Patrulha do Espaço

No Brasil toda banda de rock é uma injustiçada. Tendo dito isto, quero deixar claro que, a Patrulha deve estar no topo desta lista. Em qualquer parte do mundo, uma banda do nível da Patrulha seria reverenciada mas, no Brasil com uma imprensa "poposa" e incompetente, cega e surda para a produção nacional, tocar rock é como nadar contra a correnteza. Nunca um estílo foi tão desrespeitado quanto o rock nacional...

Junior

Se no começo o nome da banda foi Arnaldo e a Patrulha do Espaço, com a saída de Arnaldo Baptita o nome deveria ter sido mudado para Junior e a Patrulha do Espaço. Rolando Castelo Junior o baterista simplesmente carregou a banda nas costas sozinho. Junior faz parte da minha lista das 10 figuras mais importantes do rock nacional. Sua vida toda foi e é uma luta injusta, contra tudo e contra todos. Para manter a chama da sua arte acesa Junior lutou consigo mesmo e contra o mundo à sua volta. Aqueles que conheceram a banda mais de perto sabem do que eu estou falando.

Uma grande vitória pessoal

Junior teve paralisia infantil num dos braços ainda muito criança.

Rolando Castelo Junior
Como estímulo e terapia, seu pai lhe deu de presente uma bateria acústica.

Numa grande demonstração do poder da mente sobre o corpo, Junior com maestria aprendeu tocar este instrumento. Na minha opinião, Junior acabou tornando-se num dos melhores bateristas de rock do Brasil. Certas surpresas do destino que para muitos, seriam uma grande tragédia para Junior foi uma vitória pessoal de grandes proporções.

As dificuldades

Junior casou-se muito cedo. Vários filhos se seguiram. Junior morava perto do Aeroporto de Congonhas numa casa modesta e com grande dificuldade. A família Castelo pagou um preço muito alto pois, ser um músico de rock no Brasil é duro… muito duro.

Os shows e as turnês nem sempre davam dinheiro e a tensão familiar muitas vezes era evidente. Passaram momentos difíceis e necessidades básicas como dinheiro para pagar a luz e gás.

Certa vez acertei um show no Teatro Lira Paulistana e, no dia do show, quando cheguei na casa do Junior fui recebido pela sua esposa alertando-me de que ele estava muito nervoso. Lá no fundo da casa havia um quartinho onde ele ensaiava. Lá encontrei tudo desordenado, parecia o resultado final da passagem de um furacão. Junior tinha ficado muito tenso porque as peles da bateria estavam furadas e ele não tinha dinheiro para comprar outras. Como não tinha um instrumento para tocar no show, num ato de desespero e angústia ele tinha descarregado toda sua fúria no seu próprio equipamento. Infelizmente, eu também não tinha condições de ajuda-lo. Encima da hora e com o show divulgado, a única opção que nos restou foi ficar dentro de um carro, distante da porta do teatro, em silêncio, vendo o público chegar para um show que nunca aconteceu, foi triste, muito triste.

Quando a Patrulha abriu para o Wan Halen no Ginásio do Ibirapuera, eu pude ver a expressão de frustração e ódio no rosto do Junior. Por um lado ele estava tocando para milhares de pessoas. Por outro, estava tocando para um público que nunca valorizou o rock brasileiro. Gente que preferia gastar uma fortuna em álbuns importados do que comprar um álbum de uma banda nacional. Se a metade daquele público comprasse um álbum cada, músicos brasileiros de rock como ele, não teriam passado tanta necessidade. Infelizmente a situação do rock brasileiro não mudou e não vai mudar nunca enquanto a mentalidade terceiro mundista da nossa população prevalescer.

Toda uma vida de luta, eventualmente moldou a personalidade deste músico que é um tipo durão que sempre disse aquilo que pensa. Repórter ignorante que falasse besteira da banda, dia menos dia, enfrentaria sua fúria. Sua participação no legendário primeiro álbum do Made in Brazil, mais conhecido popularmente como o "Made da Banana", e sua convivência com os irmãos Vecchione deixou-o marcado para sempre. Aliás, pelas histórias que houví, parece que todos que passaram pelo Made in Brazil sofreram algum tipo de trauma (geralmente financeiro) nas mãos do Oswaldo, o líder e baixista da banda.

Talvez a grande diferença é que o Junior desde então nunca aceitou um convite para voltar tocar no Made.

A Patrulha e o Barbieri

Se me recordo corretamente, fiquei conhecendo pessoalmente o Junior (ou será que foi o Dudu?) quando ele visitou a Rocker que era o nome da lojinha de discos que eu tinha no Itaim Bibi em São Paulo. Ele buscava patrocíno para os cartazes promocionais de um show que a banda estava produzindo.

