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A história do Arnaldo Baptista está intimamente ligada com a da sua banda Mutantes e também com a realidade brasileira do final dos anos 60 e princípio dos 70. Para os brasileiros de minha geração, o começo dos anos 70, no Brasil, foi um tempo cheio de turbulência política, mudanças sociais e culturais. Para mim em particular, foi a época que descobri “sex, drugs and rock’n’roll. Aliás, devo dizer, foi na ordem inversa; rock, drogas e sexo. Foi também a época em que entendí que o mundo estava divido em dois; o mundo capitalista e o mundo comunista.

Os países da América do Sul, na sua maioria, viviam ditaduras militares patrocinadas pelos Estados Unidos. Segundo os Americanos, a única forma de conter o avanço comunista era transformar os países do Terceiro Mundo em campos de concentração privando toda a população de qualquer estímulo inteligente. Quanto menos o povo pensar melhor. Era o temp do DOPS com um serviço de inteligência composto por uma mistura de elementos do exercito e polícia civil com poderes ilimitados. Sem ninguém para controlar estes extremistas da direita, muita gente que teve coragem para contestar, morreu torturado nos porões de alguma delegacia. A idéia (exatamente como está acontecendo hoje) era criar um terror generalizado na população para justificar um monte de medidas ditatoriais totalmente contrárias ao bom senso, liberdade de expressão e direitos humanos. Muitos intelectuais, músicos e artistas em geral foram “convidados” a retirarem-se do país. Neste período, o slogan “Ame-o ou Deixe-o” foi usado intensamente pela máquina do estado repressor.

Enquanto isto, na Inglaterra os Beatles como resultado da descoberta das drogas alucinógenas passavam por uma metamorfose. Os quatro rapazes de Liverpool transformavam-se à olhos visto com seu visual psicodélico e sua música passou a refletir a revolução cultural que viviam.

Nos Estados Unidos no pique da guerra do Vietnam, a juventude começou protestar. Vários artistas aderiram ao movimento pacifista. O poder da música para transmitir idéias ficou claro e, obviamente as forças conservadoras que controlavam (e controlam ainda hoje) o status quo não gostaram nada destas mudanças e os artista em geral passaram a ser tratados como perigosos revolucionários. A mentalidade pacifista “hippie” tinha tomado conta. Slogans como "Amor Livre", "Faça Amor, Não Faça Guerra" apontavam para uma nova sexualidade e as religiões do Oriente despertavam a juventude para uma nova espiritualidade.

No Brasil, mesmo com toda a censura aos meios de comunicação, alguns filmes que exportavam a rebeldia desta juventude escaparam à tesoura da censura. No meu caso os filmes "Monterey Pop" (1968), "Sem Destino" (Easy Rider - 1969), "Woodstock" (1970) e mais tarde "Um estranho no Ninho" (One Flew Over the Cuckoo's Nest -1975) marcaram-me profundamente para sempre.

Esta foto foi cedida pelo Arnaldo na época e foi usada pelo Barbieri para fazer a estampa da camiseta do show do Tuca.

O Rock foi a língua que uniu toda uma geração, semeando, como o pólen das flores, os ideais de Paz e Amor. Desde o começo, os Mutantes tocaram os meus sentidos com uma sonoridade e conteúdo musical totalmente sintonisado com os valores e ideais deste período. O rock muito longe de ser uma influencia alienígena como pregavam os conservadores de mente pequena, na minha visão optmista carregava os ventos da mudança que como uma tempestade iriam soprar até derrubar o muro de imbecilidade que dominava o Brasil daquela época. Lamentavelmente, infelizmente cada geração tem a imbecilidade que merece e hoje à meu ver as coisas não mudaram muito. Basta ver que o rock brasileiro continua sem receber o respeito que merece.

Debaixo de um controle militar retrógrado, reacionário e conservador, os Mutantes faziam música, rock inteligente. Sinceramente, quando olho para traz, parece um milagre. Naquela época a moda era pegar um violãozinho, imitar Bob Dylan e cantar num festival estudantil dando uma de intelectual. Caetano e Gil faziam parte desta turma.

