Recordo-me que escutei um som de rádio walkie talkie vindo de fora da porta de saída do palco que, vivia constantemente fechada. Apesar de ser um som incomum, não dei importância. Alguns segundos depois, a porta da frente do teatro abriu-se violentamente e dezenas de policiais, usando roupas civis, invadiram a casa portando metralhadoras e gritando. Hoje em dia pareceria uma operação da S.W.A.T. na busca de perigosos terroristas.
Eu estava à ponto de entregar um holofote para o técnico de luz. Ele olhou para mim e disse. “Fique calmo! Vamos continuar fazendo o que estamos fazendo até que nos mandem parar”. Uns policiais foram para o porão debaixo do palco e vieram puxando um rapaz. Um disse para o outro: “Olha o olho vermelho dele! Deve estar muito louco!”. O rapaz protestou: “Eu não estou drogado não!
A reação calma e tranquila dos presentes contrastava com a dos policiais que rapidamente pareciam frustrados e nervosos porque não encontram droga nenhuma. Gritaram: “Parem tudo o que estão fazendo e venham para cá!”
Os policiais estavam agrupando todo mundo na recepção do teatro, um salão próximo à porta de entrada, quando trouxeram um rapaz vindo da torre da igreja. Os policiais que o acompanhavam pareciam jubilosos pois o rapaz estava carregando, segundo eles, alguns micro pontos de LSD. O rapaz foi levado imediatamente para a viatura.
Eles separam os homens das mulheres e começaram uma revista geral. Num dado momento um rapaz, vindo de fora, entrou todo nervoso pois quando entrava imediatamente viu sua companheira lá dentro cercada de homens portando metralhadoras. Ele queria aproximar-se dela mas os policiais não deixavam e ainda comentavam: “Este também deve estar muito louco porque ignora até as metralhadoras!”
Nós os homens estávamos todos juntos, em pé, próximos de uma parede. Um policial puxou uma mesa para o meio do salão, sentou-se numa cadeira e começou chamar-nos um por um. “Tira tudo que você tem nos bolsos! Onde está a droga?” Dizia ele enquanto examinava tudo que púnhamos na mesa.
O Rui Motta baterista dos Mutantes colocou na mesa uma carteira estufada, cheia de pedacinhos de papel com números de telefones, endereços, recados, etc. O policial espalhou-os pela mesa e começou abri-los um por um e jogá-los do lado. Rui Motta começou a pega-los um por um e reorganizá-los meticulosamente novamente. Quando o policial percebeu o que estava acontecendo deu-lhe imediatamente um tapa na cabeça acompanhado de uma ordem para ficar quieto se não quisesse apanhar mais. Aquela agressão, foi uma ameaça para todos nós. Enquanto a revista prosseguia em silêncio, a porta da rua abriu-se lentamente e meu amigo Ari colou a cabeça para dentro do teatro. Ele perguntou meio sem jeito: “O Celso está aí?”
“Está sim meu filho! Entra e vai lá para a parede” Foi a resposta de um policial. Ari era um amigo frequentador da Stocking, um dos únicos que ainda mantinha contato. Ele estudava na Escola Panamericana de Artes e trazia seus desenhos para mostrar para o Magnólio para ver se conseguia uma vaguinha no “departamento de artes” da Tenda. Ele, assim como eu, era fã dos trabalhos do Roger Dean artista gráfico que foi responsável pelos desenhos mostrados em muitas capas de discos de rock daquela época. No Brasil, Roger Dean ficou muito conhecido pelas capas que fez para os discos do Yes e Uriah Heep. Seus trabalhos refletiam muito a temática em voga na época, com desenhos mostrando metamorfoses e elementos de ficção científica.
Bom, nem preciso dizer que quando os policiais viram os desenhos, para eles foi um prato cheio! Imediatamente separaram a sua pasta como exemplo de arte feita sob a influência de tóxicos. Para bem da verdade, devo deixar claro que o Ari era um rapaz que nem bebia nem fumava cujo pai era uma pessoa muito séria e restrita. O velho parecia um general! Até eu tinha medo dele! O coitado do Ari tinha passado em casa à minha procura e minha mãe lhe tinha informado onde eu estava. Então, já que ele estava com seus desenhos aproveitou para mostrá-los na tenda. Pura falta de sorte!
