Never Mind The Pistols… Here`s the Filthy Lucre

Filthy Lucre: Foto Promocional 1996
Never Mind The Pistols… Here`s the Filthy Lucre
Escrito por Antonio Celso Barbieri
Sex Pistols: 1996
Acabando com os rumores que circulavam pelo mundo, os quatro membros originais se reuniram no dia 18 de março de 1996, no mesmo lugar em que eles detonaram pela primeira vez a revolução Punk, ainda em 76, no 100 Club , para anunciar o começo de uma tour mundial, com início marcado para o dia 21 de junho na Finlândia (Mesila Festival), Alemanha (Munich Hall 55), para depois passar por Londres e pelo resto do mundo até o final do ano. Um álbum ao vivo será lançado em agosto, através da Virgin Records, a mesma gravadora que segurou as pontas do grupo nos momentos difíceis.

Filthy Lucre: Coletiva com a imprensa no 100 Club no dia 16 de março de 1996
Aproveitando a ocasião especial, também foi relançado o álbum Never Mind the Bullocks... Here’s the Sex Pistols (Não importe-se com os testículos... aqui estão as Pistolas Sexuais), tendo outro Cd como bônus, o conhecido pirata Spunk.

Mas a verdade é que no começo as coisas foram bem piores, pois à 20 anos atrás os códigos de moral e conduta eram bem mais rigorosos. Musicalmente, a banda surgiu como um contraponto ao som sinfônico e pomposo das bandas chamadas progressivas (Yes, ELP, etc.), trazendo uma atitude de rebeldia política ao status quo vigente. Anarquia era a palavra de ordem. Não é à toa que o primeiro single da banda chama-se Anarchy in the UK (Anarquia no Reino Unido).
Sex Pistols colocou tudo em cheque e como um rolo compressor não deixou nada em pé. A reação imediata da imprensa e da comunidade musical foi de desgosto. O grupo Pat Travers fez um desafio público, dizendo que tocaria com os Pistols em qualquer lugar e a qualquer hora, com toda a grana revertida para caridade. E mais, o baixista só tocaria com 2 cordas, o próprio Pat só colocaria 3 cordas na guitarra, e o baterista usaria apenas a caixa, o chimbal e um prato, e que mesmo assim, prometiam que a performance musical deles seria superior a dos Pistols.
Mesmo assim, e corajosamente, a Virgin resolveu arriscar. Eles lançam o álbum de estréia, estouram e repercutiram no mundo inteiro. Seus shows foram marcados pela violência e agressividade. E depois de um ano e meio, Johnny (então) Rotten, resolveu cair fora, o novo baixista Sid Vicious, se envolveu com heroína, com a morte da sua namorada e, suididou-se pouco tempo depois. Foi o fim. O resto, é assunto para os historiadores de arte contemporânea, sociólogos e intelectuais divagarem.