Acontece que o Bob Dylan teve um acidente, ficou vários anos sem tocar e quando voltou, voltou tocando guitarra elétrica numa banda de rock. O povo esperneou, chamaram Dylan de traidor mas não adiantou nada. A mudança estava feita e se você quisesse estar na moda tinha que tocar guitarra elétrica. De repente os Mutantes eram o mais moderno. Aliás eles já eram a vanguarda à bom tempo.

Arnaldo no Anhembí (foto: A.C.Barbieri)

Logicamente estes cantores de música de festival estudantil aliaram-se aos Mutantes, chamaram a coisa de Tropicália e pronto. O resto, como dizem, é história. Eles continuaram fazendo a musiquinha deles, agora eletrificada, ficaram famosos, ganharam muito dinheiro e a imprensa comprada como de costume relegou a verdadeira e original força dos Mutantes ao esquecimento. Se os Mutantes são famosos hoje é porque eles nunca foram esquecidos pelos seus fãs e mais recentemente foram redescobertos por artistas internacionais de estatura indiscutível.

Naquele tempo, nos Mutantes nós tínhamos a Santíssima Trindade; Arnaldo, Rita lee, e Sergio Dias. O Sergio era e é o gênio da guitarra. Arnaldo e Rita eram a dupla explosiva em termos de composição. Ironia, deboche, jogos com a forma e o conteúdo eram alguns do elementos comuns nas composições. Além disso os Mutantes não tinham nenhum pudor em misturar tudo. Música sertaneja, música clássica, latin, samba, rock.

No tempos da ditadura, todas as músicas tinham que passar pela censura militar e, parece que os Mutantes tinham um prazer todo especial em driblar a censura usando uma linguagem que só os “loucos” conheciam. Eu ouvia os álbuns sempre buscando as mensagens nas entrelinhas. O porque a Rita Lee ignora este período da vida dela para mim não tem explicação. Certamente ela carrega uma carga emocional e psicológica muito grande que vai mais além da diferença sexual, incompatibilidade musical ou falta de liberdade criativa. Talvez sua frustração maior seja saber lá no intimo dela que, depois da sua saída dos Mutantes ela ganhou dinheiro mas não respeito como força criadora.

A verdade é que, depois de vários anos de bons serviços a máquina dos Mutantes começou mostrar sinais de fadiga. Rita foi a primeira a cair fora. Depois foi a vez do Arnaldo. Sergio Dias ficou sozinho nos controles e aproveitou a oportunidade para redirecionar a banda na direção do rock progressivo.

Arnaldo lançou o legendário e obrigatório álbum chamado profeticamente “Arnaldo “Loki?” Baptista. No site do MOFO (clique aqui) o leitor encontrará uma excelente crítica deste album.

A relação dos dois irmãos continuou boa porque vários shows dos Mutantes contaram com a participação do Arnaldo fazendo a abertura. Eu nunca perdi um show em São Paulo e como vocês já devem ter percebido sou fã de carteirinha.

Arnaldo no Teatro Bandeirantes (Foto: A.C.Barbieri)

Para mim, Mutantes com a ajuda do maestro Rogério Duprat foram os Beatles do Brasil.

Depois do “Loki?” Arnaldo formou a Patrulha do Espaço fez vários shows e gravou um album chamado Elo Perdido que levou uma eternidade para ser redescoberto e lançado.

Elo Perdido e Incompleto

Lá pela primeira metade dos anos 80 visitava as Grandes Galerias (hoje Galeria do Rock) quase todos os dias. Conhecia todas lojas. No primeiro andar existia uma loja chamada Grilo Falante. O dono era um tipo meio ausente que nunca dava muita atenção aos visitantes. Muitas vezes visitei a loja que, era um cubículo, e passei os olhos por tudo sem nem ser notado. Depois de algum tempo uma nova figura passou a fazer ponto na loja. Era um japonês que ficava lá sentado numa cadeira dedilhando seu baixo com uma expressão de "olha como sei tocar" estampada na cara.