Naquele grupo ali encostado na parede estavam a banda Mutantes (com exceção do Sergio Dias que escapou por sorte), Jaques (famoso radialista do legendário programa de rádio chamado Kaleidoscópio, que passava na Rádio America), Pena Schimidt (Técnico de som dos Mutantes que ficaria famoso como Produtor Fonográfico, onde acabaria destacando-se, entre outros, pela produção da música Inútil da banda Ultraje a Rigor em 1983), Allan Klaus (famoso técnico de som dos Mutantes), funcionários e colaboradores da Tenda, alguns repórteres e muitas outras pessoas que não me recordo e espero que os leitores me ajudem a lembrar os nomes. Aliás, estou certo que deve tem gente que não quer ter seu nome lembrado! :-)
Allan Klaus imediatamente despertou a atenção dos policiais pois era um tipo alto com cabelos longos quase brancos, um tipo meio Johnny Winter. Ele, como o nome sugere, não era brasileiro e já foi separado.
O Sol foi baixando, a tarde estava no fim e nós, ali agrupados num canto, apreensivos, não tínhamos idéia do pesadelo que estava por acontecer.
Um enorme ônibus branco e preto, sem janelas, com apenas uns buraquinhos para respiração chegou. Fizeram nós, os homens, entrarmos no ônibus. O Allan Klaus foi um dos primeiros a entrar. Fecharam as portas e a penumbra tomou conta. O ônibus começou a rodar e, para surpresa de todos, o som de uma gaita de blues preencheu os espaço. Era o Allan Klaus com sua gaita tocando “o blues da cadeia”.
Fomos levados para o DEIC na Brigadeiro Tobias. O ônibus parou, as portas se abriram debaixo de luzes de holofotes, no chão policiais armados de metralhadoras e carabinas nos esperavam. “Mãos na cabeça! Todos em fila indiana!”. Gritaram.
Enquanto saíamos do ônibus pude ver uma outra viatura parada de onde tiravam um rapaz com aparência de estudante universitário. Era um rapaz de boa aparência, vestia camisa social, blusa de lã e jeans.
Numa longa fila subímos por vários lances de escadas. Não sei se nos levaram para o segundo ou terceiro andar.
Nos colocaram numa sala que tinha dois ambientes. A sala propriamente dita e um lado separado por grades, parecendo uma cela de prisão. Allan Klaus foi posto na cela juntamente com o “estudante” que não fazia parte do nosso grupo.
Mais tarde, dois policiais retiram o “estudante” da cela e o levaram para uma salinha próxima. Depois de alguns minutos ouvimos alguns gritos dos policiais seguidos do som de uma forte pancada surda imediatamente acompanhada de um gemido. O rapaz foi então trazido para a cela. O rapaz, assustado, estava pálido como cera e andava arcado com as mãos no estômago.
Nós todos passamos horas ali sentados no chão, só imaginando coisa ruim.
A porta abriu e um tipo barrigudo e cínico entrou com uma carabina e disse: “Quem não levantar a cabeça vai levar uma coronhada!”. Depois, olhou para trás e disse para o fotógrafo do Jornal O Diário da Noite: “Pode entrar que eles já estão prontos!”. O fotografo entrou e fez seu trabalho sujo!
A noite chegou e o barrigudo veio anunciar que “ele fazia questão que ficássemos como hospedes da casa”.
“Antes de descer é lógico que vocês precisam se cadastrar com a gente” Disse com um sorriso irônico e maligno.
Depois que todos fomos fichados ele chamou uns policiais e disse: “Leva eles lá para o porão!”.
Allan Klaus ficou na cela. Foi a última vez que eu o vi.
Em fila indiana, descemos pelas escadas. Descemos vários andares para o que parecia ser um labirinto interminável de escadas e corredores. Sabíamos que estávamos no subsolo mas não sabíamos quantos andares abaixo. Abriam uma porta de metal com grades, entravamos e a fechavam de novo por detrás de nós, lá na frente havia outra porta com grades e assim por diante.
Chegamos num tipo de ante sala onde um policial carcereiro nos ordenou que tirássemos os cadarços dos sapatos, os cintos e entregássemos todos os nossos pertences para que fossem colocados em cubículos com nossos nomes.
Inesperadamente começamos ouvir uma gritaria de mulheres. Naquela recepção carcerária uma outra porta com grades podia ser vista. Esta porta dava para um corredor com umas 10 celas do lado esquerdo terminando com uma cela de frente lá no fundo, no final do corredor. Esta cela estava cheia de mulheres. Só ela podiam nos ver.
Éramos todos jovens, cabeludos e parece que a mulherada gostou porque gritavam como “macacas de auditório”: “Loirinho você é lindo! Carcereiro trás aquele gostoso para mim!” Usavam uma linguagem pesada e gritavam todo tipo de besteira pornográfica.
As outras 10 celas estavam cheias de homens, gente barra-pesada, muitos esquecidos ali por um tempão. A única referencia sexual feminina deste povo eram aquelas mulheres naquela cela e eles não gostaram nada de ouvir as mulheres mostrando sua preferência por nós.
