Luís Carlos Prestes - Leitura Importante

LUÍS CARLOS PRESTES
Capítulo III
Exílio: conversão ao marxismo

Ao chegar a La Gaiba, Prestes tentou encontrar emprego para todos os soldados da coluna até poder enviá-los de volta ao Brasil. Desse modo, assinou um contrato com a Bolivian's Concession Limited, companhia inglesa de colonização de terras bolivianas. O acerto previa que, como administrador, Prestes contrataria serviços para sanear uma zona do setor oriental boliviano. Para isso era necessário abrir estradas, demarcar terras e perfurar poços. Os ex-combatentes da coluna se espalharam por uma faixa de terra que abrangia La Gaiba, Puerto Suárez, San Carlos, Victoria e Santo Corazón. Nessa sua tarefa de saneamento das terras bolivianas, Prestes fez um estudo sobre as condições das fronteiras do Brasil na região, enviando-o depois ao Ministério das Relações Exteriores.

Mas nem todos os integrantes da coluna ficaram na Bolívia. Um grupo liderado por Miguel Costa e Isidoro se estabeleceu em Paso de los Libres, na Argentina, e um outro fixou-se em Montevidéu. A separação entre os veteranos da coluna - com Prestes, em La Gaiba - e o antigo quartel-general revolucionário - com Isidoro, em Libres - acentuou-se. Percebendo que a dualidade La Gaiba-Libres não agradava a Prestes, Siqueira Campos começou a articular a retirada do poder de Isidoro, iniciando em Montevidéu e Buenos Aires a implantação da mística de Prestes. Na verdade, não houve luta pelo poder, pois Isidoro não fazia objeção a que Prestes assumisse a liderança dos revolucionários.

Ao mesmo tempo em que trabalhava na Bolívia Co. Ltd., Prestes dedicou-se a leituras em busca de explicações para a situação de atraso e miséria que vira no interior brasileiro. A marcha pelo Brasil, segundo ele, o levou a compreender que problemas tão sérios não podiam ser resolvidos com uma simples mudança de homens na presidência da República. Em dezembro de 1927 foi procurado em Puerto Suárez por Astrojildo Pereira, secretário-geral do PCB, que fora incumbido de convidá-lo a firmar uma aliança entre "o proletariado revolucionário, sob a influência do PCB, e as massas populares, especialmente as massas camponesas, sob a influência da coluna e de seu comandante". Prestes, contudo, não aceitou essa aliança. Foi nesse encontro que obteve as primeiras informações sobre a Revolução Russa, o movimento comunista e a União Soviética, pois Astrojildo lá havia estado por um ano.

Ao retornar ao Rio de Janeiro, Astrojildo redigiu uma longa entrevista com Prestes, que foi publicada pelo jornal A Esquerda durante três dias consecutivos, a partir de 3 de janeiro de 1928. Nesse mesmo dia, os jornais que faziam oposição ao presidente da República Washington Luís comemoraram o aniversário de Prestes como o "Dia do Cavaleiro da Esperança", designação criada, segundo alguns, pelo jornal A Esquerda, e segundo outras fontes, por Siqueira Campos.

Por essa época, começavam a escassear recursos para a manutenção dos revolucionários.

Siqueira Campos sugeriu a obtenção de ajuda financeira da União Soviética através do Secretariado Sul-Americano do Komintern, sediado em Montevidéu, mas Prestes mostrou-se contrário à alternativa por considerá-la prejudicial à causa revolucionária. Apesar da oposição de Prestes, o contato foi feito, mas não teve resultados positivos porque, entre outros fatores, o representante soviético considerou as posições de Juarez Távora, porta-voz do grupo, negativas em relação ao comunismo.

Em 6 de abril de 1928 Prestes concedeu uma entrevista ao jornalista João Batista Barreto Leite Filho, de O Jornal, sustentando nessa ocasião que a guerra civil era o único meio de solucionar os problemas brasileiros. Considerava ainda que a rebelião popular era questão de tempo e que, naquele momento, deveria formar-se uma frente única de oposição para enfrentar o poder das velhas oligarquias.

Em dezembro de 1928 seguiu para Buenos Aires Alberto Araújo, emissário de Siqueira Campos, que então se encontrava escondido em São Paulo. Além de enviar obras marxistas e livros autografados de vários escritores brasileiros, como Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Plínio Salgado, Graça Aranha, Afonso Schmidt, Monteiro Lobato e outros, Siqueira propunha a Prestes que retornasse clandestinamente ao Brasil e passasse a residir em São Paulo. Caso não aceitasse a proposta, aconselhava-o a se transferir para Buenos Aires. Nessa ocasião, Prestes entregou a Alberto Araújo sua prestação de contas ao povo brasileiro. Todo dinheiro arrecadado nas várias subscrições populares - que havia sido enviado para os revolucionários da coluna - foi minuciosamente contabilizado e documentado. Esse documento foi divulgado através da Agência Brasileira, da qual Alberto Araújo era um dos diretores.