Um dia, ele perguntou-me se eu tinha um gravador de rolo. Eu confirmei que tinha uma gravador Akay 4000DS. O japonês então, explicou que ele estava trabalhando num estúdio de gravação e que tinha tirado escondido da gravadora uma fita do Arnaldo Baptista e que desejava fazer uma cópia. Ele veio até minha casa onde fizemos duas cópias. Uma para ele e outra para mim. Pelo número de músicas, ficou claro que deveria haver mais uma fita.

Mais de 20 anos se passaram e, recebi a visita aqui em Londres do Kokinho que foi o baixista nestas gravações. Eu, para surpreendê-lo toquei a fita. A reação do Kokinho foi de puro espanto pois, ele tinha a cópia da fita 1 e eu tinha a cópia da fita 2 que nem ele tinha ouvido.

Algum tempo depois, fiquei sabendo que, até que enfim, o albúm Elo Perdido tinha sido lançado. Quando ouvi o album fiquei chocado em descobrir que, o album continha apenas as gravações da fita 1 e que eu tinha aqui todo este tempo a fita 2. No albúm Elo Perdido existe apenas uma música que não constava nem da fita do Kokinho nem da Minha.

Então, juntei esta única música do albúm Elo Perdido com as músicas da fita 1(do Kokinho) e fita 2(minha) e aqui na rádio coloco com exclusividade absoluta o agora rebatizado albúm Elo Completo (clique aqui).

Despois da sua participação na Patrulha, Arnaldo andou sumido por alguns anos.

Surge então, este personagem. Era um brasileiro que tinha morado no Reino Unido e casado com uma Inglesa, Escocesa ou Irlandesa, não me recordo. Ele tinha retornado para morar no Brasil, conhecido o Arnaldo e apaixonado-se pela sua música. Este aprendiz de produtor de shows, sem experiência nenhuma, resolveu produzir um show com Arnaldo.

Arnaldo podia ser um cara muito louco, mas musicamente sabia o que queria. Ele queira tocar no Tuca e com o melhor equipamento possível, tudo importado. Então, ele fez uma lista dos equipamentos que queria e o produtor seguiu à risca.

Mais por desconhecimento do que qualquer coisa, os custos da produção foram altos e a divulgação do evento muito pobre. Naturalmente, como resultado, a presença do público foi baixa acarretando num grande prejuízo financeiro para o produtor do evento.

Arnaldo e Barbieri no Teatro Augusta

Este show, memorável, um tipo de "unpluged" para os padrões de hoje, com Arnaldo revesando-se entre os teclados e a guitarra, pode ser ouvido, com exclusividade, aqui, na nossa rádio (clique aqui). Neste show eu conheci o produtor do evento e, alguns dias mais tarde tive a oportunidade de visita-lo em sua própria residência onde, ele permitiu-me fazer uma cópia da fita do show a qual, também fiz uma cópia para o Luis Carlos Calanca da loja Baratos Afins e agora torno pública.

Neste encontro também fiquei sabendo das dificuldades financeiras em que o produtor do evento tinha se metido. Se recordo bem, ele tinha emprestado dinheiro de agiotas e, agora estava sofrendo a pressão para fazer o pagamento de volta. Aos olhos dele, a solução era continuar produzindo shows com Arnaldo até recuperar-se do prejuízo.

Um novo show foi marcado. Desta vez era uma temporada de 5 dias no Teatro Augusta. O problema é que este espaço artístico era voltado para peças de teatro não tinha uma história de shows, ficava na Rua Augusta que apesar de ter sido famosa no tempo da Jovem Guarda agora era um reduto de clubes decadentes e pontos de prostituição.

Sem uma divulgação adequada e num lugar inapropriado esta nova série de shows estava destinada ao fracasso. Dito e feito. O primeiro dia não teve show por falta de público e no segundo tinha meia dúzia de gatos pingados. Com um equipamento de som limitado e um público praticamente não existente Arnaldo limitou-se a atender os pedidos da platéia num show fragmentado. Doía ver a situação se deteriorando e eu nem compareci nos outros dias.