Dezenas e dezenas de braços saíram das celas, gesticulando e fazendo sinais obscenos, acompanhados de pedidos dos prisioneiros para que os policiais deixassem eles “brincarem” conosco.
O policial carcereiro olhou para o corredor cheio de braços esticados, olhou para nós e sem muita emoção perguntou para os outros policiais: “Qual é a ordem do chefe?”
“Dividi-los e colocá-los em grupos de 3 ou 4 em cada cela para sentirem nossa hospitalidade.”
Rapidamente nos olhamos uns aos outros aterrorizados. Um rapaz do nosso grupo tinha uma cartola preta velha e carcomida. Passamos a cartola e todo mundo colocou rapidamente tudo que tínhamos de dinheiro nela. Demos o dinheiro para o carcereiro ao mesmo tempo que imploramos que fossemos colocados todos juntos numa cela só.
Felizmente, o carcereiro aceitou. No caminho para nossa cela tivemos que passar rente da parede para escapar das mãos dos presos que queriam alcançar nossos cabelos.
Na nossa cela já haviam uns 6 ou 7 presos que imediatamente agruparam-se num canto. Nós éramos muitos e lotamos a cela, mal dava para sentarmos no chão. A cela era um cubículo nojento com um buraco num canto para os prisioneiros fazerem suas necessidades fisiológicas. Nem preciso dizer que no tempo que ficamos lá ninguém usou o “banheiro”.
Um dos prisioneiros que já estava na cela, um tipo branco, baixinho e forte estava muito nervoso e inquieto e não parava de falar alto consigo mesmo. Ele dizia: “Esta noite, eu não vou aguentar! É muita tortura! Eu não aguento! Eu não aguento! De tempos em tempos ele era interrompido por algum dos seus companheiros de cela que o mandava calar a boca. Alguém do nosso grupo puxou conversa com ele e ficamos sabendo que ele era um sorveteiro que vendia drogas na porta de uma escola. Ele estava num dilema, se contasse para os policiais quem fornecia a droga ele poderia morrer ali dentro ou então fora da prisão e se não falasse, os policiais o matariam de tanta tortura.
Sem podermos mudar de posição, sentados com os joelhos levantados, um companheiro apoiava as costas nas pernas do próximo e assim por diante.
Foi uma noite interminável e cheia de medo.
De tempos em tempos passava um policial com uma caneca metálica fazendo barulho nas barras de metal e escolhendo um de nós para aterrorizar. Ele dizia: “É você mesmo! Você vai ser o meu peixinho! Daqui a pouco vou buscar você e mostrar com quantos paus se faz uma canoa!”
De madrugada trouxeram alguém arrastado e jogaram na cela anterior à nossa. Era o “estudante”. Um gemido de dor ficou marcando o tempo como a batida lenta de um relógio diabólico.
A mulheres que viram a chegada do rapaz começaram gritar: “Chamem um médico! Chamem um médico!”.
Os prisioneiros das outras celas gritavam: “O cara é um fraco! Enfia um pau no cu dele que ele para de gemer!”.
Alguns policiais vieram, abriram a cela e puxaram o rapaz para o corredor. Ele ficou ali caído imóvel.
O dia chegou e a hora do almoço chegou. Um prisioneiro cozinheiro trouxe uma panelona que tinha dentro algo que só poderia ser descrito como uma lavagem para porcos. Ninguém quis almoçar e o prisioneiro ficou muito ofendido. Ele queria bater em todo mundo.
O dia passou com os carcereiros aterrorizando a gente. Lá pelo final da tarde o chefão barrigudo chegou com uma lista de nomes na mão. “Chegou a hora das crianças verem o que é bom! Eu vou dizer o nome dos premiados que devem fazer uma fila aqui próximo da parede” Disse todo arrogante.
“Antonio Celso Barbieri”
Meu coração disparou! O primeiro nome da lista tinha que ser o meu?
“Ari”
Quando ele falou o nome do Ari e dos próximos eu percebi que os nomes estavam em ordem alfabética. Percebi que a lista incluía todos nós.
Para formar a fila, tive que pular o corpo do estudante que estava esticado no chão. Estava com os olhos fechados, seu rosto e suas mãos estavam azulados e sua expressão facial mostrava muita dor. Ele não era mais aquele rapaz saudável que eu tinha visto chegar. Agora ele era um farrapo humano quase irreconhecível.
Nos levaram para a recepção carcerária e nos devolveram nossos pertences. Depois, nos levaram para cima novamente, para a mesma sala com uma cela interna. Entre nós alguém comentou que a polícia não podia nos deter por mais de 24 horas sem provas. Os país de alguns dos membros do nosso grupo começam a aparecer e levar seus filhos. O nosso grupo foi diminuindo.
