua:.

"Imediatamente depois que o vendedor de frutas, como protesto, colocou fogo em si mesmo e deu início à revolta este também era a mensagem escrita num cartaz próximo."

Sua influência continua com força total tanto é que três décadas após sua morte, Marley tem 30 milhão seguidores de Facebook.

O filme Marley começará nos cinemas ingleses no próximo dia 20 abril. Veja o trailer:


 

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Barbieri comenta

O álbum Catch a Fire é, para mim, um álbum muito especial que praticamente definiu o estilo e colocou Bob Marley no mapa. Comprei o vinil importado usado, em São Paulo, num sebo à muito tempo atrás. Recordo-me que a capa era um isqueiro cuja tampa quando aberta revelava o vinil. Mas, mais importante do que o visual da capa foi o som.

Só muito tempo depois, já em Londres que descobri que Bob Marley and The Wailers tinham gravado o álbum na Jamaica e enviado a fita para Londres onde um produtor esperto, remixou e até incluiu outros instrumentos fazendo o trabalho soar mais inglês, mais rock. Quer dizer, o som original foi adaptado para invadir o mercado mundial.

A verdade é que na época em que foi lançado Catch a Fire não foi muito bem recebido. Sabe como que é, não era muito Rock para os ingleses nem muito Reggae para a comunidade negra. Hoje Catch a Fire é um dos álbuns mais vendidos.

Recordo-me que ouvi este álbum centenas e centenas de vezes e ainda hoje acho que ele é realmente um clássico.

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O Reggae feito por um homem em constante luta consigo mesmo
Escrito por Antonio Celso Barbieri

Vivendo em Londres desde 1987, 7 anos depois, em 1994, achei que já falava e intendia inglês o suficientemente para fazer um curso especializado. Então, em setembro de 1994, que é quando começa o ano escolar aqui, perto de Brixton, comecei estudar no Lambeth College , fazendo um curso de Access to Sound Engineering (Acesso para Engenharia de Som).

Access Courses são cursos preparatórios para a entrada na universidade. Estes cursos são de tempo integral com 1 ano de duração e servem para fazer a equiparação escolar com o ensino recebido no país de origem do estudante com o do Reino Unido e, ao mesmo tempo, preparam os alunos para os rigores da vida universitária.

Este tipo de curso, ainda existe hoje em dia e, é a solução perfeita para os estrangeiros cuja língua inglesa não é sua língua principal. Outra coisa importante, é o fato de que, não há necessidade do aluno apresentar nenhum tipo de diploma anterior. Existem cursos de preparação e equiparação escolar em praticamente todas as áreas.

Para o curso que eu tinha escolhido, a única exigência feita foi um teste de matemática básica (básica mesmo!) e uma entrevista com o professor responsável pelo curso para que ele tivesse certeza de que meu domínio da língua inglesa seria suficiente para entender as aulas. Para mim, pareceu-me apenas uma formalidade, tirei de letra e fui aprovado imediatamente.

Para quem não sabe, o bairro de Brixton, mais conhecido no universo do rock, como o berço de nascimento de David Bowie, é um reduto étnico dominado pela presença africana. Aliás, confesso que tinha a errônea impressão de que os negros eram, genericamente, fisicamente todos iguais. Certamente, tinha à ver com minha visão preconceituosa, forjada na minha mente desde criança e, também pela minha ignorância em não levar em consideração que os negros brasileiros foram trazidos para o Brasil de uns poucos países africanos. Na verdade, para mim, Brixton foi um choque cultural, uma Torre de Babel negra.

Como é sabido, o Continente Africano é imenso e, em Brixton vivem negros de toda a África, sem contar os descendentes de escravos que vieram de muitas partes do mundo, inclusive do Brasil. Existe também no caso da Inglaterra, milhares e milhares de negros vindos de suas colônias no Caribe que, foram incentivados, à mais de 50 anos atrás, à vir trabalhar na Grã-Bretanha.

 Em 1994 eu já morava onde moro hoje, perto de Old Street no bairro de Hackney, bem próximo do centro de Londres. Mas, à quase 20 anos atrás, eu morei em Brixton e, na época, trabalhando num hotel no centro de Londres, tinha que tomar o metrô quase todos os dias bem cedo. Como Brixton é o fim da linha Victoria, geralmente quando chegava na plataforma, o trem já estava lá parado, esperando seu horário para partir. Muitas vezes quando entrei no trem, meu carro, já estava cheio de gente e para minha surpresa, eu era o único branco. Como era muito cedo, a maior parte do povo ajeitava-se para tirar um cochilo matinal até que o trem partisse. Geralmente o povo cochilava  até chegarem no ponto de destino. O tempo de espera variava, poderiam ser dois minutos, cinco ou às vezes até 15 minutos. Portanto, de qualquer forma, estes poucos minutos, eram um tempo muito precioso para este povo trabalhador desperdiçar. No trem com todo mundo de oilhos fechados, eu ficava só observando. Só pelas roupas que vestiam, qualidade dos sapatos e abrigos percebia-se que, eram gente que trabalhava na limpeza, manutenção, serviços básicos. Quer dizer, gente que “pegava no pesado”.

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Livreto de registro da escola e
comprovante de pagamento do curso.

 Eu ficava, disfarçadamente, só observando as diferenças físicas e culturais. Sempre via negras e até alguns negros com cicatrizes no rosto, provavelmente resultado de alguma cerimônia tribal de iniciação à puberdade realizada ainda na África. Sempre que via um negro com estas cicatrizes no rosto formando linhas verticais, lembrava-me do filme A Cor Púrpura (The Colour Purple) dirigido por Steven Spielberg em 1985 onde, é mostrado rapidamente e com grande efeito, uma cerimônia tribal deste tipo. Muitas vezes, em silêncio meditei sobre as atrocidades que a raça humana fez e ainda faz em nome da religião, costumes e tradições primitivas. O duro é saber que, ainda hoje, na maior parte das vezes, é a mulher quem sofre as conseqüências.

Nas minhas observações, ficou claro que a espessura dos lábios e a largura do nariz variavam consideravelmente dependendo do país africano de origem. Algumas mulheres tinham o pescoço mais alongado e a parte de traz do crânio mais protuberante. Outras, tinham o hábito de tirarem os pés fora dos sapatos e descansá-los em cima dos mesmos. Eu ficava imaginando se aquelas senhoras não preferiam andar descalças dentro de suas próprias casas. Será que era uma lembrança dos tempos tribais ou apenas desejo mesmo de descansar os pés?

A população negra poderia ser dividida entre católicos e muçulmanos apenas observando-se suas roupas e falavam uma multiplicidade de línguas e dialetos. Muitos falavam francês o que me fazia pensar no papel dos países imperialistas principalmente a Inglaterra, França, Espanha, Portugal e até a Belgica na colonização do nosso querido planeta.