Capa do album
Arnaldo 'Loki?' Baptista

Alguns dias depois fui contatado pelo produtor/empresário novamente. Ele estava desesperado pois, tinha acertado um show no clube Paulicéia Desvairada que era uma casa noturna que existia na Avenida Brigadeiro Faria Lima num pequeno shopping center próximo do Shopping Center Iguatemi e não tinha dinheiro nenhum para alugar os instrumentos para o Arnaldo tocar.

Arnaldo e a Patrulha do Espaço

O meu amigo George Romano, na época, tinha uma fábrica de órgãos. Seus maiores clientes eram as igrejas. Seus órgãos não correspondiam exatamente aos legendários "Hammond B3 com caixa Leslie” tão amados pelo Arnaldo mas dava para o gasto numa emergência e, eram grátis. Lá fui eu numa perua Kombi com Arnaldo “loki” nos volantes.

Arnaldo às vezes falava comigo frases inteiras em inglês sem se dar conta e, no trajeto, enquanto dirigia, chegou a virar o corpo para mim que estava no banco de trás passando preciosos segundos falando sem ver para onde esta indo. Na fábrica ele experimentou vários órgãos, escolheu um que transferimos para Kombi e lá fomos nós para o clube.

Arnaldo
Baptista
Oswaldo
"Koquinho"
Gennari
Rolando
Castelo
Junior
Eduardo
"Dudu"
Chermont
de Carvalho

Quando chegamos lá, a casa estava fechada e quando mais tarde alguém abriu, descobriu que a luz tinha sido cortada. Mais espera, e num bate-papo com o funcionário descobrimos que a última atração da casa que se não estou enganado foi o Jorge Mautner tinha sido agredido com uma latada de cerveja vazia vinda de um cliente insatisfeito.

Eu já tinha visitado a casa e sabia que lá pelas altas horas a mistura de álcool com certas drogas deixava o público muito animal (no mau sentido). Eu comecei sentir que a coisa não ia dar certo. O Arnaldo não era do tipo de pessoa que sente o perigo. Ele era e acho que ainda é uma pessoa totalmente desarmada.

 
Arnaldo e Patrulha do Espaço fotografados pelo Barbieri no Ginásio do Palmeiras em São Paulo

Neste clube os artistas apresentavam-se sempre depois das 10 da noite ou até mais tarde. Imagine o cenário. Um palco pobre, sem decoração, com apenas um órgão no centro mais um pedestal de microfone para a voz. O Arnaldo entrou no palco para uma platéia chapada e ignorante que, na verdade nem sabia quem era ele. Arnaldo tocou a primeira música e já no fim dela tinha alguém gritando: “-Toca rock! Põem som de fita!”

Arnaldo sorriu e continuo o show enquanto mais pessoas aderiram ao coro protestando contra a música que ouviam. Eu que já estava imaginando a latada que Arnaldo iria receber, insistia para o produtor entrar no palco e tirar o Arnaldo daquela humilhante tortura. Felizmente uma luz brilhou no cérebro deste homem, ele entrou no palco e rapidamente tirou Arnaldo para os bastidores e dos bastidores para rua. O George Romano e eu ficamos para retirar o órgão do palco.

Não muito tempo depois, fiquei sabendo que Arnaldo tinha chegado ao seu limite e rompido com o empresário que o acusava de ser anti-profissional. Eu não teria ficado surpreso se este produtor não tivesse fechado um show com Arnaldo numa quadra de escola de samba.

Numa conversa que tive com Rolando Castelo Junior o baterista da Patrulha do Espaço, perguntei-lhe como foi que Arnaldo saiu da banda.

Arnaldo Baptista

O Junior, no seu jeitão que só ele pode falar, disse que um dia sem esperar, o Arnaldo apareceu no ensaio todo paranóico e disse: “-Eu estou fora! Vocês fumam muito!” . Se o leitor assistir o filme “O Homem Duplo (Scanner Darkly – 2006) ” que foi baseado no livro de Philip K Dick poderá ter uma idéia do tipo de paranóia causada por LSD. Na minha conversa com o Junior da Patrulha, ele confirmou uma das minhas suspeitas que carregava à muito tempo em relação às drogas principalmente LSD. Se você já tem uma predisposição, “um parafuso torto”, tomar LSD é como empurrar sua mente ladeira abaixo. Como uma bola de neve ela vai crescer até esborrachar lá embaixo. O Junior sensatamente falou: “Tem gente que toma centenas de LSDs e nada acontece e tem gente que toma só um e fica com seqüelas”.