Na Argentina, Prestes trabalhou inicialmente em Buenos Aires, dedicando-se ao comércio. Negociava principalmente com café de São Paulo e madeira do Paraná, em especial cabos de vassoura. Em Santa Fé, passou a trabalhar como engenheiro na construção de uma avenida na capital. Foi por essa época que decidiu dedicar-se ao estudo do marxismo. A leitura de O Estado e a revolução, de Lênin, exerceu, de acordo com o seu próprio depoimento, enorme influência sobre seu pensamento, determinando uma revisão profunda em sua concepção de vida. A leitura do primeiro volume de O capital, de Karl Marx, lhe teria revelado o segredo da exploração capitalista, levando-o a tornar-se socialista. O pensamento lógico e a base materialista adquiridos com os estudos das ciências naturais na Escola Militar capacitaram-no a entender melhor os problemas sociopolíticos, permitindo-lhe compreender a inconsistência do reformismo.

Durante o período em que viveu exilado na Bolívia e na Argentina, Prestes foi procurado constantemente por revolucionários latino-americanos que buscavam orientação para conduzirem os movimentos revolucionários em seus países de origem. Rodolfo Ghioldi, comunista argentino, escreveu na época a seu respeito dizendo que "não só os brasileiros o buscam. Os uruguaios, os paraguaios, os bo-livianos o procuram. Os revolucionários sul-americanos o reconhecem como o maior, o admiram, esperam seu conselho". O encontro e a amizade de Prestes com Ghioldi permitiram a troca de idéias- e o aprofundamento das leituras que vinha fazendo. Durante os anos de 1928 e 1929, Prestes tomou parte em comícios da Liga Antiimperialista ao lado de Ghioldi, pronunciando discursos sobre a situação do Brasil, nos quais mostrava a necessidade de uma revolução de caráter antiimperialista e agrário.

Em maio de 1929, segundo Prestes - ou junho, de acordo com Astrojildo Pereira -, uma delegação brasileira foi a Buenos Aires participar da I Conferência Latino-Americana dos Partidos Comunistas. A delegação era chefiada pelo secretário-geral do PCB, Paulo Lacerda, e integrada ainda por Leôncio Basbaum, Mário Grazini e Danton Jobim. Nessa ocasião, Paulo Lacerda, apenas em companhia de Basbaum, foi ao encontro de Prestes, para convidá-lo a se candidatar à presidência da República por uma frente única formada pelo PCB e a Coluna Prestes. Por essa época estavam em curso no Brasil as articulações para a sucessão de Washington Luís, a ser decidida nas eleições de março de 1930.

Prestes pediu aos comunistas o programa da frente única. Basbaum preparou, então, um projeto do qual constavam a nacionalização da terra e a partilha dos latifúndios, a nacionalização das empresas industriais e bancárias imperialistas, a abolição das dívidas externas, a liberdade de organização e de imprensa, o direito de greve, a legalidade para o PCB, a jornada de trabalho de oito horas, a lei de férias,- o aumento dos salários e outras melhorias para os trabalhadores. Prestes considerou o programa radical, não aceitando sua indicação como candidato à presidência. Formulou então um programa em que pedia o voto secreto, a alfabetização, a justiça, a liberdade de imprensa e de organização e as melhorias para os operários. Sugeriu ainda, segundo Basbaum, o nome do tradicional político baiano José Joaquim Seabra como candidato à presidência da República (essa afirmação é desmentida no depoimento de Prestes publicado em 1982).

Segundo Basbaum, a não-concretização da aliança entre o PCB e Prestes determinou o início do "prestismo", quando muitos comunistas abandonaram o partido para seguir a liderança de Prestes. Segundo o depoimento de Prestes, publicado em 1982, sua decisão de recusar a candidatura à presidência sem o prévio entendimento com os "tenentes" levou Paulo Lacerda a propor-lhe que continuassem as negociações através do Secretariado Sul-Americano da Internacional Comunista, sediado em Buenos Aires. Nessa ocasião, o PCB teria organizado um comitê militar revolucionário destinado a manter contato e a traçar os planos da conspiração com os chefes da coluna. Mas esse comitê malogrou e foi dissolvido.

Enquanto isso, no processo de escolha dos candidatos à presidência, houve uma cisão entre os estados de Minas Gerais e de São Paulo. Washington Luís, ao impor como candidato à sucessão Júlio Prestes, presidente do estado de São Paulo, provocou a aproximação de Minas Gerais com o Rio Grande do Sul. Esses dois estados estabeleceram um pacto para a indicação do candidato oposicionista Getúlio Vargas, formando-se então a Aliança Liberal. Esta reuniu, além dos políticos de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul, os da Paraíba e de todas as oposições estaduais, contando ainda com o apoio dos "tenentes" revolucionários de 1922, de 1924 e da Coluna Prestes.