Bom, voltando à escola, não foi surpresa perceber que a maior partes dos alunos eram negros. Eu estava todo empolgado pela idéia de aprender a gravar música profissionalmente. Já tinha meu pequeno estúdio caseiro. Era muito bom para a época. Possuía uma mesa de som estéreo Studio Master de 16 canais e 8 saídas de gravação, um teclado Korg Wavestation, que em 1994 era o máximo, um gravador digital que usava fitas DAT e um computador Atari rodando Steinberg Cubase 24 um dos seqüenciadores mundialmente mais importantes deste período.


Nossa classe tinha apenas uns 12 alunos. O estúdio da escola era pequeno mas, novíssimo e todo equipado. Da minha classe eu era o aluno com o melhor equipamento aliás, neste período, todo "black" que conhecia se dizia DJ ou Rapper, parecia uma febre.

Já no primeiro dia, o professor, um negro, antes de começar a aula acendeu um cigarro o que gerou uma reação em cadeia com 6 ou 7 cigarros acesos num cubículo apertado, sem cinzeiro, acarpetado, com isolamento de som e sem ar condicionado. O professor apresentou-se dizendo que ele era um DJ que estava passando na frente da escola e resolveu pedir emprego. Quando perguntei-lhe que programa nós usaríamos no computador Atari da escola, ele respondeu para minha felicidade que seria o Steinberg Cubase 24 mas, para minha frustração acrescentou que era um programa que ele não conhecia e que “nós iríamos aprender juntos”.

Felizmente, logo na segunda aula a direção da escola já tinha interferido e proibido fumar no estúdio mas, no entanto, logo ficou claro que tanto o professor como a maioria dos alunos fumavam maconha antes de começar a aula. Depois de algumas instruções básicas começava a parte prática com o professor perguntando o que os alunos queriam fazer, com a maioria black chapada gritando em coro RAP. Era frustrante! Eu queria aprender a microfonar um violino, um sax, a bateria. Eu queria entender como melhor usar a minha mesa de som mas não conseguia nenhuma ajuda de professor. Nem preciso dizer que, a música eletrônica que eu fazia incorporando rock pesado, não era entendida por ninguém. Eu, com vários anos de experiência usando Steinberg Cubase 24, depois de algumas tentativas, percebi que o professor não queria ser ajudado e preferia passar a maior parte do tempo buscando suas respostas no manual enquanto eu ficava, perdendo o meu tempo, olhando para o teto.

Se o professor e as aulas no estúdio era ruins as outras matérias do curso eram boas mas dificílimas e muito intensivas. Tínhamos um professor de matemática e nada mais nada menos que três de eletrônica bombardeando-nos com matérias novas todos os dias. Insistiam que além de estar na escola o dia inteiro ainda tínhamos que estudar em casa, no mínimo, 21 horas por semana. Sinto muito mas, infelizmente, não tenho tanta força de vontade assim!

Na minha turma tinha um estudante negro que era muito diferente dos outros. Seu nome, Matty Duncan. Eu sou alto mas, ele era muito maior. Ele era um gigante. Sua expressão facial era sempre séria e ele tinha no final do queixo esta barba comprida meio rastafári que ele vivia, usando o seu polegar e indicador da mão direita, sempre puxando e enrolando formando, às vezes uma ponta, às vezes duas. Ele usava sempre a mesma roupa e suas unhas eram grandes. sentava-se sempre no final da sala, num canto. Nunca falava nada. Nunca abria o caderno para anotar alguma coisa e, nas provas, geralmente entregava sua folha em branco. Ninguém, nem os outros blacks, se aproximavam dele.

Como o curso era de tempo integral, na hora do almoço todo mundo ia para o refeitório. O refeitório, no estilo bandejão de aço, não era gratuito. Por questões financeiras, eu preferia levar uns sanduíches e, às vezes, apenas comprar um refrigerante na escola.

Matty Duncan também ia para o restaurante mas nunca comia nada, ficava sentado, de braços cruzados, no mesmo lugar até a hora de começar as aulas do período da tarde.

Eu, de longe, ficava observando o seu comportamento e, cheguei a conclusão que ele ficava ali sentado parado porque não tinha nenhum dinheiro para comprar algo para comer.

Então, um dia tomei coragem, preparei em casa dois lanches e levei para a escola.

Na hora do almoço, lá estava Matty Duncan na sua mesa comunitária com capacidade para uns 10 alunos mas que, vivia exceto por ele, sempre desocupada. Acho que, possivelmente os outros alunos tinham medo ou sentiam-se desconfortáveis com a sua presença.

Procurando mostrar a maior naturalidade do mundo, aproximei-me da sua mesa e sentei-me à sua frente. Ele sabia que eu estudava na mesma classe porque, de uma forma mais ou menos automática, eu já lhe havia cumprimentado várias vezes.

Saudei-o com um “Alo!” e já fui pondo os sanduíches na mesa. Ele ficou meio sem jeito. Então, lhe disse que tinha preparando uns sanduíches à mais e empurrando um na sua direção falei que aquele sanduíche era para ele. Ele, sem jeito com aquela cara séria, fez um sinal com a mão de que não queria mas, eu ignorei e insisti. Na verdade, não precisei insistir muito! Ele aceitou e comeu seu sanduíche com prazer. No outro dia, mesma coisa, trouxe outro sanduíche para ele. Não havia diálogo mas, silenciosamente eu ia fazendo o que eu achava certo, a minha boa ação do dia. Eu recebia uma ajuda do governo inglês que também pagava parte do meu aluguel da casa. Rico eu não era mas, dava bem para fazer um sanduichinho à mais todo dia.

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Uma sexta-feira depois das aulas, quando me dirigia ao ponto de ônibus que me levaria até a estação de Brixton, fui alcançado pelo Matty Duncan. Ela falava com emoção e, para surpresa minha, era gago. Matty falava inglês com um sotaque fortíssimo e, acrescido da gagueira era bem difícil de ser entendido:

“Você tem sido um bom amigo e, amanhã, sábado, eu vou mixar o meu álbum gostaria muito que você fosse no estúdio, ouvir e dar a sua opinião.” Matty estava feliz.

“Muito obrigado pelo convite! Eu não sabia que você era músico! Que estilo você toca? Que instrumento você toca? Perguntei.

“Reggae e Eeeeeuuu nanão totoco! Eeeeu Cacanto!” Foi a resposta.

Confesso que, internamente tive vontade de rir e ao mesmo tempo tive pena. Por outro lado, lembrei-me de Nelson Gonçalves, cantor brasileiro já falecido, que tinha uma voz muito boa e, chegou lançar uns 50 álbuns. Segundo se fala, Nelson Gonçalves era gago.