Tendo isto em mente, e considerando-se os problemas artísticos/existenciais que Arnaldo tinha enfrentado recentemente, infelizmente, não foi nenhuma surpresa saber que depois de uma crise nervosa onde Arnaldo ficou violento, ele tinha sido internado num hospital psiquiátrico e de acordo com versões nebulosas, durante uma luta com enfermeiros jogou-se pela janela do terceiro andar do prédio do hospital.

Osvaldo "Koko" Gennari e
John "Dudu" Flavin (ao fundo)

Arnaldo permaneceu mais ou menos três meses em estado de coma na Unidade de Tratamento Intensivo do hospital. As poucas informações que os fãs conseguiam obter eram através do programa de rádio do hoje falecido Carlinhos "Pop" Gouveia que era transmitido pela Radio Gazeta.

O Gouveia juntamente com a Sonia Abreu, uma fã obsessiva, praticamente monopolizaram as informações e Sonia Abreu, num ato de autopromoção, transformou-se na guardiã do Arnaldo.

Finalmente, quando Arnaldo saiu do hospital. O Junior da Patrulha do Espaço teve a idéia de visita-lo. A Patrulha, já a algum tempo estava sem o Arnaldo e tinha tranformado-se num "power" trio formado por Junior, Dudu e Sergio (que substituíra o Koquinho). Júnior decidiu presentear Arnaldo com uma cópia do novo album da Patrulha, recem lançado pela Baratos Afins.

Nesta visita estavam Junior, Luis Calanca da Baratos Afins e eu. O Arnaldo morava num apartamento num edifício residencial de classe média na Avenida Angélica. Quando tocamos a campainha na porta do apartamento quem nos abriu a porta foi uma criança bem nova. Dissemos que tínhamos vindo visitar o Arnaldo e a criança com a maior ingenuidade e inocência nos convidou a entrar. Lá fomos nós, 3 ilustres desconhecidos, invadindo a casa, seguindo aquela criança e ao mesmo tempo anunciando nossa presença em voz alta para não assustar ninguém.

Rolando Castelo Junior e Arnaldo Baptista (nos teclados ao fundo)

Ouvimos um voz de mulher vindo e um quarto e encontramos Arnaldo tentando rapidamente esconder umas bolachas debaixo dos lençois. A mulher , ainda jovem, com paciência, com um sorriso, explicou para nós que devido ao Arnaldo ter ficado muito tempo no estado de coma estava um pouco gordo (eu diria inchado) e que o médico dele tinha recomendado uma dieta. Arnaldo estava escondendo as bolachas porque pensou que era o médico dele que estava chegando. Arnaldo ao nos ver ficou contente e imediatamente quis ir para a sala. Ele estava com o rosto inchado, cabelo muito curto, quase careca, uma cara meia estranha que imediatamente fez-me lembrar o filme “O Estranho no Ninho”.

Arnaldo

Sua mãe Dona Clarisse apareceu e, de uma forma silenciosa pareceu não estar muito contente com a nossa presença.

Fiquei com aquele mal-estar de que de alguma forma nós éramos culpados pela situação em que Arnaldo se encontrava. Bom, quando Arnaldo saiu da cama andava, com muita dificuldade, em pontas de pés e uma de suas mãos parecia não ter recobrado toda a mobilidade. Também tinha sofrido uma amnésia parcial e não se lembrava perfeitamente de certos eventos.

Nós fomos para a sala onde um grande piano de calda tomava quase todo o espaço.

