Luís Carlos Prestes -Leitura Importante

LUÍS CARLOS PRESTES
Capítulo IV
Parte final

Em entrevista concedida à Folha de S. Paulo em agosto de 1987, Prestes disse que, em sua opinião, não existem mais partidos de esquerda no Brasil, porque, os que assim se denominam, "não lutam por causas revolucionárias. O PCB e o PCdoB, de comunistas só têm o nome, pois apóiam a transição do governo Sarney. Já o PT e o PDT são partidos burgueses, porque não têm a ideologia do proletariado, mas uma ideologia da classe dominante, embora independentes do governo federal".

Perguntado sobre qual seria sua opinião sobre a glasnost (abertura política) implementada pelo líder soviético Mikhail Gorbachev, Prestes se disse favorável a ela, já que o socia-lismo no país se encontrava inteiramente consolidado. As medidas que eram tomadas eram de precaução contra a penetração da ideologia burguesa. Diante disso, não acreditava que as possíveis resistências internas e de outros países do bloco comunista contra a glasnost pudessem prevalecer.

Ainda nesse mesmo mês de agosto, participou de um debate promovido pelos centros acadêmicos 22 de Agosto e Leão XIII, na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. Na ocasião, voltou a criticar a Assembléia Nacional Constituinte, dizendo que a nova carta seria a mais reacionária da história da República, pois o relator da Comissão de Sistematização, deputado Bernardo Cabral (PMDB-AM), não incluíra no seu projeto de Constituição todos os artigos progressistas. Em setembro seguinte, recebeu o título de cidadão emérito de Porto Alegre, sua cidade natal, outorgado pela Câmara Municipal.

Em outubro, ao fazer uma palestra sobre a conjuntura política brasileira em São Luís do Maranhão, voltou a criticar os partidos comunistas, bem como a Constituinte, por ele considerada "comprometida com as elites". Mesmo desiludido com a política, Prestes disse que continuaria pregando até a morte a importância da classe operária no contexto nacional.

Em janeiro de 1988, voltou a ser homenageado em Porto Alegre pela passagem dos seus 90 anos. No seu discurso de agradecimento, sempre fiel à sua retórica revolucionária, disse que, "pelo quadro atual, a revolução socialista não tem como acontecer, porque falta, à frente da classe operária, um partido revolucionário armado da teoria marxista-leninista, falta organização sindical à classe operária e democracia, que só existe para uma elite".

Ao participar de um ato organizado pela CUT na praça da Sé, em São Paulo, em comemoração ao 1º de maio, Prestes voltou a pregar a luta armada "como único meio de se atingir a revolução socialista no Brasil", mesmo sabendo da impossibilidade de tal fato acontecer, como enfatizara em seu pronunciamento em Porto Alegre em janeiro desse mesmo ano. Acusou ainda as Forças Armadas de comprometerem o déficit público brasileiro, com o crescimento de mais de 500% do seu orçamento para aquisição de armamentos.

Entre as muitas homenagens e tíltulos honoríficos que lhe foram prestados e outorgados, um, porém, lhe foi negado: o de cidadão honorário do município gaúcho de São Borja. Os vereadores do PDT, partido que passou a apoiar em todos os pleitos, desde 1982 e que constituíam a maioria na Câmara Municipal, alegaram que, durante grande parte de sua vida, Prestes foi feroz adversário do ex-presidente Getúlio Vargas, o filho mais ilustre daquela cidade.

Opinando sobre a crise econômica por que passava o país, Prestes defendeu o socialismo como solução para este problema brasileiro, pois ele "não tem, nem pode ter, solução dentro do regime capitalista". Segundo Prestes, tal crise é própria do sistema "capitalista dependente", e só pode ser resolvida com a substituição do capitalismo por outro sistema que abra caminho para o socialismo. Embora achando que, para isso, seria necessária uma revolução socialista, voltou a reconhecer a impossibilidade de ela acontecer no Brasil, pelo despreparo da classe trabalhadora e do operariado em geral.

Em visita à Assembléia Nacional Constituinte em agosto de 1988, o ex-secretário-geral do PCB mostrou que havia reformulado sua opinião quanto à nova Carta e elogiou as conquistas sociais asseguradas por ela, mas demonstrou, entretanto, ceticismo quanto à aplicação das mesmas. Na oportunidade, criticou o tratamento dado aos militares na nova Constituição, que, conforme dissera, "[continuariam] impondo sua tutela".

Nas eleições municipais de novembro desse mesmo ano, voltou a apoiar candidatos pedetistas, tendo participado ativamente das campanhas dos mesmos. No Rio de Janeiro, apoiou Marcelo Alencar; em São Paulo, o ex-deputado Aírton Soares, e em Porto Alegre, Carlos Araújo. Apesar do apoio de Prestes, apenas o candidato carioca conseguiu se eleger. Segundo justificou, tal apoio fazia parte, exclusivamente, de seu esforço para ajudar o ex-governador Leonel Brizola a se eleger presidente da República nas eleições do ano seguinte. O líder comunista se dispôs a mostrar ao eleitorado por que era "importante assegurar vitórias do PDT" no pleito municipal "para preparar a base para a eleição presidencial", conforme declarou. Por isso, iria às "portas das fábricas convencer a classe operária em quem deveria votar".