Aceitei o convite, sentindo-me lisonjeado e curioso ao mesmo tempo. De uma forma muito especial, tanto Matty como eu, nos sentíamos, na escola, como cartas fora do baralho. Eu tinha encontrado alguém, feito um amigo e, agora, era meu dever prestigiar o trabalho dele. Lembrei-me do livro O Pequeno Príncipe onde, a raposa fala para o Príncipe que, "já que ele a tinha cativado, agora, ele era responsável por ela". Eu tinha cativado Matty e, agora, também sentia-me responsável.

No dia seguinte, sábado, quando cheguei no estúdio, já na entrada fui recebido por um negrão sério, barbudo, cabelos rastafári e cara de poucos amigos. Seu cabelo estava escondido dentro de uma enorme toca com as cores da bandeira da Jamaica. Fui levado para dentro do estúdio e apresentado para mais uma meia dúzia de blacks. Todos pouco sociáveis, com barbas, cabelos e visuais, similares. Matty Duncan com seu tipo sério e silêncioso já esta lá. Quase não dava para conversar porque a casa estava caindo ao som de um Reggae de raiz, um Reggae de qualidade. Surpreendentemente a voz de Matty Duncan que saia das caixas acústicas não devia nada à Bob Marley, Jimmy Cliff ou Peter Tosh. Desde a temática das músicas, os arranjos até as escolhas dos timbres dos instrumentos tudo era Reggae de qualidade. Os músicos que o acompanhavam nas gravações eram todos veteranos incluindo até um músico da lendária banda de Reggae dos anos 70 chamada Matumbi.

Obviamente, este povo sabia o que estava fazendo e, eu é que não ia correr o risco de abrir minha boca ali no meio daquela “gang” rasta. Durante a mixagem, um dos rasta, fez um baseado enorme, da grossura do meu dedo indicador e, passou na roda. Não teve como dizer não e daí em diante o negócio foi só ficar quieto e “viajar” na música. Virei um rasta! :-)

Nem recordo-me como foi que voltei para casa. Já na escola, na próxima vez que encontrei-me com Matty, fiquei sabendo que, na verdade, a maior parte das mixagens já tinham sido feitas anteriormente e que aquele dia tinha sido reservando apenas para as duas músicas finais. Portanto, no final daquele dia, Matty recebeu uma fita DAT contendo o seu álbum inteiro que, era mais um EP do que um álbum propriamente dito pois, ele tinha gravado apenas 7 músicas.

Matty contou-me que ele era originário da ilha de Santa Lucia no Caribe e que lá na sua terra natal ele tinha gravado um vinil solo chamado Daniel And The Lions contendo uma música de cada lado; Daniel And The Lions e Every Try. Seu lançamento foi um sucesso e ele vendeu aproximadamente 15.000 cópias na ilha. Com o dinheiro ele veio para Londres onde contratou os melhores músicos de Reggae que encontrou e gravou as 7 músicas. Não gravou mais porque, infelizmente, o dinheiro acabou. Depois disto, Matty ficou com as fitas mestres guardadas por 3 anos enquanto juntava dinheiro para mixá-las. É por isso que ele não tinha dinheiro para comer na escola.

Eu orientei Matty à transferir seu material da fita DAT para um CD. Fitas DAT são muito pequenas, frágeis e as gravações são gravadas magneticamente. Portanto, a possibilidade de um acidente e consequente perda de todo o trabalho gravado é bem real. Infelizmente, Matty estava vivendo aquela fase inicial de todo artista que acaba de gravar, achando que seu trabalho pode ser roubado, copiado, usado indevidamente, etc. Apesar de querer muito uma cópia, como percebi que Matty estava todo desconfiado e cheio de cuidados, não insisti.

Matty Duncan depois daquele sábado, ainda compareceu na escola, para assistir algumas aulas, mas logo sumiu. Eu, na escola, desde o início, não fiquei satisfeito, sentindo-me sempre deslocado. Aguentei mais uns 2 meses mas, depois de mais de 6 meses batendo a cabeça, desisti e também não voltei mais.

Já havia passado um ano  quando o telefone tocou. Era Matty:

“Você disse que tem um DAT player e já faz 1 ano que não escuto minha música. A última vez foi lá no estúdio...” Não deixei que ele terminasse a frase:

“Matty você que trazer sua fita aqui em casa para gente ouvir? Eu posso fazer uma copia numa fita cassete para você!” Matty concordou imediatamente.

No dia da visita, antes do Matty chegar, eu preparei meu DAT tirando do mesmo uma saída do som para a mesa de som que, por sua vez, tinha uma saída para a placa de áudio do computador Mac e também, uma saída de monitorização para o amplificador de áudio.

Quando Matty chegou, coloquei a fita DAT para tocar e, enquanto ele todo feliz, escutava sua música, aproveitei para gravá-la no computador e assim, digitalizá-la.

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Matty Duncan, no finalzinho dos anos 80, apresentando-se
na Ilha de Santa Lucia, no Caribe, sua terra natal.

  A minha idéia era masterizar seu trabalho aumentando um pouco os agudos ao mesmo tempo que puxando mais o som do baixo e dos bumbos. Eu uso um programa que gosto muito chamado T-Racks. T-Racks é uma emulador de válvulas que faz o som ficar mais “quente” além de, normalizá-lo (aumentar o volume ao máximo possível sem distorcer), comprimi-lo e permitir uma re-equalização das freqüências. Parece complicado mas não é! Só posso dizer que, o resultado final é impressionante. É por isso que as demos gravadas em casa nunca mostram aquele som “para a frente” e aquela qualidade profissional.

Eu diria que, durante a gravação de um álbum, existem 3 som distintos: O som depois da mixagem, o som depois da masterização e o som final no CD. Não sei se é psicológico ou não, mas sempre sinto uma diferença para melhor quando escuto o CD final, depois de já prensado.

Bom, quando Matty ouviu uma das suas músicas masterizadas. Seu olhar foi de puro espanto e incredulidade. Foi como se ele tivesse perdido a inocência, de agora em diante, ele nunca mais poderia ouvir seu trabalho sem que todas as suas gravações tivessem sido masterizadas. Eu tinha conseguido convencê-lo!

Passado uma semana, Matty me ligou novamente. Ele queria incluir no CD que lhe dei uma música do seu Single lançado em Santa Lucia. Era o lado B, a música Every Try. Ele também disse que queria muito lançar o CD via independente mas, não sabia o que fazer. Eu já tinha lançado pelo meu selo Brain2Records a coletânea Brain Brazil – The Roots of Brazilian Rock e, meio relutante sugeri para Matty lançar seu álbum pelo meu selo. Eu, em troca, lhe daria toda a assistência gratuitamente. Não é que, Matty concordou imediatamente!

Matty já tinha decido que o nome do álbum seria Man In The Struggle (Homem lutando para superar forças opressoras). Pedi para Matty que, quando trouxesse o vinil para que eu copiasse a música Every Try, também trouxesse umas camisetas e diferentes chapéus ou bonés para posar para umas fotos. Ele obedeceu. Fotografei-o aqui mesmo na minha sala. A foto que escolhi foi uma em que ele aparece com a cabeça baixa, olhando para o chão. Achei que esta foto mostrava ele numa luz melhor e transmitia uma mensagem que combinava com o nome do álbum.

