A banda Avenger liderada pelo vocalista Paulo Egydio Rossi surgiu em 1983 no bairro de Guarulhos em São Paulo. Além do Paulo, a banda contava com Roberto (Bob) na guitarra, Luiz Teixeira no baixo e Gilson na bateria. Assim como muitas outras bandas paulistas, o grupo fazia um Heavy Metal bem ao estilo das bandas inglesas do mesmo período que ficou conhecido como “The New Wave of Heavy Metal”.

Esta banda, infelizmente, seguindo a norma geral, não conseguiu sobreviver por muito tempo. Entretanto, no curto tempo que esteve ativa, conseguiu lançar duas músicas na famosa coletânea SP Metal produzida pelo Luis Carlos Calanca e lançada pelo seu selo Baratos Afins.

 

 

Lamentavelmente no começo dos anos 80 a produção de rock no Brasil ainda estava apenas engatinhando. Com os estúdios de gravação mais acostumados a mixar música religiosa, sertaneja e MPB, as gravações e mixagens de rock sempre deixaram muito a desejar. Faltava o peso, o vocal estava sempre muito mais para frente e a idéia geral, era a de que rock era muito barulhento e tinha que ser “melado” para tocar nas rádios.  As bandas de rock mais pareciam ratos de laboratório nas mãos de técnicos inexperiêntes. Como as bandas não tinham nenhuma experiência com estúdios de gravação e, a maior parte, nem dinheiro para bancar as próprias gravações, a coisa ficava mesmo na mão do produtor que nem sempre era um grande aficionado deste estilo.

Tendo dito isto, me surpreende a qualidade e quantidade do legado artístico dos Mutantes, banda da geração anterior que teve excelentes albuns lançados nos anos 70. Os Mutantes devem ser julgados não só pela qualidade artística mas também pela inovação e pioneirismo do seu trabalho.


Mas, voltando ao Avenger, estas duas músicas gravadas para a colêtanea SP Metal, pelos motivos acima expostos, sofreram na gravação e mixagem não conseguindo capturar o melhor que a banda tinha a oferecer.

Ao vivo, a coisa era bem diferente. O Avenger agradava muito com um show energético e cheio de surpresas.  Normalmente todo concerto incluía covers de bandas como Judas Priest e Metallica e sempre terminava, como nas corridas de Formula 1, com um banho de Champagne na platéia.

O Barbieri aqui, era o empresário da banda.

Durante o tempo que andei nos controles mantive a


banda ocupada promovendo shows na capital de São Paulo e cidades vizinhas.

A falta de teatros para shows obrigou-me a invadir espaços até então nunca explorados pelo Heavy Metal como por exemplo um show que fizemos numa casa noturna chamada Wal Improviso que existia lá na Rua Frederico Steidel perto do Largo do Arouche. Como o Wal Improviso começava funcionar somente depois da 1 da manhã indo fechar só lá pelas 7 ou 8 horas da matina, convencí o dono a nos ceder o espaço numa tarde de sábado. O show foi um sucesso. Como pagamento a banda fez um show de madruga para o público da casa que infelizmente foi apático e não receptivo.

Aprendí uma lição importante. Pensar duas vezes antes

de colocar meus artístas na frente de um público ignorante ao estilo musical que será apresentado.

Falando em estilo, nesta época o Heavy Metal não era o único estilo em voga. O Punk estava comendo solto na periferia e, nós tivemos mais que um problema com o radicalismo dos punks e skinheads.

No Teatro Conchita de Morais no Município de Santo André, na entrada do teatro, fiquei literalmente paralizado por uma fração de segundo olhando este punk moicano com uma machadinha levantada à menos de um metro da minha cabeça.

Só fui salvo porque o barulho das várias portas de vidro

 

da frente teatro vindo abaixo à botinadas pelos seus parceiros desviou-lhe a atenção, dando-me tempo para correr, subir no palco, pegar o microfone das mãos do Paulo e convocar a platéia para a luta.

Enquanto o show da banda de abertura acontecia, na portaria, eu tentava controlar sozinho uma gang de pelo menos uns 30 punks que queriam entrar sem pagar. O problema não era o pagamento, pois estava claro que o que eles queriam mesmo era causar desordem e quebrar tudo dentro do teatro. Foi durante o show do Avenger que a violência explodiu.

No meio dos shows do Avenger, como parte da performance, na hora do solo do guitarrista durante a apresentação da música “999”, um monge encapuçado

geralmente entrava no palco com uma picatera com as pontas vermelhas aparentando sangue.

Depois de desafiar a platéia o monge usava a picareta como guitarra e simulava um duelo de guitarras com o guitarrista (Bob).

Era um truque teatral que sempre funcionava...

Quando invadí o palco, pegando o microfone e chamando o público para a “guerra”, peguei a picareta e saí correndo atrás dos punks seguido pela platéia. Já na praça em frente do teatro com os punks fugindo à distância descobrí que estava só.

Olhei para trás só para descobrir que o público ainda estava todo dentro da entrada do teatro com caras de assustados observando o estrago. Mas que covardões!

Para ser franco, o pessoal do metal nunca foi um pessoal bom de briga. Os punks na sua maioria eram movidos a pinga ou anfetaminas enquanto que o público do rock pesado na sua maioria vinham aos shows "caretas", movidos à cerveja ou no máximo um fuminho. Tudo gente pacífica! Em toda a minha carreira nunca tive um problema de violência com o pessoal do metal nos meus shows. Aliás, em termos de classe social a coisa estava mais ou menos dividida assim: Pobre (Punk • Pinga • Anfetaminas). Classe Média (Rock • Cerveja • Fumo) e Rico (Bossa Nova & Jazz • Whiskey • Cocaína)

OK! Divaguei de novo! Mas, voltando ao teatro, a polícia até que enfim apareceu e pegou todos os punks numa estação de trem próxima. Foi bom porque se não achassem os culpados eu teria, como responsável, que pagar por todo o prejuízo. Infelizmente o show do segundo dia teve que ser cancelado e acabamos perdemos dinheiro com o aluguel do equipamento de som.

