Rock Fantasma: Conto autobiográfico da época do Projeto São Power (1986)

rock_fantasma
Barbieri no começo dos anos 70. Foto tirada por uma aluna dentro da
escola de fotografia CAMERA AÇÃO que ficava na Avenida 9 Julho

1986...

Eu estava com uma dor de cabeça tremenda! Minha cabeça latejava pulsando doloridamente à intervalos regulares.

Também pudera, como produtor musical, nunca tinha tido tantos problemas como nesta noite. Tinha sido um show difícil.

Era responsável pelos shows do Projeto São Power que aconteciam no Teatro Mambembe toda segunda-feira. Nesta noite tinha sido a vez da banda Harppia, que fazia um Heavy Metal competente, mostrar seu trabalho.

Tibério, o baterista e líder, querendo impressionar a platéia, trouxe para o palco uma grande aparelhagem. Foram sete cabeçotes Marshall com caixas duplas, mais iluminação para complementar a que o teatro já fornecia, efeitos especiais e até um Raio Laser. O consumo de energia foi mais do que o sistema elétrico do teatro podia agüentar e como resultado, por segurança, a chave da caixa de força desligava-se automaticamente à todo momento, cortando a eletricidade e consequentemente deixando o teatro, que estava lotado, no escuro e sem som.

Isto nunca tinha acontecido antes e até parecia algo proposital para prejudicar a banda. Os donos do teatro tensos, os músicos tensos e o público impaciente! Todo mundo olhando para mim como se eu tivesse a solução mágica para os problemas desta noite. A verdade é que, naquele momento, só existia uma solução: Desligar metade do equipamento de palco. Como a banda negava-se a fazê-lo o problema perdurou quase o show inteiro.

Imaginem a cena: O grande vocalista Percy Weiss, no meio da música "Sete", conjurando os demônios:

"-Eles são sete, sete eles são
No profundo oceano, sete eles são
Estão vivendo entre o céu e a terra
Engendrados nas profundezas do mar
Não são nem machos nem fêmeas
Não tem esposas, nem podem ter filhos
Não conhecem a graça, nem a piedade
Não escutam orações, nem escutam as súplicas
Dos sete, o primeiro é a fúria dos ventos
E o segundo um dragão por sangue sedento
São seres incríveis, demônios eternos
Não conhecem a graça, nem a piedade
O terceiro é um grande leopardo
Que se alimenta de crianças inocentes
O quarto é uma besta furiosa
E o quinto é uma terrível serpente
O sexto é o arauto das pestilências
E o sétimo, uma torpe figura indecente
Sete deuses da força e opressão
Sete no céu, sete na Terra
Deles não sei como defenderei
Da ameaça a Deus e ao Rei."

Justamente quando Percy acabava de cantar a frase "São seres incríveis, demônios eternos", como que despertado por alguma palavra mágica, uma entidade malígna presente, um "fantasma da ópera", com dedos invisíveis, desliga o interruptor geral levando consigo toda a audiência para "as profundezas da escuridão total".

Perdi a conta de quantas vezes religuei o interruptor geral de força!

Então, para tornar as coisas mais difíceis, num destes "apagões" quando a luz acendeu um microfone Shure SM58 estava faltando. O pedestal do microfone estava vazio. Quem teria roubado? Alguém da banda? Um dos auxiliares de palco? Um dos sete demônios em pessoa? Nunca descobri o culpado...

Fiquei desolado, sentia-me um perdedor nadando contra a correnteza. Eu sabia, que sendo responsável pelo evento e tendo em vista que o microfone pertencia ao teatro, era minha responsabilidade repô-lo. O único jeito de pagar seria abatendo a dívida com o dinheiro da minha parte na bilheteria, parte esta que já era muito insignificante. Certamente teria que produzir vários shows sem receber nenhum tostão. No dia seguinte, novamente, teria que vender mais alguns dos meus discos queridos para poder ter um almoço descente.