Banda Made in Brazil
Capa do Primeiro álbum

A Rocker produziu os cartazes daquele show e como eu já era fã da banda, ficamos mais próximos. Mais tarde, acabei viajando com a banda fazendo a operando da iluminação de alguns shows. Eu andava sempre com minha câmera fotográfica (leia o texto à direita) e tirei várias fotos da banda “on the road”. Estas fotos estão com o Junior e espero que um dia ele me deixe colocá-las aqui.

Disco Voadores

Eu desde que me conheço, sempre fui interessado nas histórias relativas ao paranormal e também as relativas aos chamados discos voadores (Conhecidos oficialmente no Brasil como O.V.N.I. Objetos Voadores Não Identificados). Eu li muito à respeito deste fenômeno, entrevistei pessoas que viram ou tiveram experiências, vi alguns objetos no céu que não se encaixam em nenhuma explicação lógica e até acabei fazendo um cursinho de astronomia para saber reconhecer as estrelas no firmamento. Resumindo, eu estava bem familiarizado com este fenômeno.

A Patrulha do Espaço e o Disco Voador

A Patrulha organizou uma série de shows passando por várias cidades pequenas do interior de São Paulo. Junior alugou um ônibus velho, mas em bom estado, para levar a banda. O ônibus tinha somente a metade da frente com poltronas instaladas. A parte dos fundos era vazia e reservada para transportar o equipamento. O motorista era um senhor que aparentemente gostava deste tipo de aventura e, portanto tudo estava perfeito.

A turma era composta pelo Junior (bateria), o Dudu (Guitarra e backing vocal), Sergio (Baixo e Vocal), a esposa do Junior, um ajudante de palco, o motorista e o Barbieri aqui. O ajudante de palco, um rapaz bem jovem, quase adolescente que, infelizmente não recordo o nome e para facilitar, vou chamar de

Barbieri viajou!

Esta história seria cômica se não tivesse sido trágica para mim. Eu fui assistir um festival de bandas no Ginásio do Palmeiras no bairro da Pompéia. Eu levei minha bolsa fotográfica com duas câmeras Pentax e várias lentes. Para vocês terem uma idéia da importância para mim deste equipamento, eu tinha comprado uma câmera, pago com dificuldade em 24 prestações mensais e depois, quando terminado o pagamento, comprado a outra que também paguei em 24 prestações mensais. Quer dizer, fiquei 4 anos preso no crediário por elas. A Patrulha tocava nesta noite e obviamente eu fui lá para trás, nos bastidores, ficar junto com os músicos. Atrás do palco, estava cheio de gente, mais parecia uma galeria de arte em dia da inauguração. Alguém “passou um baseado na roda”. Como produtor de eventos eu ficava sempre de fora deste tipo de atividade pois, nos shows, era eu quem acabava falando com a polícia, ECAD, imprensa, etc. Nas cidades do interior, muitas vezes era o padre ou o delegado de polícia quem controlava o clube local e eu tinha que estar sempre “sóbrio”. Nesta noite, no Ginásio do Palmeiras eu era apenas um fã me divertindo. Eu só sei que dei uns 3 “pegas” e passei a “bola” para frente. O show da Patrulha começou e eu fiquei em pé ao lado do palco, num canto, assistindo o show com, o estojo fotográfico no chão entre os pés. Só sei que “o negócio” era do bom e, quando o efeito chegou, o som virou um veludo e as luzes pareciam fosforescentes emanando uma onda de calor agradável. Eu me perdi na musica e, “chapei”! Uma semana depois fui buscar minhas câmeras em casa e não as encontrei… tarde de mais. Eu sei, eu sei, mereço ficar no cantinho da sala com um cone na cabeça escrito BURRO

Ronaldo, era um grande fã que como eu, trabalhava com a banda mais pelo prazer de fazer parte do grupo do que qualquer coisa.

Naquela época, muitos shows começavam com som de fita usando o sistema de som da banda. Depois do show, o som de fita voltava e ia até as altas horas. Então, depois do show, Ronaldo, Eu e o Pessoal da banda à medida do possível, para adiantar as coisas, íamos transportando os instrumentos e equipamento de palco para o ônibus que geralmente estava estacionado atrás do clube perto da entrada que dava para o palco. Lá pelas duas ou três da manhã estávamos na estrada de novo indo para outra cidade.

Capa do album "Patrulha do Espaço"
Album lançado em 1981 pelo selo Seta

Chegávamos ainda de madrugada em um hotelzinho ou pensão e íamos direto para cama. Nós não dormíamos, nós desmaiávamos! No outro dia lá pela 1 da tarde estávamos em outro palco montando tudo de novo.