Num dado instante, a porta abriu e meu pai e o pai do Ari entraram. O barrigudo estúpido disse imperativo: “Qual desses marginais é o seu filho?”.
Meu pai estava branco como uma folha de papel. O pai do Ari parecia estar fumegando.
Assim que saímos daquela sala, fomos cercados por advogados que estavam ali para nos defender. Alias, o Magnólio não foi preso porque procuravam pelo Magnólio (nome artístico) e naquela hora, convenientemente, ele era o advogado Paulo Roberto. Os advogados que batalharam por nós foram ele e seus dois irmãos. Obrigado Mag!
Felizmente, os irmãos do Magnólio tentavam amenizar as coisas, dizendo para nossos pais que nós éramos inocentes, não tínhamos feito nada de errado e devíamos ser motivo de orgulho. Meu pai aceitou a coisa muito bem. Depois, pediu que eu mantivesse isto como um segredo de família :-)
Nós já estávamos de saída quando o barrigudo chamou o pai do Ari e mostrou-lhe os desenhos feitos pelo filho. Disse: “Como é que o senhor não percebe que para seu filho desenhar estas coisas só pode estar sob efeito de drogas!”
“É meu trabalho de fim de ano na escola!” Protestou o Ari. “Fica quieto!” Cortou seu pai.
“Estes desenhos ficarão aqui e farão parte do nosso museu do drogado!” Falou o barrigudo. Não teve jeito! Ari nunca mais viu seus desenhos!
No dia anterior Ari não tinha aparecido para jantar, ido na escola e nem dormido em casa. Minha mãe já estava acostumada com meus desaparecimentos mas, a família do Ari não. No outro dia a mãe e o pai do Ari apareceram na minha casa. Foram então até a Tenda do Calvário. Uma vez que a única pessoa presente não lhes não lhes deu nenhuma explicação convincente, desconfiados mandaram meu irmão Jorge na Tenda. Meu irmão então, foi informado que eu estava preso no DEIC. Meu irmão voltou para casa e contou tudo.
Tinha passado meu último dia de férias na prisão
No mesmo dia, ainda tive tempo de passar no barbeiro da esquina e cortar o cabelo bem curto. No dia seguinte chegava cedinho no Banco Noroeste do Estado de São Paulo com uma cópia do Jornal O Diário da Noite debaixo do braço.
Mais mentirosa que a matéria do O Diario da Noite, só mesmo o Bush dizendo que o Iraque tinha "armas de destruição em massa". A matéria dizia que a vizinhança já não aguentava mais o cheiro de fumo que sai do teatro e que um policial tirou a sua aliança e, infiltrou-se naquele antro promíscuo onde até as crianças dos hippies estavam envolvidas. Um lugar onde ninguém tomava banho, etc, etc. Na minha opinião acho que o repórter que escreveu a matéria fumou um antes de escrevê-la.
Na primeira página, numa foto central bem grande aparecia um monte de cabeludos sentados no chão. Eu podia ser visto bem no meio do grupo. A manchete: “Trinta hippies presos atrás da igreja! Motivo LSD!”. O número de pessoas detidas aquele dia passou dos 40 mas, apenas uma, segundo a própria declaração da polícia carregava drogas. Se a polícia barrasse todo mundo na saída de um cinema possivelmente encontraria droga no bolso de alguém. Isto seria motivo para fechar o cinema e prender todo mundo?
Quanto ao “estudante”, no mesmo jornal, numa nota pequena, informava-se que um vizinho havia chamado a polícia pois, tinha visto, pela janela da sua casa, o rapaz fumando dentro do seu próprio quarto. Quanta violência! E pensar que, hoje em dia, tem assassinos e traficantes comandando o crime de dentro das prisões.
Algumas semanas depois da prisão, recebi pelo correio um convite. Era convidado especial para a inauguração da Tenda do Calvário. Fiquei muito feliz por terem lembrado de mim e, é lógico que fui! Como conseguiram meu endereço até hoje não sei! Quem tocou foi a banda O Som Nosso de Cada Dia. Aliás, um dos membros da banda tocou sentado, com um pé engessado pois, no ensaio caiu atravéz de abertura no palco, indo parar no porão embaixo e quebrando um pé. Definitivamente a bruxa estava à solta!
Este começo turbulento da Tenda marcou-a negativamente para sempre. A Tenda durou poucos meses, sempre com medo de outra visita da polícia. Infelizmente pouco se fala do lado positivo, dos muitos shows que lá aconteceram.