O público já havia se retirado do teatro e eu ainda estava lá, reunido com os donos no escritório, acertando o pagamento do bendito microfone quando o telefone tocou. Era Verônica buscando por mim.

Verônica

Mais ou menos uns 15 anos atrás tinha tido, em sociedade com meu irmão Jorge, uma loja de discos no Bairro do Limão chamada Stocking Music Center. Este negócio era mais do que uma simples loja e sim um ponto de encontro da juventude do bairro. Verônica tinha apenas uns 12 ou 13 anos e vivia metida na loja.

Perto da loja existia uma escola e, durante a semana, todos os dias no começo da tarde, uma garotinha de uns 6 ou 7 anos, carregando uma lancheirinha, passava junto com a mãe na frente da loja. Como a garota sempre passava olhando curiosa para dentro da loja, eu sempre lhe mandava um aceno que era retribuido tímidamente ao mesmo tempo que a menina corria desaparecendo por trás de um muro.

Verônica era uma garota do tipo hiperativa e sapeca, uma verdadeira "moleca". Um dia ela me viu, no meu ritual diário, dando um aceno para a garotinha. A loja naquele dia estava cheia de amigos. Verônica apontou-me o dedo travesso e, com uma carinha diabólica gritou:

"-Você é um papa-anjo! Papa-anjo! Papa-anjo! Papa-anjo!"

No princípio, tentei ignorar mas foi impossível. Quanto mais pedia para que ela parasse mais ela intensificava a provocação:

"-Papa-anjo! Papa-anjo! Papa-anjo!"

Como conhecia muito bem meus amigos, o risco de ganhar um apelido para a vida toda era muito grande. Além disto, este apelido era um apelido perigoso com conotações sexuais muito sérias!

Dirigi-me em direção à garota insistindo para que parasse. Ela sorrindo e ignorando a tudo e todos ia afastando-se, repetindo como um gravador a mesma coisa o tempo todo.

Verônica afastou-se até ficar encurralada num canto da loja. No pick-up Led Zeppelin rolava a todo volume e o povo presente, em grupos conversando, pareciam não prestar atenção. De repente percebi que, com minhas costas tampando toda a visão Verônica estava totalmente isolada e indefesa. Agora eramos só nós dois.

Quase que numa ação reflexo e impensada, numa fração de segundo, agarrei Verônica e silenciei-a com um beijo bruto e salivento que espalhou-se por todo o seu rosto. Eu, cabeludo e barbudo, com mais de 20 anos e Verônica com apenas 12 ou 13 anos. Foi um beijo relâmpago. Eu esperava que quando a libertasse daquele abraço apertado a garota sairia correndo como uma louca e não voltaria à por os pés dentro da loja nunca mais.

Para minha surpresa, quando soltei-a, ela quedou-se imóvel, encostada na parede, como que derretendo-se com uma expressão hipnotizada.

Eu, por minha vêz, estava surpreso com minhas próprias ações. De uma forma infeliz, por uma ironia do destino, eu tinha, por alguns segundos tranformado-me exatamente naquilo que estava tão intensamente desejando não ser chamado. Felizmente ninguém tinha notado nada e, pelo menos a pestinha tinha silenciado. Voltei aos meus afazeres procurando esquecer o que tinha acabado de acontecer. Nem sequer percebi quando a garota se foi.

Bem mais tarde, já estava escurecendo e a loja estava vazia. Comecei organizar as coisas para terminar o dia. Abaixei-me atrás do balcão para pegar um rolo novo de fita adesiva e quando levantei-me, num susto, deparei-me com Verônica sorridente. Toda faceira ela olhou-me intensamente e disse:

"-Por trás desta menina de 12 anos tem uma mulher que pode fazê-lo muito feliz!" Ela falava tentando mostrar maturidade.

"-Por trás desta menina de 12 anos tem a polícia e cadeia! Perdoe-me, eu perdi a cabeça! A minha idéia com o beijo foi só de assustá-la e não de seduzi-la!" Respondi surpreso.

