ROCK & POLÍTICA Dalam e o Jornal do Cambucí A Praça do Rock começou como fruto dos sonhos do Dalam Junior, um músico local. Dalam organizou com o apoio logístico do Jornal do Cambucí um encontro com um grupo de produtores e representantes de bandas ligadas ao rock de São Paulo. Como eu era um produtor bem em evidência naquele período, também fui convidado. Acabei sendo o apresentador do evento. A Praça do Rock acontecia durante a tarde no último domingo de cada mês, no palco da Concha Acústica próximo ao lago que existe dentro do Parque da Aclimação.
A politicagem O presidente da Associação do Bairro do Cambucí era partidário do antigo PDS que era o partido da direita. A Associação do Bairro do Cambucí nunca tinha oferecido nenhum obstáculo à Praça do Rock. O presidente desta associação morre e na luta da sucessão assumiu o representante do PMDB local. Cabe lembrar, que o PMDB tinha sido o “guarda-chuva” que abrigou no tempo da ditadura militar as esquerdas brasileiras. Todo o pessoal do PDS que fazia parte desta associação renunciou e aproveitando uma nova lei que permitia que fossem criados Associações de Usuários de Parques, formaram a Associação dos Usuários do Parque da Aclimação. Este povo politiqueiro que provavelmente nunca tinham posto os pés no Parque imediatamente decidiram que a Praça do Rock tinha que acabar pois estava, entre outras coisas, destruindo o equilíbrio ecológico do parque. Tinham os motoqueiros destruindo a grama, os bêbados, os maconheiros e além do mais todo aquele barulho ia assustar os passarinhos e os coitadinhos não iam mais procriar! Na verdade, o problema não era tão grave assim e facilmente solucionável. Além do mais, o sistema de som estava direcionado para o lago. Quanto aos passarinhos, se eles não gostassem de rock, tirando as 5 horas de shows uma vez por mês, eles normalmente teriam muito tempo para trepar! Há! Coitado dos peixinhos do lago! Inesperadamente, com poucos dias de antecedência, já com toda a divulgação feita pela imprensa, ficamos sabendo que o DEPAVE Departamento de Parques e Áreas Verdes tinha vetado a Praça do Rock e a prefeitura tinha tirado o suporte.
“-Quem são vocês?” Perguntei curioso. “-Nós somos do PCB, Partido Comunista Brasileiro.” Um deles respondeu e continuou: “-Barbieri, você tem alguma experiência ou participação política?”.
“-Claro Barbieri! Só queremos ajudar! “ Foi a resposta geral. Não sei se foi verdade ou mentira mas, pelo que me disseram, na mesma noite caiu o diretor do DEPAVE. A Praça do Rock voltou mais forte, com mais equipamento de Som (coitado dos passarinhos!) e nós fomos recebidos pelo diretor da Paulistur que era o órgão responsável pela área de turismo da capital. No primeiro show da volta, vindo da platéia, veio aquele sentimento de vitória, confiança e amizade. Era como se eu estivesse sendo energizado e tivesse ficado mais poderoso. Era como se de agora em diante tudo fosse possível. Evidentemente eu deixei claro para a platéia que a vitória era deles. Na verdade era mesmo! Para minha surpresa, meu sucesso foi recebido com muita desconfiança pelo Jornal do Cambucí e também alguns representantes das bandas. Agiam como se eu tivesse uma segunda intenção guardada em algum lugar secreto. A Paulistur pisa na bola Nesta reunião nos escritórios da Paulistur fomos perguntados se existia algum outro lugar que nós quisessemos promover shows. Imediatamente sugeri a Praça da Sé, um lugar que eu sonhava em ver um concerto de rock à muito tempo. O diretor da Paulistur aceitou e naquele mesmo momento marcamos a data do evento. Com a divulgação feita, no dia do show, na Praça da Sé, cadê o palco, cadê o equipamento de som. Aparentemente, na noite anterior toda a aparelhagem da Prefeitura tinha sido desviada para a festa carnavalesca para a coroação do Rei Momo. Sem um aviso prévio a Paulistur já de início mostrava total desrespeito para com o pessoal do Rock. Vendo aquela massa humana muito maior do que a que compareceu no Parque da Aclimação, revoltado, organizei outra passeata. Desta vez, paramos o centro da cidade, bloqueamos a Rua Direita, Viaduto do Chá e terminamos na frente do Teatro Municipal. A Rede Globo apareceu e o protesto foi transmitido na TV obrigando o diretor da Paulistur a fazer uma apologia pública na emissora. Enquanto isto, minhas relações com os organizadores da Praça do Rock se deteriorava. O Jornal do Cambucí era filiado ao PT que seguia a linha do Trotsky e, naquela época o PT não fazia associação com ninguém. Não existia meio termo. Para o PT se acabar com a pobreza significasse apertar a mão de alguém do PCB que seguia a linha do Marx e do Lennin então, podem ficar certos de que o povo morreria de fome. Enquanto isto a Paulistur que era um cabide de empregos composto de macacos velhos e raposas políticas já estava movendo os seus pauzinhos nos bastidores. Para que colocar estas bandas de rock barulhentas e desconhecidas quando poderiam se coligar com as gravadoras multinacionais e colocar seus medalhões pop povão para tocar e vender discos. Certamente tinha muito dinheiro para ser feito com alianças de patrocínio. O negócio era cortar de vez o pessoal do Cambucí roubando o nome “Praça do Rock” e levando o evento lá, bem distante, para o Parque do Carmo. A saída do Barbieri e o fim da Praça do Rock O Jornal do Cambucí e a os organizadores da Praça do Rock estavam mais preocupados comigo. Muito embora eu nunca tenha citado o nome de nenhum partido político no palco, numa reunião feita sem a minha presença foi decidido que eu estava proibido de falar de improviso e só poderia ler textos por eles aprovados. Entre os presentes nesta reunião, segundo fui informado, estava o guitarrista Hélcio Aguirra que era na época membro da banda Harppia e que logo sairia para formar a banda Golpe de Estado. Alias, não foi nenhuma surpresa porque, para mim, Golpe de Estado sempre foi coisa da direita. Por falar em Hélcio, alguns meses mais tarde quando era candidato pelo PCB. No cartaz do show do Projeto São Power no qual se apresentava o Golpe de Estado, debaixo do meu nome como produtor do evento mencionei bem pequeno; Vote Celso Barbieri para Deputado Estadual PCB. Então, recebi uma ligação do Hélcio que ligava para cancelar o show e dizer, nas suas palavras, que “não tocava em show de comunista”. Eu disse que, a publicidade já estava feita mas que não seria problema arrumar outra banda para o show. Disse também que subiria no palco e diria a verdade. Que o Golpe de Estado não tinha vindo porque não tocava em show de comunista. Depois do que disse o Hélcio concordou em tocar e no meio do show ficou insistindo para a platéia que eles não tinham nada à ver com política. Curiosamente bandas tão importantes da época como o Viper e o Korzus nunca tiveram este problema. Mais tarde, 13 bandas se ofereceriam para tocar no meu comício de despedida na Praça da Sé. Obviamente, não pude aceitar a pressão e censura feita pelos organizadores da Praça do Rock e, demiti-me. Como esperado a Praça do Rock, agora comandada pela Paulistur mudou-se para o Parque do Carmo e as bandas de rock pesado na sua grande maioria foram excluídas. Só algumas bandas antigas tipo Made in Brazil tiveram chance. Infelizmente, o sonho do Dalam acabou aí. Não deixem de ler os outros capítulos desta história:
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por A. C. Barbieri |