Barbieri, Chição e Devil Discos

Ano 1986

No segundo andar das Grandes Galerias, também conhecida como Galeria do Rock em São Paulo, entre as várias lojas de discos alí existentes, duas lojas lideravam nas vendas.

Em primeiro lugar vinha a Baratos Afins do Luis Carlos Calanca e em segundo a Devil Discos do Francisco Domingos de Souza, o Chicão.

Era o tempo do vinil onde os sebos de disco tinham evoluído para "lojas de vendas de discos novos e usados".

O comércio das bolachonas pretas era uma arte onde o truque era comprar as raridades baratas e vendê-las por preços salgados.

A verdade é que havia uma competição surda na galeria onde a Baratos Afins tinha tomado a dianteira e começado produzir seus próprios discos.

Chicão obviamente não queria ficar para trás!

Era na Galeria do Rock, principalmente na Devil Discos e Baratos Afins, onde eu fazia contato e arrigimentava as bandas para os meus projetos (Projeto SP Metal, Projeto Metal, Rock & Cia, Projeto São Power, etc).

Eu era um produtor empresário sem escrítório e nem telefone que vivia perambulando de uma loja à outra na galeria. No meu íntimo eu tinha um título para mim mesmo; "O mestre da corda banda!"

Sabendo das intenções do Chicão, propuz o lançamento de uma coletânea de bandas baseadas nas gravações dos shows que eu possuia. Eram gravações pobres, feitas em fita K7 e gravadas nos shows direto mesa de som (de uma saída de retorno para o palco).

Então, em 1986 o primeiro lançamento do selo Devil Discos chamado São Power mostrando 8 bandas paulistas de rock pesaso foi preparado. As bandas Viper e Korzus foram convidadas mas recusaram-se a participar.

Claramente meu projeto não estava à altura de bandas do calíbre do Viper e Korzus mesmo porque a idéia era docu

São Power - Frente
São Power - Verso
mentar algumas bandas que praticamente já haviam acabado. A arte da capa foi de minha autoria baseada em uma ilustração de Bruce Pennington extraída da revista de ficção científica inglesa Science Fiction publicada em 1974.
O Selo

Quase ninguém sabe que o selo da gravadora Devil Discos foi criado por mim quando do lançamento do albúm São Power em 1986. O selo foi fruto de uma colagem que fiz mostrando uma mão que usa no pulso um bracelete de tachas e, segura uma furadeira elétrica que, por sua vez, perfura a letra "D". A mão empunhando a furadeira elétrica foi recortada de uma foto do Robert Halford (Judaz Priest) onde ele está vestido de padre (priest) apontando a furadeira para a própria cabeça num gesto insano. O trabalho de tipografia foi feito usando Letraset (decalques gráficos transferíveis). Este selo, depois ganhou mais popularidade porque o Chicão acabou adotando-o como logo, pintado-o na placa na frente da loja.

Bom, a tiragem do album São Power foi limitada à 1.000 cópias e, as vendas mostraram-se muito fracas. (hoje o album está esgotado e fora de catálogo).


Korzus & Devil Discos

Numa tarde, o Chicão desabafou: "Se a gente tivesse incluído o Korzus, ja teríamos vendido tudo!"

Então, sugerí ao Chicão que oferecessemos ao Korzus um album só deles. O Korzus tinha participado com duas músicas no LP coletânea SP Metal II lançada em 1985 pela Baratos Afins. O Korzus estava "engavetado" na Baratos Afins com esperança da promeça do lançamento de um album pela gravadora.

À meu ver, estava claro que o Luiz Carlos Calanca preferia investir no metal clássico do que no black metal radical e demoníaco que a banda fazia na época. A verdade é que a imprensa estava (e está) infiltrada pelos "poposos" e o rock pesado nunca teve espaço nos jornais, nas rádios e TVs (com raras excessões!). Convencí o Chicão que o futuro album Korzus ao Vivo deveria ser um lançamento para preencher um espaço vago, mantendo a chama da banda acesa até que ela tivesse tempo para gravar seu primeiro albúm de forma correta.

Disse que certamente o Korzus aceitaria lançar o album Korzus ao Vivo se, além de um incentivo financeiro, apresentássemos a proposta como parte de um pacote maior onde a banda tivesse perspectiva de crescimento.

Entrei em contato com a banda. Passamos por um período de negociação que culminou com a assinatura do contrato na minha casa com a presença de todos os envolvidos mais o advogado do Chicão. Convem lembrar que, obviamente a cerimónia terminou com o povo selando a coisa com a famosa passagem na roda do "cachimbo da paz".

A arte da capa também é de minha autoria e foi baseada num detalhe de uma ilustração feita por E. M. Clifton-Day também extraída da revista inglesa Science Fiction publicada em 1974.

Korzus ao Vivo foi o primeiro de vários albuns lançados pelo Korzus neste selo. Foi com o álbum Korzus ao Vivo que eu ganhei pela primeira vez algum dinheiro com rock. Foi o suficiente para eu comprar minha passagem para a Europa e cair fora.

Korzus ao Vivo - Frente
Korzus ao Vivo - Verso
Por A. C. Barbieri