"-Qual é o problema? Sou muito feia? Beijo tão mal assim?" Falava com certa rebeldia.

"-Não! Você é uma gracinha mas é muito jovem e eu sou muito mais velho além do mais já tenho namorada!"

Ela ignorou minha resposta e ficou por ali sem graça, fingindo, por um minuto, que olhava a capa de um disco e se foi sem dizer uma palavra.

No próximo dia, outra vez quase na hora de fechar a loja, Verônica entrou na loja arrastando um sapatão de salto alto, ela quase não conseguia andar direito. Usava um casacão que parecia da mãe dela e estava com o rosto todo rebocado de pintura. Com os lábios vermelhos de batom e as bochechas avermelhadas de ruge ela parecia mais uma bonequinha.

Ela parou na minha frente, olhou-me dentro dos olhos com uma carinha sedutora e ficou esperando uma resposta. Fiz uma cara séria e falei bem alto:

"-NÃO!!!"

A garota fez um bico e puxando o casacão como se fosse uma capa deu-me as costas saindo com a cabeça empinada, batendo os pés como se fosse a Rainha da Inglaterra.

Depois disto, Verônica quando passava perto da loja caminhava pelo outro lado da rua. Sempre, de longe, buscando-me dentro da loja com uma expressão de revolta estampada no rosto.

Não demorou muito para Verônica sumir de vez e tornar-se apenas uma lembrança distante.

15 anos depois...

Depois de 7 anos de casado, havia terminado meu matrimônio não fazia muito tempo. Morava com dificuldade e de favor numa casa cheia de cupins no Bairro da Barra Funda que meu pai tinha posto à venda mas não conseguia vender. Minha mobília consistia em um colchão de solteiro, algumas centenas de livros, meu equipamento de som e meus discos de rock, raridades musicais que definhavam dia-a-dia pois na falta de dinheiro eram vendidas como forma de sobrevivência. A situação era tão precária que não tinha nem fogão nem geladeira.

Numa noite de sexta-feira, com um rolo de cartazes do Projeto São Power de baixo do braço e um rolo de fita crepe adesiva encaixado no pulso como se fosse uma pulseira, perambulava pelo Bairro do Bexiga indo de bar em bar pacientemente colando meus cartazes.

Nesta noite, vendo os casais de namorados passeando, o povo jantando nos restaurantes, todo mundo aparentemente feliz e tendo vidas "normais" deixou-me depressivo e revoltado. Não muito longe do Bar Piu-Piu, encostado numa parede, fiquei ali parado observando o movimento das pessoas, subindo e descendo, com uma expressão amargurada no rosto.

Estava ali, encostado, sonhando acordado com dias melhores, quando minha atenção foi despertada por esta mulher jovem que subia a ladeira acompanhada de um rapaz. Ela seria meio gótica para os padrões de hoje mas, na época, para mim ela era apenas uma punk de boutique, uma burguesinha punk. Cabelos pretos bem curtos e espigados, mini-saia preta, meias pretas tipo teia de aranha, botas pretas, olhos pintados, batom, enfim o serviço completo! Ela fazia um tipo meio rebelde, exatamente do tipo que eu gosto. O rapaz que a acompanhava não tinha nada à ver, não combinava, não era punk, não era rock, não era nada. Um tipo absolutamente comum. A gata caminhava e, já de longe, olhava atentamente para mim.

À princípio fiquei em dúvida. Estaria aquela gata realmente olhando para mim? Olhei dos lados. Não havia dúvida! Então, pensei comigo mesmo:

"Laranja na beira da estrada, ou está bichada ou tem marimbondo por perto. Estas garotas punks são assim mesmo, gostam de provocar quando estão perto dos seus homens que é para ver o pau rolar. Desta vez vai ser diferente, não é uma gangue, será um contra um! Eu estou lá embaixo mesmo, vou chutar o balde e quebrar tudo!".

