Jason Newsted (Metallica): Entrevista em Londres (1997)

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Metallica em 1997 ainda com Jason Newsted no baixo


Metallica em Londres!

Dezembro de 1997

Enquanto uma das bandas mais poderosas do planeta detonava uma pauleira sem precedentes no palco do clube Ministry of Sound, eu, como numa ceia de natal, não podia deixar de agradecer ao criador do Universo (se é que existe um!) por aquele dia maravilhoso, que começou com um bate–papo informal com o baixista Jason Newsted no 47 Park Street Hotel, o luxuoso hotel em que, por uma ironia do destino, tinha, por mais de 2 anos, trabalhado anteriormente, inclusive servindo pessoalmente o guitarrista Kirk Hammet (servi um sorvete para a gata de pele morena que o acompanhava)! Na época que eu trabalhei lá, eles tinham acabado de lançar o aclamadíssimo “Black Album”, que acabou tornando-se seu maior best seller. Quer dizer, haviam passaro uns 5 anos, muita pedra tinha rolado (para mim também), a moçada da banda deixado de ser tão moça (eu já era velho mesmo) e, para a banda, uma mudança de direcionamento parecia inevitável.

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LOAD

Como resultado, os fãs, meio a contragosto, foram brindados com “Load”, álbum controverso, onde eles pareciam desesperadamente estar buscando novos caminhos, dando às costas para o volume e a velocidade rítmica, em favor de maior lirismo e melodia, mostrando uma duvidosa preferência para baladas beirando o country. Obviamente, esta postura não agradou muito os adeptos da “música extrema”. Muito embora os “Kings” do metal nunca mais precisem trabalhar, já tendo vendido acima de 55 milhões de álbuns pelo mundo afora, e tenham vociferado insistentemente que respeitam seus fãs mas que, no final, é a banda que decide o seu próprio caminho artístico, não levou muito tempo para que eles respondessem aos críticos com um novo álbum: “Reload”

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RELOAD

“Gimme Fuel, Gimme Fire, Gimme That Wich I Desire! (Dê-me combustível, Dê-me fogo, Dê-me aquilo que eu desejo!)” . Este é o grito de guerra que abre o álbum, numa música apropriadamente chamada “Fuel” (combustível). Rápida e furiosa, certamente já nasceu clássica, mostrando que o Metallica ainda tem muita lenha para queimar. O novo álbum, sem dúvida nenhuma, é melhor que o anterior mas, entretanto, continua redefinido o Heavy Metal de dentro para fora. Suas novas canções são típicas do que poderia esperar-se de um Metallica para os anos 90: mais maduro, com canções épicas executadas num tipo de Thrash pesado, lento e trabalhado, acompanhado de baladas tristes no seu já conhecido estilo country-metal.

O álbum também conta com a participação, um tanto tímida, da legendária e esquecida Marianne Faithfull, fazendo um duelo na segunda música – “The Memory Remains”. Por outro lado “ The Unforgiven II” vai vender mais do que pastel na feira. No geral, “Reload” tem muita coisa boa, como “The Devil’s Dance”, “Better Than You”, “Slither” , “ Carpe Diem Baby”, “Bad Seed”, “Where The Wild Things Are” ( uma das minhas preferidas), “Prince Charming”, “Low Man’s Lyric”, “Attitude” e “Fixxxer”.

Kirk Hammett neste álbum reafirma-se como o maestro e responsável pelo redirecionamento musical da banda; James Hetfield está impecável e insubstituível no vocal, levando sua guitarra com a garra de sempre. Lars Ulrich bate com o ódio costumeiro e Jason Newsted detona seu baixo elétrico com selvageria.

Quanto à foto para a capa deste álbum, continua sendo outra escolha controversa do Lars, que também é colecionador de arte. Trata-se de outro trabalho do fotógrafo Andres Serrano. No álbum anterior era de uma mistura de sangue com sêmen (blood and semen), desta vez trata-se de uma mistura de sangue com urina (blood and piss).

O pessoal melou? O pessoal se vendeu? A resposta é um ressonante NÃO!!! O Metallica é, fazendo justiça ao seu nome, indubitavelmente, a melhor banda de metal do planeta. Talvez seja difícil para um adolescente entender, mas a verdade é que esta moçada já passou por todas, já tomou todas. O James está casado e com um filho prestes a nascer e , além do mais, 16 anos de estrada pedem por mudanças de direcionamento musical e de postura de vida. O próprio James declarou que há vários anos não bebe mais e o Tony Smith, o tour manager deles, desabafou dizendo que os ensaios da banda agora são muito chatos. “Não tem mais garrafas de Jack Daniels e só rola a pergunta: Quem é que vai fazer o chá?”. James escancara uma risada satânica e explica: “Antes eu ria porque estava sempre bêbado, agora eu rio porque estou de bem com a vida! “.