Rosana Muller, a esposa de um músico amigo meu estava fazendo um curso de computação gráfica cujo projeto da semana seria coincidentemente criar a capa de um CD. Então, debaixo da minha direção artística, Rosana criou, gratuitamente, a capa do álbum.

Descobri uma empresa no norte da Inglaterra que, por trem, fica à um pouco mais de uma hora de distância de Londres. A empresa tinha um preço bom e seus CDs eram prensados na Áustria. Matty decidiu prensar 500 cópias. O pagamento seria feito 50% adiantado e 50% na entrega do produto. O preço incluía a entrega dos CDs por transportadora na residência no Matty.

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A capa do CD.

No dia marcado nós levamos o CD Mestre e a arte gráfica da capa até a empresa onde Matty fez o pagamento dos primeiros 50%. Voltamos para Londres, nos despedimos na porta do metrô e nunca mais ouvi uma palavra do Matty. Naturalmente, pela minha experiência passada com músicos fiquei achando que como o Matty, não precisava mais de mim, tinha simplesmente desaparecido.

Uns 3 ou 4 meses depois, para minha surpresa, recebi um telefonema da empresa responsável pela prensagem dos CDs. O responsável, informou-me que Matty estava incomunicável, não atendia nem o telefone. Disse também que como ele não tinha pago os outros 50% no tempo previsto, já tinha perdido direito à entrega gratuita. Fui informado que os CDs estvam prontos e já tinham sido entregues nos escritórios da empresa. O responsável pedia que eu tenta-se localizar Matty para explicar-lhe que eles iriam começar cobrar aluguel para manter estocado os 500 CDs no seu depósito.

À princípio pensei que Matty tinha dado um telefone de contato errado mas, logo percebi que não. Quando ligava para Matty ninguém atendia mas, às vezes, depois de muitas tentativas alguém, do outro lado da linha, tirava o telefone do gancho e colocava-o de novo, cancelando a chamada.

Continuei insistindo, até que um dia ele atendeu. Sua voz era diferente. Ele falava mais pausadamente, com menos sotaque e gaguejava menos. Parecia outra pessoa. Eu expliquei para ele o problema e tentando ajuda-lo disse:

“Só entre nós, se você não tem dinheiro para pagar os outros 50% é só me dizer, eu ligo para a empresa, tento ganhar tempo, negociando uma outra data para o pagamento”

Falando como se fosse um nobre, sua resposta foi petulante:

“Veja bem, eu não estou preparado para discutir este assunto no momento!” Respondi igualmente seco:

“Matty, então quando você estiver preparado para falar sobre este assunto vê se me dá uma ligada!” Desliguei o telefone frustrado.

Um pouco mais de um mês depois Matty ligou. Seu tom de vóz parecia mais positivo mas, ainda soava um pouco estranho:

“Agora, estou preparado para ir pegar os CDs”. Falou laconicamente.

“Você tem o dinheiro que falta para pagar a parte restante e qual será a desculpa que devo dar para a empresa?” Perguntei.

“Já tenho o dinheiro e diga para eles que eu estive hospitalizado.” Foi sua resposta.

Marcamos um dia a coleta dos CDs e quando Matty chegou fiquei chocado com a sua aparência. Ele tinha uma barriga enorme, parecia grávido. Seu rosto e mãos estavam inchados e, ele andava com dificuldade com as pernas mais separadas umas das outras. Matty, deu-me à entender que ele realmente tinha estado hospitalizado.

O representante da empresa quando viu a aparência do Matty nem fez nenhum comentário quanto à demora para o pagamento e coleta dos CDs. Eu, tinha duas malas enormes e, então, levamos as malas para trazer os CDs. Foi um pesadelo arrasta-las até o trem e depois, do trem até o metrô e finalmente do metrô até sua casa.

No trem, durante a viagem, abrimos uma das malas e retiramos dois CDs para matarmos nossa curiosidade e, assim podermos observar com mais atenção, o trabalho feito na Áustria. Foi quando notei que Matty, olhava para a capa do CD e, silenciosamente sorria e, às vezes, parecia que estava falando consigo mesmo. À principio pensei que era apenas uma reação emocional aceitável. Quem é que nunca falou alguma coisa em voz alta consigo mesmo?

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O nome do meu selo Brain2Records (Cérebro para Discos) foi o resultado da minha descoberta acidental
de que a palavra BRAIN (cérebro) é formada pela sílaba BRA (Brasil) e IN (Inglaterra).

Quando chegamos na sua casa, Matty abriu a mala e presenteou-me com duas caixas contendo 25 CDs cada. De um total de 500 CDs eu tinha ganho 10%, nada mau! Eu fiquei feliz e satisfeito.

Meses se passaram, estávamos próximos do Natal quando Matty ligou novamente:

“Eu estou me sentindo muito sozinho! Dá para você vir me visitar aqui no hospital?” Mais parecia uma criança implorando por atenção.

“Claro Matty, me dá o endereço do hospital e o horário de visita.” Foi minha resposta.

No outro dia, no começo da tarde tomei o metrô para Stockwell que é uma estação antes de Brixton. Aliás, foi dentro da estação Stockwell que o brasileiro Jean Charles de Menezes foi assassinado à sangue frio pela polícia inglesa.

Quando cheguei no hospital, já na recepção, percebi que as coisas eram bem diferentes. Havia um segurança e o lugar mais parecia uma prisão com os dois recepcionistas, fortões atrás de vidros grossos. Identifiquei-me e disse que tinha vindo para visitar Matty Duncan. Eles olharam para mim sérios e com desconfiança, fizeram uma consulta usando um tipo de interfone e apontaram uma porta de entrada atrás de mim à direita. Quando cheguei em frente daquela porta de aço com uma janela de vidro no meio e sem maçaneta, empurrei-a mas ela não abriu. Olhei pelo vidro e vi que do outro lado seguia um longo corredor estreito que terminava numa porta semelhante à que eu estava tentando abrir. Lá na outra porta do outro lado do vidro eu pode ver uma enfermeira negra, toda vestida de branco apertar um interruptor que tocou uma sirene tipo alarme ao mesmo tempo que a porta na minha frente abriu-se automaticamente.

Entrei e, imediatamente, a porta fechou-se, travando-se atrás de mim. Fiquei com uma sensação muito desagradável, tipo “...e se eles não me deixarem mais sair daqui?”