A gata foi aproximando-se, desencostei-me da parede, fui tomando posição e ficando no caminho dela. Fixei meu olhar nos olhos dela. Dava para perceber o seu parceiro sentindo-se desconfortável. Quando chegou bem perto, ela perguntou-me em inglês:

"-What is your name?" (qual é o seu nome?)

"-Celso Barbieri." Respondi, numa mistura de surpresa e curiosidade.

"-Você é o irmão do Jorge, filho do Professor Demétrio? Agora ela falava em português.

"-Sim sou eu e quem é você?" Repliquei.

"-Sou a Verônica! Lembra-se de mim? Ela sorria enquanto eu olhava seu rosto e reconhecia por trás daquela mulher aquela garotinha de uns 12 anos...

"-Você não disse que estava com fome?" Interrompeu o acompanhante mostrando impaciência.

"-Me faça um favor! Entra neste bar aí e compra um cigarro para mim enquanto eu despeço-me aqui do Barbieri!" Não foi um pedido, foi uma ordem! O rapaz correu insatisfeito para dentro do bar.

"-Eu moro em New Jersey, USA desde aquela época, fui morar com a minha tia. Estou aqui em São Paulo só por um mês. Depois te conto tudo. Este é o meu telefone me liga por favor." Seus olhos falavam mais do que sua boca.

Minha situação financeira era péssima, estava totalmente sem dinheiro, ligar para ela naquele fim de semana estava fora de cogitação. Mesmo porque, não queria mostrar que estava muito interessado. Toda vez que tinha mostrado que gostava de alguém, tinha perdido. Desta vez iria dar uma de difícil.

Na terça-feira seguinte, lá estava eu, como de costume, na Devil Discos conversando com o Chicão quando lembrei-me do telefone. Liguei imediatamente, direto da loja, para a gata que respondeu ansiosa:

"-Porque você não me ligou antes? Passei o fim de semana sentada do lado do telefone! Onde você está... não saia daí... estou pegando um táxi!"

Meia hora depois nós nos encontrávamos na Galeria do Rock e meia hora mais tarde já estavamos em minha casa, no colchãozinho de solteiro, fazendo amor.

Tudo indicava que Verônica guardava, por muitos anos, este desejo adolescente e desta vez, definitivamente, estava determinada a realizar suas fantasias. Agora, ela era uma mulher. A sua idade não seria um obstáculo!

PT e a Ford

Verônica tinha vindo dos Estados Unidos como secretária de uma professora universitária norte americana que estava no Brasil à convite do PT. Esta professora tinha feito um trabalho de pesquisa na Ford de lá, que estava implantando um sistema sofisticado de controle dos trabalhadores baseado num sistema em uso no Japão. Esta técnica, que favorecia o grupo em detrimento do indivíduo era fria e calculista, destruindo a noção de "comissões de fábrica", isolando e excluindo os representantes do sindicato dentro da empresa. Esta professora universitária veio preparar o PT para que pudessem orientar os sindicatos a combater esta nova tentativa de controle dos trabalhadores que seria implantada na Ford brasileira.

A professora juntamente com sua secretária estava hospedada num bom apartamento nos Jardins. Verônica tinha um carro do ano à sua disposição e sua situação financeira comparada com a dos brasileiros estava ótima.

Do dia para a noite, melhorei de vida. Passei a comer em restaurantes caros, dormir numa cama "king size" e com uma gatinha carinhosa do lado. Que mais poderia esperar!

Era algo mágico e impossível. Parecia um sonho, andava nas nuvens. Eu sabia que aquela mordomia ia durar só um mês. Além disso parecia que existia uma diferença social muito grande entre nos dois. Verônica aos 12 anos perdera a mãe e logo depois o pai e tinha sido mandada para os Estados Unidos para viver com a tia. Esta infância trágica claramente explicava, na época, a sua rebeldia e carência afetiva. Agora, depois de muitos anos ela voltava para o Brasil e talvez, eu fosse a única lembrança boa daquele período intenso da sua vida. A verdade é que nós eramos total estanhos, unidos por circunstâncias do destino. A chance de nós, vivendo tão longe um do outro, depois de 15 anos, nos encontrarmos no Bairro do Bexiga levaria um matemático a fazer um cálculo probabilístico envolvendo dezenas e dezenas de números. Tão difícil quanto ganhar na loteria.