No ônibus, viajando de uma cidade para outra a moçada, depois das autocríticas e comentários iniciais à respeito da performance da banda e reação do público, com as cabeças ainda reverberando resultado de várias horas de exposição ao volume da caixas acústicas, eram dominados pelo cansaço e o som hipnótico dos motores do ônibus tomavam conta de tudo. Geralmente eu sentava ao lado do Ronaldo. Numa destas noites, no ônibus, eu ia com a cabeça encostada na janela olhando maravilhado o céu forrado de estrelas.

Na estrada, no interior, sem nenhuma iluminação das cidades grandes para

Capa do album "Patrulha"
Album lançado em 1982 pelo selo Baratos Afins

incomodar, o céu era um tapete de estrelas, um veludo cheio de brilhantes. Eu podia claramente ver a constelação do Orion com as 3 Marias bem no meio. Lá ia eu embriagado pela imensidão do universo. Virei para o Ronaldo e comentei que o céu estava muito claro, limpo e perfeito para ver um disco voador. O Ronaldo olhou para mim e seus olhos se iluminaram.

“-Nós vimos um disco voador!” Disse todo empolgado.
“-Quem viu?” Perguntei casualmente.
“-Eu, o Junior, a esposa dele, o Dudu e o motorista da perua. Foi em Santa Catarina”.

Imediatamente o meu instinto de pesquisador tomou conta. Quase todos os personagens deste acontecido estavam neste ônibus. A cada noite eu poderia entrevista-los independentemente sem contaminar os depoimentos. Melhor ainda, eu poderia realmente perguntar o que quiseste, entrar mais no lado emocional das pessoas.

Contato Imediato de Segundo Grau... ou foi de Terceiro?

Tudo aconteceu durante uma turnê pelo sul do Brasil. Seria um show em Curitiba, um show em Florianópolis e um show em Porto Alegre. A Turnê começou bem, com um show muito bom em Curitiba onde ficaram hospedados na casa do produtor do evento. Quando chegaram em Floripa o pesadelo começou. Para quem não sabe, Florianópolis nos anos 70 foi um reduto conservador e muito músico conheceu a prisão por lá (Rita Lee foi um). Logo quando a Patrulha chegou na cidade foram presos, ficaram sem dinheiro e praticamente foram expulsos da cidade. A banda não teve outra opção a não ser continuar viajando mais para o sul. Quando chegaram em Porto Alegre descobriram que o produtor local, um irresponsável, não tinha feito nada, nem marcado o show. Sem show em Porto Alegre, um grande prejuízo e, sem dinheiro nenhum, a banda foi obrigada a vender o caminhão e parte do equipamento.

A Patrulha voltava para São Paulo com uma frustração enorme. Numa perua vinham Junior com a esposa grávida, Dudu, Ronaldo e o motorista. Depois do que tinham passado em Florianópolis, parar na ilha nem pensar. O Junior entrou em contacto com o produtor de Curitiba que era gente muito boa, informando que eles iriam passar a noite lá com ele.

Já era noite quando a perua passou direto por Floripa e continuou subindo em direção à Curitiba. O Ronaldo viajava no banco de trás com a cabeça deitada para trás olhando as estrelas quando notou algo movendo-se nos céus. A principio, ele só fez um pequeno comentário de que estava vendo uma estrela se movendo de um ponto para outro. Acontece que esta estrela começou crescer de tamanho e o Ronaldo gritou pedindo para que parassem o carro. O veículo parou no acostamento e todos saíram para fora para observar uma forma circular enorme, maior que um avião de passageiros, com 4 luzes enormes do lado de baixo. O objeto passou lenta e majestosamente voando pelo meio da estrada e foi em direção à umas colinas, desaparecendo por de trás. Antes de continuar a viagem, todos ficaram por algum tempo ali parados, emocionados comentando como era raro o que tinham acabado de ver.

Pela minha experiência anterior, pesquisando o assunto, sabia que em muitos casos, no grupo sempre existe alguém, como nos casos de poltergeist, que é o catalisador do fenômeno. Geralmente é um adolescente. Neste caso parece que Ronaldo era esta pessoa.

Ronaldo ficou obcecado e não parava de olhar os céus buscando e dizendo para todo mundo que eles iam ver o disco novamente. Acontece que a estrada era sinuosa indo na mesma direção que foi o disco. De repente, quando a perua fazia uma curva, este imenso disco, do nada, passou por cima deles, baixando rapidamente para pousar num campo próximo.