O corredor era todo pintado de branco e lá no fundo a enfermeira ainda me esperava do lado de dentro da sua porta. Percebi que quase no final do corredor perto da porta dela saia um corredor mais largo à direita. De repente, inesperadamente, daquele corredor à direita saiu, vindo na minha direção, uma mulher negra enorme com um vestido longo, largo e solto, sem mangas e todo branco. Ela vinha descalça, balançando, gesticulando os braços abertos e gritando. Parecia o robô da antiga série Perdidos no Espaço só que, em vêz de balançar os braços para cima e para baixo gritando "Perigo! Perigo!", cantava algo fantasmagórico todo baseado na letra “a”. Eu quase saí correndo mas, não consegui, fiquei paralisado. O máximo que consegui for grudar-me à parede quando ela passou, naquele corredor extreito, direto por mim sem aparentemente nem notar a minha presença. Lea foi ela em direção à porta de entrada. Possivelmente o som da sirene a tinha alertado de que a porta de entrada tinha sido aberta.

Passando direto, ignorei o corredor largo e, com o coração na mão, fui direto encontrar-me com a enfermeira. Seu rosto também deixava transparecer o seu medo e, ela olhava para mim com certa desconfiança. Deu para perceber que a porta dela tinha um sistema de segurança com senha onde, numa pequena caixa de metal, a seqüência correta de números deveriam ser apertados para que a porta se abrisse. Estou certo de que ela tinha medo de estar ali fora comigo e preferia estar lá dentro na segurança da sua sala blindada.

Eu a segui, até o corredor largo que tinha acabado de ver. Lá, no meio do corredor, um enfermeiro branco e forte modelo segurança, todo de branco com os braços cruzados, estava sério, em posição de guarda, encostado à uma parede. Uma senhora morena bem idosa com um esfregão passava o pano no chão. Com um sorriso infantil, ela já foi aproximando-se e contando a sua história dizendo que ela era “doente” e que tinha conseguido ali dentro aquele serviçozinho de limpeza e que, todos gostavam muito dela.

O primeiro quarto, sem porta à direita era o do Matty mas ele não estava. A enfermeira então convidou-me para segui-la até a sala dos fumantes. Continuamos andando, passamos pelo enfermeiro/segurança ali de plantão que, agora me observava atentamente. Estávamos quase chegando ao final do corredor quando, coincidentemente, Matty saiu da sala dos fumantes.

Mais inchado ainda, ele aproximou-se de mim, olhou para a enfermeira e ordenou:

“Eu quero falar com ele em particular!”

Foi o suficiente! Ela saiu à passos largos e correu para sua sala, trancando-se por dentro. Fiquei só com Matty.

Matty, então convidou-me para visitar seu quarto. O quarto também era todo pintado de branco, sem nenhum quadro ou decoração e, como disse antes, não tinha porta e a mobília consistia em uma cama branca e uma cadeira branca cujas pernas de metal eram parafusadas no chão. Seu armário não passava de buracos quadrados numa das parede de concreto.

Ele sentou-se na cama e eu na cadeira.

Matty deu uma respirada profunda e começou explicar-se:

Sabe, eu sou assim grande mas eu não sou uma má pessoa. Eu não sou uma pessoa violenta. À uns 10 anos atrás, esta mulher começou falar comigo dentro da minha cabeça. É a rainha mãe! A mãe desta rainha que está aí. Tem vezes, que ela me cansa muito. Eu peço para ela parar de falar mas ela não me obedecesse. Às vezes ela é muito má. De qualquer forma, eu aprendi a conviver com ela. É um problema só meu e eu procuro não passar meus problemas para mais ninguém.

Já faz um tempo que o DSS (Departamento do Serviço Social) sabe e eles me ajudam muito, arrumaram uma casa para mim morar e estão pagando uma pequena ajuda financeira todo mês.

É por isso que, eu não tinha o dinheiro suficiente para pagar os restantes 50% necessários para coletar os CDs. Todo o dinheiro que eu estava recebendo eu estava guardando para fazer o pagamento.

Um dia, eu estava com muita fome e fui ao mercado, não resisti e roubei um chocolate. Infelizmente, fui pego e chamaram a polícia. Para eu não ir preso eu disse aos policiais que sofria de problemas mentais. Eles, checaram com o DSS. Perguntaram se eu tinha algum responsável por mim. Como eu disse que não, o governo passou a ser responsável por mim e me internaram aqui. Se eu não tomo os remédios, eles me fazem tomar à força. Veja só como eu estou inchado! Se continuar assim vou morrer aqui dentro! Preciso de sua ajuda!”

“Você tem dinheiro, você tem autorização para sair daqui?”. Perguntei.

“Sim tenho algum dinheiro porque já estou aqui à vários meses e não estou usando nada do dinheiro que me pagam. Eu tenho autorização para visitar minha casa uma vez por mês para pagar as contas e ver minha correspondência. Aquele dia que fomos buscar os CDs foi meu dia de liberdade!” Foi sua resposta.

“Se eu comprar uma passagem para a Ilha de Santa Lucia você viaja? Perguntei.

“Claro que viajo! Quero visitar minha mãe!” Foi sua resposta.

Então, acertamos os detalhes e como sabia que Matty fumava, tinha comprado um maço de cigarros para ele. Então, sugeri que fossemos para a sala dos fumantes.

Quando chegamos lá, já haviam três pessoas sentadas nos sofás. Um homem branco e gordo todo espalhado num sofá e num outro um casal. Era senhor negro, bem vestido e elegante. Falava com fluência, era calmo, sorridente e cheio de paciência com a mulher ao seu lado. A mulher, por sua vez, era bem pequena, magra e meia mulata. Ela parecia muito nervosa. Ele, pacientemente insistia para que ela se acalmasse. Eu passei o maço de cigarro para Matty que ofereceu cigarros para todos os presentes. Todos aceitaram. Matty tinha acabado de acender seu cigarro e ainda estava com o maço nas mãos quando aquela mulher toda de branco que me assustou logo no começo, quando entrei no hospital, entrou na sala. Sem nenhuma palavra, ela olhou para o maço de cigarros, nas mãos de Matty. Numa fração de segundo, ela tomou o maço das mãos de Matty e, sem que ninguém pedisse, deu mais um cigarro para todos os presentes e saiu da sala, tão rapidamente quanto entrou, levando o restante do maço.

Eu fiquei de boca aberta, com o meu cigarro aceso e outro na mão, olhando para a porta vazia quando, a mulherzinha agitada, sentada exatamente à minha frente, esticou o braço apontando o dedo para mim dizendo:

“Você é tira! Você é polícia! Você veio aqui para me espionar! Você pensa que eu sou boba é? Eu sei que vocês querem tirar meus filhos de mim! Fiquem sabendo que vocês, não vão conseguir não! Não vão não! Não vão não! Não vão não...”

“Fica tranqüila, eu não sou da polícia não! Eu sou amigo aqui do Matty, não sou Matty?” Olhei para o Matty que concordou balançando a cabeça lentamente sem mostrar muita firmeza.

O seu companheiro passou a mão na cabeça dela confortando-a ao mesmo tempo que ela se encolheu-se toda no sofá como se fosse uma criança com um bico enorme.