Verônica não tinha mudado muito em certos aspectos. Continuava hiperativa só que agora, fumava um cigarro atrás do outro. Continuava meia louquinha e fazia coisas inesperadas de surpreender qualquer um. Na primeira segunda-feira depois que fizemos amor, estava, à noite, como de costume, no Teatro Mambembe quando uma perua parou em frente do teatro e foi presenteado com um buquê de cravos vermelhos. Nunca tinha ganho flores na minha vida inteira! Na semana seguinte, no mesmo local, à noite, outra perua parou e, desta vêz, fui presenteado com um jantar.

O Fantasma

Na terceira semana, nesta segunda-feira, estava, como já foi dito no começo deste conto, acertando com os donos do teatro, o pagamento do microfone roubado. Não tinha tido tempo de jantar, tinha tido um show muito problemático e estava, com uma dor de cabeça de arrebentar. Foi quando o telefone tocou:

"-Oi querido, quero que venha direto para cá! Estou com saudades!" Disse no seu tom imperativo.

"-Lamento baby, mas tive um dia péssimo, muitos problemas..." Não podia falar muito pois os donos do teatro estavam ali na frente.

De qualquer forma, nem terminei de falar e foi interrompido por ela:

"-Não aceito não como resposta! Toma um táxi que eu pago! Venha já!" Insistiu.

"Você tem por aí Aspirina?" Perguntei.

Ela respondeu afirmativamente. Desligei o telefone. Entregei, com pesar, minha parte da bilheteria para os proprietários do teatro e sai correndo atrás de um táxi. Nem tudo estava perdido! Pelo menos tinha uma garota me esperando!

Quando cheguei no apartamento que era no nono andar do prédio, encontrei-a com uma expressão preocupada. O computador estava ligado...

Fomos para o sofá da sala. Verônica, enquanto acariciava suavemente meu cabelo, disse:

"-Desculpe-me querido, mas não posso dar atenção para você agora. Depois que te liguei, caí na realidade. Estou aqui à trabalho e se hoje não traduzir pelo menos umas duas ou três páginas deste livro ela me matará..."

Verônica referia-se à professora quando subitamente o trinco da porta do apartamento deu um estralo. Nós dois, ao mesmo tempo, olhamos para a porta que se abriu lentamente com um leve rangido. Ficamos olhando em silêncio mas, ninguém entrou. Não havia ninguém.

Em voz alta, falei como que para mim mesmo:

"-Se veio por bem, que seja bem-vindo!" Eu não sou do tipo místico. Muito pelo contrário, sou mais do tipo inquisitivo, com uma mente científica, do tipo que duvida de tudo. A fala saiu da minha boca quase sem meu controle. Foi uma destas coisas bobas e impensadas que a agente fala quando não encontra nada apropriado para dizer.

"-Não diga uma coisa destas! Dá até arrepio! Falou assustada, ao mesmo tempo que levantava para fechar a porta garantindo-se, desta vez, que a mesma estivesse bem fechada.

Acompanhei-a sem jeito. Perto da porta, desculpei-me assegurando-a de que não existia razão para alarme e insistindo que não tinha tido nenhuma intenção de assustá-la. Examinei o trinco da porta e com um ar profissional dei meu veredicto:

"-Abertura Acidental!". Na verdade, como não consegui simular o acontecido novamente, não fiquei tão certo assim!

Enquanto desculpava-me, ela foi para a cozinha que era conjugada com a ampla sala e, de lá retornou com um copo d'água e duas Aspirinas.

Trocamos um beijinho reconciliador e fui para a cama. Verônica ficou trabalhando mais um pouco com a promessa de depois juntar-se à mim.