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JASON NEWSTED – THE INTERVIEW

Jason, o baixista do Metallica, com sua cara brava meio punk, na verdade esconde uma pessoa objetiva e direta, ao mesmo tempo que gentil, educada e de fácil conversa.

Sua fisionomia naturalmente séria contrasta desconcertantemente com seu sorriso franco que parece ter surgido depois de anos de treinamento.

Barbieri: … Reload… (Jason interrompe-me)

Jason Newsted: Você gostou?

Barbieri: Sim!

Jason: Eu também! (risos)

Barbieri: Por que vocês lançaram Load e Reload em discos separados. Por que não de uma vez só num álbum duplo?

Jason: São coisas que acontecem. As trinta músicas foram escritas, ensaiadas e preparadas para serem gravadas ao mesmo tempo. A idéia era lançar um álbum duplo, mas nós não tivemos tempo suficiente pois queríamos que ficasse pronto para coincidir com o Lollapalooza. Considerando-se o curto espaço de tempo que nós tínhamos, escolhemos aquelas músicas que já tinham recebido maior tratamento no estúdio. Nós preferiríamos que fosse um álbum duplo seguido de uma grande tour . No final fizemos “Load” , um pequena tour e o “Reload”. Não tivemos muita escolha.

Barbieri: Então não se trata de uma trilogia?

Jason: Trilogia?

Barbieri: Load, Reload e Unload! (risos)

Jason: Definitivamente não! Pelo menos a idéia original não foi esta! Isto não quer dizer que nós não tenhamos horas de material gravado com boas idéias para serem exploradas.

Barbieri: Como você compara “Reload” com o álbum anterior?

Jason: Eu penso que “Reload” é mais pesado. Concentrado e ao mesmo tempo não é tão controlado e mais “para a frente”. Foi um álbum gravado de uma forma bem diferente, bem abstrata. A bateria para todas as músicas já tinha sido gravada nas sessões de gravação do “Load“.

Quando terminamos a tour, imediatamente voltamos para o estúdio e todo o trabalho de pré-produção para as novas músicas já tinha sido feito. Nós conhecíamos as músicas bem e a bateria já estava pronta como uma tela de pintura em branco, esperando por nós. .

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Nós entrávamos e saíamos com tapes e fomos adicionando nossas partes, montando as músicas como se fossem quebra-cabeças. Foi bem diferente do que nos outros álbuns, porque como a maior parte do trabalho já tinha sido feito anteriormente, nós tivemos mais tempo para criar e experimentar.

Barbieri: Vocês ouviram o apelo de seus fãs e vestiram as músicas de forma mais pesada.

Jason: Não. As músicas são as mesmas que foram compostas em 95. Nós fazemos as coisas do jeito que fazemos, para nossa própria satisfação. Tem gente que gosta, tem gente que não gosta, e este é o jeito que as coisas acontecem e sempre acontecerão. Depois do “Load”, nestes 14 ou 16 meses que nós estivemos “on the road”, nós levamos conosco estas músicas que nós já conhecíamos. Neste período nós lemos livros, conversamos com gente e ouvimos música novas. Quando voltamos, aplicamos todas estas influências, o que as deixou-as soando muito mais atuais, com mais poder e passando aquela energia típica das gravações ao vivo.

Barbieri: No último álbum, vocês começaram esta revolução conduzindo o metal para uma nova direção mais suave e melodiosa. Com “Reload” vocês pretendem continuar esta revolução? (Jason sorri desconfortavelmente, ajeita-se na poltrona e fica sério).

Jason: Nós estamos amadurecendo. Todo este povo que está tocando rápido hoje aprendeu nos anos 80 com Hetfield e Hammett. Então, tudo que a gente fizer depois disso é só amadurecimento. Nós não temos nada que provar para ninguém a respeito do que podemos fazer, porque nós já fizemos e ainda podemos fazer tudo isto. Quem por aí, que veio daquela turma dos anos 80, ainda toca música pesada? Metallica e mais ninguém! Existe um par de bandas que ainda toca, mais já não são as mesmas no tocante à popularidade.

Barbieri: Quando o material que você gravou com o Andreas do Sepultura sairá?

Jason: Mais cedo do que tarde.