“Desculpe-me senhor! Ela está um pouco nervosa hoje!” O homem era extremamente gentil e eu respondi apenas com um balanço de cabeça e uma expressão de entendimento.

Ha verdade é que, por dentro eu estava me sentindo claustrofóbico eu não via a hora de sair correndo de dentro deste lugar. Quando Matty terminou seu cigarro, arranjei uma desculpa para me retirar.

Despedi-me das pessoas. Matty e eu nos levantamos e nos dirigimos para a sala da enfermeira. O homem negro também se despediu e nos seguiu. Matty preferiu ficar no seu quarto e eu e aquele negro fomos até a porta da sala da enfermeira. O negro ao meu lado disse:

“Nos já estamos prontos para partir!”

Apontando o dedo para mim e com a outra mão segurando um pequeno microfone ela falou:

“Ele está pronto, você não! Vá já para o seu quarto!” O negro me ignorou, virou as costas e saiu rapidamente em direção da sala dos fumantes.

Incrível, ele tinha me enganado o tempo todo!

Quando saí na rua. Respirei aliviado! Tudo parecia mais bonito!

Mas, voltado ao Matty e sua fuga, resumindo, Matty me passou todos os seus documentos, passaporte e também o livreto do DSS para que eu pudesse sacar o seu dinheiro. Eu comprei uma passagem de ida e volta, com validade de um ano, para Santa Lucia, dei-lhe o troco e, no seu dia livre, ele voou para sua terra natal.

Eu fiquei com as chaves do seu apartamento por quase um ano. Eu recebia o dinheiro dele e guardava-o comigo. Como ele recebia sempre um valor fixo foi fácil para ele fazer a contabilidade e assim evitarmos mau entendidos.

Matty morava num conjunto residencial que pertencia à prefeitura de Brixton. Eram blocos de três andares com três apartamentos, um em cada andar. O dele era o do meio.

Quando sozinho, abri a porta e entrei no seu apartamento, estava curioso. Estava entrando no mundo secreto de uma pessoa que morava sozinha, que tinha sido diagnosticada como sendo esquizofrênica, que não tomava seus medicamentos e que além de tudo, fumava maconha. A primeira coisa que notei assim que abri a porta foi o cheiro intenso de nicotina acrescido de um cheiro de bolor ou coisa envelhecida. Quando acendi a luz, percebi que as paredes eram engorduradamente amarelecidas com manchas mais fortes aqui e ali. A casa era isolada por cortinas grossas escondendo a luz de fora e também janelas fechadas exibindo fechos endurecidos pela ferrugem de muito tempo. Estava claro que Matty vivia trancado em sua casa, escondido como um eremita.

É importante entender que quando falo maconha na verdade estou referindo-me à haxixe. Haxixe é um derivado da maconha que geralmente parece um pedaçinho de chocolate. O usuário, geralmente, esquenta um pedacinho bem pequeno e o esfarela no meio do fumo retirado de um cigarro. Então esta mixtura e enrolada em papel de seda apropriado para tal. O resultado é o famoso "baserado" ou como dizem aqui, um "joint".

Mas, voltando ao seu apartamento,
na cozinha não havia um utensílio, prato, copo ou talher limpo. Restos de comida embolorados ainda permaneciam por todos os lados. A velha e pequena geladeira, fora um vidro sem rótulo com um resto mais parecendo uma cultura de bactérias e um limão murcho e seco, estava vazia e encardida.

No seu quarto, num canto, estavam as caixas contendo os CDs. Olhando ali, os CDs todos empilhados, senti um certo orgulho. Naquele canto, também estava uma parte de mim. Ali estavam centenas de CDs com meu nome, para sempre, ligados ao de Matty Duncan. Certo ou errado, eu tinha interferido no seu destino, ele tinha lançado seu CD e, agora, estava morando no Caribe, na Ilha de Santa Lucia com seus familiares. Eu o tinha ajudado à não ser mais um personagem do filme "O estranho no Ninho".

Depois de uma vistoria superficial na casa, não encontrei nenhum material de limpeza disponível, nem uma vassoura que fosse. Aliás, achei apenas um cabo de vassoura. Percebi que não havia como fugir do trabalho pois, o lugar estava uma total imundice e realmente impróprio para habitação.

Retirei as cortinas, abri todas as janelas para arejar e fui ao mercado comprar material de limpeza. O apartamento era pequeno mas, tinha que ser limpo totalmente. Decidi que cada dia que tivesse disponível, limparia uma área. Começando pela cozinha.

No dia que limpei a cozinha reparei que no teto haviam várias pequenas marcas circulares que condiziam com alguém usando um cabo de vassoura para incomodar o vizinho do andar de cima. Depois de ter observado as marcas na cozinha descobri que o teto da casa toda tinhas marcas semelhantes. Lembrei-me que, anteriormente, quando levei os CDs na sua casa, Matty reclamou que o vizinha do andar de cima estava sempre lhe dando problemas dizendo que ele ouvia música muito alto. Era curioso porque o sistema de som dele era “medieval”, as caixas estavam com os alto-falantes furados. Nada funcionava e ele ouvia música, com fones de ouvido. em um pequeno CD player portátil. Fiquei imaginando que, na verdade, quem reclamava do som era a voz dentro da sua cabeça. Era a Rainha Mãe!

Um dia enquanto limpava seu quarto descobri um saco num canto do quarto e quando olhei por cima, percebi que estava cheio de cabelos. Inicialmente, quase tive um ataque, pois parecia que ele guardava no quarto uma cabeça humana. Felizmente era só cabelo. Foi uma descoberta muito bizarra. Parece que Matty nunca jogava fora seus cabelos. Seu colchão, sem lençol tinha muitas manchas parecendo vomito, urina e até fezes. Do lado da cama, no chão uma pilha de lençóis embolados, secos e grudados revelavam terríveis noites de tormento onde Matty tinha vomitado, urinado em si mesmo e até defecado. Sua vida, íntima, seu tormento, deviam ser indescritíveis.

Seu apartamento era deprimente e, à meu ver, se Matty voltasse para um lugar assim, rapidamente iria para o fundo do poço novamente. Trabalhei duro para que seu lar ficasse habitável.

Confesso que, enquanto, sozinho, limpando sua casa, várias vezes tive medo, um medo assustador de que, naquele silêncio, de repente a voz de uma velha começasse soar dentro da minha cabeça, a voz da Rainha Mãe.

Eu já sabia, de ante mão, que Matty voltaria em aproximadamente um ano porque, como disse antes, a passagem que tinha comprado para ele era de ida e volta com a data em aberto e validade para 12 meses.

Dito e feito, quase um ano depois recebi um cartão postal do Matty contendo o número do seu voo, horário e data de chegada. Na data estipulada, lá foi eu para o aeroporto de Heatrow. Matty chegou com uma boa aparência, continuava gago mas, estava mais magro e sem nenhum inchaço.