Sai da sala, por um pequeno corredor e logo à direita entrei no quarto. Neste corredor, à esquerda, imediatamente em frente à porta deste quarto, estava convenientemente localizado, a porta do banheiro. No fundo do corredor encontravam-se os outros dois quartos.

Dei três passos em direção aos pés daquela cama enorme e, num mergulho, me joguei...

Dor de cabeça, era uma grande conhecida minha. Dor de cabeça ou encefaléia, como também é conhecida, é o resultado da dilatação de minúsculas veias dentro do cérebro. O que bomba o sangue para elas? O coração!

Portanto, reduzindo a batida do meu coração, conseguia controlar a minha dor de cabeça.

Durante anos, tinha desenvolvido minha técnica pessoal para dominar esta besta. Duas aspirinas, escuridão, silêncio, exercício respiratório e relaxamento funcionavam sempre.

Deitei-me, olhando para o teto. Descruzei meus braços e pernas e deixei meu corpo afundar-se naquele colchão macio, como se fossem nuvens de algodão. Procurei pontos de tensão no meu corpo e fui ajustando-me na cama para evitá-los. Com a boca fechada, mantive o queixo livre sem deixar que os dentes do maxilar inferior se tocassem nos do superior. Respirando pelo nariz, enchi bem os pulmões e fui soltando o ar bem devagar. Conforme o ar saia do meu corpo, concentrei-me nos dedos dos meus pés, mandando um comando mental:

"Durma... Durma... Durrrrmmmmaaaa..... Está ficando quente.... formigando.... Durma..."

Já fazia este tipo de relaxamento à alguns anos e meu corpo já conhecia "o caminho a seguir."

O procedimento era simples, "desligar" meu corpo todo. Era possível "adormecer" até o nariz, a orelha e o couro cabeludo.

Uma sensação gostosa e tranqüila tomou conta. Agora totalmente relaxado podia ouvir à distância, um som abafado das teclas do computador lá na sala:

"-Tec, tec, tec te tec.... tec, tec, tec te tec...."

A porta do quarto estava aberta recebendo um pouco da claridade vinda da sala. Uma luz suave cinza azulada penetrava o quarto.

De repente, o som do teclado do computador parou. Com os olhos fechados senti uma mudança na luz e abri os olhos em tempo de ver Verônica discretamente e silenciosamente encostando a porta do quarto, deixando apenas uma fresta de mais ou menos um palmo de abertura. Ela pretendia entrar no banheiro em frente e como teria que acender a luz, certamente não queria perturbar meu sono. Ela entrou no banheiro e um pouco mais tarde o som amortecido da descarga pode ser ouvida acompanhada do som da maçaneta da porta do banheiro se abrindo.

Novamente com os olhos fechados, senti a variação da luz e os abri lentamente.

No escuro, numa penumbra cinza azulada, lá na porta estava ela. Ela era apenas um vulto indefinido. Queria ver seu rosto mas era impossível. Ela avançou na minha direção até meu lado, na cama. Na verdade, ela não andou na minha direção ela deslizou. Não havia aquele balanço natural de uma pessoa que caminha.

Por alguma razão totalmente inexplicável meu cérebro não funcionou. Sabia que não havia mais ninguém naquele apartamento. Era impossível não ser a Verônica.

Agora "ela" estava à apenas um metro de distância. O corpo era magro. A cabeça era meio alongada. Parecia que estava vendo as costas de alguém que tomou um banho e enrolou uma toalha branca na cabeça. No lugar do rosto, no escuro podia apenas ver variações de tonalidades como se fossem curvas do tecido.

Mesmo assim, meu cérebro não soava o alarme e eu esforçava-me para ver o rosto da Verônica.

Tinha cabeça, tinha ombro mas eu não conseguia ver os braços. Alguém com um lençol branco, fino e bem molhado caído sobre o corpo seria uma boa descrição.