Messila Festival na Finlândia no dia 21 de junho de 1996 © Foto: Soile Kallio
Filthy Lucre Tour - Finsbury Park
Londres, 23 de junho de 1996
O SHOW
Imaginem só! Todos os punks daquela época, voltando a se reunir 20 anos depois para assistirem a sua banda preferida. Acrescente a isso tudo um dia maravilhosamente ensolarado, e o pano de fundo estava criado para um dia memorável. Organizado por uma das mais poderosas produtoras da Inglaterra a Mean Fiddler, o concerto na realidade era um mini-festival, tipo uma prévia do seu famoso e gigantesco Phoenix Festival, que acontecia anualmente em julho, no interior da Inglaterra em Stratford.
O show começa ao meio-dia com a banda Gold Blade, usando roupas cintilantes, bem ao modelito Shanana (Woodstock), e um som que misturava Punk, Soul, Funk e Rock’n'roll. Não agradaram. O 3 Colours Red, que veio a seguir, teve mais sorte, com um show conciso, preciso e melódico, levantando a galera. Na seqüência vieram as garotas do Fluffy, apadrinhadas pelo Dave Ghrol líder da banda Foo Fighters, com um set animado e energético, num clima bem punk, onde o destaque ficou para a voz rouca da vocalista Amanda Rootes.
Agora, quando o Stiff Little Fingers entrou no palco, o local pegou fogo! Os caras detonaram um repertório mais “pau” do que o show que assisti deles no ano passado, e o público, ávido por punk, respondeu à altura. Pena que logo em seguida levaram um balde de água fria, com a apresentação da banda 60ft Dolls, que fez um show enxuto mas sem conseguir conectar-se com a platéia. A adrenalina voltou a subir com a banda Buzzcocks, que deram tudo de si, mostrando que o dia era dos velhos.
Confesso que estava muito curioso para ver Skunk Anansie e não me decepcionei. Thrash, Soul, Blues e Punk, coadjuvado pela fantástica performance andrógina da cantora negra Skin, com sua voz aguda, parecendo uma gata no cio. Por sua vez, a próxima atração, Wildhearts não deveria estar no show, pelo menos não nessa ordem de apresentação. O som pauleira do grupo, com toques punks, passou desapercebido pelo público, a essa hora já devidamente alcoolizado. Chega a hora do pai do punk, Iggy Pop. O homem, movendo-se como um lagarto, já entrou sem camisa e fez tudo o que se espera de um show deste calibre, chegando, inclusive, à descer até a galera, dando o maior trabalho para segurança.
Com o fim do show do Iggy, e a movimentação do palco ficou frenética. Vagarosamente uma tela negra foi sendo erguida, tampando toda a frente do palco. A música de fundo foi trocada e o mal gosto tomou conta. Então passamos a ouvir sons mais apropriados para boates gays, e os punks, em vão, urravam em protestos ou entoavam cantos parecidos com o que ouvimos em estádios de futebol. Depois de uma espera que pareceu interminável, o som parou e, inesperadamente entrou no palco o capitão da seleção de futebol inglesa, Steven Pearcy que foi ovacionado como herói, pois, não fazia muito tempo que tinha redimido-se de um pênalti perdido na Copa do Mundo, pênalti este responsável pela desclassificação da Inglaterra. Bom, ele conseguiu o perdão do povo com uma cobrança perfeita na Eurocopa, eliminando a Espanha. Sem mais delongas, ele apresentou a banda, ao mesmo tempo em que o pano preto caia, deixando transparecer uma enorme tela plástica que mostrava uma colagem fotográfica em branco e preto composta pelas manchetes de dois jornais, Evening Standard e Daily Mirror, as duas manchetes faziam referências à banda e ao seu “lucro sujo”.
De repente, Johnny Rotten e companhia literalmente atravessaram pelo plástico, executando a música Bodies.
Por mais que eu me esforce, não conseguirei descrever o que presenciei. Imagine milhares e milhares de pessoas (cerca de 30.000) dançando e se batendo como os punks normalmente fazem. Tudo o que se possa imaginar voava de um lugar para o outro no espaço: calças, jaquetas, óculos, bonés, garrafas, tênis, etc. Ninguém ficou imune ao banho de cerveja, parecia que estava chovendo! Delírio total! Gente que eu nunca vi, me abraçando e me jogando de um lugar para o outro. O povo cantava todas as músicas em estado de êxtase. Apesar de tudo, nunca vi tanta civilidade e respeito (os punks brasileiros deveriam seguir o exemplo).