Eu estava um pouco preocupado, com medo de que ele achasse que eu o tinha trapaceado de alguma forma financeiramente. Queria fazer o ajuste de contas o mais rápido possível e num lugar público. Já no aeroporto achamos um lugar tranquilo onde pude entregar-lhe seu dinheiro e também, as chaves do seu apartamento. Ele pareceu satisfeito.

Já que, agora, ele estava com dinheiro, muito embora houvesse metrô no aeroporto que o levasse até sua casa, insistiu em ir para casa de taxi. Já no taxi, percebi que nada tinha mudado pois o vi, várias vezes, trocando umas palavras com sigo mesmo com se estivesse num diálogo com outra pessoa. Tudo indicava que a Rainha Mãe estava com ele!

Quando chegamos na sua casa, percebi que por uns minutos, ele ficou meio confuso. Cortinas novas e abertas, a sala ilumidada pela luz de fora mostrava talvéz uma casa diferente. As paredes eram brancas e a casa estava perfumada e limpa.

Ele parecia meio sem palavras e até um pouco descontente. Pareceu-me que ele tinha acordado para a dura realidade. Seu passado de solidão e o fato de ele ser uma pessoa incompreendida desceu sobre ele como um nevoeiro denso e viscoso, como um fantasma na sua ronda da meia-noite. Em pé, ele ficou alí parado, no meio da sala, olhando para o chão.

Infelizmente, não havia mais nada que eu pudesse fazer e, o silêncio desconfortável daquele negro ao meu lado só reforçou minha vontade de ir embora. No metrô, indo para casa, tristemente refleti sobre minha longa jornada com Matty Duncan.

Alguns meses depois Matty ligou:

“Oi, na sexta-feira que vem, é meu aniversário e ficaria feliz com a sua presença! Já até comprei a bebida!”.

Uma vêz, numa conversa com um inglês que cuidava de um imenso depósito de revistas e jornais antigos, fiquei sabendo à respeito das ideias deste filósofo russo que, infelizmente, não recordo-me o nome. No nosso bate-papo fiquei sabendo que, este filósofo dizia que o lugar que ocupamos socialmente e a vida pessoal que levamos hoje em dia, bom ou mau, é resultado da nossa incapacidade de dizer “não”. Por aceitarmos tudo que nos chega, sem uma análise mais profunda e sem a coragem de rejeitarmos aquilo que não aprovamos, acabamos na maioria das vezes presos por um teia de aranha emocional. Por exemplo, casais passam a vida toda juntos sem se amarem e, pessoas aposentam fazendo um trabalho que odeiam. Porque estou dizendo isto?

Porque, deveria ter dado uma desculpa para o Matty e dito "não". Não consegui, fiquei com dó.

No dia marcado, no começo da noite, tomei o metrô para Brixton. Já, perto da estação, havia uma rastafari vendendo CDs piratas, coletâneas de reggae à preços baratissimos. Comprei dois CDs. Fui num supermercado próximo e comprei um bolo de chocolate. Pensei, com bom humor, nada mais apropriado para o Matty, do que um bolo da cor dele!

Quando Matty abriu a porta da sua casa, a primeira coisa que senti, foi o forte cheiro de nicotina. As janelas estavam fechadas assim como as cortinas. Ele foi na cozinha e voltou com uma garrafa, bem pequena, de whisky Jack Daniels. Esta era toda a bebida. Eu coloquei o bolo em cima da mesa da sala, tirei a cobertura de papelão que o protegia e, ví os olhos do Matty crescerem e iluminarem toda a sala. Parecia que ele nunca tinha ganho um bolo de aniversário na sua vida inteira. Matty entrou rapidamente na cozinha. Naturalmente pensei que ele tinha ido buscar dois pratinhos. Fiquei ouvindo por um tempo o barulho metálico de talheres sendo remexidos. Depois de aproximadamente um minuto, o silêncio tomou conta. A luz da cozinha estava apagada, possivelmente queimada. Fiquei olhando para a porta e, do escuro, vi Matty saindo da cozinha lentamente com uma enorme faca de açogueiro, meio enferrujada,  na mão direita. Ele parecia insatisfeito. Meu coração bateu tão alto que até parecia que podia escutá-lo.

“Sosó coconsegui aaachar esta fafaca para cocortar o bobobolo!” Foi só o que disse. Eu, respondí:

“Es estata bebem!” Eu estava mais gago do que ele!

Fui forçado tomar whisky num copo sujo e comer bolo com a mão. Sei que pareço um pouco burguês falando assim e, admito que quando acampei muitas vezes joguei a higiêne pela janela mas, nestes casos, foram todos opções minhas e, eu bem sabia exatamente qual era o grau da minha sujeira.

Matty então, sentado, pegou um dos Cds que lhe dei e colocou-o no seu pequeno CD player portátil, colocou os pequenos fones de ouvidos fechou seus olhos e começou lentamente balançar a cabeça no rítmo da música.

Eu fiquei só pensando. Será que ele vai ouvir o álbum inteiro? Será que eu vou ter que ficar aqui nesta cadeira, em siliêncio, olhando para a cara dele?

Alguns minutos se passaram e ele começou esboçar um sorriso, parecia que estava pensando em algo. Então, abriu os olhos, tirou os fones dos ouvidos e inclinou-se na minha direção com uma cara de garoto sapeca:

“Sabe que na noite passada a Rainha Mãe veio na minha cama! É, veio mesmo!”

“Ela queria fazer amor?” Perguntei, tentando mostrar naturalidade.

“É, queria sim!” Matty falava com cara de malandro num tipo de conversa de homem para homem. Eu entrei no jogo e continuei:

“E você? fez amor?”

“Fiz sim! Foi muito bom!” Enquanto falava já foi fechando os olhos e colocando os fones de ouvidos novamente.

Fiquei mais uns 10 minutos olhando para a cara dele. De repente percebi que ele estava dormindo. Levantei-me e, caminhando nas pontas do pés, abri a porta e me retirei.

Sinto que a história do Matty Duncan ainda não acabou. Entretanto, muitos anos já se passaram e, pelo que sei Matty, infelizmente, continua sendo um músico de Reggae desconhecido lutando contra a sua esquizofrenia. Ele nunca mais gravou, compoz, montou banda, nada. 

 

Ele ainda me liga pelo menos uma vez por ano. A última vez foi à alguns meses atrás. Na última vez, perguntou-me novamente, se eu tinha algum dinheiro para ele. E eu tive que explicar, novamente, que não. Ele ficou com todos os CDs e a maior parte dos 50 que ele me deu eu dei para amigos.