Definitivamente. Nós fizemos diferentes projetos com diferente músicos. De uma coisa pode estar certo. Não será a minha banda, não será exatamente meu projeto. Todos os músicos envolvidos terão a mesma participação em tudo.

Barbieri: Algum plano para tocar na América do Sul incluindo o Brasil em 98?

Jason: Já faz um tempão que não tocamos por lá . Eu estou morrendo de saudades. O público, os fãs são realmente fantásticos. A verdade é que não depende de mim. A preparação de uma tour é uma coisa complexa. Se tudo der certo, talvez estaremos por lá em meados de 98. Infelizmente não posso confirmar-lhe nada ainda.

Quando terminou a entrevista, que foi no sexto andar do hotel, resolvi não tomar o elevador e descer pelas escadas e assim rever o lugar onde trabalhei. Quando olhei para trás, quem estava descendo com um copo de água na mão? O próprio Jason!

Barbieri: Você deu a entender que você é interessado por música eletrônica. Aposto que você tem em casa um computador com sequenciador!

Jason: Tenho mesmo!

Barbieri: Que sampler você usa? Um Akay S3000?

Jason: Não. Eu uso um sampler Roland pequeno assim (faz um sinal com as mãos), que dá para transportar nas turnês.

Barbieri: Quer dizer que dentro em pouco você estará fazendo os seus próprios remixes? (risos)

Jason confirmou com um sorriso, enquanto calmamente autografava o meu Cd. Eu agradeci e me despedi mesmo porque, já tínhamos chegado ao térreo e estava claro que ele queria um pouco de paz pois, em poucas horas, estaria apresentando–se ao vivo no palco do Ministry of Sound.

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O SHOW

Foi o tempo de voltar para casa, comer alguma coisa e sair correndo de novo. Quando cheguei no Ministry of Sound uma fila quilométrica (com homens de um lado e mulheres do outro) tomava todo o quarteirão, afinal somente 1.000 privilegiados iriam assistir ao debut ao vivo do Reload. Na portaria, uma operação quase militar não deixava escapar nenhuma câmera fotográfica que era devidamente etiquetada e colocada numa grande caixa para coleta no final do show. Assim mesmo algumas câmeras escaparam ao pente fino. O clube, todo preto e tomado de caixas acústicas, me agradou, ainda mais porque tocavam bem alto e de cabo a rabo, o álbum “Master of Reality” do Black Sabath que é um dos meus preferidos. Teve até um momento que a galera começou a gritar em coro o nome “Black Sabath”.

Quando a banda entrou a pressão da massa humana foi colossal. Mais de um levou chute na cara. James Hetfield é sem dúvidas um dos melhores “front men” desta década. O homem é carismático e, ao mesmo tempo demoníaco. Por outro lado, o baixista Jason Newsted é o headbanger, o fã número um que acabou participando de sua banda preferida. Em contraste, o Lars, que tortura sua bateria, é só sorrisos e brincadeiras. Já o Kirk Hammett parece ser o mais compenetrado e não foi nem uma, nem duas vezes que o resto da banda olhou para ele esperando por um comando.

Logo na segunda música James dirigiu-se à platéia: “Hoje nós vamos tocar um monte de músicas antigas. Se a gente se fuder, vocês se fodem com a gente, tá? Vocês estão prontos?” . O público respondeu em uníssono como um grande "yes". James continuou, desta vez apontando para o resto da banda: “E vocês? Vocês estão prontos?” Os outros três membros da banda balançaram a cabeça negativamente. A verdade é que a banda estava afiadíssima e derrubaram tudo.

Infelizmente não tocaram “Seek and Destroy” – que é uma das minhas favoritas do passado – mas, não obstante, passaram por muitos clássicos além das músicas dos novo álbum que ficaram muito bem ao vivo. Como de hábito, uma gata jogou uma calcinha para o James que comentou que alguém ia voltar para casa com a bunda de for a, sugerindo que deveria ser alguém da banda. Lars, subiu então no banquinho da bateria
para mostrar a cueca, e provar que não era ele.A banda, tradicionalmente, voltou duas vezes, ovacionada seguidamente. 

Eles estavam visivelmente felizes e a platéia literalmente extasiada. Eu voltei para casa com meus ouvidos apitando, mas satisfeito. Foi meu presente de Natal... Obrigado Papai Noel!!!

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Esta matéria é de autoria do Barbieri e foi originalmente escrita para a Revista Dynamite, tendo sido publicada na sua edição de janeiro 1998.

 

Copy Desk

Andrea Falcão

 

Diagramação, Revisão e Atualização

A. C. Barbieri

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