Embora tenha atravessado períodos de descrença sobre a eficácia do voto livre no Brasil, sobretudo quando, na Revolta Comunista de 1935, denominada Intentona, supunha que a conquista do poder dispensava a ida às urnas, aos 90 anos, Prestes já expressava um pensamento totalmente contrário. Para ele, que sempre falou em luta armada, "a luta pelo socialismo pressupõe o voto", pois este "continua a ser um importante instrumento de mudança". Coerente com essa nova maneira de pensar, condenou o boicote às urnas, reconhecendo que "o voto é um direito conquistado que deve ser exercido. Inutilizar o voto ou não votar seria dar uma grande causa para a direita, porque ela vai votar para derrotar a oposição".

Em janeiro do ano seguinte, em declaração à imprensa, Prestes criticou a candidatura do deputado federal Roberto Freire (PE) à presidência da República, classificando-a de "caricata e carnavalesco", e que o PCB não tinha votos que respaldassem uma candidatura própria.

Em dois artigos escritos para a Folha de S. ---Paulo em junho e julho de 1989, Prestes defendeu a política implementada por Gorbachev na União Soviética. No primeiro ele dizia que "[era] contra os erros cometidos pelos sucessores de Lênin. Com a glasnost, que significa transparência, trata-se de restaurar a democracia socialista e de combater a falsificação da história. Com a perestroika, ou reconstrução, trata-se de acabar com a burocracia e com o centralismo da economia, criando a autogestão na indústria, o que exige enorme mudança na cabeça do trabalhador, que se [deveria] transformar no homem livre, responsável e construtor consciente da sociedade socialista. Não se [tratava], portanto, de volta ao capitalismo". E complementa no segundo artigo: "[Tratava]-se agora, através da perestroika, de voltar ao leninismo, de transformar o socialismo estatal e autoritário de Stálin e seus sucessores no socia-lismo leninista."

Embora publicamente defendesse as reformas de Gorbachev, chegou a confessar a um de seus filhos, Antônio João Ribeiro Prestes, a sua dificuldade em aceitar tais mudanças.

Por ocasião do lançamento do manifesto, no final de julho, de apoio à candidatura de Leonel Brizola à presidência da República, Prestes voltou a criticar o candidato do PCB, Roberto Freire, por estar fazendo discurso "de acordo com o gosto do auditório, sem mencio-nar um só documento do partido", e de que sua campanha estaria em "inteira discordância com a direção nacional do PCB".

A partir de então, empenhou-se arduamente na campanha de Brizola, viajando de Norte a Sul do país, inaugurando comitês de apoio que levavam o seu nome. No pleito de novembro, porém, Brizola foi derrotado por Fernando Collor e Luís Inácio Lula da Silva, que passaram para o segundo turno das eleições. Prestes, a partir de então, passou a apoiar o candidato que aglutinou todos os partidos de esquerda, participando com muito empenho da campanha de Lula.

Ao responder a uma pesquisa para o suplemento Idéias do Jornal do Brasil sobre se a polarização entre direita e esquerda no segundo turno era perigosa para o país, ele disse que não haveria tal polarização, "porque não [havia] esquerda no Brasil, e o PT [era] um partido burguês progressista. [Havia] um confronto político, mas não [havia] nada de perigoso nele. O que [havia], na realidade, [era] a necessidade de derrotar esses fascistas... para evitar um desastre para o país".

Realizado o pleito em 17 de dezembro, Fernando Collor confirmou o seu favoritismo, apontado pelos institutos de pesquisas, e venceu Lula com mais de quatro milhões de votos de diferença. Prestes, entretanto, ressentiu-se mais com a derrota de Lula no segundo turno do que com a de Brizola no primeiro, pois, o que ele queria mesmo era a vitória da esquerda, e a de um operário representaria muito para a luta que travou ao longo de sua vida de militância política. Segundo seus familiares, esta derrota lhe levou a um estado depressivo e, conseqüentemente, a uma certa debilidade física.

Em janeiro do ano seguinte foi internado numa clínica no Rio de Janeiro para tratamento de uma insuficiência renal e princípio de desidratação, segundo versão divulgada pela imprensa. Seu estado de saúde, no entanto, agravou-se no início de março, quando voltou a ser internado.

Faleceu no Rio de Janeiro no dia 7 de março de 1990. Nesta data a Justiça Eleitoral concedeu o registro definitivo ao PCB.

Era casado em segundas núpcias, desde 1953, com Maria do Carmo Ribeiro Prestes, com quem teve sete filhos.

Em julho de 1987 foi lançado o filme O país dos tenentes, de João Batista de Andrade, sobre o tenentismo, a revolta do forte de Copacabana, a Coluna Prestes e a Revolução Constitucionalista de 1932. No final de novembro de 1989, sua filha, a historiadora Anita Leocádia, defendeu uma tese de doutorado na Universidade Federal Fluminense (UFF) sobre a Coluna Prestes. Outra obra sobre Prestes, lançada em julho de 1990, foi o vídeo A última coluna, do jornalista Emílio Gallo, que reuniu depoimentos de Prestes selecionados de aproximadamente 30 horas de gravações realizadas pelo diretor ao longo de seis anos.

Alzira Alves de Abreu/Alan Carneiro

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