 

A verdade é que, já não sou tão corajoso como era antes. Sempre que Matty liga, me dá um frio na barriga. Procuro sempre ser gentil e educado mas, mantenho-me distante dos seus problemas. Realmente, tenho medo de encontrar-me com ele à sós. Acho, sinceramente, que já ajudei-o bastante. Quando olho para trás, para o meu passado, não só no caso do Matty, vejo que tomei muitos riscos desnecessários na minha vida e, devo dizer que, correndo risco novamente mas, agora, de parecer preconceituoso e exagerado, à meu ver, Matty não é perigoso até matar alguém!

Antonio Celso Barbieri

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Comentários

Anderson Freitas posted a comment in Monterey Pop Festival (1967): Contado por quem esteve lá!
Saudações! Eu sempre acesso esse site para ler essa história. Fique muito triste agora. O senhor Stan Delk faleceu em 2016.<br />https://www.findagrave.com/memorial/171638689<br /><br />Descanse em Paz!<br /><br />Barbieri Comenta: Ele foi muito gentil comigo, disponibilizou o seu texto e acreditou nas minhas boas intenções! Quanto a matéria ficou pronta ele ficou muito satisfeito! R. I. P.
Neuza Maria posted a comment in Tony Osanah: Um argentino bem brasileiro
Muito interessante essa matéria sobre o Tony Osanah. Sou amiga pessoal dele há mais de 30 anos e hoje relembrei muitas coisas sobre ele, que já havia me esquecido. Grande talento! Ele está em visita no Brasil, esteve em Peruíbe até o dia 24 de janeiro e deverá retornar para a Alemanha no dia 07 de fevereiro. Pena que não programou nenhuma apresentação por aqui.
Daniel Faria posted a comment in JAJI: Homenagem postuma!
Tive o grande prazer de trabalhar com Jaji na decada de 1990. As festas no apartamento dele eram legendárias. Só fiquei sabendo da morte dele em 2017 e fiquei bem triste. Ele faz falta e será sempre honrado pelo público Metal de São Paulo.
Olá Barbieri! Que legal esse artigo, é sempre maravilhoso poder "beber" de fonte sábia. Neste sábado, 13/01/2018, teremos a chance de conferir o ensaio aberto da Volkana no Espaço Som, em São Paulo. A boa notícia é que, a exemplo do Vodu, que voltou à ativa em 2015, as meninas também decidiram se reunir, esperamos ansiosos que depois desse ensaio aberto role outros shows por ai. Um grande abraço!
Já sofremos muito também tentando fazer festivais. Mas resolvemos nos dedicar ao rock nacional de outras formas. Lançamos nosso primeiro disco https://base.mus.br que é para mostrar nosso amor pelo rock brasileiro.
André Luiz Daemon posted a comment in Luiz Lennon (Beatles Cavern Club)
Olá, boa noite! Alguém poderia me dizer o nome da música de abertura do programa Cavern Club que foi ao ar após o falecimento do saudoso e inesquecível Big Boy.<br />Logo após o seu falecimento, outro locutor entrou em seu lugar, e a abertura do programa era com o ex-Beatle Ringo Starr cantando.<br />Se alguém souber, por favor, me mande por e-mail, procuro essa música há muitos anos e signiifca muito para mim.<br />Valeu, abraços aos Beatlemaníacos que nem eu!!
José Carlos posted a comment in Tony Osanah: Um argentino bem brasileiro
Confirma pra mim, eu ouvi falar que o vocal da música Graffitti do Paris Group e de Tony Osanah, e que na realidade a banda nunca existiu. Foi um jingle produzido exclusivamente para a propaganda da calça Lewis e devido ao sucesso na televisão foi forjada uma banda para gravar um compacto e faturar uma grana em cima. É verdade?<br /><br />Oi José Carlos, sinto muito mas não tenho como confirmar esta história, entretanto, sei que nos anos 60 e 70 várias bandas brasilerias gravaram faixas em inglês usando nomes fictícios. Quer dizer, não será surpresa se for verdade!
Em se tratando de ROCK, é sem dúvida A Melhor Banda de ROCK até hoje.Acho o som deles o máximo. Conheci a pouco tempo (2010) e ouço desde então... Muito feras
jeronimo posted a comment in Delpht - Far Beyond (CDR Demo - 1997)
você podia disponibilizar essa demo para download pois ela não se encontra a venda
Parabéns Barbieri!!! ficou perfeito, muito original e harmônico, com o peso certo. Muito gostoso ouvir seu som.
CK posted a comment in Carioca & Devas
Ei! Obrigado por este artigo, ótima história e histórias.<br /><br />Hey! Thank you for this article, great history and stories. <br /><br />Thanks again!<br /><br />CK
Eu tinha 14 para15 anos em 1966 quando estava com outros amigos mais velhos e todos cabeludos na Av.Sao Luiz quando começaram a jogar pedras e saímos correndo pela. 7 de abril descemos a 24 de maio queriam nos matar uma multidão eu entrei no Mappin até chegar a polícia para nós tirar de lá.
De acordo com um set list desse show que achei na minha coleção, as músicas tocadas foram Maria Angélica, Perfume, British, Variações, Dissipações, Súplicas, Boca e Vade Retro.
Muito legal ver isso. Estive em muitos shows aqui relatados. O festival com o Dorsal, Vulcano em Santos, teve uma cena memorável quando o vocalista do Crânio Metálico, da Bahia, entendeu que as pessoas gritavam "côco metálico" para a banda e nao o nome coorreto. Ele se indignou com a falta de respeito e chamou as pessoas as briga. Muitos se solidarizaram com o vocalista da banda e o aplaudiram, repugnando o preconceito. Me lembro ainda que nesse show jogaram confete na apresentação do Vulcano e depois a serragem. Era tempo de ascenção do Death Metal e que muitos ridicularizavam o Black Metal... Cena triste também... Mas foi uma noite ótima. Vulcano mandou bem e Dorsal fez um show primoroso.
Charles Campos posted a comment in Soul of Honor
https://www.youtube.com/watch?v=Sn2ckIF0Gbk
Charles Campos posted a comment in Soul of Honor
Boas recordações de minha adolescência!!!<br />Assisti a uma apresentação do <br />Bodas de Sangue no Espaço Retrô (Senão estiver enganado)<br /><br />Foi uma baita apresentação!!!
CASSIO VIEIRA posted a comment in Carioca & Devas
Pessoal, alguém saberia me dizer se neste 'Ensaio (1977)' é o Tom (acho que o sobrenome dele é De Maia ou algo assim) que está tocando bateria? Ele morava no meu bairro, e o pai dele era dono da escola em que eu estudava, Colégio 7 de Setembro.
"Suspeitei desde o principio..." (Chapolin Colorado)<br /><br />Muito legal o texto, vivo fazendo coisas no automatico e com o maior temor de ter um colapso mental, e tenho tambem aprendido coisas novas sempre, autodidata por natureza. Agora estou mais tranquilo e posso tranquilizar outras pessoas a minha volta, a solucao e a causa do problema sao simples, (talvez eu tenha que me render aos passinhos de dança do ventre de vez em quando...).<br />Parabens pelo texto
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