Filthy Lucre Tour, 1996
Eu pensei que a banda guardaria God Save the Queen para o final ou o bis, mas eles a despacharam rapidinho; Johnny estava mais irônico e sarcástico que nunca, e num dos intervalos disse: “Titio Johnny e os rapazes”, e voltando a referir-se a si mesmo disse: “Gordo 40 anos... e de volta!”. Foi então que a platéia começou a gritar em coro: “You fucking bastard!” . Ele voltou ao microfone com a ironia costumeira e respondeu: “Não sejam malcriados!”.
A banda estava afiadíssima, executando as músicas de forma impecável e num dado momento o vocalista se dirigiu à platéia com ar de satisfação: “Nada mal, hein?”. E, o guitarrista Steve Jones acrescentou: “Se vocês vierem algum repórter por aí, acertem ele!”. Confesso que me deu um frio na barriga e tive vontade de esconder meu bloco de notas, mas o povo levou tudo numa boa e a violência definitivamente não estava na agenda do dia (sorte minha!).
No final, a banda, num crescendo, executou Pretty Vacant, seguido de EMI , e saiu do palco, voltando em seguida para executar mais dois números, a incendiária Anarchy in the UK e Problems . O povo queria mais, e um segundo bis foi concedido com “No Fun”.
Terminado o show, minutos depois, enquanto caminhava em direção à estação do metrô, ainda podia sentir no ar a vibração do povo, que cantava e gritava.
Definitivamente foi um momento histórico inesquecível. Paradoxalmente, me veio a lembrança de que, naquele exato momento, do outro lado da cidade, estava rolando um outro show punk, cuja chamada publicitária era Never Mind the Sex Pistols. Here’s the UK Subs (Não importe-se com Sex Pistols - aqui está o Uk Subs).
Nota: A banda UK Subs, nome que significa alguma coisa como “Subúrbios do Reino Unido” sempre foi mais radical e proletária do que Sex Pistols.
|
Esta matéria é de autoria do Barbieri e foi originalmente escrita para a Revista Dynamite, tendo sido publicada na sua edição de agosto 1996. Copy Desk: Andrea Falcão Diagramação, Revisão e Atualização: A. C. Barbieri |
![]() |
| < Prev | Next > |
|---|
Comentários
Nostradamus (Posters e Panflet...
Olá Celso, O ano foi de 1985, dois dias em que o Rainbow bombou de gente. Na minha percepção foram os dois melhores shows da curta carreira da banda. Depois eu te envio mais material para seu arquivo. Abraço.
10.05.13 14:41
Por Guest
Vulcano: Escutem com exclusivi...
excellent
10.05.13 14:15
Por Guest
Barbieri: From Tokyo to Memphi...
Celso: Isso é coisa de quem não tem piano, como eu, que quando encontra um que pode tocar, acariciar, provocar, se encontra com essa parte de si mesmo que você comentou. É a busca, the quest, pela essência, pelo natural, pela música d'alma, do fundo do coração...relig are...innovare. ..ad eternum...é o rock das esferas! Barbieri comenta: É vero mister Zé Brasil! No meu caso eu espremi de todos os lados e realizei um grande sonho comprando um piano antigo, datado de 1929, o qual é justamente o re...
22.04.13 18:57
Por Guest
Os Anos 70: Capítulo II - Stoc...
Era muito bom , frequentei muito esta loja. Conheci muitas bandas uma da mais loucas foi a Banda FOCUS
08.04.13 12:12
Por Guest
São Power
Olá, boa noite! "Cai aqui" porque estava procurando matérias relacionadas a uma banda paulista dos anos 80, o Pozzeidon. Você tem gravação deles, é isso?! Abraço.
07.04.13 01:15
Por Guest
Lixo de Luxo: Projeto Metal, R...
Boa tarde! cara eu estava nesse show foi muito bom, só para informação sei o nome de algumas musicas, são elas, 1 Patamar dos sonhos , 3 Objetivo redemoinho e 4 Turma do rock. Poderia me enviar o arquivo em MP3. Grato.
05.04.13 19:56
Por Guest
John Lennon 70 anos: Edição Es...
lembrem-se que a música "how do you SLEEP" do John fazia ácidas referências ao ex-parceiro. Talvez tenha sido um trocadilho pra rebater, nada tão profundo.
18.03.13 22:32
Por Guest
Vulcano: Escutem com exclusivi...
Sounds crushing! Hail Vulcano!
16.03.13 11:19
Por Guest
Vulcano: The Man, The Key, The...
SIMPLESMENTE MARAVILHOSO, PAULADA DO INFERNO MUITO BEM DADA! ADOREI! (Juliana)
13.03.13 13:46
Por Guest
Vulcano: Escutem com exclusivi...
Fucking great!!!! Vulcano puro... Otimos petardos... Gostei dos vocais..parabén s Luizão... otima produção..
13.03.13 12:32
Por Guest
Vulcano: Escutem com exclusivi...
Muito bom, porradaria feita por quem sabe !! Underground metal na veia !!! Irei ddivulgar no meu blog GUARANÁ METAL ===>> http://guaranametal.blogspot.com.br/ . Abraço. H.Guaraná
12.03.13 21:39
Por Guest
Vulcano: Escutem com exclusivi...
Muito bom, agressivo, a cara do Vulcano! Boi.
12.03.13 15:19
Por Guest
Daniel Johnston, Arnaldo Bapti...
Conhecendo as obras de Daniel Johnston, Arnaldo Baptista e Kurt Cobain e mesclando suas loucuras além do limite permitido por essa sociedade hipócrita, passo a viajar pela frequência espiritual e me deparo por redemoinho explosivo não identificado que somente o senso criativo salva. Barbieri Responde: Amém!
02.03.13 16:00
Por lmarkoni Barreto
Barbieri na Internet
Olá, Mais algumas memórias: https://www.youtube.com/watch?v=92AQxUV22kE http://sergiopapagaio.blogspot.com.br/
25.02.13 17:56
Por Papagaio
Vulcano: The Man, The Key, The...
Outro grande trabalho gráfico! A parceria firmada entre Vulcano e Barbieri está mais forte do que nunca! A comunidade Metal agradece!
25.02.13 13:10
Por Luiz Carlos Louzada
Gnarls Barkley - Crazy (Louco)
Parabéns pelo o site,isso para nós apreciadores da boa musica internacional e muito importante.
17.02.13 01:30
Por Gildo Siqueira
Carta aberta à Jack Santiago
CELSO, HUMILDE E COLABORADOR. SEMPRE ATENTO AOS NOSSOS PEDIDOS E GUARDIÃO DA MEMÓRIA COMO MUITOS QUE DE FATO PENSARAM E AGIRAM. A TÍ MEU ETERNO RESPEITO. PAULÃO ATITUDE
10.02.13 18:59
Por
Free Tibet: A luta continua!
Eu gostaria de comprar camisa e adesivo para carro da organização. Como eu faço para comprar? Barbieri Responde: Caro Alexandre. Infelizmente não tenho conhecimento suficiente para responder à sua pergunta. Sugiro que visite os links que menciono no final desta matéria ou, melhor ainda, mande fazer uns adesivos bem bonitos e distribua gratuitamente para todo mundo :-) Um abraço!
08.02.13 15:25
Por
A Ferro e Fogo: História do Me...
Cara esse vocal era muito bom... quem conhece bem ele e o paulinho heavy ou o edu schultz procure eles pelo face que Vc acaba encontrando o aqua.... Abc valEu ae
07.02.13 13:01
Por
Rock & Política: Capítulo IV -...
Como roqueiro e comunista (ainda Hoje), tive muita honra de estar no showmício. Só lamento que o goldman tenha mudado de lado e hoje é de direita. Traiu nossa confiança.
07.02.13 02:31
Por