Imaginem a cena: O Barbieri correndo com uma picareta com as pontas "ensanguentadas" atrás de um punk com cabelo cortado tipo moicano e segurando uma machadinha. Sinto vontade de rir mas a verdade é que naquele momento a coisa foi séria. O que é que eu faria com a picareta se o punk parasse e me enfrentasse? Sei lá! É bom nem pensar...

A música “Barrados no Baile” do Eduardo Dusek estava fazendo sucesso nas rádios e como resultado no jornal local saiu a manchete: “Punks barrados no baile quebram tudo!”.

Quero deixar claro que apesar de ter tipo problemas com certos elementos radicais, sempre gozei do respeito dos músicos das principais bandas punks daquele período como por exemplo o João Gordo (Ratos de Porão), Fabio (Olho Seco), Retson (Cólera), Clemente (Inocentes). Aliás, as gangs punks eram os principais inimigos do seu próprio movimento.

O número de bandas de rock pesado aumentou consideravelmente e percebí que, como diz o ditado "uma andorinha só não faz verão". A idéia era dar uma força para o movimento e assim ver se conseguia acordar a imprensa, rádios, emissoras de TV e gravadoras.

Eu deixei o Avenger pouco antes dos seus músicos começarem as gravações para a coletania SP Metal e, continuei a minha carreira de produtor de shows indo, na sequência, produzir as duas temporadas do Projeto SP Metal no Teatro Lira Paulistana onde tocaram dezenas e dezenas de bandas.

Capa da Coletânea SP Metal I

Muitos outros projetos se seguiram, sempre envolvendo um grande número de grupos musicais.

Confesso que, conhecendo tão bem o som do Avenger, também fiquei decepcionado com o resultado final da participação deles na coletânea SP Metal.

Se o Paulo nunca foi um virtuoso no vocal, em compensação, seu profissionalismo e postura de palco sempre foi excelente. Paulo era carismático e segurava o show com maestria. Com um repertório em português e música bem ao estilo da banda Judas Priest, o público sempre voltava para mais. Quer dizer, com o público crescendo à cada show, certamente a banda estava fazendo alguma coisa certo.

Acredito que um técnico de som competente teria mixado a voz de outra maneira e dado mais suporte para o Paulo na gravação.

Neste mesmo período iniciei a produção de uma coletânea para o selo “Devil Discos” pertencente ao Francisco Domingos de Souza (Chicão). Aproveitei então para incluir uma faixa gravada ao vivo no Teatro Lira Paulistana chamada “Usinas Nucleares”. Usinas Nucleares era uma das músicas preferidas do público e foi uma boa oportunidade para mostrar o poder de fogo do grupo.

Eu dei o nome de “São Power” para o álbum que era composto apenas por faixas gravadas ao vivo de bandas que já tinham acabado. A qualidade das gravações era pobre, mas a idéia era documentar de alguma forma o som destas bandas ao vivo.  Apesar de todas as limitações, Usinas Nucleares mostra no álbum um Avenger poderoso e quebrando tudo. O álbum São Power foi o primeiro lançamento do Selo Devil Discos. O segundo lançamento foi o album Korzus ao Vivo. O Korzus ao Vivo foi o primeiro de vários álbuns lançados pelo Korzus neste selo. Foi com o álbum Korzus ao Vivo que eu ganhei pela primeira vez algum dinheiro com rock. Foi o suficiente para eu comprar minha passagem para a Europa e cair fora. (clique aqui para saber mais sobre a colaboração do Barbieri com a Devil Discos)

O Avenger acabou pelos mesmos motivos que muitas bandas acabam. Foi por falta de experiência, deterioração das relações inter-pessoais entre os membros da banda e, principalmente, resultado dos comentários

Capa da coletânea São Power

destrutivos feitos pelo público à respeito do desempenho do vocalista na coletânia SP Metal. O resto da banda acabou rompendo com o Paulo e formando um novo grupo chamado Destroyer que teve uma existência relâmpago e acabou tão rápido quanto começou. A verdade é que, quem tinha o poder financeiro era o Paulo e sem o Paulo a banda não teve condições econômicas para continuar.

Curiosamente, muitos anos se passaram e parece que a banda foi redescoberta por um público novo. Recentemente revistas de música tem feito boas críticas dos albuns SP Metal I e SP Metal II onde o Avenger, surpreendentemente, sempre foi congratulado pela qualidade do seu trabalho. É o mundo da muitas voltas...

É uma pena que a “fita master” destas gravações não tenha sido guardada pois com a tecnologia de hoje uma nova remixagem seria a solução final.

O único membro da banda que continua ativo, seguindo o seu sonho, é o baixista Luiz Teixeira. Ele faz parte da banda TARKUS, talvez o grupo de rock progressivo mais importante do Brasil. Só para finalizar, gostaria de dizer que o logo da banda e o desenho do monge foram criados pelo Roberto, o guitarrista. A animação e adaptação para a Internet foram feitas por mim.

 

Luiz Teixeira (Baixo)
Por A. C. Barbieri


FOTO GALERIA  
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Avenger fotografado pelo Barbieri


Ouça a banda Avenger ao vivo no Teatro Lira Paulistana (17/07/1984)
clique na música!
 
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