Algo estava errado, muito errado e eu estava à um micro segundo de cair na realidade. Toda uma vida de racionalismo estava, dentro de mim, desmoronando-se como um prédio no meio de uma implosão. Meu sistema de auto-proteção estava trabalhando como um louco tentando processar aquelas informações contraditórias que chegavam tão inesperadamente.

De forma rapidíssima, aquele vulto subiu, como que flutuando e, foi parar em cima da cama. Sua cabeça chegava ao teto. Quase dois metros de altura. Até que enfim, os alarmes soaram dentro da minha cabeça. Um arrepio, subiu pela minha nuca levantando todo o seu cabelo no processo. Numa ação reflexa fechei os olhos ao mesmo tempo que meu corpo se contraiu e explodiu chutando aquele fantasma que desapareceu no meu piscar de olhos. Não tive tempo para pensar pois rolei com o meu corpo para a esquerda, cai da cama e sai correndo de quatro até chegar na porta onde consegui ganhar equilíbrio para ficar em pé e correr para a sala.

Já na sala, Verônica continuava compenetrada, digitando em frente do computador. Ela olhou para mim e perguntou casualmente:

"-Que foi? Você está melhor?" Ela referia-se a minha dor de cabeça.

Por outras razões, obviamente eu não estava bem! Minha dor de cabeça já não existia, tinha sido substituída por uma mistura de medo e confusão mental.

Nos momentos de tensão ou muita emoção, tinha descoberto ao longo dos anos que falar, repartir meus problemas, abrir o jogo, era uma forma muito beneficial de terapia. Portanto minha lógica naquele momento, fazia fundamental que contasse tudo o que acabava de presenciar.

Este foi um erro que custou-me caro. Neste exato momento perdi Verônica.

Depois que contei-lhe o acontecido. Verônica ficou, silenciosamente, olhando-me com uma expressão mista de surpresa e descrédito. Descabelado, com um rosto assustado, possivelmente, eu parecia um louco.

Imagino que, de repente, ela percebeu que o Barbieri "encantado" que ela conheceu quando ainda era quase uma criança e este homem "fora de si" ali na sua frente eram pessoas totalmente diferentes. A inocência havia acabado! Este relacionamento tinha sido um engano da parte dela. Eu era um desconhecido potencialmente perigoso.

Desde este dia já não fizemos mais amor. A relação esfriou-se e o dia da separação final que se aproximava pareceu para ela mais um alívio.

Ainda tentei, por algum tempo, em vão, reconquistá-la. Dentro da minha cabeça, na minha mente, incessantemente revivia o acontecido e pensava:

"A entidade não parecia malígna. Porque é que não tentei comunicação? Perdi uma oportunidade valiosa para ter umas respostas! Fui um covarde! Será que se acontecesse novamente eu seria forte o suficiente? Como? Se agora, tenho até medo de abrir os olhos no escuro do meu quarto. É uma pena que a Verônica não veja realmente quem sou eu. Que sou um ser humano que vivi uma situação extraordinária e que depois do ocorrido me questiono o tempo todo tentando entender o que realmente aconteceu. Que duvido até de mim mesmo. Será que eu trouxe algo comigo do teatro? Será que eu estava em um estado de relaxamento especial e querendo tanto que a Verônica entrasse naquele quarto, materializei-a de uma forma incompleta."

Estas são perguntas que acho jamais poderão ser respondidas e que carregarei até o final da minha vida. Foi a primeira vêz que tive uma experiência deste tipo e, desde então, nunca mais vi nada similar...

Verônica voltou para New Jersey e nunca mais recebi nenhuma comunicação dela.

Depois de quase 20 anos, já morando em Londres, foi contatado, via e-mail, pela sua irmã mais velha que vive no sul dos Estados Unidos perto do México. Por ela fiquei sabendo que hoje em dia Verônica é casada e tem dois filhos.

Quanto ao trabalho da Ford, num servicinho de espionagem muito bem intencionado, passei o estudo feito por esta professora para o Partido Comunista Brasileiro.

Por Antonio Celso Barbieri

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