Prestes não se filiou ao movimento da Alian-ça Liberal, considerando que a simples troca de dirigentes não resolveria os problemas do país. Contudo, ao verificar que a maioria dos seus companheiros se aproximava de Vargas e da Aliança Liberal, aceitou encontrar-se com Vargas em Porto Alegre. Segundo Prestes, o encontro ocorreu em setembro de 1929 (de acordo com Hélio Silva e Foster Dulles, em novembro) no palácio Piratini, onde o líder da coluna, clandestino no Brasil, foi recebido à meia-noite. Teria dito então que não estava ali para dar seu apoio à candidatura de Getúlio e sim para discutir o que considerava fundamental para uma revolução antiimperia-lista e agrária. Comparecera ao encontro porque seus companheiros lhe haviam dito que Vargas queria em verdade fazer uma revolução. Ainda de acordo com depoimento de Prestes, Getúlio teria respondido: "Fique tranqüilo, você não vai se decepcionar comigo."

O lançamento oficial dos candidatos da Aliança Liberal deu-se em 20 de setembro de 1929. Em carta a Silo Meireles e Cordeiro de Farias, datada de 22 de novembro seguinte, Prestes exprimiu sua posição contrária ao apoio à candidatura de Vargas, afirmando que não tomaria nenhuma posição pública sem primeiro entregar o posto de comandante militar da revolução brasileira em Buenos Aires. Referiu-se à disputa presidencial nos seguintes termos: "Dia a dia aumenta em mim a convicção de que os tais liberais desejam tudo menos a revolução." E acrescentava: "Resta-nos um único caminho: o caminho pelo qual venho há muito me batendo e que consiste em levantarmos com toda a coragem uma bandeira de reivindicações populares, de caráter prático e positivo, capazes de estimular a vontade das amplas massas de nossa paupérrima população das cidades e do sertão." Ao final da carta, pedia uma reunião em Buenos Aires com os principais elementos revolucionários de todo o Brasil para tomarem uma atitude sobre a situação nacional. Essa reunião, entretanto, não se realizou.

Os tenentes não tinham posição homogênea quanto a uma aliança com os políticos em relação aos quais Prestes, Emídio Miranda e outros demonstravam animosidade, julgando que a união com os mesmos, devia visar somente a obtenção de fundos para posteriormente realizarem a verdadeira revolução. Outros, como João Alberto, viam a união com os aliancistas como providencial, constituindo a revolução a aspiração dos dois grupos. Em janeiro de 1930, segundo Prestes - ou 28 de fevereiro, de acordo com Hélio Silva e outros autores -, realizou-se um novo encontro do comandante da coluna com Vargas em Porto Alegre. Mais uma vez não houve acordo entre ambos, pois Prestes insistia em iniciar os preparativos revolucio-nários e precisava de dinheiro para a compra de armamento. Getúlio teria prometido enviar-lhe os recursos para esse fim.

Realizadas as eleições em 1º de março de 1930, os resultados foram favoráveis ao candidato oficial, Júlio Prestes. Os aliancistas protestaram alegando fraude no pleito. A partir da derrota eleitoral, intensificaram-se os preparativos para uma revolução armada, contando com a participação dos tenentes, dos jovens políticos da oligarquia e dos velhos oligarcas. Prestes foi convidado a assumir a chefia militar do movimento ao lado de Vargas, chefe civil. Entretanto, os recursos financeiros tardaram a chegar às mãos de Prestes. Quando Osvaldo Aranha, um dos líderes revolucionários, enviou-lhe cerca de oitocentos contos de réis para a compra de armamento, Prestes já decidira não mais participar do movimento liderado por Vargas. Essa decisão foi expressa num manifesto redigido em abril de 1930, segundo o qual "uma simples mudança de homem no poder, voto secreto, promessas de liberdade eleitoral, de honestidade administrativa, de respeito à Constituição e moeda estável e outras panacéias nada resolvem nem podem de maneira alguma interessar à grande maioria de nossa população, sem apoio da qual qualquer revolução que se faça terá o caráter de uma simples luta entre as oligarquias dominantes".

Ao tomar conhecimento desse manifesto, Emídio Miranda entregou o documento a Siqueira Campos, que seguiu imediatamente para Buenos Aires acompanhado de João Alberto. Em Buenos Aires, Siqueira, João Alberto e Miguel Costa, durante um dia inteiro, discutiram com Prestes sua posição em relação à revolução. Ao final, Siqueira conseguiu convencê-lo a retardar para depois da eclosão do movimento o lançamento público de suas posições. De acordo com o depoimento de Prestes, ficou acertado que ele aguardaria 15 dias, tempo necessário para Siqueira Campos explicar aos antigos companheiros da coluna as idéias de Prestes sobre a revolução.

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