A partir deste momento, as descrições de todos os envolvidos, apesar de não serem conflitantes, são muito emocionais. Segundo eles, a perua parou imediatamente. A porta do veículo abriu e a mulher do Junior e o Ronaldo correram na direção do disco. O motorista desorientado protestou, chamando o povo de volta para o carro, dizendo que eles tinham que continuar “senão a gasolina ia acabar”. Obviamente sem obter nenhuma resposta, correu junto com o guitarrista atrás da esposa do Junior e do Ronaldo. O Junior ficou só. Quando perguntei-lhe qual eram os seus sentimentos naquele momento ele disse:

“-Eu fiquei pensando que era muito sedo para isto acontecer. Que eu ainda queria lançar meu próximo album”. Deu uma pausa, e continuou:
“-Daí, percebi que estava só, o silencio tomou conta e junto com ele o medo de que alguma coisa viesse me pegar no carro. Saí correndo atrás do resto do povo”.

O Ronaldo disse que, conforme iam aproximando-se um zumbido oscilante tipo som de abelhas, tomava conta de tudo. Uma claridade emanava das luzes debaixo do disco que segundo ele eram mais altas do que eles. Haviam muitas arvores, a vegetação era alta e eles só podiam ver a metade do disco. Então eu perguntei para ele se ele tinha um elemento de comparação para me definir o tamanho do disco.

“-Você já viu um circo armado? Então, era deste tamanho! Era grande!” foi a sua resposta.

Agora, estavam todos juntos, mas nem por isto cheios de coragem. Conforme o zumbido oscilava, um deles era tomado pelo medo e corria para o carro disparando uma reação em cadeia. Lá no carro discutiam o que fazer e acabavam chegando a conclusão que este momento era muito importante para ser ignorado. Minutos depois lá estavam eles no meio do zumbido tentando se aproximar em vão. Depois de muitas tentativas frustradas. Decidiram que o negócio era trazer mais gente.

Como tinham acabado de passar por um destes postos de gasolina de estrada onde muitos caminhões ficam estacionados durante a noite, voltaram lá. Este posto tinha um bar que estava cheio de caminhoneiros. Dentro do bar, o visual da banda, os cabelos bem compridos, as roupas, certamente não causaram boa impressão para aquele povo mais conservador e de uma geração mais velha. Rapidamente a moçada percebeu que dali, daquele grupo de caminhoneiros não sairia nenhuma colaboração, muito pelo contrário, o melhor era não despertar muita atenção. Melhor ainda, pensaram, seria tomar umas pingas para dar coragem e voltar lá e enfrentar o disco voador eles mesmos.

Depois de literalmente “tomarem” mais coragem, voltaram para o mesmo ponto na estrada e por incrível que pareça o disco ainda estava lá. O mesmo que se passou anteriormente repetiu-se várias vezes. Ninguém teve coragem de chegar perto do disco o suficiente para tentar manter contato. Decidiram então seguir em frente... Uns quarenta quilômetros mais para frente encontraram um posto da policia rodoviária onde o policial não se interessou pela história deles e ficou mais suspeito à respeito do cheiro de álcool que a turma emanava. O pessoal não teve escolha à não ser continuar a viagem em direção à Curitiba.

Quando chegaram em Curitiba, estacionaram a perua na calçada próxima à casa do produtor que ia abrigar-los pela noite. O produtor por sua vez estava muito preocupado pois segundo ele o pessoal estava muito atrazado. Ele achava que banda deveria ter chego muitas horas antes. No outro dia, bem cedo, o produtor notou que a perua estava estacionada indevidamente e pediu para que estacionassem o carro corretamente para evitarem serem multados. Quando o motorista foi estacionar o carro descobriu que, apesar das portas estarem lacradas, as roupas de todo mundo tinham sumido. Curiosamente os microfones e instrumentos ainda estavam lá. O teto do carro tinha várias marcas com se gente tivesse subido em cima.

Comentários finais

Nem preciso dizer que, uma história como esta ficou aqui na minha cabeça por tempo até demais.

Eu tive a oportunidade de entrevistar os envolvidos separadamente. Não senti em nenhum momento que, o que aconteceu tenha sido resultado do efeito de alguma droga que tenham tomado ou que eu tenha sido vítima de uma brincadeira por parte dos entrevistados. Pela minha experiência neste assunto, considerando-se que o nome da banda é Patrulha do Espaço e o símbolo da banda na época era uma nave espacial. Considerando-se que a mulher do Junior estava grávida. Considerando-se que o grupo tinha Ronaldo como catalisador. Acho que este grupo de pessoas pareceu, para os ocupantes do disco, ser um grupo intressante para pesquisa.

Finalmente, como para eles a lembrança do evento em si é meia nebulosa onde existe uma perda de tempo que não pode ser justificada, eu não ficaria surpreso se debaixo de hipnose este pessoal revelasse um caso fantástico de Contato Imediato de Terceiro Grau onde as vítimas foram levadas para dentro do disco, examinadas e depois manipuladas mentalmente para forjar um esquecimento do episódio traumático. Deixo ao caro leitor, a interpretação destes fatos tão inacreditáveis.

Por A. C. Barbieri


 
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