Arnaldo atrás do palco depois do show

Dona Clarisse nos acompanhou e sentou-se de braços usados e expressão austera como uma mãe que vigia a filha quando o namorado chega. O Arnaldo por sua vez repetia sem parar : “-Vocês são lindos!” e quando recebeu o novo LP da Patrulha, olhou a foto da capa e apontou para o Sergio dizendo: “-Puxa, o Koquinho saiu bem nesta foto? Não foi?” e terminou com; “-Vocês são lindos!”. Depois de repetir-se varias vezes confundindo o Sergio com o Koquinho, Arnaldo de repente parou, olhou inquisitivamente Junior e, para espanto e embaraço de todos os presentes perguntou: “-Junior, você ainda fuma muito?

Enquanto Junior com um sorriso sem graça, tendo em vista a presença de Dona Clarisse na sala, se explicava, Arnaldo deu uma olhada de canto para a mãe, curvou-se com dificuldade na direção do Junior e, falou baixinho: “-Me tira daqui! Eu quero dar uma volta de carro!” A Dona Clarisse, obviamente estava preocupada com o filho e, levamos um tempinho para convence-la que seria bom para o Arnaldo dar uma voltinha.

Enquanto o carro andava pela cidade, Arnaldo, no banco de trás, ia grudado no vidro da janela com uma expressão toda feliz como se fosse uma criança no seu primeiro passeio...

Nota 1: Sonia Abreu, logo depois que Arnaldo saiu do hospital, arrastou-o para morar na sua casa. Isto aconteceu num momento em que Arnaldo claramente não estava em condições de tomar decisões por si mesmo e precisava de uma atenção especial. Neste período Arnaldo foi visto com um cigarro aceso em cada mão, foi exposto ao ridículo e humilhado em público mais de uma vez. Foi Sonia a responsável por aquela matéria de mau gosto publicada meses depois na revista Manchete onde mostrava um Arnaldo ainda convalescente com o rosto inchado e uma expressão alterada. Nesta revista Arnaldo foi exposto como se fosse uma curiosidade de circo.

Nota 2: O Luis Calanca da Baratos Afins deve ter arrependido-se profundamente por ter lançado o álbum Singin'Alone porque o número de pessoas que apareceu na sua loja dizendo representar os interesses do Arnaldo e pedindo dinheiro foi absurdo. Foi uma dor de cabeça enorme. Devo deixar claro que minha relação com o Luis nunca foi das mais perfeitas, tive mais que um problema com ele. Nós discutimos muito mas, nunca foi por questão de dinheiro. No Brasil sempre existiu esta vontade das pessoas quererem ser "os pais" das coisas em vez de perceberem que tudo na vida é um processo onde cada um contribui com um pouco. Lá pelo meio dos anos 80 o Luis já produzia discos e eu produzi os shows, das mesmas bandas. Às vezes eu invadi o território dele e às vezes ele invadiu o meu. Era uma guerra de egos onde, apesar de tudo, honestidade nunca faltou. É por esta razão que acredito que ainda exista, depois de todos estes anos, este grande respeito mútuo entre nós. O Luis é sem dúvida, um dos grandes resposáveis por ter mantido a chama musical do Arnaldo acesa sem ter tido o benefício financeiro que merece como recompensa. Well, this is rock'n'roll!

Show "Singin' Alone" - Tuca (1982)
Ouça Arnaldo Baptista em gravações ao vivo feitas no TUCA!
Visite a Rádio 2bStar (leia "Two Be Star") e ouça 16 músicas imperdíveis (clique aqui)
 
Parte do primeiro verso da música The Pusher - STEPPENWOLF
”You know I've smoked a lot of grass

O' Lord, I've popped a lot of pills

But I never touched nothin'
That my spirit could kill

You know, I've seen a lot of people walkin' 'round

With tombstones in their eyes”
“Você sabe que eu fumei muita maconha
Ho! Deus, eu engolí muitas pírulas (Anfetaminas e LSD)
Mas, eu nunca toquei nada que pudesse matar o meu espírito
Você sabe que tem um monte de gente andando por aí
Com lápides de túmulos nos olhos”
Words and music by Hoyt Axton (1968)
(Tradução livre de A.C.Barbieri)
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