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A história do Arnaldo Baptista está intimamente ligada com a da sua banda Mutantes e também com a realidade brasileira do final dos anos 60 e princípio dos 70. Para os brasileiros de minha geração, o começo dos anos 70, no Brasil, foi um tempo cheio de turbulência política, mudanças sociais e culturais. Para mim em particular, foi a época que descobri “sex, drugs and rock’n’roll. Aliás, devo dizer, foi na ordem inversa; rock, drogas e sexo. Foi também a época em que entendí que o mundo estava divido em dois; o mundo capitalista e o mundo comunista. Os países da América do Sul, na sua maioria, viviam ditaduras militares patrocinadas pelos Estados Unidos. Segundo os Americanos, a única forma de conter o avanço comunista era transformar os países do Terceiro Mundo em campos de concentração privando toda a população de qualquer estímulo inteligente. Quanto menos o povo pensar melhor. Era o temp do DOPS com um serviço de inteligência composto por uma mistura de elementos do exercito e polícia civil com poderes ilimitados. Sem ninguém para controlar estes extremistas da direita, muita gente que teve coragem para contestar, morreu torturado nos porões de alguma delegacia. A idéia (exatamente como está acontecendo hoje) era criar um terror generalizado na população para justificar um monte de medidas ditatoriais totalmente contrárias ao bom senso, liberdade de expressão e direitos humanos. Muitos intelectuais, músicos e artistas em geral foram “convidados” a retirarem-se do país. Neste período, o slogan “Ame-o ou Deixe-o” foi usado intensamente pela máquina do estado repressor. |
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Esta foto foi cedida pelo Arnaldo na época e foi usada pelo Barbieri para fazer a estampa da camiseta do show do Tuca. |
Logicamente estes cantores de música de festival estudantil aliaram-se aos Mutantes, chamaram a coisa de Tropicália e pronto. O resto, como dizem, é história. Eles continuaram fazendo a musiquinha deles, agora eletrificada, ficaram famosos, ganharam muito dinheiro e a imprensa comprada como de costume relegou a verdadeira e original força dos Mutantes ao esquecimento. Se os Mutantes são famosos hoje é porque eles nunca foram esquecidos pelos seus fãs e mais recentemente foram redescobertos por artistas internacionais de estatura indiscutível. Naquele tempo, nos Mutantes nós tínhamos a Santíssima Trindade; Arnaldo, Rita lee, e Sergio Dias. O Sergio era e é o gênio da guitarra. Arnaldo e Rita eram a dupla explosiva em termos de composição. Ironia, deboche, jogos com a forma e o conteúdo eram alguns do elementos comuns nas composições. Além disso os Mutantes não tinham nenhum pudor em misturar tudo. Música sertaneja, música clássica, latin, samba, rock. No tempos da ditadura, todas as músicas tinham que passar pela censura militar e, parece que os Mutantes tinham um prazer todo especial em driblar a censura usando uma linguagem que só os “loucos” conheciam. Eu ouvia os álbuns sempre buscando as mensagens nas entrelinhas. O porque a Rita Lee ignora este período da vida dela para mim não tem explicação. Certamente ela carrega uma carga emocional e psicológica muito grande que vai mais além da diferença sexual, incompatibilidade musical ou falta de liberdade criativa. Talvez sua frustração maior seja saber lá no intimo dela que, depois da sua saída dos Mutantes ela ganhou dinheiro mas não respeito como força criadora. |
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Arnaldo no Teatro Bandeirantes (Foto: A.C.Barbieri) |
Para mim, Mutantes com a ajuda do maestro Rogério Duprat foram os Beatles do Brasil. Depois do “Loki?” Arnaldo formou a Patrulha do Espaço fez vários shows e gravou um album chamado Elo Perdido que levou uma eternidade para ser redescoberto e lançado.
Despois da sua participação na Patrulha, Arnaldo andou sumido por alguns anos. Surge então, este personagem. Era um brasileiro que tinha morado no Reino Unido e casado com uma Inglesa, Escocesa ou Irlandesa, não me recordo. Ele tinha retornado para morar no Brasil, conhecido o Arnaldo e apaixonado-se pela sua música. Este aprendiz de produtor de shows, sem experiência nenhuma, resolveu produzir um show com Arnaldo. |
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Arnaldo e Barbieri no Teatro Augusta |
Este show, memorável, um tipo de "unpluged" para os padrões de hoje, com Arnaldo revesando-se entre os teclados e a guitarra, pode ser ouvido, com exclusividade, aqui, na nossa rádio (clique aqui). Neste show eu conheci o produtor do evento e, alguns dias mais tarde tive a oportunidade de visita-lo em sua própria residência onde, ele permitiu-me fazer uma cópia da fita do show a qual, também fiz uma cópia para o Luis Carlos Calanca da loja Baratos Afins e agora torno pública. Neste encontro também fiquei sabendo das dificuldades financeiras em que o produtor do evento tinha se metido. Se recordo bem, ele tinha emprestado dinheiro de agiotas e, agora estava sofrendo a pressão para fazer o pagamento de volta. Aos olhos dele, a solução era continuar produzindo shows com Arnaldo até recuperar-se do prejuízo. |
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Capa do album Arnaldo 'Loki?' Baptista |
Alguns dias depois fui contatado pelo produtor/empresário novamente. Ele estava desesperado pois, tinha acertado um show no clube Paulicéia Desvairada que era uma casa noturna que existia na Avenida Brigadeiro Faria Lima num pequeno shopping center próximo do Shopping Center Iguatemi e não tinha dinheiro nenhum para alugar os instrumentos para o Arnaldo tocar. |
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Arnaldo
Baptista |
Oswaldo
"Koquinho" Gennari |
Rolando Castelo Junior |
Eduardo "Dudu" Chermont de Carvalho |
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Quando chegamos lá, a casa estava fechada e quando mais tarde alguém abriu, descobriu que a luz tinha sido cortada. Mais espera, e num bate-papo com o funcionário descobrimos que a última atração da casa que se não estou enganado foi o Jorge Mautner tinha sido agredido com uma latada de cerveja vazia vinda de um cliente insatisfeito. Eu já tinha visitado a casa e sabia que lá pelas altas horas a mistura de álcool com certas drogas deixava o público muito animal (no mau sentido). Eu comecei sentir que a coisa não ia dar certo. O Arnaldo não era do tipo de pessoa que sente o perigo. Ele era e acho que ainda é uma pessoa totalmente desarmada. |
Arnaldo e Patrulha do Espaço fotografados pelo Barbieri no Ginásio do Palmeiras em São Paulo |
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Arnaldo Baptista |
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Osvaldo "Koko" Gennari e John "Dudu" Flavin (ao fundo) |
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Rolando Castelo Junior e Arnaldo Baptista (nos teclados ao fundo) |
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Arnaldo |
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Arnaldo atrás do palco depois do show |
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